Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
1.1 Os memorialistas e seu lugar de fala
1.1 Os memorialistas e o seu lugar de
fala
Na década de 1960, no momento dos festejos em comemoração ao cinquentenário de emancipação política da cidade de Itabuna, alguns intelectuais e políticos da cidade se ocuparam em escrever a história de Itabuna, na qual os seus antepassados são evocados como os pioneiros e precursores de um presente cheio de progresso. Era o grande progresso que lhe conferia, aliás, o título de “Rainha da Bahia”. Os escritos memorialistas foram os mais utilizados, posteriormente, por todos aqueles interessados em escrever sobre Itabuna e que, ao longo do tempo, tornaram-se porta-vozes da história da cidade, através da atualização da narrativa da memória construída nos anos 1960. Os livros fundadores da memória da cidade são: Documentário histórico ilustrado de Itabuna, de José Dantas de Andrade, de 1968; Terras de Itabuna, de Carlos Pereira Filho, de 1960; O jequitibá da Taboca, de Oscar Ribeiro Gonçalves, de 1960.
Inexistem informações satisfatórias sobre os autores acima citados, salvo algumas recolhidas em notas de livros ou fontes hemerográficas. Essa lacuna, produzida pela falta de trabalhos sobre os referidos autores, é importante registrar, pois embora suas obras sejam recorrentemente visitadas, não há um trabalho biográfico sobre os memorialistas da cidade, ou disponibilidade de informações mais precisas sobre eles.
Analisando as matérias do jornal Diário de Itabuna, da década de 1960, podemos recolher em uma página ou outra, algumas informações sobre a atuação social e política de alguns desses autores. O diretor e proprietário do jornal Diário de Itabuna, Ottoni Silva, por exemplo, em uma nota do dia 14 de maio de 1960, parabenizava o escritor e jornalista Carlos Pereira Filho, autor de Terras de Itabuna, e pontuava sua atuação em defesa dos interesses da lavoura do cacau, isto é, “[…] como procurador das
associações que representam os interesses da lavoura cacaueira”6. A relevância conferida à Pereira Filho por Ottoni Silva fica em evidência quando do seu apelo para que a sociedade itabunense fizesse aquisição daquela obra. Em uma nota do mês de agosto do mesmo ano, fazendo menção ao lançamento do livro de Pereira Filho, Ottoni conclama: “vá imediatamente a qualquer livraria local e adquira, por Cr$ 150,00 apenas, o interessante livro Terras de
Itabuna”7.
Entendemos que o apelo de Ottoni não era simplesmente para que a sociedade itabunense adquirisse o livro de Pereira Filho, era também, e mesmo principalmente, uma manifestação do desejo de tornar pública e legítima a história engendrada naquele livro. Pois, como bem observa Halbwachs, “a memória de uma sociedade se estende até onde pode – quer dizer, até onde atinge a memória dos
grupos de que ela se compõe”. 8 Dessa forma, a narrativa da história do pioneiro de Itabuna se constituía no esforço da atualização da memória pioneira construída para a região Cacaueira, desde o início do século XX.
José Dantas de Andrade mantinha um programa de rádio, na Rádio Clube de Itabuna. Em nota no Diário de Itabuna, Ottoni ressaltava: “A história de Itabuna está sendo contada. Todos têm a palavra. Os contemporâneos de Tabocas vêm às nossas colunas e ao microfone da Rádio Clube de Itabuna, no programa do
Dantinhas, para falar o que sabem”9. É importante ressaltar que a Rádio Clube pertencia ao mesmo grupo do jornal Diário de Itabuna e ambos os veículos de comunicação da cidade, à época, estavam envolvidos na empreitada da construção da história de Itabuna.
Já Oscar Ribeiro Gonçalves era professor e foi prefeito da cidade de São Félix, no Recôncavo baiano. Ao que tudo indica, ele escreveu O Jequitibá da Taboca por encomenda, na ocasião das
comemorações do cinquentenário de Itabuna10. O conteúdo da obra consiste no registro dos relatos orais de um antigo morador da cidade, Manoel Bonfim Fogueira.
A atuação dos intelectuais da década de 1960 nos órgãos de imprensa, seja falada ou escrita, permite perceber, na relação da narrativa memorialista com a imprensa, o esforço de construir uma história oficial e homogênea para Itabuna, pois os discursos da escrita da memória e a pauta de trabalho da imprensa da cidade, naquele ano, complementavam-se. Era interessante reproduzir, na imprensa, a versão narrada nos livros memorialistas, pois, dentre os demais meios de comunicação utilizados pelos intelectuais de Itabuna, o rádio, por exemplo, tinha um alcance abrangente, veiculava informações em todas as camadas da sociedade. Tal atuação na imprensa demonstra, ainda, como esses memorialistas circulavam social e politicamente, visto que os jornais eram importantes espaços de veiculação de ideologias e disputas políticas.