Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia

Capítulo I - Nem tudo era sergipano: a escrita do mito pioneiro e a invisibilização indígena nas origens de Itabuna

Capítulo I - Nem tudo era

 

sergipano: a escrita do mito

 

pioneiro e a invisibilização

 

indígena nas origens de

 

Itabuna

 

No capítulo em questão, a proposta não é opor história e memória, mas tecer algumas observações acerca das operações concernentes a uma e a outra, especialmente no processo de construção da memória de origem de Itabuna, realizada por parte da elite política e intelectual da década de 1960, que evocou exclusivamente o pioneirismo dos seus antepassados, os migrantes sergipanos, para explicar o surgimento da cidade. Frisamos a possibilidade de escrituração de outras narrativas acerca da história e historicidade das origens de Itabuna; e propomos, nos capítulos seguintes, uma interpretação da história do sul da Bahia que abrigue os índios e as complexidades inerentes ao encontro dos diferentes atores no processo da colonização sul baiana.

Neste capítulo, recorreremos ao conceito de “representação”, tal como discutido por Sandra Pesavento, em História e história cultural, a partir de seu diálogo com Marcel Mauss e Émile

Durkheim 1. Nossa proposta é analisar a escrita memorialista de Itabuna como processo de construção da representação identitária sergipana, no qual se opera uma ausência proposital de outros atores sociais nas origens da cidade, para supervalorizar a figura dos sergipanos como pioneiros do progresso regional.

Analisaremos a narrativa memorialista sob a perspectiva discursiva, nos termos de Foucault, porque, nos jogos de representação foi construída, para Itabuna, uma identidade sergipana; e transformada, essa narrativa, em mito, pelos usos da

memória.2 Nesses termos, entendemos que “um mito não é necessariamente uma história falsa ou inventada; é, isso sim, uma história que se torna significativa na medida em que amplia o significado de um acontecimento individual (factual ou não), transformando-o na formalização, simbólica e narrativa, das autorrepresentações partilhadas por uma cultura [ou por um grupo]”

3 .

Entendemos que o conceito de discurso, presente em nosso estudo, dialoga, sem problema algum, com o conceito de representação, pois no jogo das representações da escrita da memória, as escolhas são construídas por práticas discursivas. A produção discursiva, para Foucault, envolve procedimentos de exclusão; ela “é ao mesmo tempo controlada, selecionada,

organizada e redistribuída”4. Nesse sentido, o autor nos apresenta três procedimentos de exclusão da produção discursiva: a interdição, a separação e a vontade de verdade. É à última que Foucault dá maior atenção. Nossa intenção é refletir sobre o desejo de dizer o verdadeiro incutido no discurso da escrita da memória de Itabuna. Vale ressaltar que, para Foucault, o discurso não é uma vontade de poder: ele é poder. Nas palavras do autor, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta o poder do qual nos

queremos apoderar”. 5

Sendo assim, na construção da narrativa memorialista itabunense, quem detém a hegemonia da construção da memória também detém o poder de narrar a história das origens da cidade evidenciando a presença e a atuação dos antepassados sergipanos em detrimento de outros sujeitos, que desaparecem nessa narrativa. Em consequência disso, o discurso memorialista legitima o poder social e político dos herdeiros do cacau, diante da sociedade itabunense. Dessa forma, a construção de uma memória sergipana e a obliteração do índio, invisibilizado na narrativa, constituem-se no objeto de estudo deste capítulo.