Ordem imperial e aldeamento indígena: Camacãns, Gueréns e Pataxós do Sul da Bahia
4.2 O que era ser índio aldeado no Sul da Bahia? Ressocialização dos grupos étnicos no processo de territorialização oitocentista
Esse caso é bastante elucidativo acerca do direcionamento das negociações entre índios e autoridades. As autoridades, aliás, eram muitas e variadas, pois envolvia a presidência e o diretor geral dos índios, o juiz municipal e frei Ludovico. Fica em evidência, mais uma vez, a atuação de frei Ludovico como importante interlocutor dos interesses regionais. Como bem demonstra a fala de Manoel Inácio de Lima, frei Ludovico participou da negociação, ao menos indiretamente; além disso, partiriam dele as instruções para o trabalho do missionário designado para a nova aldeia.
Também fica em evidência, na documentação, que, primeiramente, os índios demonstram interesse de aldear-se e oferecem sua mão de obra para o serviço de canoagem; contudo, o mais interessante é que, ao que tudo indica, eles viajam até o presidente da Província e negociam diretamente com ele, pois o Diretor Geral dos Índios esclarece que os Botocudos requerentes eram os “conhecidos” pelo presidente da província e “recomendados” por ele ao juiz de Canavieiras. Isso é muito significativo no que toca às agências indígenas no processo da colonização sul baiana, pois diante de uma hierarquia estabelecida para tratar dos assuntos indigenistas com o governo da Província, os índios se interessam em negociar diretamente com a autoridade máxima, o Presidente provincial.
A negociação estabelecida nessa ocasião demonstra, mais uma vez, que os índios não eram vítimas passivas e ingênuas no processo de expansão territorial da região sul baiana, tampouco os botocudos atuavam unicamente como inimigos inconciliáveis do governo e moradores locais, como pretendeu demonstrar o discurso oficial sobre a “fereza” deles, forjado por parte da documentação compulsada. Era porque apostavam também no jogo da negociação, que se tornava possível o aldeamento dos índios.
4.2 O que era ser índio aldeado no Sul
da Bahia? Ressocialização dos grupos étnicos no processo de
territorialização oitocentista
A maior parte da população aldeada em São Pedro de Alcântara era da etnia Camacã, tendo em vista que as correspondências trocadas entre as autoridades locais e provinciais fazem maior referência a ela. “Era um grupo Macro-jê (…). Seu território tradicional localizava-se entre os rios de Contas e Pardo, (…) limitava-se a leste com o dos Pataxós, na altura do córrego da Piabanha, afluente da margem esquerda do rio Colônia ou
Cachoeira”. 46
Freitas e Paraíso observam que os aldeados de Ferradas eram do grupo “Kamacã-Mongoió”. Na Capitania e posterior comarca de Ilhéus, como frisa Paraíso, os Camacãs “são referidos por Kamacã-Mongoió, ao norte do rio Pardo; Kamacã Menian e Menian na área do Pardo, do Colônia e do Mucuri, e por Caranins em Nova Viçosa e
Caravelas”47. Ainda segundo os autores, não se pode afirmar que as diversas denominações camacãs se devia às subdivisões dos grupos, ou ainda, se eram atribuídas pelos próprios Camacãs ou por terceiros.
Vale lembrar que um dos principais direcionamentos advindos da política colonial e que era colocado em prática também pela política indigenista imperial, nesse momento, era o incentivo à mistura de diferentes grupos e etnias indígenas nos aldeamentos de catequese. E desde pelo menos o Diretório Pombalino, também se incentivava a mistura de índios e não índios, pois “procurando assimilar definitivamente os índios aldeados, incentivava a presença
de brancos nas aldeias”48. Com relação ao Aldeamento São Pedro de Alcântara, a documentação oficial não testemunha o convívio direto de índios e não índios neste espaço, muito embora possamos observar essa possibilidade a partir da análise do Quadro das aldeias dos índios da Província da Bahia, de 1861 (Anexo 2), em que são discriminadas as situações das terras dos aldeamentos que não eram cultivadas por índios, sugerindo, pois, que elas estavam sendo cultivadas também por colonos daquele local.
