Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 61 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XVIII

Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra. Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que converte a piedade em estima.

A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer ao seu procedimento.

A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam lançar á sua liberdade.

O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.

Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a respeito da felicidade que o marido lhe dava.

Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.