O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 8 de 28

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O Canto da Sereia

Capítulo 8 Thales Boldrini

Capítulo 8

 

Thales Boldrini

 

O sorriso que ela me deu ao provar a comida me deixou muito orgulhoso de mim mesmo. Por mais que eu fosse um chef, cozinhar sem ser pelo trabalho, para uma mulher que está em minha casa e conseguir agradá-la é sempre bom!

Mas de repente tudo foi por água abaixo, seu sorriso se transformou em uma careta estranha, ela arregalou os olhos, tapou a boca e correu em direção ao banheiro. Claro que ela sabia onde era o banheiro, nossos apartamentos eram idênticos.

Eu não sabia se ia atrás dela para ajudá-la ou se ela ficaria constrangida, mas optei por ao menos seguir até lá e ver se estava tudo bem.

Apenas uma fresta da porta estava aberta e eu podia ouvi-la, quando abri um pouco mais a vi vomitando no vaso, com uma mão ela se apoiava e com a outra tentava, inutilmente, segurar os cabelos. Me aproximei e gentilmente peguei seus cabelos juntando-os para o topo de sua cabeça.

Quando sentiu minhas mãos, ela me olhou confusa mas antes que pudesse dizer qualquer coisa outra ânsia a atingiu, eu afaguei suas costas com a outra mão e disse:

— Está tudo bem! Já vai acabar.

Quando ela terminou disse que precisava ir para casa, eu sabia que ela não iria voltar, ela tinha ficado envergonhada mas insisti para que ela ficasse, afinal isso era normal em gestações, e para mim não havia tido problema nenhum, além de minha comida ter contribuído para isso é claro. Porém ela disse que precisava escovar os dentes, então a deixei ir.

Ela mal tocara no jantar quando passou mal, eu queria fazer algo para ela comer mas não sabia o que fazer, já que qualquer coisa poderia fazê-la passar mal novamente. Então liguei o notebook e pesquisei sobre o assunto, li muita coisa que ela precisaria e a ajudaria, mas por hora fiz somente um sanduíche de pasta de grão de bico com azeite de oliva, rúcula, cenoura e tomate em fatias de pão integral. Bati também um suco de laranja, acerola e água de coco, que o site dizia ser refrescante e ajudava com os enjoos. Quando desliguei o liquidificador eu a ouvi cantar na sacada, então era por ali mesmo que eu a abordaria.

Coloquei os dois sanduíches e os copos de suco em uma bandeja e me encaminhei para a sacada do meu apartamento. Apoiei a bandeja na mesinha que ficava ali e a ouvi cantar por um minuto antes de me inclinar em direção a sacada dela. Ela imediatamente me viu, já que não estava tão concentrada em sua música.

— Estou te induzindo ao suicídio novamente? — Ela provocou e eu sorri.

— Hoje não! Estou usando tampões de ouvido. — Eu brinquei e ela sorriu de volta. — Mas... — eu disse estendendo-lhe o prato com o sanduíche e o copo de suco. — eu trouxe o jantar, nada que vá te fazer vomitar outra vez, eu prometo! — Ela ergueu as sobrancelhas. — Eu pesquisei e o site disse que era completamente seguro.

— Você pesquisou? — Ela perguntou aceitando o prato e o copo.

— Sim! Palavra de escoteiro. — Eu afirmei fazendo o sinal característico dos escoteiros.

— Você foi mesmo escoteiro?

— Não! — Lancei a ela um sorriso culpado e ela riu de verdade. O som foi lindo. — Mas eu realmente pesquisei, é um sanduíche com pasta de grão de bico, rúcula, tomate e cenoura temperados com azeite de oliva, tudo fresquinho. E o suco é de laranja, acerola e água de coco geladinha. Leve e refrescante!

— Nossa, impressionante! — Ela mordeu o sanduíche. — Está delicioso! - Eu sorri de lado. — De verdade mesmo, deveria experimentar.

— Claro que vou experimentar. — Peguei meu sanduíche e meu suco e mostrei à ela.

— Você tem um prato com um delicioso frango xadrez em sua mesa e vai comer sanduíche?

— Nós íamos jantar juntos, os planos não mudaram e se eu trouxer o aquele prato para cá você provavelmente ficará enjoada novamente, então vamos comer sanduíche. Aliás você disse que está delicioso!

Ela concordou e comemos em silêncio, debruçados levemente sobre a grade da sacada, o que nos permitia ver um ao outro apesar da parede que nos separava.

— Então, de quantos meses você está? — Perguntei.

— Estou na décima semana.

— Semana? O que isso quer dizer?

— Quer dizer que estou gravida de 10 semanas, o que mais eu poderia querer dizer com isso? — Ela articulou, mas de maneira leve.

— Não sei, as mulheres não ficam grávidas por nove meses?

— A contagem é feita por semanas agora Thales, porque a gestação na verdade não dura exatamente 9 meses, são 40 semanas, isso varia de mulher para mulher é claro. — Ela me explicou pacientemente.

— Aoh! Isso quer dizer que falta muito tempo ainda até você ter o bebê, por isso sua barriga ainda está pequena. — Eu disse e ela riu.

— Isso é óbvio! Mas as roupas largas disfarçam a barriga, já está bem saliente! — Afirmou.

