Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
1.5 Algumas reflexões acerca da atualização do mito pioneiro
1.5 Algumas reflexões acerca da
atualização do mito pioneiro
Em estudo sobre os símbolos de identidade social do centro da cidade de Itabuna, a professora Lurdes Bertol Rocha aponta as principais edificações públicas que, segundo ela, compõem a memória da cidade. Entendemos, no entanto, que elas não compõem naturalmente a memória, mas são símbolos da construção da memória coletiva, geradora do mito pioneiro. Realmente, algumas dessas edificações se constituem de importantes símbolos da presença “pioneira” na memória coletiva oficial da cidade.
Dentre os símbolos constitutivos da identidade sergipana nos espaços do centro da cidade de Itabuna, destacamos: O Edifício Comendador Firmino Alves, centro de decisões com relação à lavoura do cacau nas décadas de 1950 e 1960; O Museu Casa Verde, que Rocha destaca por sua importância cultural para Itabuna, visto que retrataria a vida do coronelismo, “onde foram reconstruídos os costumes e a época de uma das fases mais
importantes da história regional”.74 O então museu Casa Verde foi, outrora, residência do coronel Henrique Alves; Praça Santo Antônio, local em que, no ano de 1944, foi inaugurado, no centro da praça, um monumento em homenagem a Firmino Alves. Além desses espaços, dentre tantos pontuados pela autora, poderíamos apontar, ainda, inúmeras ruas, escolas e outros espaços públicos que lembram os migrantes de Sergipe, que ali chegaram a partir da segunda metade do século XIX e seus descendentes.
Os símbolos edificados no centro de Itabuna explicitam o exercício da memória, no sentido de fazer lembrar o lugar das elites da cidade com seus nomes e feitos. Pelo exercício da representação identitária, a versão das elites da cidade é apresentada à memória coletiva como a própria história local. Concomitantemente, essas versões são repetidas, quando não pela preservação de monumentos, pela narrativa literária ou, ainda, por trabalhos acadêmicos que estudam a história regional. A exemplo disso, Rocha destacou que
apenas 1,8% dos entrevistados […] citam o monumento localizado na Praça
Santo Antônio […] como signos que lhes digam alguma coisa […]. Isto
parece significar o total desconhecimento da história da cidade e,
naturalmente, o não compromisso em relação à manutenção de sua
memória 75.
A observação da autora, de que o desconhecimento dos monumentos existentes no centro da cidade, por parte da maioria dos seus moradores, significa descompromisso com a manutenção da memória, merece uma pergunta, ainda que óbvia: A que memória se refere? Ela se refere a uma memória específica; a memória oficial dos sergipanos, especialmente a figura de Firmino Alves, como podemos notar na referência feita a alguns monumentos do centro de Itabuna, exemplificados acima, ligados à figura de Firmino Alves e a seus pares. Dessa forma, o trabalho de Rocha reflete a permanência da versão das elites da década de 1960, em trabalhos mais recentes, acerca da trajetória histórica de Itabuna.
Os diversos trabalhos memorialistas, e, também, os acadêmicos, técnicos e literários publicados ao longo do século XX, tinham a preocupação de engendrar uma história para a região do cacau, e funcionaram, e, em certa medida, ainda funcionam como controle da história regional, enquadrando-a como a história dos pioneiros do cacau. Aqui, vale citar Mahony. Ela aponta que “o poder da mitologia da história do cacau reside no fato de que ela não é imposta, pois se apresenta espontaneamente […] nos vários estudos […] publicados
e repetidos indefinidamente […] ao longo de todo o século XX” 76.
Também a obra do memorialista Adelino Kfoury Silveira, publicada em 2002 e recebida com entusiasmo pela “sociedade itabunense”, se constitui em bom exemplo de atualização da memória oficial de Itabuna. O autor de Itabuna, minha terra atuou como membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, foi sócio titular da Associação Brasileira de Relações Públicas e sócio efetivo da Associação Baiana de Imprensa. Vale ressaltar que foi proprietário de um considerável acervo histórico e atuante sobre a vida pública de Itabuna. Falecido recentemente, ele era reconhecido social e politicamente como importante guardião da história da cidade.
