O Canto da Sereia
Capítulo 5 Valentina Lemes
Capítulo 5
Valentina Lemes
Era segunda-feira a noite, eu tinha acabado de tomar um banho e estava muito cansada. Susan havia me convidado para jantar em sua casa e eu não queria fazer desfeita já que ela tem me ajudado muito, mas eu estava exausta. Eu sabia que não deveria estar trabalhando tanto assim mas era preciso, ainda mais nesse momento, eu realmente preciso desse dinheiro! Eu estava decidindo se ia ou não a casa de Susan quando ela bateu na minha porta.
— Está pronta? — Perguntou ela com um enorme sorriso no rosto. Isso era uma das coisas que eu gostava em Susan, seu humor era sempre muito bom.
— Na verdade sim, mas tenho que confessar que estou pensando em ficar aqui mesmo e ir direto para a cama.
— Até parece! Vamos já lá para casa, a lasanha já está montada agora é só colocar no forno e rapidinho estará pronta. — Disse ela me puxando do meu apartamento para o dela.
— Nossa, lasanha em plena segundona hein!
— Ah querida você precisa de sustância nesse corpinho ai! Sabe que se continuar trabalhando assim e não se alimentar direito você terá problemas né? Você tem descansado ao menos um pouco?
— Não se preocupe, estou seguindo a alimentação que a Dr. Andrea me passou e tenho parado de hora em hora para descansar uns minutinhos.
— Ótimo! — Satisfeita disse ela sentando no sofá. Eu afundei ao lado dela. — Assim que os meninos chegarem coloco a lasanha no forno.
— Meninos? — Perguntei levantando uma sobrancelha.
— Thales e Jean. — Esclareceu sorrindo.
— Ah certo! Os vizinhos do 701.
— Na verdade Thales mora no 701. Jean mora do 602 no andar de baixo. — Disse sem dar muita importância.
— A sim, pensei que moravam os dois no 701.
— Por que pensou isso? — Susan perguntou olhando confusa para mim.
— Ah você sabe! Como são um casal achei que já moravam juntos. — Eu expliquei.
Susan cobriu a boca com a mão na tentativa de esconder um sorriso.
— Ah meu Deus! Eles não gostam que falem sobre isso não é? Desculpe! — Eu me apressei em dizer.
— Tina não se preocupe, eles não se importam, acredite em mim, eles são bem resolvidos. Só aja naturalmente, pode até dar alguns indícios de que você não se importa com a opção deles, mas Jean é muito preocupado com o que podem pensar dele, acredite ele pode até tentar dar em cima de você para disfarçar. Então se em algum momento, e provavelmente surgirá um momento, você tiver oportunidade de deixar explícito para ele que não se importa, ele com certeza apreciará. - Ela disse tudo de uma vez.
Um homem bateu na porta de Susan e em seguida entrou, como se estivesse em casa. Um homem não, aquele homem, o que estava praticamente pendurado em minha sacada. Ele não estava sozinho. Outro cara vinha logo atrás dele, este com cabelos mais ralos e loiros e olhos verdes que estavam cravados em Susan.
— Até que enfim chegaram! — Disse Susan levantando do sofá.
— Fomos atrás da cerveja, temos companhia feminina hoje? — Disse o primeiro homem e desviou seu olhar de Susan para mim com um sorriso no rosto, que aos poucos foi se tornando tenso, talvez constrangido.
— Como assim? Você sempre tem minha companhia. Eu sou mulher também sabe? — Disse Susan indignada e Jean fez uma falsa expressão confusa.
— Susana você não chega nem perto de ter um pouco de feminilidade, então não conta. — Jean implicou com ela.
— Bom você certamente é mais afeminado que eu. — Susan respondeu com um sorriso malicioso e Jean fechou a cara, provavelmente irritado por ela insinuar sua opção sexual perto de uma estranha.
— SUSANA hein! — Eu repeti seu nome verdadeiro com ar zombeteiro e foi a vez de Susan fechar a cara mas ignorou a provocação.
— Rapazes essa é Valentina, nossa vizinha do 702. — Ela me apresentou e eu me levantei. — Tina esses são Thales e Jean. — Apertei a mão deles, o primeiro foi um pouco hesitante mas educado. O segundo, Jean, pegou minha mão e a beijou todo galanteador.
— O prazer é todo meu Valentina! — Disse ele com um sorriso que chegava aos olhos, Susan revirou os olhos e seguiu para a cozinha.
Afundei no sofá de Susan novamente enquanto Jean ligava a televisão no canal de esportes e Thales seguiu minha amiga até a cozinha.
— Está gostando de morar aqui Valentina? — Inquiriu Jean.
