O Canto da Sereia
Capítulo 20 Thales Boldrini
Capítulo 20
Thales Boldrini
— Espera... sapatos? — Eu perguntei tentando entender qual foi a parte da conversa que perdi para sapatos serem envolvidos nessa conversa.
— Não é óbvio? Eu tenho tudo menos os sapatos que vão combinar perfeitamente com o vestido, não consigo encontrar um que me agrade amorzinho. Isso é tão frustrante!
Eu olhei bem dentro dos olhos dela para ter certeza de que ela não estava brincando comigo.
— Isso é sério Celeste? Eu estou aqui com problemas reais e você me diz que a sua maior preocupação é sapatos?
— Ora Thales e o problema que você tem é maior que este?
— Sim Celeste, muito maiores! Você sabe tudo que tive que deixar para trás.
— Claro, eu sabia que uma hora esse assunto ia surgir, seu problema com certeza é muito maior que o meu, provavelmente é do tamanho de uma porca prenha não é?
— Não estou para provocações Celeste!
— Não é provocação, a sonsa grávida deve estar mesmo do tamanho de uma porca prenha, sorte sua de não estar lá para ver isso.
Meu sangue estava subindo, ela não podia falar assim de Valentina, mesmo que ela tenha errado comigo ela ainda merecia respeito.
— Não fale assim dela Celeste! - Esbravejei.
— Por que você se importa tanto com aquela mulherzinha e o bebê bastardo dela?
— Catarina não é uma bastarda! — Me aproximei perigosamente dela. — Não fale assim da minha filha!
— Ela não é sua filha Thales, entenda de uma vez por todas! - Ela gritava comigo agora. — Eu tenho sido paciente com você Thales, mas está cada vez mais difícil, como se não bastasse eu perder meu sono porque não consigo encontrar os sapatos ideais para o evento, ainda sou obrigada a te ouvir chamar a “sua sereia” enquanto dorme. Para de se importar com aquela gentinha de baixo nível ou acabamos por aqui!
Eu não imaginava que chamava a sereia em voz alta durante meus sonhos então fiquei surpreso com essa revelação de Celeste.
— Então acabamos por aqui! — Eu disse e sai do loft que havíamos alugado.
Não levei nada além de minha carteira com documentos e cartão de crédito. Peguei um taxi e segui para o aeroporto, comprei uma passagem para o próximo vôo.
Quando cheguei ao Brasil eu não sabia o que fazer, então fui para a casa de meus pais, e quando minha mãe me viu eu enxerguei amor em seus olhos, ela correu para mim e me abraçou me enchendo de beijos.
— Ah meu menino, está de volta! Senti tanto a sua falta! Deixe-me olhar para você. — Ela pediu e me soltou dando-me uma boa olhada. — Você está bem?
— Sim mãe eu estou bem! — Eu disse e sorri.
— Tem certeza? — Ela insistiu.
— Sim mãe eu estou ótimo! — Como era bom ganhar o amor de mãe.
— Ótimo! — Ela sorriu e então me deu um tabefe na cabeça. — Menino tolo! O que você tem na cabeça? Por que fez isso com aquela pobre moça? Não foi assim que eu te eduquei moleque! — Agora ela estava muito brava.
— Se acalme querida! — Meu pai vinha atrás dela. — Olhe para o moleque, ele sabe que fez merda, não admite, mas dá pra ver que sabe que fez merda.
— Insolente! Não se abandona uma mulher grávida, o filho dela não é biologicamente seu mas você assumiu esse papel por livre e espontânea vontade. — Minha mãe me repreendia seriamente. — Não se faz isso e depois desaparece com uma loira de pernas grandes como se não tivesse assumido uma responsabilidade.
— Mãe você não sabe do que está falando!
— Não me interrompa menino, e abandoná-la naquele dia em especifico foi pura maldade!
— Sua mãe tem razão Thales! — Meu pai falou.