Em Itabuna, minha terra, Kfoury critica a visão do coronel do cacau posta pelas literaturas amadiana e adoniana, acusadas de ter construído um estereótipo de ambição e desonestidade para os homens pobres enriquecidos com o cacau. Ele ressalta a necessidade de não se perder de vista que, antes de considerar o mandonismo, com base no poder econômico e político dos coronéis da região, não se podia esquecer que eles foram os pioneiros, trabalharam e, portanto, naturalmente construíram o lugar econômico, político e social que ocupavam. Contudo, o mais interessante é notar que o discurso de Kfoury tenta retirar o peso negativo, que desgasta a figura dos coronéis e enaltece a crença de que, de fato, eles representavam o passado árduo de trabalho e construção da riqueza regional:
Qual seria, pois, a figura real do coronel do cacau? Achamos ser de justiça
entender que ele foi acima de tudo um desbravador […]. Só mesmo a ação
do tempo, o correr dos anos, fez com que esse exemplo de tenacidade
gerasse o respeito e a obediência dos habitantes da região. Daí, num
processo natural, foram chegando às suas mãos a riqueza e a força
política. 77
O autor segue a narrativa estabelecendo um distanciamento entre os “novos ricos” e a antiga aristocracia dos engenhos, ao dizer que havia diferenças “a se considerar e estabelecer entre o nosso coronel e os senhores de engenho, é que ele vivia em casebres no
âmago da floresta, dormindo em rede ou cama de esteira”.78 Dessa maneira, Kfoury reforça o discurso dos memorialistas da década de 1960, de que a riqueza da elite itabunense era herança dos legítimos construtores de Itabuna.
Para Sandra Pesavento, “a elaboração dos mitos de origens vai ao encontro das identidades nacionais, compondo conjuntos de
referência para as raízes de um povo” 79. Em nosso entendimento, o hino cívico de Itabuna foi evocado como um importante símbolo constituidor dessas identidades. Portanto, além da atualização do mito pioneiro, na narrativa memorialista, a emergência de um hino oficial para Itabuna no contexto do centenário compõe, de forma eficiente, a naturalização da versão discursiva construída para o cinquentenário da cidade, em 1960.
Em 2010, às vésperas de comemorar os cem anos de Itabuna, a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) lançou o concurso para eleição do hino oficial de Itabuna, já que o hino conhecido como o hino da cidade, até então, não seria oficial por não possuir nenhum registro de sua oficialização junto à Câmara Municipal da cidade. O concurso provocou verdadeiro rebuliço: os “guardiães da memória da cidade” consideraram a atitude da FICC um ultraje e descaso à história de Itabuna. Não foram poucas as manifestações de protesto em rádios, blogs e sites que circulavam na cidade. No entanto, em detrimento das reivindicações empreendidas, o concurso foi realizado e eleito o novo hino de Itabuna, a ser cantado nas cerimônias formais e distribuído pela Secretaria de Educação para as escolas municipais, no intuito de que nos festejos do centenário, os estudantes estivessem familiarizados com o hino da cidade. Contudo, em meio às contendas geradas pelo concurso para escolha de um novo hino, nos parece que houve um pacto de conformação na escolha do mesmo com relação ao antigo. No novo hino, com exceção de algumas modificações (a mais importante foi a inserção do cacau, pois o antigo hino não o mencionava), permaneciam os elementos centrais contidos no hino antigo: bravura e atuação pioneira, bem como alusão à ideia de progresso.
