Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
3.3 O trabalho dos aldeados de Ferradas nos serviços públicos e particulares
3.3 O trabalho dos aldeados de
Ferradas nos serviços públicos e
particulares
No projeto imperial destinado à região, o interesse mais visível que aparece na documentação é em relação ao trabalho indígena. Nesse sentido, o sul da Bahia se assemelhava ao Espírito Santo, pesquisado por Vânia Moreira. A autora enfrenta a produção historiográfica de invisilibização dos índios no processo de colonização brasileiro, e coloca-os no centro do debate sobre a organização social do trabalho no Espírito Santo, na primeira metade do século XIX, tendo como objeto de estudo a participação dos índios de Nova Almeida no mundo do trabalho e seus
desdobramentos para a conformação social daquela região41.
Da mesma forma, no sul da Bahia, ao longo do século XIX, também era indisfarçável o interesse das autoridades pela mão de obra dos indígenas. Nesta realidade, o assunto trabalho norteou as práticas administrativas por todo o período de vigência do aldeamento São Pedro de Alcântara.
O século XIX é um período politicamente heterogêneo, como bem
frisa Manuela Carneiro da Cunha 42. Igualmente heterogêneas foram as leis ou regras instituídas para o governo das populações indígenas do Brasil. Sampaio frisa que a novidade emergida da legislação indigenista de 1845 foi a “regulamentação da
possibilidade de arrendamento e aforamento de terras indígenas”43. Esse aspecto do Decreto 426 ocasionou querelas parlamentares e opiniões desfavoráveis. Segundo Kodama, Carneiro Leão, que era membro da Comissão de Estatística, Catequese e Colonização do Senado, ressaltava o caráter negativo do arrendamento das terras indígenas, explicitando os abusos que decorreriam de tal diretriz sobre as terras que pertenciam a essas populações. De fato, a pesquisa de Manuela Carneiro da Cunha corroborou a opinião de Carneiro Leão, pois ela observa que um dos principais efeitos da regulamentação de 1845 foram as expropriações das terras indígenas, processo decorrente da política de disseminação de aldeamentos com a mistura de índios e não índios, tendo como propósito a rápida emancipação dos índios e extinção de seus
territórios. 44
Manuela Carneiro da Cunha pontua como caráter central na legislação indigenista, que emergiria dos debates políticos dos meados do Oitocentos, a questão do acesso e posse da terra. Para a autora, o interesse pelo trabalho indígena continuaria presente nas medidas políticas com relação ao governo dos índios, mas de forma
secundária e transitória45. Porém, como ainda sugere a própria autora, “a política de terras não é, portanto, a rigor, independente de
uma política de trabalho”46. Por conseguinte, diferentemente do que afirmou Cunha a respeito da transitoriedade do trabalho indígena, observamos que, no sul da Bahia, durante todo o século XIX, o interesse pela mão de obra dos homens e mulheres em “situação de aldeamento” fica em evidência na documentação compulsada.
Nessa perspectiva, a partir de 1845, escreve Patrícia Sampaio: “é imperioso recuperar a permanência da questão relativa ao acesso ao trabalho indígena, que ainda era extremamente relevante, mesmo naqueles lugares em que o esforço de tomar de assalto as
terras das aldeias se fez mais efetivo”.47 Nessa direção, nosso objetivo, neste estudo, é demonstrar que, na região de Cachoeira de Itabuna, sul da Bahia, na prática, a questão do trabalho indígena foi uma preocupação central até pelo menos o final da década de 1850, como nos permite observar a documentação.
Também as pesquisas de Vânia Moreira insistem na importância do trabalho indígena em certas regiões do Império. Referindo-se à Província do Espírito Santo, a autora observa “que é o sistema governativo para gerir o trabalho dos índios que entra em colapso a partir da década de 1840, não o costume de os índios prestarem
serviços ao Estado e aos particulares” 48. Moreira estabelece, como hipótese de estudo, que foi frequente a utilização da mão de obra indígena na região da Vila de Nova Almeida, na primeira metade do século XIX, e que os índios foram importantes “na organização e no
funcionamento do mundo do trabalho na região”.49
No seu estudo sobre a província do Espírito Santo, Moreira concorda com o fato de que na provincia tinha havido predominancia da população indígena. No entanto, diferentemente da visão mais aceita e veiculada pela historiografia acerca da província, ela lembra que, além das tribos hostis, que viviam nos sertões, existiam os índios que moravam nas vilas, demonstrando a participação efetiva deles na vida política e social. A perspectiva teórica e metodológica proposta por Moreira se faz fundamental para pensarmos o estudo em andamento. Desse modo, tentaremos demonstrar a atuação dos indígenas aldeados em Ferradas, sul da Bahia, como atores no processo de construção e desenvolvimento de Cachoeira de Itabuna.
Dentre outras fontes, nossa pesquisa se apoia em escrituras de compra e venda de terras, relatórios presidenciais e cartas, nas correspondências trocadas entre autoridades de Ilhéus e a presidência da Província da Bahia. No total das correspondências relacionadas ao aldeamento, selecionamos aquelas nas quais aparece o tema trabalho; e, dentre essas, apenas aquelas em que fica claro o tipo de trabalho desenvolvido pelos indígenas aldeados
de São Pedro de Alcântara (tabela 3).
TABELA 3 – Tipos de trabalho desenvolvido pelos
índios aldeados, 1830-1850
Décadas de 1830 e 1840 Quantidade de
ocorrências
Agricultura 4
Corte de madeira 1
Fabricação de canoas 2
Abertura e conservação da 2 estrada
Navegação 1
Década de 1850 Quantidade de
ocorrências
Agricultura 4
Fabricação de canoas 1
Navegação 1
Abertura e conservação da 4 estrada
Total 20
Fonte: Tabela construída a partir das correspondências das
autoridades provinciais, seção Arquivo Colonial e Provincial, maços:
2396, 4612 e 4613. Arquivo Público do Estado da Bahia.
No conjunto das correspondências analisadas, observamos que o interesse pelo trabalho indígena continua central para o bom êxito do projeto imperial, tendo em vista a manutenção do Aldeamento de Ferradas até a segunda metade do século XIX e a instalação de outros aldeamentos nos mesmos moldes em outras partes da região sul da Bahia. Durante o século XIX, houve um premente interesse pelo acesso à terra no sul da Bahia, pois se tratava de uma região que se consolidaria no final daquele século enquanto “região cacaueira”, se estabelecendo ali os latifúndios da lavoura do cacau.
Numa análise das correspondências oficiais das autoridades locais às autoridades provinciais, incluindo requerimentos, ofícios, dentre outras, percebemos que São Pedro de Alcântara se configurava como uma espécie de celeiro de mão de obra para os trabalhos públicos naquela área, com especial atenção para as obras destinadas a alargar, aumentar o percurso e manter em funcionamento a estrada que ligava a Vila de Ilhéus à de Vitória. Manter a estrada limpa e transitável era garantir o acesso das pessoas e, sobretudo, viabilizar o comércio entre as referidas vilas, além de assegurar, nas áreas próximas à estrada, o assento e a permanência de colonos.
