Lágrimas Abençoadas
Capítulo V
Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a honra, levando-o pela vereda da religião.
V
Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este homem?
Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem religiosa?
Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.