O Canto da Sereia
Capítulo 14 Thales Boldrini
Capítulo 14
Thales Boldrini
Não beijar Valentina ontem a noite me deixou frustrado, mas beijá-la hoje e não poder falar com ela em seguida foi ainda pior. E o que estava rolando com Susan e o “Jenipapo” me deixou chocado e ao mesmo tempo feliz por eles, mas isso tinha grandes chances de acabar com uma merda bem grande.
Com isso tudo fui fazer o que eu fazia de melhor, abri uma lata de cerveja e cozinhei uma bela costela na panela de pressão acompanhada de arroz branco e salada. Depois de comer, abri outra cerveja, fui para a sacada e me apoiei na grade observando o movimento na rua.
Alguns minutos depois, perdido em meus pensamentos, Valentina se apoiou na grade da sacada dela e disse:
— Oi.
— Oi. — Eu respondi e sorri para ela que retribuiu, porém seu sorriso era bem tímido, mas ainda sim encantador. — Você está bem?
— Sim! — Ela respondeu e ficamos um minuto em silêncio.
— Qual é o lance do acidente? Eu tentei perguntar para Susan mas aparentemente ela estava ocupada demais para me esclarecer.
— Ah não é nada demais, um carro quase me atropelou lá embaixo, mas a culpa foi minha não olhei para atravessar, mas Susan me puxou e nós ca í mos no asfalto.
— Você se machucou? Precisa de ajuda?
— Não! Está tudo bem.
— Tem certeza? Posso te levar ao médico se você quiser.
— Thales está tudo bem, relaxa! Só ralei o braço. Acho que foi Susan quem levou a pior, e por falar nela eu vim de lá agora acho que ela estava com alguém, mas fiquei preocupada com a reação dela.
— Jenipapo?
— Sim, é! Ela te falou esse absurdo também? Quer dizer esse cara existe mesmo?
— Existe! Está tudo bem, não precisa se preocupar.
— Legal! — Mais um minuto de silêncio. — Obrigado por hoje.
— Sem problemas, tomara que ele saia do seu pé agora que pensa que você tem outra pessoa.
— O beijo com certeza o convenceu! Obrigado por isso também, você não precisava ter me beijado. — Ela disse mas senti que não foi uma reprimenda.
— Não, eu não precisava, ele já acreditava que éramos um casal. — Eu olhava para frente assim como ela, respirei fundo e continuei. — Mas eu quis e não foi só pra que ele acreditasse, foi porque eu realmente queria beijar você.
Me virei para encontrar seu olhar e o sorriso tímido estava naqueles lindos e doces lábios novamente, então ela desviou o olhar e admitiu:
— Eu também quis.
Aquilo aqueceu meu coração e eu não consegui conter o largo sorriso. Maldita parede que nos separava agora!
— Espero que possamos repetir sem precisar atuar, só porque a gente quer mesmo sabe?
De repente ela ficou sem graça e pareceu voltar a uma realidade só dela.
— Desculpe Thales mas eu não posso seguir com isso. — Ela disse colocando a mão na barriga provavelmente inconscientemente.
— Por que não? Por causa do bebê? Eu não me importo com isso Valentina, não é como se eu estivesse te pedindo em casamento, eu só quero estar com você, você entende isso?
— Eu entendo mas não posso te dar isso, estou grávida de outro homem, vai ser um período difícil até o nascimento do bebê, e eu não gosto disso de relacionamento aberto sabe, e ainda que realmente formássemos um casal de verdade, enquanto eu não tiver o bebê eu não vou.. ah...
— Tudo bem, eu não vou cobrar nada de você, sexualmente falando, e também não tem isso de relacionamento aberto, compreendo a sua situação, olha me deixa ficar por perto e cuidar de você, vamos deixar rolar!
— Sério?
— Sim, é muito sério! Eu tenho pensado muito em você na verdade, só o que eu te peço é que me dê a chance de ficar por perto. — Eu peguei uma das mãos dela.
Ela riu, ótimo ela estava nervosa, isso queria dizer que estava ponderando minha proposta.
— Está certo vamos deixar rolar então!
Eu sorri novamente e ela abaixou a cabeça.
— Eu posso te beijar agora?
— Só se conseguir por aqui mesmo com essa parede aqui entre nós! — Ela me desafiou.
Então eu subi na barra de ferro mais baixa e me inclinei para a sacada dela, peguei gentilmente seu pescoço e colei nossos lábios, e Deus! Como era bom. Quando a soltei ela ria e eu voltei ao meu lugar dizendo:
— Sua bruxa má, sempre me induzindo ao suicídio, se eu caísse daqui você ia chorar.
Ela riu mais ainda.
— Maluco! Bom eu preciso entrar e descansar.
— Tudo bem! Boa noite então.
— Boa noite!
Ela entrou e quando ouvi a porta fechar entrei também.
Eu a ouvi cantar e sorri para mim mesmo.
Naquela noite sonhei de novo com a sereia:
Eu caminhava pela praia deserta, o sol brilhava a ponto de doer os olhos, o calor era terrível e me sentia exausto. Foi então que ouvi a ela cantar, sua voz estava distante e eu senti necessidade de procurá-la. Segui sua voz suave e a vi, ali sentada sobre uma pedra, no momento em que pus os olhos nela uma suave brisa fresca bateu em meu rosto.Agora eu reconhecia seu rosto... Ela cantava “ Said: drink from me, drink from me.. when I was so thirsty poured on a symphony..Now I just can't get enough ”... Era ela, a minha sereia...“ Put your wings on me.. wings on me when I was so heavy “ ...Eu tentei me aproximar, sua voz me atraia para perto dela como se fosse um imã. “ poured on a symphony when I'm low, low, low.. ”. Eu estava quase chegando até ela, estendi minha mão para tocá-la, a esta altura eu respirava com dificuldade e meus olhos estavam vidrados nela então eu toquei seus cabelos “ I, oh, I, oh, I got me feeling drunk and high.. so high.. so high ”... Ela me olhou e sorriu me convidando a beber dela” como dizia na música que ela cantava.
Hoje é segunda, quer dizer que jantamos juntos Jean, Susan e eu para vermos a reprise da luta, mas agora Valentina também jantava conosco. Eu mal me aguentava só de pensar que estávamos juntos, mas que coisa de adolescente! Mas era exatamente assim que eu me sentia.
Bati na porta de Valentina às 19 horas para descermos ao apartamento de Jean. Ela abriu a porta e entrou no meu campo de visão, a visão era de tirar o fôlego, seus cachos descontrolados estavam soltos, eu os afaguei e a puxei para mim, então a beijei com vontade e ela retribuiu na mesma intensidade. Eu não queria terminar esse beijo nunca e quando nos separamos apenas sorrimos como dois idiotas. Nos encaminhamos para o elevador e quando as portas se fecharam eu não me contive, a beijei de novo, mas dessa vez foi bem rápido já que só descemos um andar.