Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
Capítulo IV - Os fluxos de encontros na fronteira oitocentista em Cachoeira de Itabuna
Capítulo IV - Os fluxos de
encontros na fronteira
oitocentista em Cachoeira de
Itabuna
Neste capítulo, o objetivo central é analisar as relações estabelecidas entre os diferentes atores no processo da colonização oitocentista em Ferradas e Cachoeira de Itabuna. Esse interesse tem a ver com a inquietação acerca de considerar como agiam aqueles sujeitos históricos e com a preocupação em não construir uma narrativa na qual os índios de Ferradas apareçam apenas como força de trabalho explorada. Temos clareza de que sua atuação como mão de obra diz muito da trajetória histórica deles. Mas considerá-los, apenas, como força de trabalho traz a incômoda sensação de que sua atuação é somente determinada pelos interesses do colonizador e que eles não vislumbravam interesses próprios. Em poucas palavras, neste capítulo nosso interesse é desconstruir a imagem de que os índios eram passivos trabalhadores do governo imperial.
Em Ferradas, tanto os Camacans e Guerens aldeados quanto os Camacans, Botocudos e Pataxós não aldeados, habitantes da região, participaram do processo da colonização de forma dinâmica. A ideia é apresentá-los e evidenciá-los se transformando na história da colonização sul baiana, durante o XIX. O processo deve ser observado enquanto uma teia, um emaranhado de conflitos e negociações, resultantes do encontro dos diferentes atores e grupos sociais naquela parte do sul da Bahia.
Nesse sentido, são direcionadoras para o nosso trabalho as reflexões de John Monteiro e Celestino de Almeida, pois ambos os autores fazem uma leitura etno-histórica da realidade social, em que os índios em situação de contato são vistos construindo e reelaborando suas identidades.
Monteiro critica a “crônica da destruição dos índios”, presente na historiografia. Ele toma como exemplo as reflexões de Florestan Fernandes, para quem os Tupinambás, em Pernambuco, teriam mantido sua coesão tribal através da migração, pois a prática
migratória os livraria do impacto da colonização 1. John Monteiro salienta, contudo, a emergência de outras leituras possíveis para pensar a atuação indígena no mundo colonial. Para Monteiro, o viés da etno-história permite interpretações nas quais o impacto colonial “não se resume apenas na dizimação de populações e na
destruição de sociedades indígenas” 2. Ao contrário disso, as novas leituras da relação entre populações indígenas e o mundo da colonização fazem emergir “diferentes formas de sociedades nativas
após o contato ou a conquista”.3
Nos processos de etnogênese – entendido como “as novas configurações étnicas e sociopolíticas” emergidas na situação do contato – se dá a possibilidade de construção de uma nova chave de compreensão das relações interétnicas, que envolve a “colaboração” e a negociação entre os atores no mundo da colonização. Como bem observa John Monteiro, para aquela realidade, “O envolvimento em guerras coloniais, em rivalidades intraeuropeias ou no crescente tráfico de cativos indígenas mostrou-se uma importante estratégia para vários grupos que buscaram resguardar a sua autonomia, paradoxalmente através desta
‘colaboração’” 4.
O movimento de ressocialização das populações indígenas nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro, estudado por Maria Regina Celestino de Almeida, exemplifica muito bem os resultados de uma historiografia envolvida em analisar os índios se transformando na história do pós-contato. Nos termos da autora, se metamorfoseando. Almeida ressalta que o ingresso nos aldeamentos coloniais impunha aos índios um processo de perdas e mudanças, que dizia respeito, entre outros aspectos, à terra, ao trabalho e às práticas culturais. Contudo, através da leitura etno-política, a autora concebe a atuação política dos índios das aldeias coloniais e os percebe reelaborando e construindo suas identidades. Nesse processo, a ideia de cultura não passa por algo dado a priori ou essencial. Ao contrário disso,