O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 27 de 28

Páginas do PDF

O Canto da Sereia

Capítulo 27 Valentina Lemes

Capítulo 27

 

Valentina Lemes

 

Eu não podia estar mais feliz, me sentia meio boba na verdade, no jantar de hoje à noite eu teria que deixar algumas coisas bem claras para Thales e se ele concordasse então poderíamos reatar .

Faltava pouco para Thales chegar então aproveitei para tomar um bom banho. Com o cabelo preso em um coque sai do banheiro tão distraída e já no meu quarto, de costas para a cama eu pegava uma roupa no guarda-roupas e soltei a toalha do corpo.

— Sempre adorei essa sua mania de prender o cabelo assim! — Eu me assustei e me virei na direção da voz, tentando pegar a toalha para me cobrir novamente. — Dessa forma sua tatuagem fica toda à mostra, sempre adorei esse desenho de asas!

— Phillip como entrou aqui? — Eu perguntei.

Ele estava deitado em minha cama e coçava a cabeça com uma... Deus! Ele coçava a cabeça com uma arma.

— Ah querida você sempre deixa a porta aberta, entrar e sair daqui é muito fácil!

Droga! Thales bem que me avisou.

— Phillip você pode por favor ir embora? — Meu tom agora era o mais tranquilo possível mas o medo já tinha tomado conta de mim.

— Claro querida, mas você vai comigo. — Ele falou e me deu um sorriso.

Aquele sorriso surtiu efeito dentro dos meus ossos e cada pelo do meu corpo se eriçou. Aquele era o sorriso de um louco, e Phillip estava visivelmente perturbado.

— Posso me vestir? — Perguntei ainda segurando a toalha.

— Lógico querida, não queremos sair pelas ruas com você somente de toalha não é?! Mas primeiro solte a toalha e deixe eu te admirar mais um pouquinho. — Ele pediu ainda com o sorriso.

— Phi... — Eu comecei para protestar mas ele me interrompeu.

— Deixa disso querida, você nunca teve vergonha porque isso agora? Vamos lá! — Ele me incentivou a soltar a toalha. — Ah tudo bem! Entendi, isso não é vergonha. Você está me querendo não é sua safadinha!

Eu arregalei os olhos com a possibilidade de ele tentar algo assim e o pânico começou a tomar conta do meu corpo, eu estava tremendo. Me vesti rápido e ele continuou falando:

— Mas você vai ter que me perdoar dessa vez querida, eu me recuso a fazer amor com você nessa cama. Aliás foi de muito mal gosto você transar com aquele fracassado aqui na nossa cama, embora eu esteja tentado a te lembrar de como eu sou melhor que ele.

— Você não precisa me lembrar Phill, eu me lembro muito bem! — Tentei.

— Claro que se lembra, afinal eu sou o amor da sua vida não é mesmo? — Ele perguntou sorrindo.

Eu travei e não conseguia falar. Ele fechou a cara e veio rápido demais em minha direção.

— Eu não sou o amor da sua vida? — Ele perguntou perto demais.

— Sim, você é! — Eu afirmei.

Ele passou a arma fria no meu rosto como se estivesse fazendo um carinho e nesse momento eu comecei a chorar.

— Não, não querida, eu sei que você está arrependida, — ele disse e eu pude sentir a loucura em cada palavra. — eu não estou bravo com você. Se você quer saber foi excitante para mim também, do lugar onde eu estava, bem ali no seu guarda roupas, eu pude assistir tudo e te garanto que foi prazeroso para mim também. Só não faça mais isso, daqui para frente seremos só você e eu está bem? — Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.

Ele estava completamente louco e eu não tinha como escapar dele. Ele beijou minha boca e apesar de eu não corresponder também não fugi de sua investida, ele segurava meu rosto e a arma ao mesmo tempo, qualquer movimento que eu fizesse era perigoso.

Eu pensava rápido e tentava encontrar uma saída, mas quando você mora no sétimo andar a única opção era a porta do hall. Então eu precisava ir para lá.

— Phillip estou com sede, vou beber um copo d'água e depois decidimos o que faremos. — Tentei falar o mais naturalmente possível e comecei a me distanciar dele, mas ele obviamente veio atrás.

