Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
1.2 A “civilização do cacau”: a construção de uma memória coletiva
O jornal Diário de Itabuna foi fundado em 1957, tinha como diretor o jornalista Ottoni Silva e circulava no trecho Itabuna-Ilhéus e em outras cidades menores, como Itapé, Ibicaraí, Itapetinga,
Buerarema, Juçari, Camacã, Coaraci e Banco Central11.
Como veremos no próximo tópico, a história e a política na região cacaueira guardavam relações muito estreitas, e poderíamos até dizer que uma legitimava e referendava a outra. Nessa perspectiva, ressaltamos que o lugar de herdeiros dos precursores do cacau, no qual estavam inseridos os intelectuais e políticos envolvidos em escrever a história de Itabuna, na década de 1960, diz muito sobre a sua produção.
1.2 A “civilização do cacau”: a
construção de uma memória coletiva
Ao longo do século XX, o sul da Bahia foi se configurando, por meio da escrita da memória, da literatura, dos estudos acadêmicos e técnicos, no que Adonias Filho denominou de “civilização do cacau”. Dessa maneira, a região assume uma identidade do cacau. Para Adonias Filho, a região guardava peculiaridades engendradas pela geografia, estrutura social e organização econômica, que lhe conferiam um caráter de unidade, denominada, por ele, de um “pequeno país”. Uma civilização que, nos termos do autor, foi cunhada pela inter-relação de imigrantes estrangeiros e nacionais, negros e índios, resultando na “identidade grapiúna”. Hoje, o termo
grapiúna faz referência apenas aos itabunenses 12.
Nas páginas seguintes deste tópico, nos ocuparemos em entender a construção da memória da “civilização do cacau”. As disputas pela memória refletiam as disputas de poder político na região. Entender a construção da memória coletiva para a região cacaueira, engendrada ao longo do século XX, nos possibilita analisar a apropriação e acomodação dessa memória pelos intelectuais e políticos de Itabuna da década de 1960, com o fim de engendrar a construção da versão pioneira sergipana, que, por sua vez, explicaria as origens de Itabuna.
A análise da escrita memorialista da região cacaueira como uma construção coletiva se dá nos termos de Maurice Halbwachs, para quem toda memória é coletiva, já que a memória individual é penetrada pela memória coletiva. Halbwachs salienta que a construção da memória é possível porque o indivíduo evoca palavras e ideias exteriores a ele, tomadas de empréstimo do seu
ambiente13. Em outras palavras, a memória de um indivíduo não é construída fora do tempo e do espaço; ao contrário disso, ela faz parte da memória do grupo social ao qual pertence.
Halbwachs observa que o grupo nacional do qual faço parte vivenciou uma série de acontecimentos acerca dos quais digo que me lembro, mas que conheci apenas através dos jornais ou do testemunho de quem os vivenciou diretamente: “quando os evoco, sou obrigado a me remeter inteiramente à memória dos outros, e esta não entra aqui para completar ou reforçar a minha, mas é a
única fonte do que posso repetir sobre a questão”14. Também a memória que julgamos individual, com base em nossas próprias lembranças, tem como referência uma carga de informações culturais e sociais que as enquadra e, por isso mesmo, é coletiva. Nas palavras de Halbwachs, “a lembrança é uma imagem introduzida em outras imagens, uma imagem genérica transportada
ao passado”15.
Mary Ann Mahony observa que, nas primeiras décadas do século XX, motivado por diversos fatores, em nível nacional e internacional, houve o grande boom do cacau na região sul da Bahia, cujos principais expoentes foram as cidades de Ilhéus e Itabuna. Naquele momento, uma luta pela memória da região cacaueira, que muito tinha a ver com as disputas políticas, começou a ser travada entre uma aristocracia advinda dos bem nascidos, descendentes dos antigos senhores de engenho de Ilhéus, e as famílias ricas de Salvador, que passavam a investir em cacau, de um lado; e, de outro, os “novos ricos”. Para Mahony, “os proprietários novos ricos […] eram um grupo muito diferente [das famílias tradicionais de
Ilhéus], dado que saíram das camadas baixas da sociedade”16. Tratava-se dos imigrantes e migrantes pobres, descendentes de índios e de escravos, que enriqueceram com a lavoura do cacau.