Em documento de 30 de junho de 1843, do juiz municipal de Órfãos e delegado das vilas de Rio de Contas, Olivença e Ilhéus, Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, anexo à correspondência de 1845, ao Presidente da Província Francisco José de Souza Soares d’Andréa, encontra-se a seguinte informação:
[…] aprovo o expediente de que lançou mão para conseguir a abertura das
estradas, que indica, como necessária a comunicação e transito dessa Villa
para diversos lugares, providencia esta tanto mais vantajosa, quanto com
ella se consegue o melhoramento desse Município sem dispêndio dos
dinheiros públicos, cujos cofres estão em penúria […] 50.
A permanente necessidade de manutenção e abertura das estradas mencionadas nas correspondências nos conduz à própria política fundiária do século XIX, cuja efetivação requeria o alargamento dos espaços transitáveis. Para tanto, a mão de obra indígena se constituía em seu principal suporte. Nesse sentido, é recorrente, nos documentos analisados, a menção de que a utilização do indígena como trabalhador nessas obras representava economia para os cofres públicos. Isso revela um dos aspectos proeminentes da política indigenista de 1845: o caráter “permissivo do recrutamento compulsório de índios para o trabalho público e
particular” 51. Em Cachoeira de Itabuna, o trabalho dos índios era empregado nas obras da estrada e visava facilitar o trânsito de pessoas e o crescimento dos municípios. Os índios eram utilizados como vetor do processo colonizador e civilizatório em curso à época, reconhecendo-se, além disso, “[…] a impossibilidade da conservação e limpeza d’ella [isto é, da estrada] por meio de outros
braços que não sejam os dos aldeiados […]” 52 .
Em conformidade com essas assertivas estão os discursos das autoridades imperiais locais, a exemplo do requerimento de verba do Capitão-Mor Antônio Dias de Miranda, de 06 de dezembro de 1826:
Antonio Dias de Miranda, Capitão-Mór da Conquista do Certão da Ressaca,
tendo, a exemplo de seus antepassados, empregado todos os meios a seu
alcance, inda com grande dispêndio de seus bens, perigo de vida própria e
de seus parentes […] a fim de assegmentar a civilização dos gentios bravos
aos arredores daquele certão, e segurança das estradas, as felizmente
conseguio com grande vantagem, e proveito. Povos, por se acharem já
manços os denominados = Mongoiós, e Botocudos =, vê-se em circunstancia
de empregar as mesmas deligencias, e fadigas Pr.ª com o denominado =
Patachó […] tendo unicamente em vista alongar a civilização daqueles
povos, e fazer prosperar a cultura, o sossego dos Habitantes de seu
Districto, e mais vizinhos, e a segurança das Estradas; confiando mais que
tudo da Integridade, e Benignidade de V. Exª, submisso, e Respeitoso53.
O sucesso do projeto colonizador na região de Ferradas (sem perder de vista que outros aldeamentos foram instalados na região) estava condicionado à “assimilação” dos Camacãs, Pataxós e dos guerens ao processo de catequese nos aldeamento, bem como à manutenção da segurança na estrada, garantindo, assim, os propósitos imperiais relativos à resolução das questões fundiárias à época. Nesse contexto, o funcionamento do aldeamento de Ferradas desempenharia papel estratégico, pois os aldeados, além de fazerM o trabalho de manutenção da estrada, garantiam a segurança dos viajantes e, sobretudo, dos que ali pretendiam se estabelecer. Não é demais insistir, além disso, que, no sul da Bahia, “quanto à ocupação de novos espaços, a preferência recaía sobre
as áreas dos aldeamentos”.54
Os aldeamentos instalados ao longo do século XIX, no sul da Bahia, se encontravam sob a administração dos missionários capuchinhos, que, por sua vez, mantinham o diálogo entre si. Isso indica que as autoridades imperiais estavam preocupadas em manter os aldeamentos comunicáveis, com o fim de garantir, de forma mais eficiente, naquela área, a aplicabilidade dos interesses da colonização Oitocentista. Em 04 de maio de 1855, o diretor geral dos índios, Casemiro de Sena Madureira, dirigiu ao Presidente da Província da Bahia, Álvaro Tibeiro de Moncorvo, a seguinte informação:
Representei ao Exmº antecessor de V. Ex.ª que era necessário authorisar os
missionários das aldêas de S. Pedro de Alcantara e os de Catulés e Barra de
Catulés a abrirem comunicação fácil entre as [ditas] aldêas para prestarem-
se socorros, e facilitarem o comércio com Conquista e Minas pelo Rio Pardo,
e fui authorisado a fornecer 400$ reis ao missionário de Ferradas em S.
Pedro de Alcantara, e 300$ ao da Barra de Catulés no Rio Pardo para os
trabalhos destas estradas por officio de 27 de abril pretérito, tirados de
1:000$ do cofre geral55.
A região, dificilmente, poderia ser considerada como domínio do governo sem o trabalho de pacificação e de disponibilização da mão de obra dos aldeados ali territorializados com esse fim. Vale notar que o aldeamento S. Pedro de Alcântara é sempre descrito como “facilitador” do processo de ocupação territorial da região sul da Bahia.
Além do aldeamento de Ferradas, outros aldeamentos aparecem nas documentações do período até a década de 1860, a saber: os da “Barra do Rio Salgado, o do Rio do Salto, o de Barra do Catolé, o do Catolé, o do Cachimbo, o do Salto do Rio Pardo, o de Santo
Antônio da Cruz, o da Lagoa do Rio Pardo e o de Pedra Branca” 56.
Em correspondência de 1848, José Antônio de Sousa Passos, juiz municipal da Vila de Ilhéus, versa sobre as vantagens de se estabelecer outros aldeamentos na Vila de Ilhéus, dando como exemplo o bom desempenho do aldeamento de S. Pedro de Alcântara.
[…] as razões que me fundo são as seguintes. 1ª a vantagem de se
conservar sempre limpa e frequentada a estrada que vai d’esta para a Villa
da Victoria, que tem por base a conservação e augmento do commercio
central, que hoje He nenhum pelo péssimo estado da dita estrada, e falta de
abrigo em pontos certos e determinados. 2ª o pouco despendio dos Cofres
Publicos, por isso que as duas referidas Aldeias podem ser estabelecidas
pela maneira que foi a de S. Pedro d’Alcantara, […] 3ª a impossibilidade da
conservação e limpêsa d’ella por meio de outros braços que não sejão os
dos aldeiados, […] 4ª finalmente todas as vantagens que resultão da
civilisação dos Indios em geral, que a primeira vista se podem conhecer.57
Nesses documentos trocados entre autoridades locais e provinciais, o tema da conservação da estrada se configura em uma das principais justificativas para a solicitação de recursos pelas autoridades locais à presidência da província. As correspondências expedidas pelos juízes municipais da Vila de Ilhéus destacam o bom andamento dos trabalhos de limpeza e melhoramento da estrada, bem como o progresso que se tinha alcançado em relação à comunição terrestre entre Ilhéus e Vitória da Conquista.
