O Canto da Sereia
Capítulo 23 Valentina Lemes
Capítulo 23
Valentina Lemes
Expulsar Thales do quarto não foi algo fácil de fazer, não porque ele tenha resistido, mas porque pensei que não teria forças emocionais suficientes.
Vê-lo ali na minha frente me abalou muito, mas eu sentia raiva, mágoa e achei que fosse chorar na frente dele a qualquer momento. Felizmente consegui a força que precisava e fiz o que tinha que fazer, foi doloroso mas necessário, ele não podia chegar aqui como se nada tivesse acontecido.
Phillip veio nos visitar, na verdade ele tem feito isso desde que Thales me deixou, ele tem sido muito prestativo e amável, e sempre insiste para que Jean ou Susan estejam presentes nas visitas para que eles fiquem mais tranquilos. Não que eu o quisesse de volta, eu não queria mesmo, ele algumas vezes entrou nesse assunto mas eu prontamente deixei bem claro que em hipótese alguma isso aconteceria, mas ele dizia que preferia ao menos ter minha amizade, mesmo que em pequenas frações do que não ter nada de mim.
Quarenta e oito horas depois que Catarina tinha nascido e todos os exames necessários realizados atestando que minha pequena estava perfeitamente saudável fomos as duas liberadas do hospital.
Passávamos pela recepção quando eu o vi, ali sentado em uma cadeira no canto, ele estava todo desajeitado, as mão cruzadas no colo e os olhos fechados, aparentemente ele dormia. Jean seguiu meu olhar.
— Droga! Ele está acabado. — Ele começou a se afastar de mim e Susan mas eu agarrei seu braço. — Tudo bem Tina, eu só vou avisar à ele que estamos indo para ele poder ir para casa também, desde que chegou de Paris ele não saiu daqui.
Eu assenti e fiquei com a Suzan. Meu amigo avançou até Thales e o acordou, eles conversaram por alguns segundos e Thales olhou para mim enquanto assentia sobre algo para Jean. Ele estava diferente, parecia vulnerável naquele momento, para mim era algo inédito nele, seu cansaço era aparente e ele parecia ter envelhecido desde o dia em que nos vimos. Me virei de costas para eles, de frente para Susan que me olhava com as sobrancelhas arqueadas.
— Nem comece Susan não estou para isso hoje! — Eu a adverti.
— Eu não ia dizer nada! — Ela respondeu.
— Ótimo!
— Vamos? — Jean se aproximou e nos guiou para fora do edifício.
Quando chegamos em casa Catarina dormia tranquilamente e eu a deitei pela primeira vez em seu berço. Alguns minutos depois bateram em minha porta.
— Oi. — Ele disse e eu fiquei chocada com a imagem de um Phillip todo machucado daquela maneira. Mesmo em uma luta perdida ele não ficava com tantos hematomas.
— Phill, entre!
Ele entrou e me deu um abraço gemendo um pouco quando o apertei, então ele vasculhou o apartamento com o olhar.
— Onde está Susan? — Ele perguntou.
— Ela tinha algumas coisas para resolver, está na hora de ela retomar a vida dela por completo, já não preciso do repouso.
— Claro, claro. Então talvez seja melhor eu voltar outra hora. — Ele disse sem jeito.
— Imagine Phill, você já está aqui, não vou deixá-lo ir embora só porque estamos sozinhos.
— Tem certeza? — Ele perguntou.
— Claro! Posso fazer uma pergunta indiscreta?
— Você sempre pode me perguntar o que quiser Tina, apenas vá em frente e pergunte.
— O que houve com seu rosto? — Fui direta.
— Ah! Isso! — Ele disse tocando o próprio rosto. — Não foi nada Tina, nada com que tenha que se preocupar! — Ele acrescentou dando-me um sorriso doce mas eu senti que havia algo errado.
— Vamos lá Phill, me conte o que houve. — Pedi.
— Tina deixa isso para lá, não é culpa sua! Você não tem nada haver com o comportamento do seu... — Ele deixou a frase no ar e cobriu o rosto com as mão, eu sabia a quem ele ia se referir mas tentou esconder o problema e então continuou. — Melhor eu ir embora!
— Foi ele? Ele fez isso com você? — Eu perguntei incrédula.
— Tina é sério, não esquenta a cabeça com isso, eu provavelmente mereci isso!
— Mereceu?