— Vocês não sabem de toda história com certeza. — Eu disse.
— Bom mais isso você pode resolver depois, você veio para ver o nascimento de sua pequena? Chegou atrasado! Se tivesse aqui não teria perdido esse momento tão importante.
Meu coração acelerou e senti como se o chão tivesse sido arrancado de mim.
— Catarina nasceu? Quando? — Perguntei com a voz embargada e só agora eu pude perceber o quanto me sentiria decepcionado comigo mesmo por perder esse momento.
— Ontem filho, ela é tão linda, uma bonequinha! — Minha mãe disse e seu tom agora era meloso.
— Em que hospital ela está? — Perguntei com a voz embargada.
— Não acho que você deva ir lá agora, a menina Valentina vai te expulsar de lá e com toda razão. — Minha mãe me advertiu.
— Deixe-o querida, um homem precisa tentar! — Meu pai disse e me entregou um papel que retirou da carteira. — Ela está aqui!
— Obrigado pai! — Eu agradeci.
— Não faça bobagem menino, tenha juízo!
— Ok mãe! Eu respondi e sai.
No caminho para o hospital não consegui pensar em nada, só em poder pegar minha pequena nos braços. Assim que cheguei a recepção do hospital fui barrado por não ser horário de visita mas quando eu disse que era o pai de Catarina minha entrada foi liberada.
— Senhor Boldrini vou acompanhá-lo, Catarina está no banho neste momento gostaria de acompanhar? — Uma enfermeira falava comigo.
— Claro, seria ótimo! — Eu respondi e ela me levou até um berçário enorme.
Um bebê gritava desesperadamente, nos aproximamos e a enfermeira quis confirmar com sua companheira de trabalho:
— Catarina do 1016?
Mas antes mesmo que a outra enfermeira respondesse eu já sabia a resposta. Aquela era a minha menininha! Ela gritava forte como se estivesse lutando por sua vida, ela era uma guerreira.
— Sim! — A outra enfermeira respondeu.
— Este é o Sr. Boldrini, pai de Catarina, ele vai acompanhá-las. — A primeira enfermeira informou
— Tudo bem! — A segunda concordou.
Minha pequena sereia já estava limpinha e cheirosinha então a enfermeira a pegou nos braços e se dirigiu à mim:
— Gostaria de levá-la até a mãe Sr. Boldrini?
— Sim, por favor!
Então a enfermeira passou Catarina para meus braços, neste momento o mundo parou de girar, era a maior emoção que eu já havia sentido em toda a minha vida. A sensação, o amor, a vontade de protegê-la era diferente de tudo que eu já havia sentido, era algo completamente novo mas ao mesmo tempo primitivo.
Enquanto caminhávamos pelos corredores do hospital em direção ao quarto de Valentina passamos por uma dessas máquinas de presentes, e então me dei conta de que na euforia de vê-la eu não havia comprado nada.
— Será que podemos fazer uma parada rapidinho? Só para um presente? — Perguntei.
— Tudo bem! A enfermeira Beatrice irá aguardar com o senhor, eu vou indo na frente.
Eu assenti e olhei para a máquina, havia várias opções, sapatinhos, lacinhos de cabelo, toucas, luvas, e ali bem no cantinho das pelúcias tinha uma sereia bem pequena. Eu não tive dúvida da escolha, os olhos de Catarina não desgrudavam da sereia cor de rosa e eu engatei uma conversa com minha filha, ainda que ela não respondesse.
Chegamos ao nosso destino e ouvi a enfermeira dizer:
— Ah aí estão!
Ela e sua colega saíram do quarto fechando a porta, então tive que criar coragem de olhar para Valentina, nossos olhos se encontraram e era como se eu visse um milhão de emoções em um único olhar, ela parecia extremamente cansada, mas sua surpresa por me ver ali se sobressaia ao cansaço e a qualquer outra coisa que ela sentisse.
— Olá Valentina!