O Canto da Sereia
Capítulo 4 Thales Boldrini
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Capítulo 4
Thales Boldrini
Faltava pouco para eu ir para o restaurante quando Jean bateu em meu apartamento, já haviam se passado dias desde o ocorrido em meu apartamento e ele continuava aparecendo aqui de surpresa com a desculpa de que queria cerveja, mas eu sabia que ele estava vindo somente para verificar se eu estava bem.
— Você está ouvindo isso? Eu escuto no meu ap de vez em quando, muito baixo, mas aqui é mais nítido. — Ele estava com uma expressão
concentrada e com o dedo indicador apontado para o alto. — Está vindo lá de fora?
Ele saiu para minha sacada ouvindo a sereia cantar. Fazia dias que eu ficava ouvindo ela pela parede, pareço um maníaco dizendo isso? Sim, eu sei, mas juro não tem maldade, nenhuma espécie de pensamento obscuro ou pervertido, eu apenas gosto de ouvi-la cantar. Me acalma, parece um sonho é só isso.
Eu o segui para a sacada, quando chegou na extremidade da parede que dividia a sacada do meu apartamento da sacada do 702 ele olhou para mim e fez um sinal de silêncio levando um dedo aos lábios. Então se inclinou e espiou devagar a sacada de onde vinha a melodia, com os olhos arregalados e sua boca formava um perfeito “o”, ele cobriu a boca com a mão e fez sinal para que eu olhasse também.
Isso era invasão de privacidade, não podia fazer aquilo, mas com um aceno de cabeça ele me incentivou novamente a olhar e acabei sucumbindo a curiosidade, afinal eu estava ouvindo ela todos os dias depois que chegava do restaurante e ao fim da canção eu sempre dava dois toquinhos na parede para ver se ela continuava a cantar mas ela simplesmente retornava os toques e as vezes murmurava eu desculpe.
Me inclinei só um pouco, bem devagar para que ela não me visse, eu a vi, ali, deitada sobre um colchonete, com fones de ouvido, os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, mas logo após o prendedor o cabelo se rebelava, ela cantava suavemente me hipnotizando, seu rosto... ah seu rosto... era delicado, as maçãs do rosto levemente saltadas, o nariz fino e empinado, os olhos estavam fechados e os lábios... Deus... eu não podia desviar meus olhos deles. E eu já a tinha visto, ela era a moça das caixas no elevador.
Eu estava quase pendurado para fora da grade da sacada com o corpo voltado para ela, hipnotizado. Uma lágrima escorreu e ela abriu os olhos e seu olhar encontrou o meu. Assustada sentou-se rápido ainda me encarando. Sai do meu estado de torpor e voltei rápido murmurando um “Desculpe” e puxando Jean para dentro do apartamento fechando a porta de vidro e a persiana.
— O que foi isso? — Jean questionou com um sorriso de escárnio no rosto.
— Eu não sei. — Ofeguei.
— Cara eu tentei te puxar para você não cair, mas você nem se mexeu e ficou lá babando e fazendo sons esquisitos tipo Ãhnn bubababaaaa. — Disse que com toda seriedade dessa vez, imitando sons idiotas.
Eu não sabia se ele estava falando realmente sério, já que foi tudo muito estranho e por aquele momento eu só consegui ver e ouvir minha vizinha. Devo ter feito cara de assombrado, pois ele se desmanchou em uma gargalhada colossal.
— Seu merda! Você inventou isso não foi? — Acusei-o e ele riu ainda mais.
— Mais ou menos, a parte em que te puxei para que você não caísse é verdade.
— Cara esse foi o lance mais louco que já rolou comigo! Ela me hipnotizou!
Jean não conseguia mais conter o riso de maneira alguma e isso me irritou mais.
— Estou falando sério cara! Parecia feitiço, eu fiquei preso nela, no canto dela, no olhar dela.
— Ela é uma gata!
— Ela é uma bruxa!
— Irmão eu não duvidaria disso, você ficou muito estranho enquanto estava olhando para ela, parecia até um daqueles homens que se apaixonam à primeira vista. — Ele disse e riu ainda mais.
— Exatamente, é isso, não a parte do apaixonado é claro. Ela só pode ser uma bruxa, por isso eu fico ouvindo ela todas as noites pela parede do quarto depois do trabalho, parece que ela está me chamando com o seu canto e eu nunca sei ao certo se estou acordado ou dormindo. — Eu falava mais para mim do que para ele.
— Você sabe que agora está parecendo um maluco de verdade, certo? — Ele disse em tom de dúvida.
