Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XIX

Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade; e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...

 

XIX

«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: morram os frades! abaixo os ladrões!

«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...

«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda? perguntou Maria.