O Canto da Sereia
Capítulo 10 Thales Boldrini
Capítulo 10
Thales Boldrini
A noite passada apesar de ter sido muito ruim e ter Jean me incomodando de hora em hora verificar a minha temperatura ainda sim foi melhor do que as noites anteriores em que passei delirando. Quando acordei o quarto estava claro e senti o cheiro forte e delicioso de café.
— Jean. — Chamei e não obtive resposta.
Eu estava todo suado, a febre devia estar cedendo novamente então fui para o chuveiro. Sentir o jato de água fresca no corpo era libertador, apesar da dor no corpo. A lembrança da minha vizinha em meu quarto vestida de Betty Boop não sumia da minha cabeça, é claro que eu estava delirando, nem em um milhão de anos isso aconteceria, mas um homem pode sonhar não é?! Passei as mãos pela barba, fechei os olhos e me repreendi mentalmente por isso.
Quando sai do chuveiro me olhei no espelho. Nossa! Que cara feia, eu estava acabado. Coloquei um elástico no cabelo, enrolei a toalha branca na cintura e saí para meu quarto. Antes que eu pudesse chegar ao guarda roupas ouvi uma batida na porta, qual é a do Jean? Invadiu meu quarto a noite toda e agora que amanheceu quer pedir licença para entrar.
— Entra. — Eu permiti.
— Ai meu Deus!
Não era Jean que estava na porta. Me virei bruscamente para a porta para encontrar os olhos arregalados de Valentina. Era ela que havia batido na porta e agora enrubrescia.
— Me desculpe! — Pediu ela se virando de costas.
— Tudo bem. — Eu disse e ri. — Não é como se me visse totalmente sem roupa.
— Ai que vergonha! Eu só vim te trazer café, Jean já foi, ele precisava arrumar as coisas para a viagem que ele tem que fazer hoje. — Ela se explicou e eu a achei adorável, ela realmente tinha ficado envergonhada e sem jeito só por ver um homem de toalha. Eu já terminava de colocar um shorts.
— Tudo bem pode olhar agora, já estou vestido. — Eu disse e ela se virou lentamente em minha direção.
Ela me olhou com os olhos semicerrados como se para conferir se eu estava mesmo vestido, então caminhou em minha direção mas passou direto, seguindo até o criado mudo ao lado da minha cama depositando ali uma bandeja e então percebi que ela não segurava somente isso..
— Vou trocar os lençóis antes de você se deitar novamente, tinha alguns em sua lavanderia então eu os trouxe.
— Eu posso fazer isso. — Eu me ofereci mesmo sabendo que não aguentaria ficar em pé por muito mais tempo por conta da dor forte por todo o corpo.
— Imagine, estou aqui para te ajudar, esse foi o combinado! — Ela disse irredutível. — Sente-se na poltrona e coma enquanto faço o que precisa ser feito aqui.
Então como eu não estava aguentando direito nem com o peso do meu corpo eu fiz o que ela pediu. E foi bom forrar o estômago para variar. Ela havia caprichado trazendo café, leite, suco de laranja, algo que parecia com um mingau, pão e uma fruta.
— Não beba o suco de laranja ainda, coma bastante e por último você usa o suco para tomar com os remédios. — Ela instruiu mas eu já havia tomado todo o copo de líquido amarelo claro em um só gole.
— Tarde demais, desculpe! — Eu disse e ela me olhou, um sorriso tímido tomou conta de seus lábios.
— Tudo bem depois que eu terminar aqui vou até a cozinha pegar mais. — Ela disse e eu sorri de volta.
— Obrigado.
Enquanto comia eu a observava retirar o lenço, edredom e fronhas para levar para a lavanderia. Reparando bem a sua barriga de gestante que estava mesmo lá, muito tímida para se revelar abertamente como a barriga que carrega um filho, mas dava para notar.
Valentina parecia ser uma boa moça, não sei o que ela pode ter feito de tão grave para aquele babaca ter deixado ela, ainda mais nessas condições, com um filho DELE na barriga. Eu seria incapaz de abandonar uma mulher grávida de um filho meu, ainda mais uma mulher como ela, doce, muito doce, ainda que eu não quisesse algo como um casamento, se uma mulher ficasse grávida de um filho meu eu daria todo o apoio, estaria sempre por perto, ajudando no que eu pudesse.
