Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia

1.3 A elaboração da acomodação do mito pioneiro regional para a história de Itabuna pelos intelectuais da década de 1960

O tema do desenvolvimento da região cacaueira foi explorado na literatura de Jorge Amado, sobretudo em Terras do Sem Fim, publicado em 1942, e em São Jorge dos Ilhéus, publicado em 1944. Adonias Filho abordou o tema em Os Servos da Morte, de 1946; Memórias de Lázaro, publicado em 1952; Corpo Vivo, de 1962; Léguas da Promissão, de 1968; e As Velhas, este publicado em 1975. Jorge Amado retomou o tema em 1986, com Tocaia Grande, a

face obscura28. Vale lembrar que tanto Jorge Amado quanto Adonias Filho faziam parte das famílias dos “novos ricos”. Eles eram herdeiros dos denominados pioneiros da lavoura do cacau e colocavam-se na discussão sobre o desenvolvimento regional de modo muito próximo do discurso, que cunhava a ideia do pioneirismo da região cacaueira.

 

1.3 A elaboração da acomodação do

 

mito pioneiro regional para a história

 

de Itabuna pelos intelectuais da

 

década de 1960

 

A narrativa de desenvolvimento da região sul da Bahia ligada ao cacau e à ideia dos pioneiros do cacau, engendrada desde as primeiras décadas do século XX por intelectuais e estudiosos, foi apropriada pelos intelectuais itabunenses na década de 1960. Eles, por sua vez, elegeram os migrantes sergipanos como protagonistas da construção de uma memória coletiva oficial de Itabuna, que tinha como principal fim construir uma identidade sergipana para a cidade.

Na década de 1960, os itabunenses comemoravam o cinquentenário de emancipação política do município e, no decorrer daquela década, foram publicadas três importantes obras da memória de Itabuna: O Jequitibá da Taboca, Terras de Itabuna e Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna. Os festejos comemorativos avivam certo sentimento de pertencimento, motivado por símbolos e representações identitárias. Desse modo, a escrita memorialista de Itabuna atuou como geradora de uma identidade sergipana que, por sua vez, seria atualizada na memória coletiva da cidade.

Denominamos de escrita memorialista uma memória coletiva oficial de Itabuna. Isso significa dizer que o discurso produzido e organizado pelos grupos hegemônicos da cidade estão presentes nos textos acadêmicos, na literatura, nas comemorações cívicas locais, no hino cívico da cidade, nas palestras escolares no contexto do aniversário do município, no teatro, nas aulas de história regional. Enfim, a memória heroica sergipana, daqueles que trabalharam e venceram, foi construída através das práticas discursivas e das representações, engendrando uma identidade sergipana que não é apenas coletiva. Ela também assume caráter oficial e é atualizada a cada ano pela evocação dos símbolos identitários nos espaços públicos e nos rituais oficiais. Levando-se em conta que “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade […] é não somente uma conquista, é

também um instrumento e um objeto de poder”29, entendemos que a narrativa sobre a história de Itabuna legitima o poder social dos intelectuais e dos políticos da década de 1960. Eles se apresentam no lugar e com o papel social de herdeiros dos precursores do desenvolvimento e do progresso de Itabuna. Iremos analisar mais adiante, neste capítulo, a discussão acerca da identidade como representação social.

Veremos, no terceiro capítulo, que, ao longo do século XIX, as relações entre colonos, escravos e índios eram muito próximas, como foi o caso do trabalho desenvolvido na estrada Ilhéus-Conquista por índios aldeados e escravos de fazendeiros locais. Contudo, na narrativa da memória de Itabuna não se faz nenhuma alusão à presença de escravos africanos ou afrodescendentes trabalhando ao lado dos migrantes pobres e, quanto aos índios, são mencionados de forma indireta e sem nenhuma participação no processo de colonização da região. Eles são mencionados, mas o são na medida em que o memorialista faz referência aos tempos de

frei Ludovico30. Com a presença dos migrantes, eles se tornaram obstáculos, foram empurrados para as matas e estavam fadados a desaparecer. Esse discurso perpassa todas as narrativas apresentadas. O inexorável desaparecimento do índio estava associado à “incompatibilidade” de sua presença com a civilização que estava sendo plantada naquelas paragens. Além do mais, a mata, aos poucos, desaparecia para dar lugar às inúmeras pequenas e médias roças, bem como às grandes fazendas de cacau. Ou seja, na perspectiva da escrita memorialista, o índio e a mata (de forma correlacionada) desapareceriam em nome do progresso da região.