— Desculpe a minha falta de jeito com isso, não estou acostumado. Na verdade eu nem tinha notado a sua pequena barriga até realmente saber que você estava grávida. — Eu pronunciei e ela sorriu novamente, eu sorri imediatamente em resposta.

Bruxa! Ou seria uma feiticeira? Agora ela me encantava com esses sorrisos. Ela era realmente linda, de uma beleza refinada, era doce e de sorrisos fáceis. Quando me dei conta ela estava me observando de maneira curiosa, eu levantei as sobrancelhas em uma indagação silenciosa.

— Eu juro que não cantei! — Ela riu abertamente. — Mas você parecia distante, mas isso é culpa só sua! Me de seu prato e o copo também.

— Para quê? — Perguntei confuso e sem jeito pelo momento de bobeira que dei.

— Ora, para lavar é claro. Você fez o jantar, alias duas vezes, lavar os pratos é o mínimo que eu posso fazer.

— Não precisa!

— Hora não comece com bobagens vamos lá, me dê o prato.

— Ok. — Eu cedi.

Ela pegou o prato e ao pegar o copo eu toquei rapidamente a pele macia de seus dedos, olhei em seus olhos e tive vontade de tocar o rosto dela, lhe fazer um carinho. Então me repreendi mentalmente por esse pensamento.

— Eu preciso entrar, mas qualquer coisa me chama, estou a disposição.

— Tudo bem, obrigado e boa noite!

— Boa noite!

Ela se virou e entrou em seu apartamento e eu no meu. Claro que comi todo o frango xadrez, sanduíche não sustenta. Naquela noite ela cantou Girls Like You do Maroon 5, e quando terminou ela deu os dois toques na parede primeiro e eu os retornei.

 

Há dois dias ouço a Valentina cantar, ela parece contente de alguma forma, isso é bom! Já eu não posso dizer o mesmo, não estou me sentindo bem e sinto muito frio, devo estar com febre, tenho passado dia e noite na cama, a minha visão está turva.

Minha boca está seca, sinto frio e me assusto quando vejo Valentina em meu quarto, ela sorri e diz que está tudo bem, caminha lentamente em minha direção, senta-se ao meu lado e afaga meus cabelos, praticamente não sinto seu toque mas a vejo nitidamente.

— Adoro seus cabelos Thales, é tão sexy!

Eu quase não me aguento mas ainda sim tento tocá-la, então apago.

 

Acordo novamente e parece ter escurecido, meu celular está tocando, posso ouvi-lo ao longe e não consigo identificar onde está. Tento me levantar, mas estou fraco, é claro além da febre e dores por todo o corpo não consegui comer nada, nem ao menos levantar dessa cama.

Tento focalizar melhor minha visão, tudo está muito turvo, mas enfim consigo identificar a alta claridade da tela do celular caído perto das minhas calças que estão no chão. Então vejo nitidamente a Valentina sair da tela e se materializar. BRUXA!

Ela venceu o espaço entre nós, então eu reparei em como ela estava vestida, sexy! Um vestido vermelho curtíssimo e uma estreita faixa da mesma cor em sua perna, cara que doideira! Ela havia se fantasiado de Betty Boop para mim. Mas que bruxaria ela fez para passar pela tela do celular? Era só ela ter batido na porta.

Valentina se abaixou com um dedo na boca que estava pintada de um vermelho berrante, ela sorriu e se aproximou mais do meu rosto. Seus lábios estavam tão perto! Eu podia avançar e tocar os lindos lábios de Valentina, sentir a maciez deles, então fiz um pequeno esforço para me erguer mais, ela sorriu abertamente e tudo ficou escuro. BRUXA!

 

Acordei novamente, dessa vez eu sentia cheiro de sopa. Então me sentei na cama com muita dificuldade, eu sentia meu rosto pegando fogo, embora tremesse de frio. A porta do quarto se abriu e ela colocou a cabeça para dentro:

— Ah você acordou!

Ela tinha uma tigela fumegante nas mãos e vestia uma roupa simples, o vestido sexy havia sumido. Um avental com babados cor de rosa muito claro se prendia em sua cintura, ela se sentou ao meu lado e me ofereceu uma colherada da sopa cheirosa, a qual eu neguei.

— Então acho que terei que te persuadir. — Ela subiu no meu colo. — Você precisa se alimentar ou não vai melhorar, a sopa tem várias vitaminas que vão te deixar mais forte. Vamos lá, seja um menino bonzinho e coma tudo!

— Você parece a minha mãe falando. — Eu afirmei e ri abaixando a cabeça e fechando os olhos, minha cabeça parecia pesar uma tonelada.

Ouvi algo como um rosnado e abri os olhos. Valentina seguravam a tigela fumegante entre nossos corpos , foi quando reparei em suas mãos, uma estava na tigela e a outra segurava a sua grossa cauda

Espera, ela tinha uma calda? Tipo um rabo mesmo?

— Não é a mamãe! Não é a mamãe!

Ela repetia e sua voz foi ficando estranha, de supetão ergui a cabeça e olhei assustado para seu rosto, ela havia se transformado no Baby da Família Dinossauro, então entramos em uma luta corporal.

De repente Jean entrou em meu quarto com alguém vindo logo atrás.

— Mas o que está acontecendo aqui Thales?