Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 87 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XVIII

--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?

--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.

--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?

--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.

--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...

--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.

--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um creado antigo da sua casa, doente?

--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença estava eu para pedir-lh'a...

--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais breve que possa ser.

 

XVIII

No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o merceeiro Joaquim Nunes.

As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de humilhar-se para rehavê'-los.--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr. a D. Maria e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?