Como demonstramos no capítulo anterior, eram muito próximas e fluídas as relações estabelecidas entre aldeados e colonos na região do Aldeamento São Pedro de Alcântara. A documentação analisada permite demonstrar que a intenção oficial era a promoção da mistura de índios e não índios. Contudo, na realidade do Aldeamento São Pedro de Alcântara, os indígenas, através de suas agências, talvez tenham se mantido à parte da convivência com o branco no interior do aldeamento.
A prática advinda do Diretório Pombalino previa a mistura de índios e não índios nos aldeamentos. Mas, naqueles espaços, também coabitavam frequentemente grupos indígenas etnicamente
distintos, como bem lembra Perrone Moisés49. O mesmo acontecia em São Pedro de Alcântara, no século XIX, onde coabitavam distintas e rivais etnias indígenas.
No caso do Aldeamento São Pedro de Alcântara, na ocasião de sua fundação, coabitavam Camacãs e Guerens, esses últimos denominados também de Botocudos, que eram grupos historicamente rivais dos Camacãs naquelas paragens do sul da
Bahia50. Por conseguinte, nos anos iniciais do funcionamento do aldeamento, podemos perceber alguns limites demarcados na convivência entre aqueles diferentes grupos étnicos. Como observa Barth, as relações interétnicas “pressupõem uma estrutura da interação como essa: um conjunto de prescrições dirigindo as situações de contato e […] um conjunto de proscrições sobre as situações sociais que impeçam a interação interétnica em outros
setores”.51
Desse modo, foram estabelecidas fronteiras étnicas e espaciais entre Camacãs e Guerens no espaço territorializado do Aldeamento, haja vista a descrição de frei Ludovico acerca dos aspectos da moradia daqueles grupos “Os índios do Almada são em numero de treze famílias, que formão treze casas arruadas defronte do Templo […]; atraz da Igreja estão as casas dos Camacães em quadrado,
que formão huma bonita praça”52.
Muito embora em São Pedro de Alcântara coabitassem Camacãs e guerens, além dos Pataxós que viviam no perímetro do aldeamento, sob a ótica das autoridades locais eles passavam a formar uma única massa, a dos aldeados em processo de civilização. E acima das divisões étnicas, linguísticas e culturais que existiam entre eles, em algumas ocasiões, também os percebemos manifestar-se segundo o lugar no qual estavam socialmente inseridos. Mostra disso é o fragmento documental no qual os índios de Ferradas, se valendo da situação de aldeados, solicitam a presença de um missionário no aldeamento. Assim, a mistura, aparentemente etnocida, se analisada pelo viés da etnogênese, permite perceber o processo não como perda de identidade étnica, mas como um processo de construção de pertencimento a outro lugar e papel social, através da agência indígena.
Ao mesmo tempo em que os aldeados de Ferradas eram vistos como uma massa de índios úteis aos propósitos governamentais locais, eles mesmos, paulatinamente, se apropriavam dessa condição para seus próprios fins. Interessavam-se em manter o aldeamento em segurança, como já explicitado, bem como em aprender as técnicas e os usos da terra para fins da agricultura. Os registros documentais nos dão indícios de que, na nova configuração a que foram submetidos, à sua maneira, os aldeados tentavam se inserir e aproveitar as possibilidades apresentadas no espaço territorializado.
Os aldeados tinham noção da importância do seu trabalho na agricultura, bem como em trabalhos especializados, como a fabricação de canoas e a navegação e desobstrução dos rios. Aquelas pessoas “em situação de aldeamento”, ao contrário de simples subjugadas aos propósitos do Estado, se deixavam “subjugar” e se apropriavam do mundo do aldeamento. Acerca disso, o documento dirigido à presidência da Província pelo Diretor da Aldeia de Ferradas, Egídio Luís de Sá, em 21 de maio de 1859, nos oportuniza analisar a atuação dos índios segundo essa perspectiva:
[…] Alguns desses homens, Exm.º Snr, possuídos já de algum cabedal de
conhecimentos religiosos, e ja pelo amor ao trabalho, descerão a esta Villa
reclamando [il.] de um padre q’ lhe fosse servir alli de bem reger suas acçõs,
e lhes ministrasse os sacramentos q’ offerece a Igreja a seus fieis, e
dirigindo-se ao Doutor Juis municipal desta Villa, consta-nos q’ esse
promethera a tal respeito representar a V. Excia. dando no q’ podia para ora
satisfaser-lhes com cuja resposta voltarão elles tristes, e bastante
descontentes53.
