Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
Capítulo III - Territorialização e trabalho: atuação dos aldeados de ferradas nos serviços públicos e particulares
Capítulo III - Territorialização e
trabalho: atuação dos aldeados
de ferradas nos serviços
públicos e particulares
As populações indígenas em “situação de aldeamento” no sul da Bahia, durante o século XIX, ainda têm sido objeto de poucos estudos da historiografia regional, no sentido de pensar suas experiências históricas na dinâmica da formação e consolidação econômica e social da referida região.
A política indigenista de fins do Setecentos, bem como a política do Oitocentos foram marcadas por dois objetivos bastante claros e correlacionados: ocupação territorial e mão de obra indígena. O trabalho dos homens e mulheres aldeados em Ferradas foi amplamente utilizado, durante quase todo o século XIX, nos serviços, públicos e particulares, voltados ao estabelecimento de pequenos colonos e grandes fazendeiros na região, à abertura e conservação da estrada que ligava as vilas Ilhéus e Vitória (hoje Vitória da Conquista), cujo funcionamento incidia diretamente nos contornos econômicos da região.
O sul da Bahia configurou-se, no decorrer do Oitocentos, em “região cacaueira”. Nesse processo, o trabalho dos homens e mulheres dos aldeamentos instalados, à época, foi de extrema importância para a nova conformação social, política e econômica regional. No entanto, a narrativa memorialista desconhece ou, pior ainda, propositalmente esconde a presença dos índios na formação da economia e sociedade regionais, alegando que a formação da atual Itabuna se deve ao trabalho pioneiro dos migrantes sergipanos, processo no qual os índios, quando são mencionados, o são como estorvo ao progresso e um obstáculo superado pela coragem dos pioneiros. O objetivo deste capítulo é demonstrar a atuação do trabalho dos aldeados de Ferradas nos ramos dos serviços públicos e particulares, com especial atenção para a utilização da mão de obra indígena nos trabalhos da estrada Ilhéus-Conquista, bem como na formação da lavoura do cacau, no sul da Bahia oitocentista.