O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 7 de 28

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O Canto da Sereia

Capítulo 7 Valentina Lemes

Capítulo 7

 

Valentina Lemes

 

Quando conheci Phillip me apaixonei perdidamente por ele, apesar de ele ser bruto e completamente violento dentro do octógono, comigo ele sempre foi doce e gentil. Namoramos por pouco mais de 4 anos e então ele me pediu em casamento, quase explodi de felicidade.

Phil queria um noivado curto então imediatamente começamos a planejar tudo, estávamos completamente apaixonados e a cada dia eu ficava mais ansiosa com o casamento, procurei na internet algum tipo de calmante natural para poder manter melhor meu foco, encontrei um chá que combinava algumas ervas e então comecei a tomá-lo. O que o site que indicava o chá como calmante não informou é que o mesmo poderia interferir na eficácia da pílula anticoncepcional.

Claro que eu sabia que Phillip não queria filhos agora, ele está no auge de sua carreira, mas não engravidei porque quis e achei que poderíamos lidar com isso, por mais que parecesse apavorante eu ainda gostei de saber que nosso amor havia gerado um serzinho que agora crescia dentro de mim.

Quando contei a ele sobre a gestação ele ficou possesso e me acusou de ter engravidado intencionalmente para garantir meu futuro financeiramente, garantindo uma gorda pensão caso o casamento não desse certo, isso foi como um soco no meu estômago, na hora tentei acalmá-lo mas as palavras duras que ele dirigia a mim, sobre minha índole, foram me enfurecendo então eu disse a ele que não precisava se envolver. Fui embora sem olhar para trás e não tive notícias de Phillip até esta noite quando ele apareceu em meu apartamento, eu ia saindo com a pá de lixo quando dei de cara com ele no hall.

A conversa não foi nada bem, ele estava exaltado e com um curativo no supercílio esquerdo que devia ser consequência da luta na noite anterior. Fiquei completamente assustada e sem ação quando ele me jogou contra a parede, por sorte Thales apareceu e me ajudou, fiquei muito grata à ele mas também extremamente envergonhada pela atitude de Phill.

Eu não conseguia entender o comportamento de Phillip, tudo bem que não planejamos um filho, tudo bem até ele não querer se envolver, mas aborto? Isso era absurdo! Eu já não conseguia mais segurar as lágrimas, chorava copiosamente, eu amava o filho que estava sendo gerado em meu ventre, era uma benção de Deus e eu não o mataria de modo algum. Nunca pensei que Phillip me pediria uma coisa dessas.

Eu soluçava de tanto chorar quando Thales bateu em minha porta, tentei ficar em silêncio para ver se ele ia embora mas ele insistiu então o atendi e lhe agradeci tanto pelo prato de comida que ele trouxera em nome de Susan, quanto pela ajuda no ocorrido com Phill. Ele parecia meio sem jeito, toda aquela confiança de quando me encurralou na sala de Susan havia desaparecido. Talvez saber sobre minha gravidez tenha feito isso, ele ofereceu ajuda caso eu precisasse de algo e senti que ele foi sincero. Então ele foi embora.

Eu chorei até dormir.

 

A data de entrega do pedido de sabonetes de morango e maracujá se aproximava e minha produção estava a todo vapor, se eu continuasse nesse ritmo conseguiria entregar no prazo sem problemas. Já era segunda-feira novamente, Susan estava de férias e passaria alguns dias fora.

Eu estava assando uma torta de frango quando senti o cheiro de queimado, confusa, caminhei em direção ao forno, não era possível estar queimada, eu a havia colocado lá a menos de 15 minutos. Então tudo começou a fumaçar, e usando uma luva térmica e um pano de prato para auxiliar, abri o forno e retirei a forma. A torta não havia queimado, mas algum erro terrível eu havia cometido pois a massa havia transbordado fazendo uma meleca daquelas, e o excesso de massa que caiu sujando o forno é que havia queimado causando o mal cheiro e aquela fumaça toda.

Batidas desesperadas soaram a porta, então larguei tudo e fui atender.

— O que está acontecendo aqui? — Perguntou Thales invadindo meu apartamento.

— A torta transbordou e queimou no fundo forno, nada demais. — Eu expliquei.

— Nada demais? Você não sabe que não se pode encher a forma com massa até a boca? — Ele continuou perguntando enquanto dava uma boa olhada na forma com a torta destruída e começou a abrir as janelas.

