Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 50 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo V

--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.

--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto, entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de um modo que v. ex. a de certo não esperava receber um hospede que vive na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.

--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.a frequentou. Minha filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as aprendesse e v. ex. a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas da côrte é talvez v. ex.a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.a as idéas a respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam fazedores de espirito. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a economia de palavras com que v. ex. a abriu as relações com esta familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o receber.

 

V

Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os corações para o rosto incendiado da formosa menina.

O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos ultimos mezes da sua existencia.

Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade de uma senhora.