Dentre as versões submetidas à votação popular, em 2010, a versão escolhida pela maioria dos votantes, foi o hino de autoria de Carlos Correia Oliveira, com 39% do total dos votos, que não passava de uma leitura um pouco atualizada do antigo hino de Itabuna. Na cerimônia de oficialização da eleição, Carlos Correia Oliveira proferiu, às autoridades municipais, as seguintes palavras: “Não fui eu quem venceu, mas sim, o povo de Itabuna que terá sua
história perpetuada”. 80
Assim como no hino antigo, o novo trazia simbolicamente dois aspectos principais da construção da identidade itabunense: a figura do pioneiro e a ideia de uma história progressista:
Lá na mata, o ouro fruto,
O seu brilho atraiu
Homens bravos, corajosos,
A natureza… O desafio!
Com o machado, o homem na mata
Ressoa o grito voraz da vitória!
Tabocas! Tabocas! Tabocas…
Itabuna tu és agora!81
O hino, como era de se esperar, deixava em evidência a atualização de uma memória coletiva da cidade, na qual não existia espaço para outros atores que não fossem os ditos pioneiros da região. Eram apenas eles, a mata e o desafio de vencê-la. A ideia progressista gestada pela narrativa da década de 1960, de que ao futuro da cidade estava reservado o progresso industrial, foi atenuada, visto que, como já refletimos, aquela narrativa soava como uma alternativa para pacificar os ânimos e insatisfações diante do fracasso do cacau, naquele momento, o que já não atendia à realidade de 2010. No atual hino, a referência ao papel da indústria na cidade aparece apenas em uma frase: “No comércio, na indústria… Sua força!”. Quando na antiga versão, o apelo progressista com ênfase na indústria ressaltava:
[…] Seu progresso bem traduz
O que em palavra diria
Oh! Rainha da Bahia.
Sua fonte de riqueza
No Estado é sem rival
E em muito breve terá
Inteirando sua beleza
Grande parque industrial.82
Desse modo, diante do prometido “parque industrial” que não chegou, a ênfase dada ao aspecto industrial para definir a potência econômica de Itabuna foi retirada da versão atual do hino. Em contrapartida, foi reforçada a atuação dos “pioneiros”. Em nosso entender, essa história de origem atinge uma coesão na memória coletiva, à medida que ganha significado amplo e formal na trajetória histórica da cidade.
Na comparação entre os dois hinos, um aspecto que consideramos dos mais interessantes é o seguinte: o primeiro hino não faz referência alguma ao cacau e prioriza a vocação industrial da cidade; já a versão atual atenua a ideia de progresso industrial para Itabuna e coloca no centro da letra do hino o cacau:
Lá na mata, o ouro fruto,
O seu brilho atraiu
Homens bravos, corajosos,
A natureza… O desafio!
[…]
O fruto ouro nos olhos, na alma!
Do Cachoeira, a cidade se expandindo!
Em 2010, quando se deu a comemoração do centenário de Itabuna, parecia importante falar do cacau, falar dos ditos pioneiros e seu papel de vanguarda. Essa parecia ser a história que se desejava incutir nos novos e perpetuar através da memória coletiva oficial. Além disso, a Itabuna de 2010 era uma cidade que já não vivia do cacau, sua economia girava, principalmente, em torno da oferta de serviços; do mercado terceirizado e do comércio, que passaram a atender os pequenos municípios vizinhos. Ela não carregava mais o peso que representava o fracasso do cacau para uma região monocultora, como o era na década de 1960. Podia-se falar novamente do cacau sem constrangimento social para a sua “antiga” elite.
Analisando a produção memorialista amparada em uma série de aparatos de legitimação da sua narrativa, propusemos, até aqui, a reflexão de um duplo movimento da escrita memorialista: lembrar os sergipanos e esquecer os índios, na construção do que chamamos de uma memória coletiva oficial sobre a fundação de Itabuna e sua história. Nos próximos capítulos, tentaremos analisar a história de parte do sul da Bahia, durante o século XIX, hoje conhecida como Itabuna, por outros vieses, que possibilitem acolher e pensar outras variantes e outros atores dessa história.
