O Canto da Sereia

Fran NaNii · Capítulo 11 de 28

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O Canto da Sereia

Capítulo 11 Valentina Lemes

Capítulo 11

 

Valentina Lemes

 

Eu estava cuidando de Thales a dois dias, ele mal levantava da cama, mas a febre agora estava cedendo de vez. Era engraçado de ver um homem tão grande e tão másculo ser abatido daquela forma por uma gripe, ainda que fosse uma gripe daquelas. Ele realmente não era uma má pessoa, fizemos uma amizade legal considerando o começo que tivemos.

Eu havia entregado o grande pedido esta manhã, e tirei o resto do dia para descansar, afinal eu merecia. Eu também já havia levado os remédios de Thales e voltado depois para conferir se ele estava bem, porém ele estava no banho, eu podia ouvir o chuveiro, então minha imaginação começou me levar para outros pensamentos, uns mais profundos, então bati na porta e perguntei:

— Thales você está bem?

— Sim, estou ótimo. — Sua voz estava meio abafada.

— Ok, vou para meu apartamento, mais tarde trago o jantar.

— Tranquilo!

Era melhor que eu saísse dali logo antes que eu me deparasse de novo com a cena de Thales só com uma toalha enrolada na cintura, com gotas de água pingando de seu cabelo e escorrendo por aquele peito espetacular, escorrendo por aquela tatuagem. Se ele soubesse o quanto ela combinava com a tatuagem que eu tinha..

 

Fazia muito calor e eu estava deitada em um colchonete em minha sacada, com os olhos fechados e fones de ouvido. Tocava All Of Me do John Legend e eu acompanhava com minha voz, mas todos os pensamentos que eu tentava evitar me atingiram em cheio meu peito se apertou e senti quando a primeira lágrima escorreu, daí para frente não consegui mais me segurar.

Pensei em como as coisas tinham mudado, e eu ainda não sabia se isso era bom ou ruim, então lembrei do serzinho que agora morava em mim, então o amor me consumiu, as coisas se ajeitariam e nós ficaríamos bem.

Então me lembrei que coisa alguma precisaria ser ajeitada se não fosse por todo o egoísmo de Phill, como ele podia dizer que me amava e fazer isso comigo? Eu dei tudo de mim para ele! E ele não quis a gente, digo o bebê e eu.

Agora eu sentia raiva, mágoa e o meu peito doía, então senti uma mão afagar meu cabelo, abri os olhos e encontrei os de Thales, comecei a me sentar e a limpar as lágrimas mas ele me parou sem nem mesmo me dizer uma palavra, se deitou ao meu lado, mais especificamente no chão é claro, já que seria impossível um homem daquele tamanho caber no colchonete ainda mais comigo lá também, então ele me puxou gentilmente, retirou um dos meus fones e colocou em si mesmo, e sem seguida me abraçou apoiando minha cabeça em seu peito e disse:

— Chora, pode chorar, mas chora tudo o que você tiver que chorar, põe tudo para fora, porque essa vai ser a última vez que vai derramar lágrimas por isso.

Eu o olhei querendo perguntar se ele sabia do motivo das minhas lágrimas mas não foi preciso eu verbalizar a minha dúvida.

— Acho que é meio óbvio o motivo do seu choro, mas não se preocupe eu vou estar aqui para você agora. — Ele disse.

Eu assenti e me aconcheguei em seu peito duro feito pedra e ainda sim tão macio que eu poderia dormir ali. Ficamos assim deitados e abraçados como se fossemos amigos o suficiente para isso, e talvez fossemos mesmo apesar de nossa amizade ser recente. E então eu chorei.

Minutos depois eu já havia chorado muito, meus olhos deviam estar inchados mas me sentia mais leve e acolhida de verdade por Thales, talvez se ele não tivesse chegado aqui...aliás...

— Como foi que você entrou aqui?

— Pela porta ué, você deixou destrancada. — Ele respondeu calmamente. — Aliás você deveria sempre deixar trancada, nunca se sabe quem pode entrar.

— Credo Thales que tom macabro! — Eu disse sentindo meus pelos do braço se eriçarem.

— Macabro? A bruxa aqui é você e não eu. — Ele brincou e eu revirei os olhos.

— E você costuma invadir a propriedade alheia assim sem aviso nenhum?

— Ah pode apostar que eu bati e te chamei, mas você não me ouviu por causa desses fones aí, aliás você tem feito a mesma coisa lá em casa nesses últimos dias.

— Bom, sim! Mas você está doente e precisa de cuidados, eu tinha que cuidar de você.

— E você está grávida e também precisa de cuidados, eu tenho que cuidar de você.

Meu coração falhou uma batida ao ouvir essa menção de cuidados dele comigo, então desviei.

— Você não deveria estar deitado?

— Eu estou deitado!

— Digo em sua cama engraçadinho, e não em um piso gelado como este.

— Já estou bem! Zero bala! Novinho em folha! Pronto para outra, sabe como é?

— Hum que bom! Então acho que hoje você pode fazer o jantar.

— Que tal uma pasta ao pesto com tomates cerejas? — Perguntou ele com um enorme sorriso no rosto.