Tenho presente o officio de V. Exª. De 19 de abril do corrente anno ora
recebido, em o qual me ordena, que entregue ao missionário da Aldeia de S.
Pedro d’Alcantara Fr. Vicente d’Ascoles, qualquer quantia de 600$, que eu
havia recebido em 22 de Setembro de 1847 para melhoramento e limpesa da
estrada que segue d’esta para a Imperial Villa da Vitoria, caso alguma exista
em meu poder […] o methodo empregado sempre e anteriormente a esta
ultima limpesa da estrada, tem consistido em desobstruila, já alargando-a,
[…] a qual nunca passou de huma picada d’esde que de seo principio foi
aberta.58
No conjunto das correspondências imperiais, também percebemos diversas manifestações e esforços das autoridades no sentido de oferecer segurança aos que por ali transitavam à época. Conforme explicita a documentação, as condições de funcionamento e uso dessa estrada oscilaram bastante no decorrer do século XIX. Dentre os motivos que culminavam nas dificuldades em manter o bom estado de conservação da estrada Ilhéus-Conquista, destacamos os problemas relacionados ao próprio funcionamento do Aldeamento São Pedro de Alcântara. Por ocasião dos intervalos entre as administrações do aldeamento, devido aos momentos de saída de um missionário diretor e chegada de outro, os indígenas aldeados se dispersavam. Isto motivou várias queixas registradas pela diretoria geral dos índios nas correspondências emitidas às autoridades provinciais da Bahia:
Considerando o deplorável estado em q’ se acha a V.ª de S. Pedro de
Alcantara conhecida pelo nome de = Ferradas do termo desta v.ª julgamos
de nosso dever levando ao conhecimento de V. Excelência esta occorrencia
com as considerações necessárias afim de V. Excelência providenciar
conforme entender em sua alta sabedoria. Esse referido lugar das Ferradas,
Exm.º Snr.º, q’ tem sempre merecido as atenções desse Exm.º governo
mandando para alli já este já aquele Padre missionário afim de catechisar
por meio da palavra divina essa parte da espécie humana, indigna, selvagem
– embrutecida alli existente denominados Camacães= trazida ao grêmio da
Igreja dando-lhes o ensino da civilização, os necessários conhecimentos do
justo e injusto,= se acha a pronta no mais completo abandono com a retirada
á final do religioso Frei Rainero de Ovada, que teve lugar em julho do anno
PP59.
As fontes das décadas de 1840 e 1850 indicam que a conservação da estrada exigia trabalho constante para que o mato não a destruísse. Na década de 1870, a manutenção da estrada continuava sendo uma grande questão, e são intensificados os trabalhos para sua conservação, tendo à frente os fazendeiros da região, como o estrangeiro Fernando de Steiger, que, segundo correspondência de 1868, empreendia as obras da estrada com
sucesso60. João da Silva Campos menciona o progresso alcançado em relação aos trabalhos de melhoria da estrada Ilhéus-Conquista na década de 1870. Informa sobre o aumento do trânsito registrado na estrada devido ao bom estado de conservação dela, destacando, ainda, as possibilidades de exploração da agricultura que se abriam em razão do bom andamento das atividades de conservação e abertura da dita estrada:
Frei Luiz de Grava não tinha somente por ocupação administrar a Colônia.
Dera-lhe igualmente o governo provincial a incumbência de melhorar a
estrada de Ilhéus a Conquista e, pelo seu relatório, apresentado em 1871,
vê-se que estava atacado o serviço na extensão de treze léguas, entre a
Colônia e a aldeia do Catolé. Neste ano era notável o trânsito de boiadas
pela estrada, vindas do sertão para a Colônia e para Ilhéus, sem embargo
dos ataques dos índios (718). Prosseguindo na empresa, no ano de 1873,
das 62 léguas totais do caminho faltavam apenas seis para limpar até Ilhéus,
e 12 ou 14 até Conquista, sendo os terrenos marginais excelentes para as
plantações de café, cacau, cana e algodão61.
No fragmento exposto acima, Silva Campos se refere às obras realizadas na estrada, em 1871, ocasião que se encontrava extinto o Aldeamento São Pedro de Alcântara e já funcionava o projeto político de colonização daquela localidade, por meio da colônia agrícola denominada Colônia Nacional de Cachoeira de Itabuna ou Colônia Nacional Cachoeira dos Ilhéus.
A partir da extinção do Aldeamento São Pedro de Alcântara, os índios aldeados da região ainda atuavam nas obras da estrada. Serviam ao trabalho de abertura da estrada os aldeados de Cachimbo, aldeamento administrado pelo mesmo frade diretor da Colônia Agrícola Cachoeira de Itabuna, Luís de Grava, aldeamento que, por sua vez, também seria transformado em estabelecimento nacional. Note-se que quando os serviços prestados pelos índios se faziam por recrutamento do Estado, em fins da década 1860, eles trabalhavam na estrada preferencialmente sob o comando e os interesses dos fazendeiros locais. Mostra disso é o registro feito no dia 16 de agosto de 1868, pelo então juiz de direito Antonio Villaça, ao presidente da província, no qual ele mencionava que:
Convencido de que a prosperidade desta Comarca depende absolutamente
da estrada que d’aqui se dirige a Vª da Victoria, e o sertão, a mais perto do
litoral, em toda a Costa do Sul da Província: tive a satisfação, pela
Resolução d’ Assembleia Legislativa Provincial, consignado a quantia de
quatro contos de reis, para limpeza da estrada […] o prestante Estrangeiro
Fernando de Steiger, que pretende fazer um estabelecimento importante no
Rio Salgado, além das Ferradas, comprando terras do Governo […]; tenho
me com elle empenhado, para que se encarregue da limpeza d’aquella
estrada das Ferradas a Vª da Victoria […], e por isso afirmar a V. Excia., que
incumbindo-se elle dessa obra, de acordo com o digno Missionário d’ Aldeia
do Caximbo, Fr. Luis de Grava, se conseguirá um serviço de valor, […] o
missionário obtendo trabalhadores para elle de sua Aldeia62.
