Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia

1.4 O jogo de lembrar e esquecer: o afastamento de Ferradas na escrita da memória de Itabuna

1.4 O jogo de lembrar e esquecer: o

 

afastamento de Ferradas na escrita da

 

memória de Itabuna

 

Paul Ricoeur, em A memória, a história, o esquecimento, tece algumas importantes observações acerca da relação entre memória e esquecimento, que são norteadoras para as reflexões propostas neste tópico do capítulo. Desse modo, elencaremos algumas de suas contribuições a partir de duas categorias da memória que ele denomina de “memória impedida” e “memória manipulada”.

Paul Ricoeur trabalha com a categoria de “memória impedida” para tratar do esquecimento da memória. Para tanto, ele estabelece um diálogo direto com a psicanálise. Ressalta a tese freudiana de que “o paciente repete, ao invés de se lembrar. Ao invés de: a

repetição vale esquecimento”57. Segundo Ricoeur, a primeira lição dada pelos psicanalistas é a de que “o trauma permanece mesmo quando inacessível, indisponível. No seu lugar surgem fenômenos de substituição, sintomas que mascaram o retorno do recalcado de

modos diversos” 58.

Para Ricoeur, “o esquecimento de impressões e de acontecimentos vivenciados […] e o esquecimento de projetos que equivalem à omissão, à negligência seletiva, revelam um lado

ardiloso do inconsciente colocado em postura defensiva”;59 ele ressalta que as manifestações individuais e coletivas do

esquecimento estão misturadas de forma inextricável60, e pontua que é na memória coletiva que o esquecimento produz os efeitos mais nocivos. Nas palavras do autor, “esquecimento, lembranças encobridoras, atos falhos assumem, na memória coletiva, proporções gigantescas, que apenas a história e, mais

precisamente, a história da memória é capaz de trazer à luz”.61

A segunda categoria da memória trabalhada por Ricoeur é a da “memória manipulada”. Segundo ele, a manipulação da memória se

dá por via ideológica, pela mediação da narrativa 62. O autor ressalta que é impossível lembrar tudo, assim como é impossível narrar tudo. Aqui, esquecimento e narrativa da memória caminham juntos. E em se tratando da ideologização da memória, Ricoeur frisa ser ela possibilitada pela variação do trabalho da configuração narrativa, ou seja, pelo modo como o narrador irá compor ou delinear a sua narrativa, pois “pode-se sempre narrar de outro modo, suprimindo, deslocando ênfases, refigurando diferentemente os protagonistas da

ação assim como os contornos dela”.63 É nesse jogo do esquecimento da memória que tentaremos identificar os meandros da invisibilização dos índios de Ferradas. À medida que se opera, na narrativa, o afastamento, o silenciamento do núcleo indígena (Ferradas) da história, os índios, sucessivamente, são afastados junto com a aldeia.

A construção da memória pioneira de Ilhéus, estudada por Mahony, tinha por finalidade esconder o passado escravocrata e negar a atuação da mão de obra escrava na lavoura do cacau. A escrita da memória de Itabuna, embora estivesse em sintonia com os aspectos mais gerais da escrita da memória regional, guardava uma peculiaridade. Diferentemente da de Ilhéus quatrocentona, na narrativa memorialista da década de 1960, a jovem Itabuna se sentia livre do fardo de um passado escravocrata, muito embora a sua lavoura de cacau também tenha sido construída com braços escravos e mão de obra compulsória indígena, como veremos, mais adiante, neste livro.

A particularidade presente na narrativa de Itabuna com relação à narrativa de Ilhéus residia no esforço empreendido pela obra memorialista itabunense, para construir uma ideia da ausência indígena no delineamento da história de origem de Itabuna. Para Sandra Pesavento, “as identidades podem dar conta dos múltiplos recortes sociais, sendo étnicas, raciais, religiosas, etárias, de gênero, de posição social, de classe ou de renda, ou ainda

profissionais”64. Segundo essa perspectiva, a narrativa memorialista de Itabuna se pautou, dentre outros, num recorte de posição social, tendo em vista que as narrativas apresentadas estão voltadas a estabelecer o lugar social dos sergipanos e de seus descendentes na história de Itabuna e, em consequência disso, a escrita da memória está marcada por um viés de exclusão étnica, pois para que a identidade sergipana fosse construída era necessário que os índios fossem invisibilizados.

Lembrando as reflexões de Ricoeur, podemos inferir que a narrativa memorialista de Itabuna, através da manipulação da memória, suprime os índios da narrativa histórica da cidade, enfatiza a presença e atuação pioneira, para assim, dar os contornos desejados pela história que se quer narrar. Também Sandra Pesavento observa que, na construção da memória, “as pessoas são ensinadas a lembrar e esquecer, fazendo com que determinados acontecimentos não sejam considerados importantes

ou mesmo que não tenham acontecido” 65; nesse jogo de lembrar e esquecer, o objetivo é a construção de uma memória coletiva coesa que, por sua vez, legitime a identidade sergipana de Itabuna como sendo a memória oficial da cidade.