O Jequitibá da Taboca, de Oscar Ribeiro Gonçalves, publicado em 1960, carrega uma peculiaridade muito interessante para se pensar a construção da memória. A obra é elaborada com base nos relatos de Manoel Fogueira, um dos ditos pioneiros. Nesse sentido, na construção do enredo de Gonçalves, temos a intermediação de dois narradores, a de Manoel Fogueira, que através do relato oral narra a história do marco zero, ou seja, das origens de Itabuna; e a intermediação de Oscar Ribeiro Gonçalves que, através da escrita, nos termos de Foucault, controla, seleciona, organiza e redistribui os acontecimentos e personagens para dar sentido ao seu enredo.

Na obra em questão, a narrativa da memória passa por dois filtros acerca da realidade que se deseja representar: o primeiro está presente no relato oral do primeiro narrador, Manoel Fogueira, e o segundo filtro é apresentado na construção discursiva, que tem a intenção de narrar a escrita da memória, empreendida por Ribeiro Gonçalves: “A documentação fornecida para que o presente volume se transformasse em realidade é obra de um sincero pioneiro, o Sr. Manoel Bonfim Fogueira, dono da maior tradição oral que se possa

imaginar, acerca do município e da cidade de Itabuna”31. Essas são as palavras iniciais do prefaciador de O Jequitibá da Taboca, Plínio de Almeida, que era membro da Academia de Letras de Ilhéus. Plínio de Almeida segue ressaltando que:

 

O Sr. Oscar Ribeiro, recolhendo os informes fornecidos pelo Sr. Manoel

Bonfim Fogueira, não pretendeu fazer obra acadêmica, ou romanesca, ou

crônica onde apenas palpitam as palavras cantadas de uma poesia sem

bases reais. […] O material fornecido pelo Sr. Fogueira é do tipo que se pode

batizar de ‘primeira água’, isto é, material muito bom pela fidelidade, pela

verdade buscada e encontrada. 32

Para o prefaciador e também para o autor do livro, a narrativa com base nos relatos de Fogueira dava ao seu enredo o caráter de verdade. Não era um trabalho de história, que envolvia a interpretação do passado nem tampouco romance ou crônica com base na imaginação. A obra trazia, em si, o próprio acontecimento, através do relato de quem o viveu e dava testemunho da realidade vivida. Nessa perspectiva, acerca do caráter que envolve a história e a memória, a representação do passado, Pesavento, evocando Paul Ricoeur, lembra que “à História, estaria negada a pequena alegria do reconhecimento preservado à Memória. Aquele que evoca, chega à identificação da lembrança com o acontecido, objeto da

rememoração: foi ele, foi lá, foi então, foi assim!” 33

O primeiro capítulo de O Jequitibá da Taboca é dedicado a situar o leitor acerca das origens da cidade, para em seguida dar conta da realidade de progresso a que estaria destinada Itabuna, como herança da coragem dos seus pioneiros: os primeiros sergipanos ali chegados. São considerados como os primeiros sergipanos desembarcados em Ilhéus e fixados na região próxima a Ferradas: Felix Severino de Oliveira ou Felix Severino do Amor Divino e Manoel Constantino. Segundo Ribeiro Gonçalves, ambos vieram da Chapada dos Ìndios, Estado de Sergipe. O lugar onde teriam escolhido se estabelecer ficava às margens do Rio Cachoeira e a ele teriam dado o nome de Marimbeta e em seguida o batizariam de Tabocas. Assim Gonçalves relata a primeira cena da chegada dos sergipanos à região:

 

Sozinhos, neste dito lugar ermo, como teriam eles contemplado aquele

cenário? A mata, os caboclos e as feras eram seus únicos vizinhos, mas

além outeiros hirsutos, reduzindo-lhes o horizonte, mais ao lado, corre o rio

Cachoeira no meio do qual se divisavam ilhas com matas incultas, árvores

cujas copas se entrelaçavam numa selvatiqueza rude; um céu pincelado de

nuvens escuras quase sempre a chover. No deslumbramento desse

espetáculo irradiava a luz solar como a flor da esperança na vibração da

mocidade. Pois bem: nesse ambiente solitário habitava Felix Severino do

Amor Divino e seu companheiro, o crioulo Manoel Constantino.34

 

Gonçalves menciona, como parte de um único universo, a presença conjunta da mata, dos caboclos e das feras. Esse é o contexto, em sua narrativa, do primeiro contato dos migrantes sergipanos com a região. O que isso pode significar? O termo “caboclo”, apresentado na obra, não parece aludir à mestiçagem

luso-tupi 35, pois, tal como empregado por Gonçalves, o caboclo está em um cenário selvagem e sugere muito mais o “índio selvagem”, o botocudo, tão mais presente, naquela realidade regional, do que o mestiço. O caboclo aparece, portanto, representando o atraso, e mais como um obstáculo a ser vencido.