Para Mahony, o grande problema era a recusa da elite tradicional de Ilhéus em aceitar, na mesma classe social, aqueles que a ela se igualavam apenas em termos de riqueza, os novos ricos. Para a elite ilheense, aqueles homens, “no máximo, eram pouco mais do que uns lavradores caboclos ou mulatos e, na pior das hipóteses,
ex-escravos arrogantes com dinheiro” 17. Os novos ricos, ao mesmo tempo em que se ressentiam pela maneira como eram vistos e tratados pela elite aristocrática, sentiam-se explorados por ela e orgulhavam-se de contribuir para a riqueza do Estado. Somados todos esses aspectos sociais e políticos, “os novos ricos” passaram a lutar, num jogo político e de memória, pela construção de sua identidade como elite. Contudo, diferentemente dos bem nascidos, eles iriam evocar um passado de humildade e de trabalho pioneiro, que lhes conferia o lugar de elite do cacau. A dupla batalha, pela busca de um lugar na política e de um lugar social na história da região, estava presente nos discursos políticos de um desses novos ricos: Antônio Pessoa.
Os novos ricos, no início do século XX, ambicionavam, sem sucesso, cargos de representação política na região, realidade que fazia emergir uma disputa política violenta entre pessoístas e adamistas (ambas as terminologias são utilizadas para designar os dois grupos rivais na política ilheense à época, representados por Antônio Pessoa e Domingos Adami Sá). No jornal A Gazeta de Ilhéus, de propriedade de Antônio Pessoa, este deixava em evidência que os seus inimigos políticos eram Domingos Adami Sá,
Ernesto Sá Bittencourt Câmara e seus aliados 18. No cenário dessas disputas políticas, o principal recurso utilizado era a memória pioneira da região do cacau que estava sendo construída. Em seus discursos, Pessoa apresentava a si e a seus correligionários como homens que enriqueceram com o suor do próprio trabalho e faziam o contraponto com seus adversários, apontando-os como ex-senhores de escravos e aristocratas:
A estratégia de Pessoa era brilhante: identificava seus aliados – os novos
ricos – com os trabalhadores, pequenos produtores e novos migrantes na
região, e seus inimigos – os Adami – com os aristocratas e ex-senhores de
escravos que dominaram os lugares onde eles nasceram.19
Os novos ricos, em 1911, conseguem, enfim, obter ascensão política na região. Como bem frisa Mahony, naquele ano, em vista do declínio político das elites tradicionais baianas, Antônio Pessoa conseguiu se eleger para a Assembleia Legislativa do Estado e, no ano subsequente, por intermédio do governador da Bahia, J.J.
Seabra, ele conseguiu também a Intendência de Ilhéus 20. Aquele momento marcou a era dos novos ricos no poder político da região. Pessoa manteve-se intendente de Ilhéus por muitos anos, sendo substituído por outro importante nome da política regional, o seu correligionário Misael da Silva Tavares. Vale lembrar que, àquela altura, Itabuna já se encontrava estabelecido como município independente de Ilhéus, cuja emancipação política se deu em 1910. O novo município era reduto dos pessoístas, tidos como representantes do grupo de Firmino Alves (considerado fundador da cidade).