Meu celular tocou nos interrompendo, olhei no visor e vi o nome de Celeste, o que ela queria agora? Ignorei a chamada e vi que era hora de ir trabalhar. Dei o assunto por encerrado e fui para o restaurante deixando Jean em meu apartamento.
Eu não queria mais pensar naquela mulher, ela realmente devia ser uma bruxa, aquele momento foi surreal, eu senti como se tudo em volta tivesse desaparecido, eu só enxergava ela e ouvia seu canto mágico, me puxando cada vez mais para ela ou para a queda livre de 7 andares. “Pare com isso, que idiotice” me repreendi mentalmente.
— Ei, o que está havendo? — Susan se aproximou.
— Não é nada demais!
— Hum... você está meio aéreo hoje. Isso por acaso não tem nada haver com aquela vagab... quer dizer, Celeste, tem?
— Não quero nem começar a falar dela, e definitivamente meu humor não tem nada haver com ela. — Fui o mais sincero possível.
Eu havia me irritado com a ligação de Celeste, mas no segundo seguinte eu já havia esquecido isso, pois minha cabeça estava na bruxa.
Susan me deu as costas e estava quase fora do meu campo de visão quando perguntei:
— Você sabia que realmente temos uma vizinha no 702?
Susan parou abruptamente e me lançou um sorriso de quem sabe das coisas.
— Eu sei. Ela é ótima, achei que já tivesse te contado isso.
— Definitivamente não contou. — O sorriso dela se alargou ainda mais.
— Desculpe! Ela é quem faz aqueles sabonetes ótimos sabia?
“Pedido da mesa 5” — Alguém gritou atrás de mim e a cozinha estava a todo vapor.
— E o que ela usa neles? Cabelo de gente? Penas de corvo? Olhos de salamandra será?
— Do que você está falando? — Ela perguntou achando graça.
— Nada, esquece!
“Pedido da mesa 12”
— Thales a Valentina é ótima, sério mesmo. Você deveria conhecê-la, é um amorzinho e é linda.
— Com certeza, elas sempre são!
“Mesa 26! Mesa 26! Rápido!”
— Elas? Do que você está falando Thales? — Ela estava confusa.
— Bruxas? Eu acho que ela é uma bruxa! — Esclareci.
— O que? — Susan quase cuspiu no meu rosto.
— Ela é toda linda e gostosa, o ap dela tem um cheiro viciante, e a voz, meu Deus aquela voz hipnotiza. Ela tentou me matar hoje, sabia?
— O que? Que absurdo Thales, você anda fumando “um” apagado é isso? Posso saber como foi que ela tentou matar você? — Inquiriu ela.
— Estou dizendo, ela cantou e me hipnotizou, atraiu o Jean e eu até a sacada, acho que fui mais fraco que ele, quando me dei conta, eu estava praticamente pendurado em minha sacada para cair em queda livre, pergunte ao Jean.
— Ah tenha a santa paciência Thales! Sabia que para você estar dizendo uma babaquice dessas o babaca maior tinha que estar envolvido nisso.
— Eu já te falei como ela é linda? Acho que é a mulher mais gostosa que já vi, e é isso que as bruxas fazem, é assim que elas são, aquela história de verruga no nariz é tudo enganação.
— Ah é claro, agora eu entendi. Esse é com certeza um caso de bolas azuis.
Fiz cara feia para ela e lhe dei as costas. Domingo a noite sempre era um dia de muito movimento e eu precisava me concentrar no trabalho, então ignorei Susan, mas a flagrei algumas vezes olhando para mim e rindo da minha cara.
No fim do expediente Susan e eu caminhamos para casa, ela não tocou mais no assunto da bruxa. Quando chegamos ao nosso andar no prédio, ela seguiu para sua porta e eu segui para a minha e então ela disse:
— Você vai assistir a luta amanhã a noite?
— Com certeza! — Respondi e dei alguns socos no ar.
— Certo, chame seu amigo idiota e venha para o jantar. Não se esqueça de trazer a cerveja! — Ela praticamente ordenou.
— Certo!
Sempre assistimos as reprises das lutas as segundas a noite. Me voltei para minha porta e não pude deixar de dar uma olhada disfarçada na porta de minha vizinha, que apesar do horário ainda estava acordada, ao menos foi o que presumi já que por debaixo da porta via-se uma luz. Fechei a porta e fui direto para o banho, quando sai cai na cama e ouvi bem baixinho ela cantando uma canção de ninar. Adormeci imaginando o que ela poderia estar fazendo lá.