Lágrimas Abençoadas
Capítulo XXIII
O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo. Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:
--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo, responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...
--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.a que os apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.
XXIII
As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.
Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda compaixão: