O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 26 de 28

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O Canto da Sereia

Capítulo 26 Thales Boldrini

Capítulo 26

 

Thales Boldrini

 

Eu tinha errado e não tinha como voltar atrás, eu pensei que seria extremamente difícil conseguir minha sereia de volta mas acabei descobrindo que a palavra não era “difícil’, seria impossível. Ela deixou isso bem claro, e ouvir isso clara e diretamente de sua boca arrancou todos os meus alicerces.

Eu não tinha outra opção a não ser aceitar e respeitar sua decisão, mas jurei para mim mesmo que não iria interferir na vida dela, mas me faria presente e sempre a lembraria que apesar de tudo eu a amo. E é isso que tenho feito todos os dias desde então. Ela tem sido amigável porém sem baixar sua guarda para o meu amor.

Já Catarina está completamente entregue a meu amor, passamos muito tempo juntos todos os dias. Minha pequena sereia está cada vez maior, mais bonita e mais esperta. Ela adora brincar com a minha barba, então em um dia desses ela deu a sua primeira gargalhada. Tina ficou encantada tanto quanto eu ao ouvir o som do riso de nossa pequena mas depois ficou enciumada. Eu ri muito dela é claro.

 

Já haviam se passado 7 meses, a vida corria normalmente, mas apesar do pouco de paz que Catarina me proporcionava eu ainda me sentia no inferno. Ter minha sereia tão perto e ao mesmo tempo tão longe me deixava com uma sensação de infelicidade, de derrota, de impotência.

Mas eu não conseguiria me manter longe, então ficava ali assistindo ela desabrochar como uma flor. Assisti ela escolher a melhor roupa, arrumar o cabelo, ficar mais maravilhosa do que já a imaginei e saber que nada daquilo era para mim. Assisti enquanto quando saíamos todos e outros caras se aproximavam dela:

— Esse é o seu namorado?

— Não, ele é só meu vizinho! — Ela respondia.

Eu era só o vizinho, esse é o preço que eu tinha que pagar pelo erro que cometi, estar com o meu amor bem na minha frente e ainda sim eu não podia alcançá-lo.

Mas os jantares entre nós, Jean e Susan eram os piores momentos, sempre penso em como poderia ter sido se eu tivesse deixado ela ao menos falar, só o que me mantém em pé nesses momentos é Catarina.

Pelo menos eu não tinha mais que lidar com o lutador babaca, ele havia ficado na dele, acho que entendeu.

 

Era segunda à noite e o jantar era na casa de Susan, eu estava atrasado. Quando cheguei todos já estavam lá, sentados no chão da sala brincando com Catarina.

Estavam muito entretidos com alguma gracinha que a minha pequena sereia fazia para notarem minha presença. Tirei os sapatos e comecei a me aproximar, Catarina foi a primeira que me viu, eu sorri para ela e de repente...

— Pa-pa

— O que você disse Catarina? — Tina perguntou a ela.

— Pa-pa — Ela repetiu.

Eu estava paralisado, a primeira palavra da minha filha era “papai”, eu não conseguia me conter. Me aproximei dela e a peguei no colo.

— Sim pequena, papai está aqui! — Eu disse.

— A primeira palavra dela! — Exclamou Tina.

Ela chorava de emoção pela primeira palavra da filha, eu que já abraçava Catarina, em um momento de impulso pela euforia estendi o braço para a minha sereia. Ela correu para mim e nos abraçamos, para minha total surpresa ela uniu nossos lábios em um singelo e casto beijo. Um fogo se acendeu dentro de mim, e quando ela beijou a filha e continuou abraçada a mim eu fiz algo que eu sentia muita falta, sentir seu cheiro. Então eu aproveitei o momento.

Mais tarde naquela mesma noite, eu saí para minha sacada e em seguida ouvi:

— Eu estava te esperando!

— Valentina que susto! — Eu disse e ela riu de leve.

— Desculpe! Eu não queria te assustar.

— Tudo bem! — Eu respondi.

Ofereci a ela a minha lata de cerveja e ela aceitou.

— Parece que vai chover. — Ela disse olhando para o céu.

— Parece que sim.

— Tomara, estamos precisando de uma chuva.

— Estamos mesmo conversando sobre o tempo? — Perguntei e ela riu.

Um momento de silêncio surgiu e meu coração parecia uma escola de samba dentro do peito.

— Vá direto ao ponto Tina! — Eu sugeri.

— Sobre o beijo... — Ela começou mas parou aí.

— O que tem o beijo?

Um minuto inteiro passou antes que ela respondesse.

— Eu só quero ter certeza de que você sabe que aquilo foi em um momento de pura euforia pela primeira palavra de Catarina e que não vai se repetir.

Não era isso que eu esperava.

— Certo! — Foi só o que respondi.

— Certo! Então boa noite!

— Boa noite! — Ela se virou e então me lembrei de algo. — Valentina! — Chamei.

— Sim. — Ela se virou rápido demais como se esperasse que eu a chamasse de volta.

— Amanhã vou passar a tarde com meus pais, será que posso levar a pequena comigo? Eu trago ela de volta antes de ir para o restaurante. — Eu pedi e ela pareceu decepcionada.

— Claro, sem problemas. Só me avise o horário certinho. Boa noite Thales!

— Boa noite Valentina!

Ela entrou e eu permaneci ali por mais um tempo, pensando.

Algum tempo depois tomei um banho e aparei um pouco a barba. Depois me deitei na cama e ela não saía do meu pensamento, fragmentos de momentos que tivemos juntos passam pelos meu pensamentos e eu fico analisando um por um. De repente a conversa que tivemos hoje surge em minha mente, e como ela pareceu ansiosa quando a chamei de volta, e o quanto pareceu decepcionada quando falei sobre levar Catarina comigo, não era receio pela pequena, era outra coisa.

Passei as mãos no rosto frustrado e a compreensão me atingiu, ao menos dessa vez ela queria que eu insistisse, queria que eu dissesse que a amo e que a quero. Bom era isso ou eu ia levar outro fora daqueles, pois era exatamente isso que eu ia fazer.

Vesti um shorts e praticamente voei para sua porta, mas bati com cuidado para não acordar a minha filha. Ela abriu somente uma frestinha da porta, quando viu que era eu abriu mais. Ela parecia estar me esperando, eu desci meus olhos por seu corpo, ela usava uma camisola preta muito, mais muito curta.

Palavras não foram necessárias naquele momento, avançamos um para o outro ao mesmo tempo. O encontro de nossos corpos foi meio brusco mas não nos importamos, nos beijávamos como se dependêssemos daquilo para viver, eu a peguei no colo e ela entrelaçou as pernas na minha cintura. Eu encostei suas costas na parede e desci os beijos por seu pescoço e colo, então ela disse:

— Você demorou, eu já estava achando que nunca se daria conta.

Eu sorri e respondi:

— Desculpe, estou com o pensamento lento hoje.

Então tomei sua boca novamente, e ambos estávamos desesperados um pelo outro, havia tanto tempo perdido para ser recuperado, tanto sentimento reprimido para ser liberado, e sem palavras dissemos o quanto amamos um ao outro. Fizemos amor a noite toda e só adormecemos quando o dia estava amanhecendo.

O sono é claro não durou muito já que Catarina acordou, ela estava se levantando quando eu a segurei na cama.

— Deixa que eu pego ela para você. — Eu disse e me levantei.

Quando cheguei no quartinho cor de rosa da minha filha ela já estava sentadinha no berço. Quando me viu ela abriu um grande sorriso e falou:

— Pa-pa.

— Minha pequena sereia! — Eu disse e a peguei no colo. — Você está com fome?

Caminhei com ela até o quarto de Tina.

— Pa-pa — Ela repetiu.

— Ela poderia ter dito mamãe primeiro, você já ganhou o primeiro sorriso. — Tina disse sentida e eu ri entregando nossa pequena para ela e beijei o topo de sua cabeça.

Ela se deitou de lado na cama e colocou Catarina também de lado e começou a amamentá-la. Eu deitei de frente para ela e sorri ao contemplar essa cena, eu não podia querer mais nada e meu peito parecia que não aguentaria tanta felicidade.

— Então... estamos bem? — Eu perguntei.

Ela fechou os olhos e pareceu ponderar por um momento, então Catarina se agitou no meio de nós dois.

— Será que podemos conversar sobre isso depois? Quando ela não estiver no meio de nós? — Ela perguntou com uma expressão culpada.

— Claro! Bom se é assim vou resolver algumas coisas e volto perto do horário de almoço para pegar a Catarina, de noite vou ajeitar tudo no restaurante e volto para jantarmos juntos e ter essa conversa tudo bem?

— Parece ótimo! — Ela concordou e sorriu.

— Combinado então.

Eu passei a manhã fazendo as compras para o restaurante e por volta de 11:30hrs fui buscar Catarina.

— Está tudo na bolsa, mamadeiras, fraldas, roupas, lenços e tudo mais que você possa vir a precisar. Qualquer coisa me ligue por favor. — Ela disse e parecia ansiosa.

— Está tudo bem Tina, eu sei o que fazer, não se preocupe.

Ela me passou a bolsa, peguei Catarina de seus braços, lhe dei um beijo e eu parti com minha filha em direção a casa de minha mãe.

Almoçamos e passamos uma tarde tranquila, meus pais aproveitaram muito a visita de Catarina, assim como eu era o pai dela de coração, eles eram os avós de coração.

No fim da tarde segui de volta para entregar minha pequena para a mãe dela e arrumar tudo o que precisava para então poder voltar para as duas mulheres da minha vida.

 

Quando chegamos eu bati na porta e girei a maçaneta mas a porta desta vez estava trancada, então bati uma segunda vez.

Ela demorou para abrir a porta e quando o fez ela abriu somente um pouco.

— Thales você já chegou? — Ela perguntou surpresa.

— Bom foi o que combinamos não foi? — Eu perguntei em tom de brincadeira.

— Não posso conversar agora. — Ela disse nervosa.

— Tudo bem, eu só vim deixar a Catarina.

— Não Thales, você precisa levá-la com você! — Ela disse.

— Como é que é? Bom eu posso dar um jeito se você precisar. — Eu disse e ela me lançou um olhar estranho. — O que está acontecendo Valentina?

Ela olhou preocupada para dentro do apartamento, como se estivesse escondendo algo. Então eu perguntei incrédulo, eu só podia estar ficando louco.

— Você está com alguém ai?

Ela pareceu pensar na resposta e depois de uma sutil expressão de dor que ela tentou disfarçar ela disse:

— Sim, eu estou com alguém Thales, será que pode fazer a única coisa que sabe fazer?

Eu levantei uma sobrancelha e ela continuou:

— Cuide dela para mim, afinal este é o único motivo por eu ainda te deixar ficar por perto. Suma daqui com ela agora! Para um lugar onde eu não possa nem se quer ouvir vocês.

— Valentina...

— Vai Thales, tchau! — Ela praticamente berrou na minha cara e bateu a porta com força.

Catarina se assustou e começou a chorar, na hora eu fiquei sem reação tentando entender o que estava acontecendo. Susan abriu sua porta mas antes que ela falasse uma palavra sequer eu fiz sinal de silêncio para ela, pedi que entrasse em seu apartamento e falei muito baixo:

— Susan pegue a Catarina entre no elevador e não olhe para trás. Vá para longe! — Ela estava confusa. — Não faça perguntas, apenas vá!

Ela assentiu segurando Catarina e foi o mais rápido que pode sem fazer barulho.

Em silêncio eu entrei em meu apartamento e tentei ouvir através da parede, consegui ouvir uma voz que falava muito baixo, eu não consegui identificar quem era nem o que dizia, mas o que dava para ouvir em alto e bom som era Valentina chorando. Ela estava em apuros.

Então subi na grade da minha sacada e pendurado pelo lado de fora do prédio passei para a sacada dela, fazendo o mínimo de barulho possível, tentando não ser notado por quem quer que estivesse ali.

Olhando pela porta da sacada com cuidado eu vi o homem de costas puxando minha sereia pelos cabelos e... Droga ele tinha uma arma.