A ideia transmitida pela narrativa é a de lugar inculto, quase desabitado por gente, já que os índios são descritos ao lado da mata e das feras, portanto, uma extensão do mundo natural. A narrativa de Gonçalves faz emergir o discurso de que o índio das origens de Itabuna era “o outro”, que não fazia parte da história daquela parte do sul da Bahia. Mas, vale ressaltar que, àquela altura, no ano de 1844, descrito por Gonçalves como a data de chegada daqueles migrantes, a região era imensamente habitada. Ali viviam os grupos indígenas não aldeados, os aldeados, dentre eles, os de Ferradas, e ainda outros migrantes e estrangeiros que aos poucos já vinham habitando a região e tinham relações estreitas com os aldeamentos. O próprio Gonçalves reconhece que muitas das fazendas de cacau, construídas pelos novos habitantes e depois por outros conterrâneos, por ele relacionadas, já existiam

anteriormente à Tabocas36. Contudo, era a história dos heróis sergipanos que deveria ser escrita e lembrada pela memória coletiva de Itabuna.

Em 2011, O Jequitibá da Taboca foi revisado, reeditado e publicado pela Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na ocasião do centenário de Itabuna, por Janete Ruiz de Macedo e João Cordeiro de Andrade, ambos integrantes do Centro de Documentação e Memória (CEDOC) da UESC. A professora Janete Macedo é uma importante pesquisadora e incentivadora da criação e manutenção dos arquivos municipais no sul da Bahia, trabalho realizado junto ao CEDOC. Ela explicita que o interesse em reeditar o raro livro O Jequitibá da Taboca se deu por dois objetivos: primeiro, atualizar as memórias de Manoel Fogueira para que todos, em especial os itabunenses, pudessem acessá-las; segundo, para tornar o livro disponível aos historiadores regionais,

já que o considera uma fonte importante de estudo. 37

Não obstante a importância de O Jequitibá da Taboca, entendemos que a reedição do livro, na ocasião do centenário da cidade, traz, em si, certo caráter de atualização da memória coletiva. A reedição dessa obra apresenta aos habitantes de Itabuna “um quadro de si mesma que certamente se desenrola no tempo, já que se trata de seu passado, mas de tal maneira que eles sempre se

reconheçam nessas imagens sucessivas”.38 Macedo conclui o texto de introdução ao livro da seguinte maneira:

 

[…] espera-se que todos, em especial os itabunenses, jovens ou idosos,

natos ou moradores, estudantes ou intelectuais, historiadores ou

memorialistas, possam se apossar dessas memórias, e que haja a ambição

de fidelidade ao passado, ameaçada quando as ideologias se intercalam

entre a reivindicação de identidade e as expressões públicas da memória

coletiva. 39

 

A reedição da obra, apesar do caráter de atualização do mito pioneiro nela intrínseco, nos oportuniza estabelecer o diálogo entre a narrativa da memória e outros relatos documentais, por conseguinte, apontar a agência de outros sujeitos na narrativa da trajetória histórica de Itabuna; de modo particular, os índios de Ferradas, que foram invisibilizados na narrativa memorialista de 1960, objeto de estudo do trabalho em questão. Nesse sentido, ressaltamos, portanto, que as “ideologias” postas como “ameaças” à integridade do passado são muitas vezes reivindicações de outras identidades que desejam o alargamento da memória coletiva oficial de Itabuna.

