Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 83 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XIV

Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.

O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:

--Estou punido, meu Deus!

 

XIV

Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:

--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.

Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.

--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as nossas ultimas migalhas de pão.