— Tudo bem querida, escolha para onde quer ir. Qualquer lugar, iremos para onde você quiser, é só me dizer para onde e iremos. — Ele disse animado.

Ele se sentou no sofá e eu estava bem perto da porta, se eu corresse rápido e tivesse sorte de o elevador estar ali eu conseguiria, mas se o elevador não estivesse eu teria que descer pelas escadas e as chances eram quase nulas de eu correr mais rápido que ele, mas o barulho que causaremos com certeza atrairá atenção e as chances de alguém chamar a polícia será bem grande.

Eu tinha que tentar então corri, mas o elevador não estava ali, o painel indicava que ele estava no térreo então corri para as escadas e antes que eu conseguisse abrir a porta da escada de emergência Phillip me agarrou pelos cabelos e colocou a arma no meu rosto, então fez sinal de silêncio e me levou de volta para dentro do apartamento.

Quando entramos seu aperto em meus cabelos se aprofundou e ele me jogou no chão.

— Sua vadia desgraçada! Achou que podia fugir? — Ele perguntou e se agachou ao meu lado entrelaçando seus dedos em meus cabelos novamente. — Responda.

Mas antes que eu conseguisse responder alguém bateu na porta e girou a maçaneta. Phillip parou e eu disse.

— Deve ser Thales e Catarina.

— Então mande-os embora, dê seu jeito e não os deixe entrar porque se eles entrarem eu vou matar os dois você me entendeu? — Ele deu a ordem e eu assenti limpando as lágrimas do rosto e me recompondo.

Me levantei e respirei fundo para me acalmar, Phillip beijou meus lábios de novo e eu soltei um gemido de terror.

— Não tente nenhuma gracinha querida. Agora abra. — Ele disse me levando para a porta.

Quando eu coloquei a mão na maçaneta Phillip ficou atrás de mim e encostou o cano da arma em minhas costelas e eu a abri a porta só um pouco.

— Thales você já chegou?

— Bom foi o que combinamos não foi? — Ele respondeu zombeteiro.

— Não posso conversar agora. — Eu disse tentando parecer calma mas provavelmente falhei.

— Tudo bem, eu só vim deixar a Catarina.

— Não Thales, você precisa levá-la com você! — Meu pânico cresceu com o pensamento de ter minha filha nas mãos de Phillip armado.

— Como é que é? Bom eu posso dar um jeito se você precisar. — Ele respondeu provavelmente surpreso com a minha tentativa de fazê-los sair daqui. — O que está acontecendo Valentina?

Eu não sabia o que dizer então Thales desconfiou:

— Você está com alguém ai?

Eu demorei alguns milésimos de segundos para compreender a pergunta então Phillip apertou mais o cano da arma em minhas costelas e aquilo doeu. Eu tentei disfarçar.

— Sim, eu estou com alguém Thales, será que pode fazer a única coisa que sabe fazer?

Eu fui rude com ele, e ele arqueou uma sobrancelha em indagação

— Cuide dela para mim, afinal este é o único motivo por eu ainda te deixar ficar por perto. — Eu disse na esperança que ele se irritasse e fosse embora levando Catarina com ele. — Suma daqui com ela agora! Para um lugar onde eu não possa nem se quer ouvir vocês.

— Valentina...

— Vai Thales, tchau! — Eu gritei e fechei a porta em sua cara.

Para a minha sorte Thales não insistiu, Phillip fez sinal de silêncio para mim e esperamos um pouco até ouvirmos o som das portas do elevador se fechando.

Sem que eu esperasse Phillip levantou a mão e com força acertou meu rosto, eu caí no chão.

— Isso foi por tentar fugir! — Ele disse e suspirou. — Está vendo o que você me obriga a fazer Tina?

Ele se abaixou um pouco e me levantou pelos cabelos, eu já não conseguia me controlar e chorava desesperadamente, eu só sairia dali morta.

— Phillip você está me machucando! — Eu reclamei. — Me solte por favor, eu farei tudo o que você quiser.

— Ótimo! Então cale a boca e me deixe pensar. — Ele deu a ordem.