A elite de Itabuna era, em grande parte descendente de negros e índios, como era o caso de Firmino Alves: um “pardo de Sergipe, que se estabeleceu na região em meados do século XIX e se casou

com uma mulher de ascendência indígena”.66 Contudo, construiu uma memória da qual eles são excluídos, fazendo emergir apenas o passado sergipano. Foi construído para Itabuna um histórico étnico de negação da presença indígena. Eles estavam lá, num passado remoto, e desapareceram à medida que entraram em cena os sergipanos. A narrativa da memória de Itabuna, de 1960, estava toda ela norteada por um discurso progressista, que colocava Itabuna num patamar elevado na composição dos municípios da Bahia. Essa narrativa, em contrapartida, engendrava a ideia da presença indígena em Ferradas em um passado distante, porque naquele contexto, o da década de 1960, a imagem que se desejava criar para a origem da cidade, de civilização e progresso, não comportava o reconhecimento da presença indígena em suas origens, pois os índios representavam a ausência de civilização e obstáculo ao progresso da região. Esses são os argumentos que tentaremos tecer, a partir daqui, acerca do afastamento de Ferradas e dos índios, sobre a memória coletiva oficial de Itabuna.

A leitura feita sobre as populações indígenas do sul da Bahia na escrita memorialista era extremamente pejorativa. Os índios eram descritos como os selvagens que, percebendo a inutilidade de suas flechas diante das armas de fogo dos colonizadores, se aprofundavam nas matas. É dessa maneira, por exemplo, que José Dantas de Andrade narra a situação do contato entre índios e não índios naquela parte do sul da Bahia. Ele assevera que nos encontros “entre índios e desbravadores, a vitória ficava sempre com os segundos, obrigando a que os silvícolas, compreendendo a inutilidade de suas flechas contra as espingardas, bacamartes e mosquetões, fossem se aprofundando cada vez mais nas matas,

cedendo terreno ao avanço dos brancos”.67

Assim como na escrita da memória, também na literatura regional encontramos a descrição pejorativa com relação às populações indígenas do sul da Bahia. Nessa perspectiva, dentre outras obras, se destaca Corpo Vivo, de Adonias Filho, publicado naquela mesma, década de 1960. Adonias Filho era um importante romancista da região e certamente tinha os intelectuais de Itabuna como seus leitores.

Corpo Vivo, de 1962, trata da violência e expropriação das terras dos pequenos agricultores por parte dos grandes produtores de cacau. O enredo narra a vingança de Cajango, um mestiço que, após o assassinato da família, é criado pelo tio índio, Inurí, “que lhe incutiu o ódio e a vingança e o transformou num animal selvagem,

impedindo que ele se tornasse homem” 68. Na perspectiva de Adonias Filho, Inurí, o índio representante das populações indígenas do sul da Bahia, era caracterizado como fera, cuja estratégia de reação aos colonizadores era a vingança. A personagem denota o caráter negativo empregado pelo autor acerca dos índios habitantes da região. Era dessa ideia que compartilhavam os memorialistas que se envolveram em escrever a história de Itabuna, naquela mesma ocasião.

A narrativa memorialista de Itabuna, em lugar de engendrar um passado “selvagem” e, portanto, fracassado, objetivava construir uma ideia progressista acerca da atuação dos sergipanos de Tabocas. Para tanto, estabeleceu um distanciamento entre Tabocas e Ferradas na memória coletiva oficial de Itabuna. Ferradas representava a presença e atuação indígena, e isso era uma parte da história que se desejava esquecer ou, pelo menos, deveria ser guardada num lugar distante, nessa memória oficial.

Em Terras de Itabuna, Pereira Filho observa que “em cinquenta anos o que realizou o povo itabunense impressiona e maravilha […]. Cidade que tem uma elite intelectual, que tem bons jornais,

estações de rádios, bons colégios” 69, ou seja, era a cidade pródiga e civilizada, na qual não cabia a primitiva Ferradas, lugar de índios. Pereira Filho ressalta que “muito distante está a época em que, em Ferradas, Frei Ludovico de Liorne prestava socorro a alguns índios

desamparados” 70. Na sua narrativa de decadência de Ferradas, ele continua:

 

Como andava o arraial em decadência! Ferradas, que em 1856 possuía

cacau, café, que se fundou antes de Tabocas e que teve visitas ilustres,

como a de Martius, de Maximiliano e daquele Guilherme Frederico, Barão

Von Den Bussche, estava parada… Parou como vila, acabaria como simples

arraial ou mesmo como uma rua comprida, acompanhando o rio

Cachoeira71.

 

Enquanto Tabocas era apontada como o protótipo de riqueza, Ferradas assinava sua sentença de morte com o tempo, pois a ela estavam fadados o fracasso, a falência. Era a Ferradas de frei Ludovico e dos seus índios aldeados: “Ferradas teve dias gloriosos […]. Mas tudo passou. Frei Ludovico, velho e enfermo, foi morrer no

seu convento, em Salvador”. 72 Com sua morte, parece também que morre Ferradas, e os índios desaparecem, para dar lugar ao progresso da região, pois, ressaltava-se que “enquanto os índios recuavam para as matas, levas e levas de desbravadores se

apoderavam das terras boas para o cacau”. 73

Portanto, a narrativa de origem, gestada na década de 1960, não associou à imagem de Itabuna um passado indígena. Ao contrário disso, ao forjar a imagem do pioneiro sergipano, a escrita memorialista escamoteia a importância estratégica de Ferradas e com isso invisibiliza os índios na memória coletiva oficial.

Esse era um distanciamento historicamente construído, que demarcava diferenças étnicas, culturais, sociais e políticas entre o lugar dos índios e o lugar dos outros. A memória coletiva oficial de Itabuna atinge uma coesão quando faz várias exclusões, em particular a dos índios, e pela sua força mitológica de atualização e formalização dos símbolos e representação identitária, com se verá a seguir.