Também é de 1960 a publicação de Terras de Itabuna, do jornalista Carlos Pereira Filho. A matéria publicada no Diário de Itabuna explicita o tom positivo com o qual a obra de Pereira Filho foi recebida entre os jornalistas e demais representantes do poder político e econômico da lavoura do cacau, de quem Pereira Filho era denominado de procurador:

 

[…] vimos cumprimentá-lo, hoje […] em nosso nome […] como ainda em

nome da lavoura cacaueira, de quem se constitui um dos mais ardorosos

advogados, não perdendo tempo, não tendo cansaços, toda vez que há

necessidade de uma ação urgente, enérgica, como procurador das

associações que representam os interesses da lavoura cacaueira.40

 

Em seu livro, Pereira Filho pontua o papel progressista da formação de Itabuna que, segundo ele, era consonante à própria trajetória de construção do Brasil. O autor faz um panorama da economia brasileira, que, em sua perspectiva, correspondia ao ciclo do açúcar, do ouro, do café e do cacau. Segundo Pereira Filho, naquela década (1960), ainda se vivia o tempo do café, do cacau e do gado, mas a economia de Itabuna, assim como a do Brasil,

caminhava de forma acelerada para a industrialização 41. Podemos refletir sobre dois aspectos da escrita deste autor: primeiro, não é demais lembrar que, na década de 1960, a região tentava se erguer de mais uma crise econômica do cacau. O momento parecia oportuno para lembrar o papel dos antepassados, considerados os responsáveis pelo emergir grandioso de Itabuna. Mas ao salientar o papel da indústria como propulsora da economia regional, intrinsecamente está presente, no discurso do autor, a ideia de um caminho disponível para o progresso da região para além da economia cacaueira. A obra de Pereira Filho apresenta uma saída para a crise vivida pelas elites de Itabuna, que deveriam pensar na industrialização regional para minimizar os efeitos da crise do cacau.

O segundo aspecto diz respeito à relação pioneirismo e progresso, estabelecida pelo autor, na referida obra, e à evocação da figura do bandeirante paulista, associando-a ao do pioneiro itabunense. Nas palavras de Pereira Filho:

 

[…] o que é Itabuna, representada pela sua força social, econômica e

política, todos sabem e todos conhecem pela posição que ocupa na

colocação dos municípios brasileiros. Aos itabunenses poderíamos aplicar

aqueles magníficos versos de Olavo Bilac, endereçados ao desbravador

bandeirante: “cada passada tua era um caminho aberto, cada pouso

mudado, uma nova conquista, teu pé, como de um deus, fecundava o

deserto”. 42

 

Em estudo sobre os pioneiros da região cacaueira do sul da Bahia, com base na figura dos novos ricos de Ilhéus, que estabeleciam um contraponto com a aristocracia escravista açucareira, Mary Mahony ressalta que “a ênfase sobre desbravadores e produtores progressistas fez com que os cacauicultores e seus ancestrais parecessem mais com os heroicos bandeirantes e produtores progressistas de São Paulo do que com

os abatidos aristocratas da indústria açucareira da Bahia” 43. Nesse sentido, observamos que assim como os intelectuais da região estavam envolvidos em escrever uma história heroica para Ilhéus, nas décadas de 1920 e 1930, com base na figura dos progressistas novos ricos, também em Itabuna, na década de 1960, a elite política e intelectual empreendia esforços na escrituração de uma narrativa do pioneirismo progressista sergipano, no intuito de construir uma história vitoriosa para a cidade de Itabuna. Pereira Filho conclui: “Itabuna deve seu progresso e sua prosperidade aos seus próprios

desbravadores”.44

No rol dos “desbravadores” de Itabuna, comparados aos paulistas por Pereira Filho, estão as figuras de Firmino Alves, Militão Oliveira, Henrique Alves e Gileno Amado como “homens que descobriram e ajudaram a construir o município”. Por conseguinte, todo itabunense

deveria conhecê-los 45. Os nomes citados por Pereira Filho representam os novos ricos de Itabuna. Eram, em sua maioria, correligionários de Antônio Pessoa e Misael Tavares, coronéis do cacau, que norteavam a política e a economia de Itabuna, em início do século XX, de quem descendia a elite política e intelectual da década de 1960, preocupada em escrever tal história.

Anteriormente a Terras de Itabuna, Pereira Filho escreveu Ilhéus, terra do cacau, analisado por Mary Mahony. Nota-se entre essas obras uma diferença significativa: de acordo com Mahony, na narrativa histórica de Ilhéus, o jornalista Carlos Pereira Filho é um opositor à ideia posta pela narrativa tradicional vigente à época, que contava a história da lavoura cacaueira ligada ao trabalho dos pioneiros, ocultando, em contrapartida a utilização da mão de obra escrava. Em Ilhéus, terra do cacau, afirmou que a lavoura cacaueira