— Ah sim! Aqui é bem tranquilo. — Respondi.
— A garota mal chegou e você já está dando em cima dela Jean? — Susan retornou em seguida para a sala com Thales logo atrás.
— Ele não estava dando em cima de mim Susan, estávamos somente conversando.
Apesar de eu usar o nome de Susan quando disse isso, eu olhava diretamente para Thales. Não queria que ele pensasse que poderia haver algo entre seu companheiro e eu. Se ele já estava me olhando esquisito quando chegou, imagina como me olharia se sentisse ciúmes.
Thales pegou o controle remoto da mão de Jean e se sentou em uma poltrona apoiando os pés na mesinha de centro, deixando a televisão em um canal de combate.
Droga! Ontem foi domingo isso quer dizer que Phillip havia lutado e eu não podia deixar de pensar que ele provavelmente estaria com alguns hematomas apesar de certamente ter vencido a luta. Eu adorava assistir as lutas mas não tinha assistido nenhuma depois que ele me deixou. Meus pensamentos foram interrompidos por Jean.
— Valentina aqui temos uma regra: todos assistem as reprises de luta as segunda-feiras, já que no domingo a noite Susan e Thales trabalham e, então, deixo para assistir junto com eles. Você gosta de um pouco de pancadaria ou é daquelas moças que acham que lutas não são esporte?
— A tudo bem, eu gosto sim. Na verdade estou bem familiarizada com os combates. — Eu disse tentando ser simpática e Thales emitiu um estalo com língua em sinal de descrença, o qual ignorei.
— Legal! — Disse Jean e Thales resmungou algo ininteligível que me deixou irritada, qual é o problema desse cara? Ciúmes do parceiro?
— Tina é ex namorada de Phillip Caleb. — Susan falou percebendo certa tensão e Jean abriu a boca em surpresa.
— Aposto que é? — Thales disse sem tirar os olhos da televisão.
— O que quer dizer com isso? — Perguntei.
— Thales. — Susan disse em tom de advertência.
— Eu disse que aposto que você é EX do cara.
— Ele falou dessa vez olhando para mim e dando ênfase na palavra “ex”.
— Desculpe mas acho que não estou entendendo o que você quer dizer. — Eu disse.
Ele sorriu de lado e me ignorando se voltou para a televisão. Phillip entrava no octógono, rapidamente tudo foi ajeitado, os oponentes se cumprimentaram, bem o adversário de Phillip o cumprimentou e ele somente cerrou os olhos em direção ao homem a sua frente. O combate foi autorizado e o adversário de Phillip se adiantou acertando lhe um soco no rosto, Phillip se defendeu e escapou da investida rapidamente desferindo uma série de socos, seu adversário fechou bem a guarda sobre a cabeça abrindo assim a guarda na região do tórax, Phillip aproveitou a oportunidade para um chute frontal, um lateral e joelhadas deixando o outro homem no chão. Meu ex subiu no oponente e voltou a desferir socos em seu rosto. Em menos de 2 minutos o árbitro deu a luta por finalizada, meu ex havia nocauteado rapidamente seu adversário.
Pois é eu sei ele parece um animal quando está no octógono.
— Sério? Esse cara? — Jean perguntou para mim com tom de incredulidade.
— Pois é! — Eu disse sorrindo.
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— Mulher esse cara não é moleza! O que fez uma florzinha tão delicada como você dar mole para um maluco como esse? — Jean brincou comigo.
— Com certeza a maluca é ela! — Thales murmurou baixo mas ainda sim consegui ouvi-lo perfeitamente.
Susan levantou-se e disse antes que eu pudesse respondê-lo:
— A lasanha deve estar pronta! Vamos comer aqui na sala para não perdermos o restante das lutas. Tina pode me ajudar com os pratos por favor?
— Claro. — Respondi olhando para Thales.
Jean sorria achando tudo muito engraçado.
Na cozinha Susan se desculpou pelo comportamento do amigo enquanto juntava os prato e talheres e eu tirava a lasanha do forno, o cheiro estava maravilhoso, inebriante e meu estômago roncou alto, rimos.
— Não sei o que está acontecendo com Thales, no geral ele é sempre muito cordial mas anda meio fora do comum.
— Tudo bem Susan, deve ser só ciúmes.
— Ciúmes? — Questionou ela.
— Sim, do Jean, ele é muito simpático e falante. Como não nos conhecemos, Thales pode ficar incerto com a situação, afinal é normal sentir ciúmes dos parceiros não é?!
— Ah claro! Você devia dizer a ele que não tem interesse nenhum no Jean e que respeita o relacionamento deles! — Ela disse em tom sério mas eu podia ver que se divertia.