— Muito bem senhor chef, disso eu sei, o que não sei foi no que errei já que não enchi completamente a forma. — Respondi

— Então foi fermento demais, vamos lá. — Ele apontou com a cabeça para a porta de saída do apartamento.

— Onde? - Perguntei confusa.

— Para o meu apartamento, você não pode ficar aqui, essa fumaça, esse cheiro não pode te fazer bem, muito menos ao bebê. Tudo está aberto, logo esse cheiro vai sumir. — Ele esclareceu.

— E você não tem medo que eu faça algum vudu lá? — Debochei.

— Tenho! Mas meus princípios me impedem de deixar uma mulher grávida em um lugar cheio de fumaça e agora sem jantar. — Respondeu ele.

— Não ficarei sem jantar. — Eu disse e ele olhou de maneira furtiva para a forma com o projeto de torta destruída.

— Sei, mas de todo modo essa fumaça não pode fazer bem ao seu bebê. — Ele afirmou e eu ia responder de maneira furtiva mas comecei a tossir e ele levantou uma sobrancelha como se dissesse “eu avisei”. — De todo modo você não conseguiu nem assar uma torta então não deve ser assim tão boa nesses vudus. Só não cante por favor! — Seu tom era de bom humor.

Então eu ri, tirei meu avental e o segui para o apartamento ao lado. O lugar era bem arejado, mas o cheiro de queimado o havia invadido, era quase imperceptível mas estava ali. Thales se dirigiu ao balcão onde cortava pimentões verdes, amarelos e vermelhos.

— Fique a vontade, só não cante, estou com uma faca na mão. — Ele provocou e piscou um olho para mim.

— Talvez eu cante quando você for mexer no fogo. — Devolvi a provocação e nos dois rimos. — O que está cozinhando?

— Frango xadrez!

— Legal! Você mora aqui a muito tempo? — Perguntei tentando puxar assunto.

— Já faz uns quatro anos. Aliás quando comprei aqui o proprietário me disse que seu apartamento ficaria fechado por uns vinte anos, fiquei surpreso quando descobri que você havia se mudado. - Ele disse levando os ingredientes ao fogo.

— Pois é, eu também achei que ficaria, mas Phillip usou sua influência e conseguiu acelerar as coisas. — Eu informei e ele pareceu ponderar.

— Ah sim, o babaca do "Fique longe da minha mulher'!

— É, acho que sim. — Eu sorri meio sem graça, lembrar que ele presenciou aquela cena me deixava envergonhada. — Será que podemos não falar dele?

— Claro!

Conversamos um pouco mais sobre amenidades até que a comida ficou pronta, o cheiro era maravilhoso. Thales serviu dois pratos, colocou um diante de mim sobre um sousplat simples e outro do lado oposto da mesa, onde ele se sentaria, me ofereceu vinho que eu prontamente recusei, por causa da gestação eu não estava ingerindo álcool nenhum, então fiquei com o suco de laranja que ele prontamente preparou. Ele foi totalmente diferente da versão apresentada na casa de Susan uma semana atrás.

— Jean não vem hoje? Achei que vocês viam a reprise das lutas todas as segundas. — Eu perguntei.

— Não, ele está meio para baixo esses últimos dias. — Ele respondeu me servindo o suco.

— Então você não deveria deixá-lo sozinho, é isso que os amigos fazem certo?

— Certo, mas ele me enxotou de lá quando eu tentei conversar com ele, então vai ter que se contentar com a minha companhia hoje.

— É claro! — Eu assenti e sorri. Ele sorriu de volta.

Eu olhei para o prato que estava lindo e apetitoso, o vapor subia fazendo sua dança no ar. Peguei o garfo e espetei um pedaço de frango aproximando-o dos meus lábios, então assoprei de leve para não queimar a boca. Thales fez o mesmo com os olhos nos meus, quando comecei a mastigar o pedaço de carne sorri de leve em aprovação, ele sorriu de volta satisfeito.

Peguei uma segunda porção da comida, porção esta que estava um pouco mais encharcada de Shoyu.

A cena parecia em câmera lenta, ele ainda sorria, eu mastiguei e senti o gosto do molho de soja mais presente, meu estômago de grávida resolveu se manifestar e eu senti tudo voltar.

Ah! As “maravilhas” da gestação!