teria nascido ao lado dos engenhos de açúcar 46 da comarca, fazendo menção à presença do trabalho escravo na implantação de ambas as lavouras. Já em Terras de Itabuna, o autor reverencia o papel dos sergipanos como os precursores de uma cidade notável, representante do progresso no Estado da Bahia. Dessa forma, entendemos que o discurso narrativo de Terras de Itabuna representa um esforço de apresentar a cidade separada do passado de Ilhéus que, segundo Pereira Filho, teria edificado seus cacauais nas práticas arcaicas da antiga aristocracia. Nessa perspectiva, ao contrário de Ilhéus, onde o autor associou a história dos pioneiros do cacau à história da aristocracia escravocrata, Itabuna teria nascido, tão somente, pelo suor e trabalho dos seus pioneiros, os sergipanos.

Em Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna, de 1968, José Dantas de Andrade escreve de forma épica, afirmando que “Itabuna foi uma índia, que Félix Severino encontrou no mato e entregou a seu sobrinho José Firmino Alves, o qual lhe soube dar boa criação,

educação, instrução e beleza” 47. A referida citação parece ser um exemplo pertinente do caráter progressista que envolvia a narrativa da memória de Itabuna. Novamente a narrativa da memória faz alusão à presença indígena nas origens de Itabuna, mas o faz de forma efêmera e transitória, pois a índia que era Itabuna, encontrada por Félix Severino de Oliveira, o sergipano, deixaria o estado selvagem para assumir “os modos da sociedade” por intermédio do seu fundador, Firmino Alves, também sergipano.

De acordo com os registros memorialistas, após a chegada e o estabelecimento de Félix Severino do Amor Divino à região, ele, aos poucos, levou seus familiares para lá também, dentre os quais o sobrinho José Firmino Alves que, por sua vez, se tornou uma das principais figuras políticas da região, aclamado como fundador de Itabuna. Firmino Alves representa, na memória coletiva oficial de Itabuna, o ícone do legado pioneiro da cidade. A identidade sergipana que se desejava criar estava ligada à figura de empreendedorismo e trabalho de Firmino Alves; dessa forma, estava sendo forjada uma identidade positiva, à qual os itabunenses deveriam sentir-se pertencentes, em meio aos desânimos e expectativas de restabelecimento da economia regional.

José Firmino Alves de Souza Freire, neto de Firmino Alves, também se fez presente no processo da escrita da história de Itabuna, durante as comemorações do seu cinquentenário. Seu discurso evoca as comemorações em homenagem ao centenário de nascimento de Firmino Alves, no contexto do cinquentenário de Itabuna, de forma que a história de Itabuna, e a dele, seu fundador, se intercruzam na memória da cidade. Segundo Freire, “ao completar 100 anos de seu nascimento […], as autoridades e o povo de Itabuna, em colaboração com as autoridades dos Estados da Bahia e Sergipe e de vários municípios, lhe prestaram significativa

homenagem, através de festas jamais assistidas nesta cidade”48. Portanto, na década anterior ao cinquentenário de Itabuna, foram empreendidos esforços, por parte do governo municipal, bem como dos municípios vizinhos do governo dos estados da Bahia e de Sergipe, para os festejos do centenário de Firmino Alves.

Na perspectiva de Sandra Pesavento, “a identidade é uma construção simbólica de sentido, que organiza um sistema compreensivo a partir da ideia de pertencimento. A identidade é

uma construção imaginária que produz a coesão social”49. Portanto, a identidade sergipana foi engendrada na década de 1960 através de um jogo simbólico e de representação no qual os sergipanos foram evocados, em detrimento de outros tantos atores presentes na história das origens da cidade que, por sua vez, foram invisibilizados pela narrativa da memória. O poder de tal construção simbólica reside no fato de que ela mantém uma memória coletiva coesa. Ainda que haja espaço para outras memórias coletivas na sociedade itabunense, é importante notar que existe uma memória coletiva oficial, cultuada pela prefeitura, por exemplo, que legitima o pioneirismo e a centralidade dos sergipanos.

