Lágrimas Abençoadas
Capítulo XVIII
--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?
--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.
--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?
--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.
--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...
--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.
--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um creado antigo da sua casa, doente?
--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença estava eu para pedir-lh'a...
--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais breve que possa ser.
XVIII
No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o merceeiro Joaquim Nunes.
As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de humilhar-se para rehavê'-los.--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr. a D. Maria e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?