Nesse momento, os aldeamentos da região começavam a ser extintos, a exemplo do de São Pedro de Alcântara. Ao que tudo indica, os antigos aldeados passaram a viver e a trabalhar, a partir de 1870, na Colônia Agrícola fundada nas terras do próprio aldeamento. Nesse período, a lavoura de cacau já estava em ascensão e, por conseguinte, atraía cada vez mais colonos nacionais e estrangeiros. Desse modo, se fazia imperioso o bom uso da estrada Ilhéus-Conquista como ficou evidente na fala do juiz Villaça.
Em outro registro, de 1872, afirma-se “[que] a estrada geral partindo de Ilheos se [dirigindo] para a cidade da Victoria e comarcas visinhas, tem prestado a utilidade que se tinha em vista, transitando por ella grande somma de mercadorias para exportação
e importação”.63 Nota-se, portanto, que ao final do século XIX, com o crescimento econômico da região, o interesse em manter a estrada em pleno funcionamento é mais perceptível, assim como o empenho dos particulares para o bom funcionamento da mesma.
Interessante ressaltar, nesse momento, a relação direta estabelecida entre fazendeiros e missionários. Frei Luis de Grava era o missionário que atuava como diretor da Colônia Agrícola de migrantes e também dirigia o aldeamento denominado de Cachimbo, próximo a Conquista. Ele disponibilizou o trabalho dos aldeados do Cachimbo para os serviços na estrada, cujos serviços de conservação estavam sob os cuidados do fazendeiro Fernando de Steiger. Isso evidencia não apenas as relações entre missionários e fazendeiros, mas também que o uso da mão de obra indígena era recorrente até o final do século XIX.
No sentido de mapear os estágios de trabalho empregados na estrada, Steiger a dividiu em quatro partes. Isso nos permite visualizar geograficamente a região de Cachoeira de Itabuna nessa época. Assim, no dia 14 de agosto de 1868, Steiger menciona que havia “dividido esta estrada em quatro secções: 1ª da Victoria ate o Jacarandá 2 legoas, 2ª do Jacarandá ao Mutucujê 3 1/2 ditas, 3ª do Mutucujê a Ferradas (São Pedro de Alcântara) 2 ditas, das Ferradas ao Rio Salgado 3 ditas”. Nesse momento, o aldeamento já se encontrava extinto, mas aparece entre parênteses, na citação à Ferradas, pela clara correlação que as pessoas ainda faziam entre Ferradas e o aldeamento dos índios.
Na sequência do documento, Fernando de Steiger menciona o lugar denominado Tabocas, que, segundo ele, ficava entre Mutucugê e Ferradas, localizando-se a 1 légua acima de Mutucugê, local povoado por pequenas fazendas de cacau que prosperavam. Até os dias de hoje, Itabuna é denominada, pelos mais antigos, com o nome de Tabocas, um dos primeiros nomes do povoado que daria origem à atual cidade de Itabuna, e que nomeia um dos livros memorialistas mais importantes daquela cidade: O Jequitibá da Taboca, de Oscar Ribeiro Gonçalves. Pelas evidências do documento citado acima, concluímos que Cachoeira de Itabuna e Tabocas eram um mesmo núcleo, pois se tratava, justamente, da povoação próxima a Ferradas, como explicita Steiger.
Steiger segue seu relato sobre o andamento das obras e a forma como estava dividindo o trabalho na estrada, bem como as previsões de conclusão da mesma. Dentre as informações deixadas por ele, vale citar o emprego de “1672 jornaes d’escravos” para cumprir a primeira seção da estrada, que partia de sua fazenda Vitória. Cita ainda o emprego de 65 dos seus escravos nos serviços da terceira seção da estrada que, não por acaso, compreendia a área entre Mutucugê e Ferradas, ou seja: Tabocas. Isso demonstra o interesse particular em manter a estrada bem conservada, naquela região específica.
Observamos, mais uma vez, o caráter de fluidez da fronteira social que permeava aquela região e seu processo histórico de conquista e colonização, no qual atuavam religiosos, autoridades
governamentais, colonos, índios aldeados e escravos 64, pois a 3ª seção da estrada, que compreendia a região de Cachoeira de Itabuna (Tabocas), estava sendo mantida pelo trabalho em comum dos índios aldeados da região e dos escravos de Steiger.
Dissertar sobre a relevância do trabalho indígena na estrada para garantir o êxito da política imperial na região de Cachoeira de Itabuna, bem como sobre a utilização de sua mão de obra na pacificação territorial se mostra relevante, pois permite perceber como o sul da Bahia se beneficiava da política indigenista para fins de colonização, durante o século XIX. Além disso, a manutenção dos aldeamentos e da estrada justificava a contínua solicitação de recursos por parte do governo local ao governo provincial. Eram esses recursos que muitas vezes garantiam a autonomia administrativa da vila.
Entretanto, procuraremos demonstrar a atuação dos homens e mulheres em “situação de aldeamento” de Ferradas em outros postos de trabalho, tais como os trabalhos de fabricação de canoas e na navegação e, especialmente, nas fazendas e na lavoura de cacau. Tal abordagem permite vislumbrar a importância dos índios no processo de desenvolvimento econômico daquela região e, em algumas ocasiões, a sua capacidade de negociar a própria mão de obra.
Em correspondência não assinada pelo remetente, de 04 de agosto de 1849, enviada à presidência da província, informando sobre requerimento de índios “botocudos”, encontramos a seguinte informação:
Disem os Botocudos moradores nas margens do Rio Pardo, e suas
adjacências que desejando elles supplicantes de se reunirem na sua
primitiva terra situada entre o riacho Catulé, e o de S. Pedro, e alli na beira
do mesmo rio formarem a sua aldea, a coadjuvarem com sustento, e braços
as canoeiras da importantíssima navegação do Rio Pardo65.
Assim como a estrada, a navegação dos rios que compreendiam o sul da Bahia era de fundamental importância para a mobilidade de pessoas e o escoamento de produtos naquele processo de colonização. Nesse contexto, o transporte por meio de canoas era uma atividade importante, e os indígenas, habitantes daquelas paragens, sabiam perfeitamente a relevância da sua mão de obra especializada em fabricar canoas e em servir como navegadores nos rios.
No fragmento citado, observamos claramente a negociação proposta pelos botocudos. Em troca de se estabelecerem em terras que lhes pertenciam historicamente, ofereciam ao colonizador serviços indispensáveis que eles sabiam fazer melhor do que ninguém: construir canoas e trafegar os rios que eles conheciam perfeitamente bem e não raramente tornavam navegáveis. Em 05 de dezembro de 1850, a inspetoria da tesouraria provincial enviou à presidência da província o requerimento de frei Vicente Maria de Ascoli, diretor de São Pedro de Alcântara. Registrava-se “que em vista dos serviços prestados ao Ex. governo pelos índios da sua aldeia tanto para fazer navegável o Rio Caxoeira do ponto chamado Mutucugê até as Ferradas; abrindo treis legoas; como em marcar a
estrada de comunicação entre a Villa da Victoria, e a dos Ilheos” 66, seria por bem que a presidência lhe mandasse fornecer ferramentas de trabalho, roupas, chumbo e pólvora.
Essas observações feitas acerca da documentação disponível são imprescindíveis para percebermos como de fato se dava a relação entre aqueles dois mundos, o do colonizador, que se utilizava da mão de obra indígena para tornar possível o projeto de expansão dos limites da província, e o do indígena, “em situação de aldeamento” ou não, que sabia a hora de negociar com os colonizadores para fazer valer seus interesses naquele processo. Sendo assim, concordamos com Marcelo Henrique Dias, que em seus estudos sobre os aldeamentos coloniais jesuíticos, na capitania de Ilhéus, destaca a proeminência do trabalho indígena, em contraponto a uma historiografia que prefere insistir no poder de “devastação” Aimoré. Segundo as palavras do autor:
De modo geral, a historiografia que direta ou indiretamente trata da capitania
de Ilhéus tem colocado suas populações indígenas, sobretudo aimorés e
pataxós, na qualidade de principais obstáculos ao desenvolvimento de sua
colonização. Já no final do primeiro século da colonização, os aimorés teriam
arrasado os engenhos da vila de São Jorge e condenado a mesma a uma
decadência que se estenderia até o século XIX.67
Os indígenas habitantes do sul da Bahia, no século XIX, também aparecem como entraves ao processo “civilizador”, sobretudo na escrita memorialista regional, a exemplo das obras memorialistas de Oscar Ribeiro Gonçalves e José Dantas de Andrade, para quem os índios se configuravam em obstáculos que os “pioneiros” tratariam
de superar68. Tal descrição, contudo, em nada é compatível com as informações colhidas nos arquivos, pois o que acontecia na prática das relações ali estabelecidas era um processo de luta de interesses, complexo o suficiente para pugnarmos a assertiva de que o índio era apenas um obstáculo a ser vencido. Afinal, se é verdade que os índios podiam resistir e até mesmo destruir fazendas, criações e vidas, não é menos certo que, quando aldeados, frequentemente serviam aos propósitos da colonização.
Na correspondência de 11 de março de 1849, ao presidente da província Franco Galvão Martino, o juiz municipal substituto da Vila de Ilhéus, Christiano Manoel de Sá Belsamara, são mencionados os prejuízos de se fazer uma nova missão nas proximidades de Ferradas. Para ele, isso significava a perda da mão de obra indígena para trabalhar nas áreas rurais do município de Ilhéus:
Tenho a saptisfação em comunicar a V. Exª, que o Padre Frei Vicente
Micionario das Ferradas, accaba de fazer um mui importante serviço a este
Municipio. A estrada de comunicação para os Certões achava-se
intransitável por diversos attentados praticados pelos índios Camacans,
como sejão intrepes para offensa dos passageiros, attaques as fazendas
cituadas na mesma estrada, mortes de animais e mesmo de indivíduos. Frei
Vicente ciente destas noticias posse a marcha, acompanhado de frei
Joaquim de Colorno, leigo, de um língua, e dois guias; e depois de muitos
dias […] alcansou os Camacans reprehedeu seus crimes, e redusio 62 a
virem aldeiarem-se nas Ferradas. […] encontrei aqui Frei Ludovico com outro
frade, que marcharão em direção ao centro dos Certões, hindo pelo Rio
Pardo, para estabellecerem uma misção, de que tomará conta o dito frade.
[…] eu a julgo inteiramente opposta aos intereces d’este Municipio, pois que
vai roubar lhe grande número de braços livres, que podem cultivar seus
terrenos. Frei Vicente […], pode em pouco tempo com a pretensão de V. Exª,
domesticar os Camacans, sem ser precisa outra Missão […].69
O juiz segue o seu relato observando que, quando chegou frei Vicente a Ferradas, com os índios, frei Ludovico os esperava para transferi-los para uma área próxima ao rio Pardo, onde instalaria outro aldeamento com os mencionados Camacãs. Em tom de protesto, o juiz substituto de Ilhéus defendia que os Camacãs deveriam ficar em Ferradas. Para ele, assim como frei Vicente havia conseguido convencer aqueles Camacãs a aldearem-se, poderia igualmente aldear outros camacãs em Ferradas, com a ajuda financeira do governo provincial. O juiz lembra ao Presidente Franco Galvão que frei Ludovico “nunca pôde amansar os Camacans, e
[desce-los] a aldeiaremse”70. Belsamara apelava para o prejuízo que representaria, para Ilhéus, a retirada dos índios camacãs, pois se tratava de mão de obra livre (em termos jurídicos) que poderia cultivar as fazendas instaladas na região. O documento não deixa pistas evidentes sobre a posição dos camacãs nessa contenda, mas a tensão emergida daquele episódio permite inferir a possibilidade de considerar que os próprios camacãs se recusavam a ficar em Ferradas, pois Belsamara lembrou a sua resistência a aldearem-se no tempo em que Ludovico havia sido diretor da aldeia de Ferradas.
Portanto, nas relações estabelecidas no processo do contato e instalação de aldeamentos na região sul da Bahia, é interessante notar, conforme permite observar o documento, que o local de fundação de um aldeamento nem sempre era escolhido à revelia dos índios. O documento indica suas interferências nesse processo, no qual os colonizadores, muitas vezes, tinham que negociar com eles o local de funcionamento de um novo aldeamento. Isso demonstra claramente que os índios tinham seus próprios interesses quando da sua inserção em um aldeamento.
Um dos aspectos latentes emergidos da fala de Belsamara, nesse documento, diz respeito à influência político-administrativa de frei Ludovico em toda a região, visto que o frei atua no episódio com plena autoridade sobre os aldeados de Ferradas, embora não fosse seu administrador oficial. Ao que tudo indica, sua atuação na região, por mais de três décadas, lhe conferiu poder de articulação política, legitimando-o como um dos principais interlocutores dos interesses tanto do governo quanto de particulares naquela parte do sul da Bahia.
A decisão de Ludovico, de transferir os indígenas de Ferradas para a região do rio Pardo, incomodou as autoridades locais, a ponto de Belsamara protestar ao presidente da província com uma queixa contra o frade. Isso abre uma janela para as disputas por mão de obra indígena da época, bem como para o lugar político ocupado por frei Ludovico, que aparece como o principal administrador e distribuidor do trabalho dos homens e mulheres em “situação de aldeamento” na região.