A memória coletiva estava sendo engendrada e sistematizada através da narrativa memorialista, mas também,por meio de outros recursos discursivos, como era o caso do jornal Diário de Itabuna, no qual circulava um ponto de vista da história associado aos interesses da elite política e intelectual da região, como já demonstramos no início do texto. Uma matéria de página inteira do jornal, no mês no aniversário da cidade, sintetiza na figura de Firmino Alves a relação entre o pioneiro e a cidade do progresso, bem como, mais uma vez, imbrica a história de origem à memória sergipana:

A propósito das festas do cinquentenário de Itabuna, destas colunas

lembramos de uma feita à Comissão dos festejos a necessidade de um

convite oficial ao Governo e ao poder Legislativo Sergipano. Nos reportamos

ao brilho dado às festas do centenário do nascimento de Firmino Alves,

fundador da cidade, quando Sergipe mandou uma embaixada composta de

deputados e jornalistas. Com ela veio também a bandeira sergipana

pertencente ao Instituto Histórico de Aracajú, a qual, por solicitação de

Itabuna foi concedida para as festividades por gentileza de seu Presidente e

fez aqui parte no desfile, carregada por elementos representativos da colônia

sergipana. Não é demais pois, lembrarmos mais uma vez a conveniência do

convite, porque nessa festa Sergipe tem o seu quinhão muito importante. O

sergipano foi um desbravador deste grande Município que é hoje Itabuna,

orgulho da Bahia. Participou das lutas e canseiras, sem o que não

estaríamos hoje, orgulhosos e satisfeitos comemorando uma data que nos é

rara […], com o exemplo dado pela bravura e destemor dos pioneiros que

vieram do Estado vizinho trabalhar para nossa grandeza.50

 

Na matéria citada, o colunista remete os festejos do cinquentenário da cidade de Itabuna ao festejo do centenário de nascimento de Firmino Alves, ocorrido em 1953. Ressalta a presença oficial do Estado de Sergipe nas comemorações daquela ocasião, e evidencia a necessidade de remeter ao governo sergipano um convite oficial, para que Sergipe participasse do cinquentenário de Itabuna. Portanto, era na consolidação da identidade pioneira e em sua trajetória histórica que residiam a eficácia da memória coletiva da cidade, haja vista que “a batalha pelo controle político da região sempre esteve intimamente ligada à

luta pelo controle da história”. 51

Desde a década de 1930, os trabalhadores rurais se mostravam insatisfeitos, e os ânimos se exaltavam, tanto no campo quanto na cidade, em virtude das dificuldades econômicas e demandas sociais não atendidas. Depois de sucessivas crises externas e internas pelas quais passou a economia regional baseada na monocultura do cacau, se estabeleceu um alto índice de desemprego na região sul da Bahia. Naquele contexto, os trabalhadores voltaram a se organizar sindicalmente, sob a liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1957, o Ministério do Trabalho brasileiro reconheceu oficialmente a União dos Trabalhadores Rurais de Itabuna e Ilhéus. Vale observar que aquela era a única organização

rural da Bahia a receber tal reconhecimento52. Como desdobramento desses acontecimentos, no início da década de 1960, as ligas camponesas estavam ativamente reivindicando uma

reforma agrária radical”. 53

Foi no bojo das dificuldades econômicas e sociais nas quais estava imersa a região cacaueira que a elite política e intelectual de Itabuna se ocupou em escrever a história dos que trabalharam e venceram, de quem eles haviam herdado as suas riquezas. No contexto de insatisfação dos trabalhadores rurais era pertinente contar a história de origem pela perspectiva do homem simples da roça, migrante pobre que, de forma destemida, derrubou a mata, plantou o cacau, trabalhou muito e venceu. Nas palavras de Pereira Filho:

 

Por muitos anos esses homens trabalharam anonimamente, humildemente,

bravamente, derrubando matas, fazendo roças, plantando cacau,

acumulando riquezas. Verdadeiros heróis das selvas, isolados do mundo, da

civilização, adoeciam e morriam sem remédio, sem conforto, sem assistência

[…], a riqueza daquela terra […], se havia construído, com sacrifício, com

martírio de uma geração, com trabalho audacioso 54.

 

Contudo, a escolha por escrever a narrativa histórica de Itabuna pelo viés do pioneirismo sergipano demandava invisibilizar outros atores daquele processo. Nessa empreitada, os índios aldeados de Ferradas, que atuaram indireta e diretamente na lavoura do cacau, possibilitaram o acesso de colonos à região, bem como empregaram a sua mão de obra nas roças de cacau, durante o século XIX, foram propositalmente invisibilizados na história que se desejava criar. Nesse sentido, vale citar novamente Pesavento, para quem, na construção da memória, o esquecer está tão presente

quanto o lembrar 55. Também Paul Ricoeur frisa que “o esquecimento pode estar tão estreitamente confundido com a memória que pode ser considerado como uma de suas

condições”. 56