Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 69 de 89

Páginas do PDF

Lágrimas Abençoadas

Capítulo XXVI

Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.

--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei então saber qual ella foi.

--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.

--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco... Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte, perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.

 

XXVI

Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.

Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.

Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou tambem.

--Vamos, filha--disse elle por fim.

--Já?! de noite?--reflectiu ella.

--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com a nossa familia.

--Pois está tudo arranjado?

--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da sr. a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos embora.

Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe bebiam as lagrimas da face.

O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.