Outro exemplo da administração do trabalho dos índios aldeados do sul da Bahia por parte dos capuchinhos e, de certa forma, da pedagogia de catequese utilizada por eles, que estava calcada em grande medida, em moldá-los ao trabalho, é o ofício do Frei Rainero de Ovada, de 1852, no seu exercício de diretor da aldeia de Catolé:
Sobre a petição de fr. Rainero de Ovada, missionário dos índios Mongoiós de
Catulés, na qual requer a diária de 500$ para um indivíduo que o ajuda
incessantemente na direção dos trabalhos agrícolas a que precisa acostumar
os índios e na catequese, ensino da doutrina cristã só há de aparecer que é
muito necessário esse ajudante e que sirva principalmente de feitor para os
trabalhos do campo nos quais os índios que são muito indolentes e não
prosperam senão aguilhoados por um feitor que não os deixe nem por um
momento durante o serviço71.
Acerca do trabalho dos aldeados de Ferradas nos serviços dos particulares da região, assinalemos algumas observações possíveis a partir do artigo do francês H. Perret, intitulado “Aldeia do Bom Padre”, publicado no jornal O Crepúsculo durante o ano de 1846:
Os indígenas que naquelles contornos residem procedem de tribus diversas;
ha entre elles muitos Camacans, mormente nas imediações de Ermo-nobre,
bella plantação de cacao do Sr. Weyll, porém estes já se achão civilisados de
todo, principalmente as mulheres: os d’entre elles que são mais laboriosos
podem ser utilmente empregados nas roçadas, e na extração de madeiras, e
aquelles que pelas matas errão, não deixam de offerecer algum recurso aos
fazendeiros, por apparecerem de vez em quando com abundante caça, que
trocão por algumas bebidas espirituosas: alli a caxaça he a moeda
corrente 72.
Pedro Weyll era o alemão que outrora havia estado à frente da tentativa de formação da colônia de alemães denominada Colônia de São Jorge da Cachoeira de Itabuna, às margens do Rio Cachoeira, assunto do qual já tratamos no capítulo anterior. A documentação demonstra que Weyll não desistiu de fazer vingar os seus empreendimentos na região, visto que, na década de 1840, ele estava instalado na região do Almada, localidade denominada de Ermo-Nobre, com fazenda de cacau. Na fazenda do estrangeiro, os Camacãs descritos como já totalmente civilizados, supomos serem os Camacãs de Ferradas, tendo em vista a sequência do registro:
[…] Vimo-nos portanto na precisão de ir com a nossa canoa até o porto das
Bananeiras, onde saltamos, afim de nos dirigirmos por terra à um ponto do
mesmo rio, situado acima da cachoeira em que outra canoa nos esperava
para nos conduzir a Ermo-nobre. Tanto neste lugar, como em Castelo-novo,
recebemos o mais cordial acolhimento dos Srs. Pedro Weyll e Scola.
Admiramos a plantação de cacao do primeiro, e os melhoramentos que o
Engenho de assucar devia já ao segundo […]. Os Indios Camacans que lá
vimos, e o elogio que se nos fez d’aquelles que residião nas Ferradas, muito
augmentaram a impaciência que tínhamos, de visitar a aldeia fundada, há
mais de trinta anos, nas margens do rio Cachoeira 73.
Os fragmentos citados acima confirmam a participação direta que tiveram os aldeados de São Pedro de Alcântara na implantação e manutenção do cultivo do cacau nas fazendas da região sul da Bahia. Atuavam não apenas em Cachoeira de Itabuna, visto que o registro atesta a participação deles nas fazendas da região do rio Almada. Ermo Nobre e Castelo Novo foram núcleos agrícolas importantes em Ilhéus do século XIX, que se converteram em núcleos de povoamento, posteriormente. Aqueles estrangeiros, para quem os camacãs trabalhavam, se constituíram nas famílias mais ricas da região, responsáveis, em grande medida, pelos rumos políticos e econômicos de Ilhéus e Itabuna no início do século XX. A exemplo dessas famílias, mencionamos os Lavigne, que também se utilizavam do trabalho dos aldeados de Ferradas:
[…] eis-nos de novo na Esperança, e já os nossos amigos Level e Roberto
Lavigne preparão os cavallos que devem transportarnos às Ferradas […].
Quando os nossos amigos naquelle lugar se estabelecerão, já havia annos
que o Rev. Ludovico se achava nos bosques, tinha dado principio à
civilização dos Camacans, e fundado a Aldeia de S. Pedro d’Alcântara, ou
Ferradas, como costumão chama-la. Aquelles Indios forão diversas vezes
empregados, e com vantagem, nas obras executadas pelos novos habitantes
da Esperança, que sempre achavão nelles zelo, e fidelidade, porque também
da sua parte cumprirão com exatidão as promessas feitas àquelles bons
indígenas; o que, seja dito entre parenthesis, nem sempre acontece, e eis a
causa principal da repugnância que a mor parte dos Indios mostrão para o
trabalho 74.
Nota-se, portanto, o interesse dos colonos estrangeiros nas terras do sul da Bahia, bem como o largo uso do trabalho dos indígenas de Ferradas em suas fazendas. O último fragmento citado nos permite supor pelo menos três aspectos importantes da relação entre ocupação territorial e trabalho indígena, no sul da Bahia, quais sejam: primeiro, os Lavigne se estabeleceram ali quando o aldeamento São Pedro de Alcântara já atuava na região, demonstrando, mais uma vez, que o aldeamento funcionava estrategicamente para garantir o sucesso da colonização; segundo, manifestação do avultado uso do trabalho dos aldeados de Ferradas nas fazendas instaladas não apenas em Cachoeira de Itabuna, mas em grande parte da região; terceiro, podemos observar, ainda que superficialmente, como se dava a relação de trabalho entre índios e fazendeiros.
Perret afirma que os índios de São Pedro de Alcântara haviam sido empregados muitas vezes nos trabalhos da fazenda Esperança e, “com vantagem”. Ele também elogia os Lavigne por cumprirem as promessas feitas aos índios e menciona o histórico de exploração indevida do trabalho deles por outros moradores. O documento não evidencia como se dava a negociação de trabalho entre os Lavigne e os aldeados de Ferradas, no entanto, fica claro que eles faziam acordos com os índios, como fica explícita, também, uma realidade de exploração em moldes compulsórios do trabalho dos aldeados por parte dos fazendeiros da região.
No conjunto das correspondências analisadas, notamos que quando os índios eram pagos pelo trabalho público realizado, o eram em roupas, ferramentas agrícolas, dentre outros bens de consumo, como no caso em que o frei Vicente Maria de Ascoli solicitou ao presidente da Província, que disponibilizasse ferramentas de trabalho, roupas, pólvora e chumbo em vista dos serviços prestados pelos aldeados na estrada e na desobstrução
dos rios75. Contudo, também existia a possibilidade da coerção e castigo físico, como podemos observar na correspondência do frei Rainero de Ovada, citada anteriormente, na qual ele solicitava um feitor para ajudá-lo a obrigar os índios ao trabalho. Além disso,
Perret menciona que “alli a caxaça he a moeda corrente”76. Também Maria Hilda Paraíso, em seu estudo, menciona que Peter Weyl [Pedro Weyll] se utilizava do trabalho dos índios remanescentes do
antigo aldeamento do Almada em troca de cachaça 77. Em outras palavras, naquela realidade, certa abertura para a negociação do trabalho indígena era tão possível quanto a sua exploração de forma compulsória, não remunerada e forçada.