— Sei lá Tina, por ter te abandonado quando você mais precisou de mim, por ter te tratado daquele jeito, mas eu me arrependi disso e estou sofrendo, mas creio que a surra foi merecida pois nunca vou poder apagar aqueles momentos ruins para você.
Eu não podia acreditar, Thales estava ficando maluco? Agrediu Phillip brutalmente, não que ele não merecesse alguns socos mas aquilo era demais.
— Ah meu Deus, vocês brigaram por minha causa? Eu não posso acreditar.
— Está tudo bem Tina, não chegou a ser uma briga, seria injusto com ele, eu tenho instrução e ele não, então não revidei.
— Ele não tinha o direito de fazer isso!
— Provavelmente não, mas o cara fez merda e sabe disso Tina, acho que eu o entendo porque seguimos o mesmo caminho e perdemos a mesma mulher.
— Phill você está muito machucado, isso deve estar doendo demais. — Eu ignorei a última fala dele.
— Tudo bem já estou cuidando disso, não se preocupe. Bom eu só dei uma passada aqui para ver se vocês tinham chegado bem, se precisam de alguma coisa.
— Estamos bem Phill!
— Legal! — Ele olhou para o relógio de pulso e disse. — Acho melhor eu ir, tenho um vôo daqui a 40 minutos, não posso me atrasar mas assim que eu chegar passo por aqui de novo.
Ele se levantou e veio em minha direção, me abraçou e beijou minha testa.
— Fique bem querida e cuide da pequenina!
— Pode deixar que farei o melhor possível. Vou te acompanhar até o elevador. — Eu disse e ele sorriu.
Depois que as portas do elevador se fecharam eu fechei meus olhos por um instante, Phillip havia errado muito comigo, mas estava se esforçando para consertar as coisas e me ter como amiga. E Thales... Thales fez o que fez e agora surgiu do nada provocando confusão. Quem ele pensa que é? Eu não deixaria isso assim.
Ao invés de seguir até minha porta, parei antes na porta dele e bati, ninguém atendeu mas eu sabia que ele estava lá, eu podia ouvi-lo falar no telefone então bati de novo, dessa vez com mais impaciência.
Ele abriu a porta e foi como se eu tivesse levado uma bofetada bem no meio da minha cara. Ele estava ridiculamente gostoso, devia ser proibidos homens lindos assim, ele estava só de toalha e eu senti como se o tempo tivesse voltado. Pequenas gotas de água pingavam de seus cabelos e escorriam pelo seu abdômen, por falar em cabelos, como eu não havia notado que agora eles estavam bem mais curtos? Ele não poderia prendê-los com eles estando curtos assim, mas a barba continuava lá; Sexy e quente! Mas que droga! No que eu estou pensando? Acorda para a vida Valentina!
— Por que fez aquilo? — Perguntei.
— Acho que você vai ter que ser mais especifica.
— Bater em Phillip, porque fez aquilo?
Ele soltou a respiração com força e apertou os olhos.
— Faz diferença? — Perguntou.
— Na verdade não, independente do motivo você está errado. Não pode sair agredindo pessoas por aí. Sorte a sua que ele não revidou ou você teria levado uma surra daquelas.
— Veio aqui me cobrar uma explicação por bater em seu ex ou só está preocupada comigo? — Ele perguntou e me deu um sorriso de lado.
— Ora ponha-se no seu lugar Thales!
— Onde está minha filha? — Ele perguntou.
— Ela não é sua filha!
— Vocês tem que parar de dizer isso. Mas aproveitando que estamos aqui tendo essa conversa tão agradável e casual entre uma vizinha e seu vizinho de toalha, deixe me desculpar.
— Se desculpar pelo que? Por acabar com a minha vida?
— Se assim você prefere dizer então sim, me desculpo por isso.
— Desculpas não aceitas! — Eu disse e me virei para ir embora, não era seguro ficar ali.
— Sei que naquele dia você queria me dar um voto de confiança, sei que eu não mereço, mas poderia por favor me ouvir só por um segundo?
Eu olhei em seus olhos que imploravam mais que a sua boca.
— Ok, fale Thales. — Permiti.
— Tina eu...
— Um segundo, acabou seu tempo, foi bom te dar essa chance e te ouvir. Boa noite Thales.
Me virei novamente e entrei em meu apartamento antes mesmo que ele pudesse entender o que tinha acontecido.