Na sala, no intervalo entre a luta de Phillip e a próxima, Susan cortava a deliciosa massa em camadas que fora alternada com outras de presunto, queijo, bolonhesa com um vermelho e fumegante molho. Ao colocar um pedaço em um prato e me passar eu o repassei para Jean, e em seguida outro para Thales.
Eu já segura um terceiro prato, só esperando que ela servisse outro pedaço quando percebi que Thales, ao contrário de Jean que devorava a comida sem respirar, estava parado olhando fixamente para o prato como se tentasse descobrir um enigma. Ao perceber meu olhar ele perguntou:
— O que você colocou aqui?
— Eu? — Perguntei confusa.
— Sim!
— Eu não coloquei nada, o mérito é todo de Susan, quando cheguei essa delícia já estava pronta para ir ao forno. — Eu disse sorrindo tentando apaziguar o clima ruim que tinha ficado antes de eu sair sala.
— Jura que não vou sofrer nenhuma consequência sobrenatural se eu comer isso?
— Thales! — Susan e Jean disseram em uníssono e eu olhei atônita para ele.
— Do que você está falando? Não estou entendendo novamente! — Falei tentando me controlar.
— Na boa, eu sei o que você é, não precisa esconder, só não faça essas suas bruxarias conosco. Se você quer fazer seus vudus fique a vontade mas não nos envolva nisso. — Disse ele seriamente olhando para meu rosto e eu deixei o prato cair, tamanho foi o choque que senti com esse diálogo absurdo e idiota.
— Está me chamando de bruxa?
— Achei que isso estava óbvio. Pelo jeito não precisamos nos preocupar, ao menos não a curto prazo, você é uma bruxa bem lenta.
— Isso é alguma brincadeira do tipo “vamos zoar a nova vizinha” ou é só um ataque de ciúmes?
— Ciúmes? — Agora ele é quem parecia confuso, mas não deixava de beber sua cerveja.
Susan havia desistido de repreender Thales e parecia se divertir muito, Jean parecia engasgado.
— Sim, ciúmes! Olha isso é normal ok?! — Apertei meus olhos, precisava me acalmar e me colocar no lugar dele. — Sei do seu
relacionamento amoroso com Jean e não tenho preconceito. — Thales cuspiu cerveja para todos os lados e Jean tossia com comida na boca fazendo a maior sujeira. Susan explodiu em uma gargalhada. — Não acha que me taxar como bruxa é meio que infantilidade da sua parte? Jean é muito simpático mas de minha parte você não tem com o que se preocupar e creio que da parte também não!
Os dois rapazes pareciam atônitos. Jean se pronunciou primeiro:
— Você acha que somos gays? Por que acha isso?
Entendendo o que se passava eu olhei para Susan que chorava de rir rolando pelo chão da sala, então voltei meu olhar para Jean e não era preciso mais explicações
— Claro, tinha que ser! — Disse ele.
Thales calmamente depositou a lata de cerveja na mesa de centro e se levantou caminhando em minha direção, embora seus passos fossem calmos eram também decididos. Eu dei alguns passos para trás querendo dar-lhe espaço para que passasse por mim, e quando encostei minhas costas na parede, ele me alcançou e não passou direto.
Suas mãos se apoiaram na parede atrás de mim, uma de cada lado de minha cabeça, e se inclinou em minha direção. Seu rosto estava tão próximo do meu que eu sentia seu hálito de cerveja misturado a seu perfume amadeirado. Meu coração parecia querer sair pela boca. Ai minha nossa! Assim de perto ele é ainda mais bonito, a barba cheia, o cabelo em um coque tipo samurai não devia ser longo e os olhos castanhos estavam olhando diretamente para os meus quando ele disse com a voz grave:
— Você acha que não gosto de mulher? — Meus lábios se moveram involuntariamente como se quisessem responder mas nenhum som saiu. Ele abriu um pequeno e debochado sorriso de lado. — Deixa eu explicar direitinho para que você possa entender. Eu gosto de mulher, gosto muito, posso não gostar de você mas com certeza gosto de mulher. Você nem imagina o quanto.
Eu senti uma gota de suor descer pela minha coluna, eu estava nervosa com toda essa proximidade, o efeito que a voz dele causa em meu corpo, e eu tinha um problema quando ficava nervosa, eu involuntariamente ria igual a uma idiota e neste momento eu sentia o riso chegando, tentei segurar, me encolhi sob seu olhar arrogante e engoli em seco, então sem conseguir me controlar eu ri.
Ri, mas meu coração batia furiosamente em meu peito.