Como frisamos no início deste capítulo, nossa pretensão não foi travar uma batalha entre mito e história; ao contrário, buscamos demonstrar como a história se transformou em mito, como o mito se entranhou na trajetória política e intelectual da cidade. Nesses últimos parágrafos, contudo, consideramos pertinente elencar algumas observações acerca da narrativa histórica, que é o lugar de fala do presente estudo e, assim, acentuar o nosso posicionamento teórico-metodológico delimitado nos capítulos seguintes.
Carlo Ginzburg observa que os historiadores, há algumas décadas, se ocuparam em discutir muito sobre “os ritmos da história”, mas pouco ou nada sobre os “ritmos da narrativa
histórica” 83, o que suscitou infindáveis críticas internas e externas da disciplina. Nesse sentido, além do próprio Ginzburg, outros estudiosos, como Paul Ricoeur, procuraram não apenas encontrar respostas às críticas recebidas, mas, principalmente, pensar o caráter particular da narrativa do conhecimento histórico.
Paul Ricoeur, enfrentando o tema da narrativa histórica em face da memória, propõe analisar o trabalho da operação historiográfica em três fases: a fase documental, a fase explicativa/compreensiva e a fase reconstrutiva. De acordo com ele, é na fase reconstrutiva que se tem “a intenção de representar em verdade as coisas passadas, pela qual se define em face da memória o projeto cognitivo e prático
da história tal como a escrevem os historiadores profissionais”84. Em “representação e narração”, o autor problematiza: que diferença
separa a história e a ficção, se ambas narram?85 A resposta não é simples e muitos profissionais da história, da filosofia e da literatura se envolveram neste debate após os acirramentos gestados a partir da “virada linguística”, em meados do século XX. Para Ricoeur, uma das saídas parece estar na compreensão do que sejam representação e acontecimento.
Novamente, outro questionamento: “Mas o que vem a ser um
acontecimento depurado de qualquer conexão narrativa?”86 Ele responde: não há uma ligação direta entre a forma narrativa e o acontecimento tal como de fato foi produzido. Para o autor, a ligação entre narrativa e acontecimento se dá de forma indireta, através da explicação e “aquém desta, através da fase documental, que remete, por sua vez, ao testemunho e ao crédito dado à palavra
alheia”87.
O acontecimento é o referente da representação do passado operada pela narrativa historiográfica. Paul Ricoeur lembra que “foi da teoria literária que veio a contestação em nome da disjunção entre a estrutura interna do texto e o real extratextual […], é o modelo bipolar significante-significado, com exclusão do
referente”.88 Ricoeur frisa ser o efeito dessa assertiva literária devastadora para a narrativa da história, cuja diferença da narrativa literária ou ficcional se baseia na categoria referencial que a
perpassa89. Sendo assim, não se tem a pretensão de apreender o passado na narrativa da história. Contudo, diferentemente do escritor ficcional, o historiador não trabalha apenas com a estrutura interna do texto, mas opera conjuntamente com a estrutura interna e com o real extratextual, pois
Diferentemente do pacto entre um autor e um leitor de ficção que se baseia
na dupla convenção de suspender a expectativa de qualquer descrição de
um real extralinguístico e, em contrapartida, reter o interesse do leitor, o
autor e o leitor de um texto histórico convencionam que se tratará de
situações, acontecimentos, encadeamentos, personagens que existiram
realmente anteriormente, isto é, antes que tenham sido relatados 90.
Esforçamo-nos, até aqui, no sentido de tecer algumas reflexões consideradas importantes acerca da narrativa da memória de Itabuna da década de 1960, com um duplo olhar: perceber a construção do mito sergipano e o processo de invisibilização indígena empreendido naquela narrativa. Gostaríamos de frisar que, na história daquela parte do sul da Bahia, hoje conhecida como Itabuna, nem tudo era sergipano. Nessa direção, tentaremos demonstrar, a seguir, a atuação indígena na história da colonização da Cachoeira de Itabuna e na de Ferradas, ao longo do século XIX.