Num primeiro olhar, o fato de os indígenas de Ferradas se deslocarem de sua aldeia até a Vila de Ilhéus, para reivindicar um missionário, pode parecer uma necessidade tutelar, característica dos moldes de convivência nos quais estavam inseridos. No entanto, se analisarmos essa situação à luz do contexto de insegurança da vida nos sertões, onde os aldeamentos se configuravam em espaços que asseguravam a sobrevivência e como um espaço que, de certa forma, permitia aos índios assegurar o domínio parcial sobre seus territórios, podemos então entender a postura dos aldeados como uma estratégica tentativa de acomodação ao mundo da colonização.
Ao se deslocarem até a Vila de Ilhéus para solicitar do juiz municipal providências acerca da entrada de um novo padre missionário na aldeia, para lhes garantir os sacramentos, os aldeados de Ferradas mais do que aceitarem o lugar de aldeados, se apropriaram do espaço do aldeamento como seu espaço de pertença, e talvez desejassem e escolhessem também assumir a identidade de cristãos. Também os Inas que negociavam a instalação de um aldeamento com o juiz de órfãos de Ilhéus, Antônio de Aguiar Silva, cujo desenrolar já acompanhamos anteriormente, solicitaram um padre e foram recebê-lo. Isso significa que eles adotaram a condição de aldeados catecúmenos e um novo lugar no mundo local; e isso estava relacionado a dois objetivos, pelo menos: garantir as suas terras e sua sobrevivência coletiva.
No estudo de Izabel Missagia de Mattos sobre os botocudos da Província de Minas Gerais, a autora observa “a incorporação do
Outro” pelos atores pesquisados enquanto estratégia etnopolítica54. Ainda de acordo com a autora, trata-se de uma experiência “capaz de orientar os grupos indígenas impactados pela expansão da
fronteira extrativista e agrícola”. 55 Nos termos de Mattos, podemos inferir a incorporação do “Outro” da fronteira sul baiana pelos camacãs, através dos símbolos religiosos (os sacramentos) do catolicismo, enquanto “estratégia etnopolítica” dos homens e mulheres que reconfiguram suas vidas a partir das experiências vivenciadas naquela situação específica.
Na realidade do contato, no sul da Bahia, durante a segunda metade do século XIX, ser índio aldeado significava, paradoxalmente, ter proteção e terra, mas também trabalhar ao lado dos colonos na positivação dos seus interesses, disponibilizando mão de obra na lavoura, pacificando a região e trabalhando ao lado dos religiosos e demais colonizadores na atração dos índios ainda não submetidos ao processo da territorialização. Quando os botocudos, os atores dos casos anteriormente analisados, negociavam a criação de aldeamentos na região, eles visavam o acesso à terra e também a segurança de viver no espaço do aldeamento; em contrapartida, estavam conscientes de que deveriam ficar a serviço do governo e dos locais. Enfim, eles fizeram guerra pelos seus espaços territoriais; sofreram coerções violentas; e, ao final, negociaram a própria rendição, conseguindo terra e oferecendo como moeda de troca o trabalho que mais poderia interessar a eles e aos colonizadores.
Vale ressaltar que, nas experiências diárias entre aldeados e missionários, não foram apenas os índios que mudaram e assumiram novas perspectivas diante do novo mundo. Os missionários, representantes dos interesses imperiais e dos particulares da região, mais próximos dos índios pela sua convivência diária, também se transformaram nesse processo. Eles se viram obrigados a mudar de estratégia, reconhecendo muitas vezes a incapacidade de gerir exclusivamente nos seus moldes a vida dos aldeados.
Acerca disto, recuperemos uma das correspondências de Ludovico de Livorno dirigida a Balthazar da Silva Lisboa. Nela, frei Ludovico se refere aos indígenas de Ferradas em tom de desapontamento e, ao mesmo tempo, reconhecendo a incapacidade de governar a vida dos índios estritamente nos moldes pensados pela política do aldeamento de catequese:
[…] Respeito á educação moral e civil destes Indios não posso estender
minhas vistas acima da capacidade delles, e fóra dos limites destes bosques,
pois a experiência me tem feito ver, que fora daqui ficão cheios de vícios,