No dia em que ela passou mal aqui em casa, eu vi como ela realmente estava, frágil, desamparada e sozinha, parecia saber bem como lidar com aquele tipo de situação mas ainda sim era frágil.
Outra coisa que ela é com certeza, é desastrada. Completamente desastrada e sem jeito para algumas coisas, mas isso a deixava mais adorável ainda além de me divertir pra caramba. Eu ia levando uma colherada de mingau à boca mas parei com a colher no meio do caminho observando a cena ridícula que se desenrolava no meu quarto, diante dos meus olhos.
Eu costumava dizer que adorava ter uma mulher se enroscando em meus lençóis, mas a partir de agora eu não poderia dar o mesmo sentido a essa frase.
Valentina tentava inutilmente esticar no meu colchão o lençol com elástico, mas a luta estava sendo vencida pelo lençol. Ela enroscava uma das pontas do tecido com elástico em um dos cantos do colchão, então enroscava a segunda e a terceira ponta, quando ela puxava a quarta ponta, as outras se soltavam e ela começava a se irritar.
Eu ia ajudá-la mas estava divertido demais, até que ela resolveu subir na cama e segurar os outros lados com os pés e uma das mãos, então ela fez um esforço absurdo para tentar alcançá-los, o que obviamente não aconteceu, mas aparentemente ela pensava que havia conseguido. Ela cuidadosamente puxou a última ponta do lençol e foi encaixando no lugar certo.
— Isso! — Comemorou ela cedo demais.
O lençol se soltou antes que ela saísse de cima da cama e se enrolou nela, deixando-a toda enroscada no lençol de minha cama. Eu não aguentei, ri alto. Levantei na maior calma apreciando ela ainda tentando se livrar do tecido, me aproximei e tirei o lençol de cima da minha vizinha trapalhada.
Ela bufou e afastou o cabelo do rosto e ergueu a cabeça dizendo.
— Nossa, obrigado!
Agora grandes olhos me encaravam, bem de
perto, o ar pareceu pesar ao nosso redor, ela ergueu um pouco mais o queixo e seus lábios se entreabriram. Eu não conseguia pensar em nada a não ser em beijar aquela boca que praticamente implorava em silêncio para ser beijada até que eu não aguentasse mais. A necessidade de beijá-la me tomou por completo mas antes que eu pudesse concretizar meus pensamentos ela franziu a testa.
— Você está meio verde, está se sentindo
mal? — Ela perguntou e eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Na verdade não, estou com dor, pode
pegar os remédios por favor?
— Claro! — Ela disse e saiu pela porta. Eu arrumei o lençol na cama e me sentei,
frustrado, o que tem de errado comigo? Não posso ter esse tipo de pensamento por ela! Valentina está aqui sendo gentil e prestativa e eu pensando bobagens. Preciso me comportar de maneira correta com ela, além de que está na cara que ela não quer nada comigo, eu estava naquele climão todo e ela pensando no quanto eu estava verde, nem sequer notou o que estava rolando. Ela retornou com os remédios.
— Aqui estão! Eu trouxe também um copo com mais suco de laranja. — Ela disse me entregando tudo. — Fique deitado, você precisa descansar para melhorar logo.
— Tudo bem mamãe! — Eu disse e ao mesmo tempo me arrependi, lembrando do delírio que tive, aquele em que ela se transformava no Baby, rapidamente dirigi meu olhar para seu rosto que permanecia humano, delicado e lindo com um sorriso.
— Bom que posso treinar com você para quando for a vez do meu filho ficar dodói. Agora preciso cuidar de algumas coisas mas logo eu retorno para verificar como você está. — Ela falou colocando a mão em minha testa exatamente como minha mãe fazia quando eu era pequeno e então se dirigiu a porta do meu quarto, mas antes que ela a alcançasse eu a chamei.
— Valentina!
— Sim? — Ela virou o corpo em minha direção.
— Obrigado por tudo e me desculpe se fui inconveniente com minhas alucinações, a culpa foi da febre, sabe a gente não controla esse tipo de coisa.
— Tudo bem, não se preocupe com isso eu
sei como é. E não precisa me agradecer, não me custa dar uma mãozinha.
— Legal!
Então ela saiu do quarto e em poucos minutos pude ouvi-la cantando em seu apartamento. Eu adorava quando ela cantava, era tão lindo, as letras pareciam fazer sentido.