Em contrapartida, podemos observar que os índios não aceitavam a exploração do seu trabalho de forma passiva. Podemos notar, nas palavras de Perret, que a mencionada preocupação daqueles fazendeiros em cumprir os acordos estabelecidos (embora seja bem provável que o contradito fosse verdadeiro), perdurava, porque, caso contrário eles não teriam a mão de obra dos aldeados à sua disposição, pois, como Perret mesmo lembra, muitas vezes os índios se negavam a trabalhar para os fazendeiros.
O testemunho da documentação compulsada para esta pesquisa, que desenha claramente os índios como trabalhadores das roças de cacau, contradiz o que Mahony afirma sobre a ausência do trabalho indígena na lavoura do cacau no sul da Bahia, durante o século XIX. Mais preocupada em demonstrar a relevância da mão de obra escrava na lavoura cacaueira, a autora afirma que os indígenas, naquele momento, assim como no período colonial, não se
ocuparam muito dos trabalhos nas fazendas78. Do nosso ponto de vista, a assertiva de Mary Mahony confirma, sem explorar as complexidades da questão, o que é recorrentemente veiculado na historiografia e já foi criticado por Dias: a “tão propagada
incompatibilidade cultural dos índios com o trabalho sistemático”79. Ao invés disso, o autor afirma que os aldeamentos “constituíram-se como parte integrante de um sistema produtivo muito original que se desenvolveu na capitania, o qual articulava à agricultura de gêneros alimentícios, sobretudo da mandioca para farinha, a extração e
beneficiamento de uma gama de produtos vegetais”, 80 produtos esses importantes para o mercado interno da região:
[…] as madeiras de lei destinadas à construção naval e civil do Reino e de
Salvador; a manufatura de produtos de extração local, como estopas de
embiras e cabos de piaçava usados na navegação, na construção naval e
nos arrastos de toras de madeira nas áreas de corte; a extração das cascas
de mangue para serem usadas nos curtumes que processavam os couros
usados nas embalagens de tabaco que seguia para a África; a manufatura
de caixas de taboado para exportação do açúcar; e o artesanato com
coquilhos, casco de tartaruga etc81.
A preocupação de Marcelo Dias em observar a participação indígena no comércio da Capitania de Ilhéus, tecendo suas ponderações sobre a relevância do trabalho dos aldeamentos jesuíticos em “atividades produtivas agrícolas, extrativistas e
artesanais” 82, de forma a azeitar o comércio entre a Capitania e o Recôncavo, bem como seus questionamentos acerca de uma assertiva da produção indígena apenas para subsistência no espaço do aldeamento, abre uma janela para pensarmos a atuação indígena aldeada do século XIX na dinâmica da economia regional.
Da mesma forma, as ideias de Stuart Schwartz acerca do reconhecimento do trabalho indígena nos anos coloniais na Bahia, que analisa o uso da mão de obra indígena ao lado do trabalho escravo nos engenhos, iluminam nosso interesse em pensar o trabalho indígena durante os anos imperiais. Schwartz analisa o acesso ao trabalho indígena nos primeiros tempos da colonização com a implantação da “grande lavoura” e que perduraria de diferentes formas por grande parte do período colonial. Nesse sentido, o autor destaca três estratégias estabelecidas para o emprego da mão de obra indígena na lavoura dos engenhos de açúcar: a escravização; a tentativa de “criação de um campesinato indígena” implementada por ordens religiosas, sobretudo a dos jesuítas; por último, o esforço de tornar os índios trabalhadores
assalariados 83. Schwartz salienta que “nos engenhos baianos, a escravidão, o trabalho dos índios das aldeias jesuíticas, o escambo
e o assalariamento existiram simultaneamente” 84. Isso significa dizer que, para Schwartz, a interação indígena com o mundo colonial permanecia, por meio de diferentes estratégias de uso da sua mão de obra, mesmo após a substituição do trabalho indígena pela mão de obra escrava africana na lavoura do açúcar.
John Monteiro não só revisa a ideia simplista disseminada pela historiografia, de que o trabalho escravo dos índios teria papel transitório e secundário, como demonstra que a colonização de São Paulo desenvolveu e procurou “garantir a preservação de uma
forma muito particular de escravidão” 85. Para o autor, o desafio era explicar “por que e como” a escravidão indígena norteou as práticas escravagistas e se configurou como a “forma de produção
predominante” em São Paulo86. Em seu estudo, o papel das populações indígenas ocupa lugar central para pensar a organização da economia colonial paulista, processo “no qual diversas e distintas sociedades indígenas ficaram subordinadas a uma estrutura elaborada visando controlar e explorar a mão de obra
indígena”87. Celestino de Almeida corrobora as asserções de Schwartz e Monteiro acerca da importância de se repensar o trabalho indígena no período colonial. A autora observa que, diferente da ideia de que o trabalho indígena tenha sido usado de forma transicional, no Rio de Janeiro, a mão de obra indígena teve papel fundamental “nos dois primeiros séculos da colonização” e
funcionou ao lado do trabalho escravo africano88.
Monteiro observa um duplo movimento no panorama econômico do século XVII. Ele infere que, nesse século, com a ascensão da economia açucareira nas capitanias da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro e subsequente crescimento da população, houve escassez de produtos de abastecimento para as zonas produtoras do açúcar, de forma que ficou a cargo das zonas não produtoras do açúcar suprir esse espaço. Desse modo, o autor frisa que São Paulo, o sul da Bahia, Espírito Santo e Maranhão foram responsáveis pelo abastecimento de produtos agrícolas num “circuito comercial intercapitanias”. Em consequência disso, outro movimento se
evidencia: a intensificação do recrutamento do trabalho indígena 89.
Nessa perspectiva, Marcelo Dias sustenta a tese de que a capitania de Ilhéus tinha uma característica peculiar, atendendo a uma dinâmica de produção que garantisse o abastecimento do mercado interno. Discorda da tese de “falência da Capitania” pelo fato de ela não se enquadrar no modelo colonial de produção
açucareira 90 e considera a participação indígena da Capitania em outras frentes de organização do trabalho. O autor privilegia a análise do trabalho dos aldeamentos jesuíticos em atividades produtivas integradas “ao sistema econômico que envolvia a
Capitania como um todo, o qual, longe de ser insignificante”91, apenas destoava da predominância da economia do açúcar observada em outras capitanias da Colônia.
