Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 86 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XVII

«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na esperança de uma vida melhor.

«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo, creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha rehabilitação.»

Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de felicidade inexprimivel.

 

XVII

N'um dia de 1839[NT], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.

--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta o sr. Alvaro?--Melhor do que as minhas ambições.