Phillip me jogou contra a parede e coçou a própria cabeça com o revólver, imagino que este deva ter sido um momento de distração de sua parte pois antes mesmo que ele pudesse notar a presença de Thales, que saiu de não sei onde e pulou sobre ele.

Os dois entraram em uma luta corporal pela posse da arma, a qual Thales claramente perderia. Tudo aconteceu muito rápido e a arma foi disparada.

O choque do que havia acontecido me atingiu em cheio, eu estava paralisada e tinha medo de saber a quem o tiro havia atingido.

Phillip ria enquanto se levantava, meus olhos estavam cravados em Thales que parecia ter dificuldade para respirar, seu olhar encontrou o meu e eu corri em sua direção. O tiro havia lhe atingido o abdômem e sua camiseta branca em questão de segundos criou uma grande mancha vermelho escuro que aumentava assustadoramente rápido.

— Ótimo, vocês queriam ficar juntos então vão ficar. No inferno. — Phillip dizia. — Mas antes de terminar de matar esse fracassado vou matar você primeiro Tina, para que ele veja e sinta a sua perda antes de encontrar a própria morte.

Ele apontou a arma para mim e sorriu, algo atraiu meu olhar para atrás dele e isso o distraiu dando a chance de Jean golpeá-lo na cabeça com seu taco de beisebol.

— A polícia já está à caminho. — Disse Jean e se ajoelhou ao nosso lado. — Droga! Aguenta aí cara vou chamar a emergência.

Dito isso Jean se levantou e tirou o celular do bolso se afastando de nós. Eu puxei Thales para o meu colo.

— Calma! Calma! Calma! — Pedia sem parar. — A ajuda já vai chegar, estou aqui com você. — Eu chorava copiosamente.

— Tina... — Thales disse com dificuldade.

— Shiiii , não fala nada! — Eu pedi.

— Eu preciso falar!...Eu posso não ter...tempo para falar depois. — Ele falava, então fechou os olhos e tentou respirar.

— Não, não se preocupe, você vai ter tempo de dizer tudo o que quiser. — Eu disse enquanto chorava.

— Não... eu sei que não vou... só presta atenção. — Ele pediu e eu assenti com a cabeça, então ele continuou. — Perder você... foi a pior dor... que eu senti... doeu mais do que esse tiro...e eu te garanto... isso está doendo demais. — Ele tossiu um pouco sangue e eu me desesperei mais se é que isso era possível.

— Jean! — Eu gritei e Thales apertou um pouco a minha mão.

— Sabe porque eu... quis ficar perto... de você... mesmo quando... você me enxotava?... Porque quando eu... estou com você mesmo quan... — Ele tossiu mais sangue e eu gritei por Jean novamente. — Mesmo quando... eu perco eu estou... ganhando. — Ele tossiu mais sangue, uma quantidade maior agora.

— Não fala, não fala mais nada por favor! — Eu pedi na tentativa de fazê-lo parar de se esforçar.

— Você e Catar... Catarina são a melhor... coisa que... me aconteceu... eu amo... vocês! ... eu amo você. — Ele disse com muito esforço.

— Eu também te amo! Eu também te amo! Te amei desde o momento em que te vi pela primeira vez! Eu te amo! Eu te amo! — Eu repetia desesperada sem parar, meu peito estava dilacerado.

— Canta... canta pra mim... minha... sereia.

— Ele pediu. — Canta pra... mim uma última... vez.

Eu assenti e comecei a cantar para ele ao mesmo tempo em que chorava. Ao me ouvir atender seu pedido ele fechou os olhos e esboçou um pequeno sorriso que mostrou seus dentes cheios de sangue e um gemido de dor escapou dos meus lábios. Jean observava tudo de perto agora, chorando também e segurando a outra mão de seu amigo.

Eu ouvi o barulho das sirenes, o sorriso de Thales que já era pequeno foi morrendo aos pouco e sua mão já não segurava mais a minha e quando abri a minha mão para ter certeza disso a dele caiu, eu gritei desesperadamente agarrando- o mais. Jean se levantou chorando alto agora e abriu a porta para sair do apartamento. A equipe do socorro já saía do elevador e irrompeu o apartamento. Me tiraram de perto dele mas eu estava descontrolada então Jean me abraçou e ficou me segurando fora do apartamento. Choramos juntos!