As observações de Schwarcz, Monteiro, Almeida e Dias demonstram as complexas relações e interações dos colonizadores com as populações indígenas e o uso de sua mão de obra durante o período colonial. Para a realidade do sul da Bahia oitocentista, observamos, na documentação compulsada e analisada, uma dinâmica de uso do trabalho indígena aldeado que os coloca no centro da configuração regional de emergência da lavoura do cacau. Ou seja, os índios de Ferradas desenvolviam atividades de agricultura no próprio aldeamento; plantavam o milho, o arroz, a mandioca, o algodão, o café, dentre outros produtos agrícolas, mas também atuavam na lavoura cacaueira de forma direta e indireta.
Ainda não podemos discutir de forma aprofundada as condições de trabalho dos indígenas nas fazendas de cacau, durante o século XIX, visto que a documentação em uso nos fornece pistas muito frágeis com relação a essa realidade. Contudo, lembramos que o regulamento de 1845, através do processo catequético nos aldeamentos, visava transformar os índios em trabalhadores, seguindo as premissas do Diretório Pombalino. O Decreto que abolia o Diretório Pombalino garantia a permanência do caráter “permissivo do recrutamento compulsório de índios para o trabalho
público e particular”.92 Sendo assim, os direcionamentos para o trabalho indígena, na região sul da Bahia, conforme permite observar a documentação, estavam embutidos nas práticas de uso compulsório, não remunerado ou forçado do trabalho das populações indígenas aldeadas.
Portanto, não podemos inferir com clareza as relações de trabalho estabelecidas naquele processo, mas vale ressaltar que a documentação faz supor a importância das populações indígenas do sul da Bahia no processo de implantação e consolidação da lavoura do cacau na região, pois, foi com o trabalho direto e indireto dos índios que a lavoura de cacau foi implantada na região sul da Bahia e também foi por meio do auxílio deles que a região se transformou, pouco depois, em um dos maiores expoentes do cultivo e da exportação do cacau, ao final do século XIX e início do século XX. Buscando sustentar nossa argumentação, retomamos a fala presidencial de João Maurício Wanderley. Na abertura da Assembleia Legislativa, no dia 1º de março de 1853, o presidente se pronuncia sobre os aldeamentos existentes na Província da Bahia, e destaca que:
[…] o principal e mais importante destes aldeamentos he o de São Pedro d’
Alcântara, situado à margem septentrional do rio Cachoeira, 12 legoas acima
da Villa de Ilhéos […], tem hoje por missionário e director Fr. Vicente de
Ascolis, dotado de muita energia que tem chamado os índios ao trabalho
com perseverança, fazendo-os plantar mais de vinte mil pés de café e
vinte mil de cacao, e produzir farinha, arroz e feijão bastante para
alimentação das 38 famílias da tribu Camacan, que ali há […], o que prova
que esta aldea prospera (Grifo nosso) 93.
O fragmento citado é revelador da atuação dos homens e mulheres em “situação de aldeamento” em São Pedro de Alcântara. O documento atesta que o aldeamento participava ativamente da lavoura do cacau como produtor de significativa quantidade de pés de cacau e café. Nem no período colonial, como demonstrou Dias, nem em Ferradas o trabalho agrícola dos índios reduziu-se à produção destinada apenas para o atendimento da própria
subsistência94.
A documentação nada diz, contudo, sobre o que era feito com o cacau e o café plantados pelos índios, especialmente sobre como eram administrados os lucros e quem, efetivamente, beneficiava-se e usufruía dos rendimentos. A questão é importante porque, em avaliação sobre a dimensão da plantação de cacau na região sul da Bahia para a década de 1880, Mahony pontua que as plantações grandes, que depois se configurariam nas fazendas dos homens mais ricos da região, compreendiam um total de 100 mil ou mais pés de cacau; e as plantações intermediárias compreendiam de 5 a 10
mil pés de cacau95. Desse modo, uma plantação de 20 mil pés de cacau, quando a média de uma propriedade intermediária correspondia, no final do século, à metade do que existia no Aldeamento São Pedro de Alcântara, já na década de 1850, nos permite afirmar que a produção de cacau no aldeamento era bastante significativa, inserindo os índios na dinâmica da economia da região.
Se recuperarmos o envolvimento e interesse pessoal de Balthazar da Silva Lisboa na instalação do Aldeamento de Ferradas, demonstrado no II capítulo, podemos inferir que não era apenas a mão de obra indígena, administrada para atender aos interesses dos fazendeiros locais, que despertava o interesse dos moradores, mas aventamos que o próprio aldeamento suscitava o interesse empreendedor dos particulares.
Nesse curso dos acontecimentos, a expressiva produção de cacau do Aldeamento São Pedro de Alcântara demonstra que os índios não só estavam ocupados em cultivar cacau nas terras dos colonos, como também nas terras do próprio aldeamento. Sendo assim, algumas questões são suscitadas: em que medida os aldeados participavam da receita gerada pelo cacau produzido no perímetro do aldeamento, produto que na década de 1850, já era exportado? Quem lucrava? Algum benefício ficava com os índios ou com o aldeamento? Como atuavam os índios, o governo e os capuchinhos, nesse processo? Não podemos tecer as possíveis respostas apenas a partir da documentação utilizada no estudo até aqui desenvolvido. Essas são elucubrações a serem exploradas, mas que não encontram respostas satisfatórias na documentação compulsada para realizar este estudo. No entanto, nossa documentação deixa clara a teia de relações estabelecidas entre índios e não índios no contexto do trabalho na lavoura do cacau, no sul da Bahia, durante o século XIX.
Não é nossa intenção afirmar que os Camacãs e os Guerens de Ferradas e os homens e as mulheres dos demais aldeamentos do sul da Bahia foram a mão de obra motriz para a lavoura do cacau em ascensão; tampouco que tenham fundado latifúndios do cacau. Nosso objetivo foi outro: demonstrar a atuação dos indígenas de Ferradas como agentes de um processo histórico complexo e multifacetado, que lhes impôs o ônus da conquista e muitas perdas e transformações sociais e culturais, mas certamente, também possibilidades de elaborar novas estratégias e de reconfigurar suas vidas dentro de um novo mundo.
Os aldeados de Ferradas atuaram na conformação da região sul da Bahia enquanto “região cacaueira”, ao lado de outros sujeitos sociais, e a nova configuração econômica regional refletia os interesses políticos e sociais para a região. Considerar a proeminência do trabalho indígena nos serviços da estrada Ilhéus-Conquista, bem como no plantio da lavoura do cacau é imperioso para perceber o funcionamento das estratégias políticas e administrativas indigenistas, com vistas a garantir, através do processo de territorialização dos índios em aldeamentos, a exploração do trabalho das populações indígenas para o êxito do projeto imperial naquela parte do sul da Bahia, durante o século XIX. No entanto, é importante reconhecer a participação deles no processo de cultivo da lavoura do cacau, como mão de obra e como protagonistas de sua experiência histórica.