O lugar hegemônico na política regional não bastava para os novos ricos. Como Mahony observou, a batalha política regional não se dissociava da batalha pelo lugar dessa nova elite na história da região cacaueira. Em 1914, por encomenda de Antônio Pessoa, Borges de Barros escreveu Memória sobre o município de Ilhéus. O livro faz um panorama dos tempos coloniais. Contudo, o eixo central da narrativa é a “civilização do cacau” e seus personagens principais: os pioneiros que enriqueceram com o trabalho na lavoura do cacau e tornaram-se prósperos, isto é, os novos ricos. Nas palavras de Mary Mahony: “Ao longo do livro, o progresso foi associado ao cacau e o cacau foi associado aos novos ricos e seus
ancestrais”. 21
Na década seguinte, a conjuntura regional, impactada pelos acontecimentos internacionais, sobretudo econômicos, era outra. A crise econômica internacional dos anos 1920 se refletiu diretamente nos rumos da região sul da Bahia que, à época, era uma das principais exportadoras de cacau do mundo. Nesse processo, os abismos que separavam em batalhas violentas pessoístas e adamistas diminuem. Segundo Mahony, falou mais alto o interesse de classe diante da crise e as consequentes insatisfações dos
trabalhadores rurais e grupos indígenas.22
Dessa forma, na nova geração, já não se fazia presente o separatismo adamista-pessoísta; ao menos, não como nos primeiros tempos da ascensão do cacau na região. Na nova fase, estabelecia-se um pacto de solidariedade de classe entre eles, particularmente visível nas alianças matrimoniais gestadas na região. Um exemplo desse pacto foi a ascensão política de Eusínio Lavigne, que guardava ancestralidade de ambos os grupos. Era descendente da tradicional família Sá, por um lado, e por outro, descendia de família imigrante, que chegou à região na segunda metade do século XIX. A aliança entre famílias tradicionais e os novos ricos culminou num programa de reforma relacionado ao cacau, que previa apaziguar as dificuldades socioeconômicas da região cacaueira. O programa de Lavigne para a região cacaueira
prometia estabelecer a ordem legal na região; promover a educação e a
saúde nas zonas rurais e urbanas; melhorar a infra-estrutura, a pesquisa
sobre o cacau e os programas de extensão agrícola; fazer lobby em favor do
cacau baiano em capitais estrangeiras; estabelecer uma bolsa de valores
para o cacau com informações completas sobre as transações diárias no
mercado estrangeiro; reformar o sistema de impostos; estabelecer
cooperativas entre os produtores para negociar a compra e venda de cacau;
e 23 incentivar a industrialização do chocolate na própria região cacaueira.
Na década de 1930, Eusínio Lavigne, quando intendente de Ilhéus e seguindo os passos de Antônio Pessoa, contratou João da Silva Campos “o mais importante historiador baiano da época, para
escrever uma história de Ilhéus” 24. Naquele contexto, a história a ser narrada abrigaria não mais os desagravos entre famílias tradicionais e novos ricos, mas uma história na qual, consensualmente, esses grupos apareceriam como os responsáveis pela expansão do cacau no sul da Bahia. A obra de Campos dissolvia a relevância das rivalidades políticas e evidenciava a escolha de Lavigne: uma história do cacau com base na cooperação e no trabalho de ambos os grupos. Como observa Mahony, o apelo à unidade se fazia importante em um contexto de crise econômica na região.
A crise econômica internacional da década de 1920 havia deixado, em 1930, os produtores de cacau quebrados ou muito endividados, e isso impactava diretamente na realidade dos trabalhadores rurais, que diante das dificuldades se mostravam insatisfeitos e começavam a se organizar contra os fazendeiros. Contudo, outro apelo estava incutido na nova narrativa histórica que o poder político da região se empenhava em construir. Tratava-se do papel de relevância dos “desbravadores” e produtores de cacau para a economia do Estado. O objetivo era legitimar, junto aos governos estadual e federal, a obtenção de socorro financeiro aos
cacauicultores. 25
Na década de 1950, após a Segunda Guerra, os cacauicultores do sul da Bahia enfrentaram outra crise do cacau. Naquele momento, a narrativa da história da região do cacau e a história da atuação pioneira novamente vêm à tona. Entretanto, diferentemente do perfil das obras anteriores, tal discurso perpassava textos técnicos, acadêmicos e oficiais de vários estudiosos envolvidos em
pesquisas sobre a região cacaueira na década de 1950. 26
A economia cacaueira do sul da Bahia viveu movimentos cíclicos, ora com crescimento de vulto, ora com avassaladoras crises. Robson Dantas observa que, da década de 1930 até o final da década de 1960, “o Sul da Bahia viveu entre o desânimo e a
expectativa de reversão da crise econômica do cacau” 27. Dantas ressalta que o tema do desenvolvimento debatido no cenário nacional também estava presente não somente nos estudos econômicos e sociais acerca da economia cacaueira, mas também na literatura que envolvia o sul da Bahia. Em seu estudo, Dantas se preocupa em analisar o tema do desenvolvimento regional sob a ótica adoniana, bem como dialoga com a obra amadiana nas suas reflexões acerca do tema.