— Thales eu estava brincando, eu posso preparar algo. — Eu disse já me levantando mas ele se levantou mais rápido e me estendeu a mão para ajudar e me guiou para dentro do apartamento. Então eu senti o cheiro.

— Eu sei que pode mas já preparei tudo.

Eu olhei para os pratos na minha mesa, em seguida olhei para ele e então para os pratos de novo, minha boca salivou de tão apetitosos que estavam os pratos.

— E de algum jeito eu tinha que agradecer por você ter cuidado de mim esses dias enquanto eu bancava o bebê dodói. — Thales falou enquanto um sorriso torto tomava conta de seu rosto.

— Ah com certeza comida é um ótimo jeito de agradecer qualquer coisa! Com certeza fico muito satisfeita. - Eu enfatizei.

— Posso pensar em jeitos muito melhores de te agradecer e te deixar bem feliz e satisfeita. — Ele disse tão baixo que eu acho que nem percebeu que verbalizou o pensamento.

— O que? — Perguntei confusa e ele arregalou ligeiramente os olhos percebendo que sim, ele tinha verbalizado o pensamento então tentou contornar a situação dizendo:

— Eu disse que posso te preparar outros pratos melhores para te deixar bem feliz e satisfeita. — E me deu um “senhor sorriso”, jovial, e perfeitamente branco.

Sentamos e comemos, a massa com especiarias estava realmente ótima.

— E então esse lance de bruxa... não vai me contar? — Indagou ele.

— Thales não tem nenhum lance de bruxa, nada de sobrenatural, isso tudo é invenção da sua cabeça! Acha mesmo que eu estaria grávida e sozinha se eu realmente fosse uma bruxa?

— Até que faz sentido, mas de todo modo você não está grávida e sozinha, eu sou seu amigo e estou com você. Mas tenho que confessar que tudo fica muito estranho quando você está por perto, não é mentira que aquele dia na sacada eu fiquei em uma espécie de transe esquisito. Sempre me sinto esquisito quanto estou perto de você, porém tem ficado mais confortável a cada dia que passa.

— Talvez você só esteja se apaixonando por mim, eu costumo causar esse efeito, você não é o único felizardo. — Eu disse brincando fazendo um gesto de banalidade, mas no processo esbarrei no copo de suco derrubando-o. Lógico que eu tinha que fazer alguma atrapalha, se não fizesse não seria a Valentina Lemes

— Claro, muito sexy, mas não sei se é bem essa a explicação. — Thales respondeu rindo.

Eu saí da cadeira e me abaixei para recolher os cacos, Thales se abaixou também e começou a me ajudar.

— Bobo eu estava querendo te insultar, você não sabe nem brincar, era para você ficar bravo ou ao menos fingir. — Eu disse e ri também.

— Não seria insulto nenhum um homem se apaixonar por alguém tão linda e doce como você! — Ele disse.

Meu coração pulou uma batida e acelerou no máximo, se continuasse assim ia parar de vez, já era a segunda vez hoje que ele fazia isso com o meu pobre coração, então parei por um momento e olhei para ele. Thales estava com o rosto próximo ao meu porém seu olhar estava no chão, nos cacos de vidro, concentrados em sua tarefa. Ele provavelmente nem se deu conta do que disse, e em como aquilo poderia surtir efeito em mim.

Eu o analisei por mais um momento, apesar de seu rosto estar coberto pela barba cheia notava-se que ele seria bonito mesmo sem os pelos, ele tinha um rosto anguloso e as sobrancelhas grossas, ele era mais do que lindo, era sensacional.

Desci meus olhos para seus ombros largos, o peito sob a camisa verde musgo que ele usava e os grandes e fortes braços.

— O que foi? — Ele perguntou.

— Você não pode dizer isso a uma mulher assim dessa maneira. — Eu disse baixo com a voz falhando.

— Não posso dizer isso a uma mulher ou não posso dizer isso a você Valentina? — Ele fez outra pergunta se aproximando mais de mim.

— Não você.. não.. é.. — Ele estava bem perto agora. - Eu.. ah..

— Acho que sei a resposta! — - Ele disse olhando dentro dos meus olhos. Eu me sentia como se estivesse nua. — E se te dizer isso nos deixa nessa situação eu realmente não deveria dizer. — A voz dele era grave e me causava arrepios pelo corpo todo. — Pode ser perigoso!

— Perigoso?

— Sim, porque eu seria um puta de um mentiroso se dissesse que não estou completamente maluco para te beijar, e quando estou tão perto assim, — E ele estava mesmo muito perto. — eu não sei se consigo me controlar.

Eu engoli em seco.

— Então não controle!

Thales arquejou e levou as duas mãos ao meu rosto, acariciou minha bochecha e continuou até segurar meu pescoço com delicadeza, eu fechei os olhos e entreabri os lábios, senti o corpo dele se colar ao meu, sua respiração tocou minha boca, meu coração batia mais furioso no peito do que já bateu em qualquer momento em minha vida, e quando senti que nossos lábios iam finalmente se encontrar uma batida soou à porta e uma Susan muito animada me chamava sem parar.

Não, não, não céus! Agora não!