O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 2 de 28

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O Canto da Sereia

Capítulo 2 Thales Boldrini

Capítulo 2

 

Thales Boldrini

 

Levantei as 7 da manhã, tomei um banho

para me deixar mais desperto, a vontade de sair era zero por cento mas eu estava com fome, precisava comprar comida. Mesmo eu sendo um bom chef de cozinha, Celeste não gostava que eu cozinhasse, sempre preferia comer em um restaurante, café ou comer qualquer bobeira no shopping. Por isso eu havia perdido o hábito de comprar comida, já que ela vivia mais aqui do que em seu apartamento sempre comíamos fora e comprar comida para deixar estragando na geladeira e armários não era certo.

Quando as portas do elevador se abriram no

hall de entrada do prédio, Jean já me aguardava sentado em uma das poltronas, mas estava distraído demais para notar minha presença.

Me aproximei e segui seu olhar. Uma moça

magra com cabelos soltos e muito rebeldes carregava uma pilha de caixas e seguia com dificuldade para o elevador. Passei a mão por minha barba, eu não sabia se ria ou ficava maravilhado com a cena, a moça insistentemente tentava equilibrar as caixas. Senhor Josué, porteiro do condomínio, insistia em lhe ajudar mas a moça era firme em realizar a tarefa sozinha.

Seu rosto estava oculto e sua voz era meio

abafada pelas caixas e as ondas de seus cabelos que pareciam ter vida própria e correr para todos os lados em ângulos diferentes e totalmente errados para um cabelo.

Lembrei-me que se os cabelos de Celeste não

estivessem totalmente escorridos, ou um fio sequer estivesse fora do lugar ela nem passava pela porta do apartamento.

A moça por fim deixou que Josué chamasse o

elevador e segurasse apenas uma das caixa até que o elevador retornasse. Mas neste momento ela já estava além de mim e eu só podia ver suas costas.

Assim que o elevador retornou o Senhor

Josué depositou ali a caixa que segurava, a moça entrou, apertou o botão de seu andar, as portas começaram lentamente a se fechar, mas foi tudo muito rápido, ela deu um passo para o lado, tropeçou na caixa que estava no chão, as caixas que estavam em seus braços voaram e seu traseiro bateu com tudo no chão e por fim quando ela começou a soltar um resmungo de frustração as portas se fecharam por completo.

Jean soltou uma sonora gargalhada e o senhor Josué nos olhou de cara feia querendo nos repreender, mas no fim também não segurou a risada.

— Não riam da moça, isso não é educado! — Disse Josué.

— Eu não estou rindo, Jean você deveria estar ajudando a moça e não rindo dela. E bonito para você não é senhor Josué? Não pense que não o vi deixar escapar uma risada. — Eu disse.

— Estou velho, as pessoas não se importam. — Replicou Josué.

— Não o vi ajudá-la Thales. — Zombou Jean.

— Acho que todos concordamos que independente de quem oferecesse ajuda, a menina Valentina não teria aceitado.

— Claro! — concordamos em uníssono.

Com isso Jean e eu tomamos nosso caminho. Como retornamos do litoral antes do previsto ainda tínhamos alguns dias de folga, então aproveitei para fazer tudo que era necessário, compra de mantimentos e de tudo que eu havia quebrado, também visitei meus pais.

Retornei para meu apartamento já no final do dia, e como era segunda-feira o restaurante não abriria, o que queria dizer que eu podia chamar Susan para o jantar e também é claro para me ajudar com aquela baderna, já que Jean com certeza só iria para comer.

Quando cheguei ao hall do meu apartamento

senti novamente aquele cheiro que parecia agora fazer parte daquele andar do prédio. Antes mesmo

de eu entrar em casa, bati na porta de Suzan, com o

esboço de um sorriso que eu teria que usar para

convencê-la a me ajudar. Ela rapidamente abriu a

porta.

— Olha só quem apareceu! — Disse ela.

— Humm é, pois é! Bom só passei para avisar que o jantar hoje é na minha casa, mas você precisa ir para lá agora mesmo.

— Ah é claro, porque costumamos jantar às 18 horas! — Disse ela com ironia. — Você quer que eu ajude a limpar aquela zona não é? Pode falar, vamos lá.

— Desculpe Susan, mas eu realmente preciso de ajuda com isso. — Eu falei e dei um sorriso de lado, aquele que sempre me ajudava com as mulheres.

— Ah não, espera! Olha na boa eu vou com você e te ajudo, mas por favor não faça isso de novo, não use esse sorriso comigo, além de não funcionar comigo me sinto ridícula.

— Claro! — Eu ri descaradamente. — Vamos lá então?!

— Pode ir na frente, vou só pegar uma coisa e já vou lá.

Concordei fazendo um sinal de afirmativo com a cabeça e segui para meu apartamento. A visão era de caos puro, suspirei desanimado, não sei como me deixei chegar a esse ponto, sou sempre muito controlado mas a fúria que me tomou ontem era justificada, ainda não acredito que Celeste fez isso comigo. A frustração começava a aparecer quando Susan e Jean entraram discutindo sobre algo banal.

— Isso é a sua cara, estúpido e egoísta! —

Susan praticamente gritou na cara de Jean, e como se essa irritação toda sumisse em um passo de mágica ela se virou para mim. — Thales aqui, olha! São para você, os melhores e mais cheirosos que eu já vi!

— O que é isso? — Perguntei olhando as embalagens artesanais.

— São sabonetes maravilhosos!

— Ela está insinuando que preciso tomar mais banho? Por acaso estou fedendo? — Perguntei debochado ao Jean, que por sua vez soltou uma sonora gargalhada.

— É claro que não, seu bobão. Um dia desses cheguei em casa e tinha uma cestinha em minha porta com vários desses e quando olhei para trás tinha uma em sua porta também, como você estava viajando, guardei para você. — Explicou ela.

— Ah! No minha porta só tinham contas para pagar. — Jean falou decepcionado.

— Pode ser algum vizinho querendo agradar. — Sugeriu Susan.

— A senhora Muniz nos deu alguma coisa? Na verdade “várias” coisas? Isso não me parece comum.

— O que? Não! Não acredito que tenho sido ela, talvez seja outra pessoa...

— Não temos outra vizinha. — Eu a interrompi, não temos outra vizinha, sempre fomos apenas Susan, a senhora Muniz e eu naquele andar.

— Talvez alguém tenha...

— Susan pare de usar drogas! Thales mora aqui a 4 anos, ele com certeza saberia se tivesse outra vizinha. — Foi Jean quem a interrompeu agora.

— Eu não uso...

— Claro que eu saberia. — Eu a interrompi.

Estávamos fazendo isso de propósito, sabíamos como ela ficava irritada com isso.

— Acontece Thales, que...

— Eu te disse para não se aproximar dela, ela tem sérios problemas. E se ela tiver roubado todas essas coisas? — Jean a insultou.

— CHEGAAA!!! Me deixem falar. — Ela esbravejou e nós rimos. — Eu não roubei nada e vocês sabem muito bem disso. — Ela olhou de mim para Jean que agora cheirava as embalagens.

— Isso realmente cheira muito bem, aliás eu ia dizer exatamente isso sobre o seu hall. — Disse ele.

— Ah isso é muito bom não é?! Encobre aquele cheiro terrível de tabaco que vem do apartamento da senhora Muniz.

— Com certeza é agradável.

— Será que temos uma vizinha? — Perguntou Susan. — Alguém no 702?

— Com certeza não, quando me mudei para cá o apartamento estava vazio e o senhor Josué me disse que o imóvel estava bloqueado pela justiça, qualquer coisa assim e que demoraria uns 20 anos para que fosse liberado, então acho muito pouco provável. — Contei a eles.

— Pois é, acho que eu teria ouvido algo se tivesse alguém ali, apesar de eu quase nunca estar em casa. — Disse Susan.

— Do jeito que você é lesa não perceberia nem se uma família de dez pessoas morasse ali. — Provocou Jean.

— Você mora aqui do lado Thales, não ouviu nada? — Perguntou ela ignorando a provocação.

— Na verdade... — Não, eu não podia dizer a eles que ouvi uma mulher cantar, iriam me achar louco, obviamente não havia ninguém no apartamento do lado.

— Na verdade? — Quiz saber Susan.

— Na verdade não ouvi nada. Também seria difícil qualquer um ouvir alguma coisa com a barulheira que fiz aqui ontem noite, e passei o dia todo fora.

— Bom não importa, vamos limpar logo essa bagunça que eu quero jantar. Vocês sabem, janta na casa do chefe é raro. — Falou Susan. — Aliás onde está a sua namorada loira e magra?

Jean olhou para a sacada fingindo olhar algo lá fora e eu respondi:

— Não tenho mais namorada Susan.

— Ah minha nossa Thales, vocês terminaram? Eu sinto muito! — Susan disse com pesar.

— Não, você não sente. — Disse Jean.

— É não sinto mesmo, desculpe Thales.

Todos rimos, e com isso começamos o serviço. Quando tudo estava pronto fizemos o jantar e comemos entre risadas e provocações entre Jean e Susan. Tudo foi muito bem e eu pude esquecer o que havia acontecido. Mas assim que fiquei sozinho a raiva veio novamente, obviamente não destruí o apartamento de novo, peguei uma garrafa de Jack Daniels Tennessee Nº7 e me sentei no chão da sala encostado em uma parede e então bebi.

Acordei novamente com a mulher cantando, ela cantava “Hymn For The Weekend”, sua voz estava baixa mas eu conseguia escutar, e ao ouvi-la uma imagem surgiu em minha mente ou era um sonho, não podia dizer ao certo julgando o tanto de álcool que eu havia consumido.

Eu caminhava pela praia deserta, o sol brilhava a ponto de doer os olhos, o calor era terrível e me sentia exausto. Foi então que ouvi a mulher cantar, sua voz estava distante e eu senti necessidade de procurá-la. Segui sua voz suave e a vi, ali sentada sobre uma pedra, no momento em que pus os olhos nela uma suave brisa fresca bateu em meu rosto. Apesar de vê-la nitidamente seu rosto estava oculto por seus cabelos negros e rebeldes... Ela cantava “ Said: drink from me, drink from me.. when I was so thirsty poured on a symphony..Now I just can't get enough ”... Eu já tinha visto ela, a moça das caixas, eu não vi seu rosto nem ouvi direito sua voz hoje de manhã, mas eu tinha certeza que era ela, pelo menos ali, naquele momento era ela. “ Put your wings on me.. wings on me when I was so heavy “ ...Eu tentei me aproximar, sua voz me atraía para perto dela como se fosse um imã. “ poured on a symphony when I'm low, low, low.. ”. Eu estava quase chegando até ela, estendi minha mão para tocá-la, a esta altura eu respirava com dificuldade e meus olhos estavam vidrados nela então eu toquei seus cabelos “ I, oh, I, oh, I got me feeling drunk and high.. so high.. so high ”...

 

Acordei. Eu estava ofegante. Mas que loucura foi essa? Fechei os olhos novamente e tentei respirar fundo, então fui ao banheiro lavar o rosto quando retornei ao meu quarto eu a ouvi novamente... “ oh, angel sent from up above ” Apertei os olhos e quando os abri novamente vi que não estava sonhando de novo, “ I feel it coursing through my blood ” ela devia estar cantando enquanto eu dormia e invadiu meu sonho.

Apurei os ouvidos para ver se descobria de onde vinha a voz... “ life is a drink your love’s about ” Encostei o ouvido na parede de frente a minha cama “ to make the stars come out.. Put your wings on me.. wings on me when I was so heavy..poured on a symphony when I'm low, low, low. ” Tinha alguém ali, a sereia, ela estava ali do outro lado da parede... “ I, oh, I, oh, I got me feeling drunk and high.. so high.. so high ” Meu coração estava mais disparado do que nunca, ela era real “ I, oh, I, oh, I ” A música estava chegando ao fim e ela baixou um pouco mais a voz “ say we shoot across the sky ”.

Era real, tinha que ser! Então dei duas batidinhas na parede e para minha surpresa ouvi duas batidinhas de volta e um “Desculpe”, eu quis responder algo, abri a boca mas nenhum som saiu.