Preces Atendidas
Capítulo 8
Faith estava pensando em ligar para Zoe na m anhã seguinte para contar os planos de Ellie. Mas acabou decidindo não ligar. Zoe estava estudando para suas provas naquela sem ana; e, sendo egoísta, Faith não queria lhe dar idéias. Não tinha dúvidas de que queria Zoe em casa. Não queria que ela decidisse ir esquiar em Verm ont ou ir para a Costa Leste com am igos, j á que ela só tinha 18 anos e Faith ainda podia controlar o que fazia. Natal era Natal, e queria Zoe em casa.
Decidiu que contaria que Ellie iria esquiar em Saint Moritz no fim da sem ana, a não ser que as m eninas se falassem prim eiro. Mas elas raram ente ligavam um a para a outra. O fuso horário com plicava as coisas, e elas viviam em m undo diferentes. Entretanto, Faith ainda estava triste por Ellie ter ligado para o pai prim eiro, e ele ter aprovado os planos dela sem discutir com Faith. Isso fez com que se sentisse excluída, com o se eles estivessem fazendo um a conspiração, o que até certo ponto estavam . Era a natureza do relacionam ento deles e de quem eram . Am bos eram quietos, reservados e um tanto introvertidos, e ao pensar nisso Faith percebeu que esquecera de contar a Ellie que recebera a confirm ação de suas aulas na Universidade de Nova York. Mas ficara tão desconcertada com os planos da filha de não vir para casa, que isso sum ira de sua cabeça.
Talvez Alex tenha contado a ela, m as Faith duvidava. Ele não considerava isso um a boa notícia. E, se tivesse contado, Faith tinha certeza de que Ellie teria com entado, m esm o que fosse apenas para desaprovar. Ela era definitivam ente a "filhinha do papai", e provara isso m ais um a vez.
Faith passou o restante do dia ocupada com pequenas tarefas que tinha para fazer. Com prou papel para em brulhar os presentes, com ida e m ais um a lista de coisas que Zoe pedira que a m ãe com prasse antes de ela chegar. Estava de volta em casa por volta das quatro, e na banheira quando Brad ligou.
Sorriu assim que escutou a voz dele. Era com o costum ava se sentir quando tinha notícias de Jack.
— Oi, Fred, estou no hotel. Acabei de chegar. Quais são seus planos?
— Nenhum . Sou toda sua. Alex está em Los Angeles. Encaixou perfeitam ente. Quer que eu prepare o j antar? — Ela com prara algum as coisas extras caso ele quisesse, m as Brad riu.
— Que tipo de irm ão m ais velho eu seria se não levasse m inha irm ãzinha para um j antar decente? Que tal j antarm os no SoHo ou algo parecido? Ou prefere algum lugar m ais perto?
— O que você quiser. — Ela sorriu encantada. Era bom escutar a voz dele. — Tudo que quero é ver você.
— Tenho um a idéia. Vou pegá-la às sete e m eia. Tem um restaurante italiano que eu am ava em East Village. Vou perguntar ao recepcionista aqui do hotel o que ele acha.
— Mal posso esperar para encontrá-lo.
Ela estava sorrindo quando desligou e percebeu que a perspectiva de vê-lo am enizou a dor do abandono de Ellie. Pensar que eles quatro não estariam j untos no Natal a chateara de verdade. E percebeu que Brad estava passando pela m esm a coisa, ou até pior, com os dois filhos na Zâm bia.
Era deprim ente. Acabaram -se os dias de deixar biscoitos e leite para o Papai Noel e pendurar m eias na cham iné.
Com em orar o Natal sem um a de suas duas filhas era um a perspectiva desanim adora.
Mas tirou Ellie da cabeça quando Brad tocou a cam painha às sete e m eia. Ela estava usando calças pretas, um a suéter de cashm ere tam bém preta, um grande casaco verm elho de cashm ere e botas pretas de cam urça de salto alto. Seus cabelos louros estavam presos em um rabo-de-cavalo e ela usava grandes brincos de ouro.
— Nossa, Fred! Você parece um dos aj udantes do Papai Noel! — Ele envolveu-a com seus braços e deu-lhe um grande abraço, levantando-a do chão. Era a m esm a coisa que ele fazia quando eram crianças. E quando colocou-a no chão, deu um passo para trás para olhar para ela e sorriu encantado. — Você está linda. Todos os rapazes da faculdade de Direito vão se apaixonar por você.
— Até parece. Tenho idade para ser a m ãe deles. — Ele tam bém estava m uito bonito. Tinha um leve bronzeado que conseguira j ogando tênis na Califórnia, que realçava m ais seus olhos verdes, e o cabelo escuro parecia m ais grosso e bem tratado. Ele tinha sorte, o tem po não tocara em seu cabelo. E seu corpo parecia forte e m usculoso m esm o sob o terno e o casaco que usava.
— Você não parece m ãe de ninguém , Fred. Está pronta para j antar? Fiz um a reserva em um restaurante que o recepcionista recom endou. Ele achou que você fosse gostar.
— Não m e im portaria de com er cachorro-quente no m etrô. O que im porta é que estou com você — exclam ou ela ao trancar a porta da frente. Tinha um táxi esperando-os, e Brad pegou a m ão dela para conduzi-la pela calçada. Ele estava com ótim o hum or e feliz por vê-la.
Ela se sentou ao lado dele no táxi, e conversaram no cam inho. Jantariam no Soho. Ela contou a ele sobre a ligação de Ellie no dia anterior e de sua decepção.
— É um a droga, não é? — reagiu ele com honestidade. — Detestei o dia de Ação de Graças sem Dy lan e Jason. Foi nosso prim eiro feriado sem eles. E o Natal não vai ser m uito m elhor. Pam está planej ando um a nova form a de tortura. Um j antar no Dia de Natal para cem pessoas. Com sorte, estarei visitando um cliente na cadeia. Não im porta onde os m eninos estej am no ano que vem , vou vê-los. Deveria ter feito isso este ano. Talvez todos vocês devessem ir para Saint Moritz e surpreender Ellie.
Faith riu da idéia.
— Aposto que ela ia adorar, assim com o o nam orado dela. Pelo m enos, terem os Zoe. Ainda não contei para ela, não quis dar nenhum a idéia genial com o a da irm ã. — Mas Zoe era m ais nova. Aos 18, Faith ainda podia insistir que ela viesse para casa. Na idade de Eloise, era m ais difícil, principalm ente porque ela tinha a aprovação do pai. — Ela ligou para Alex antes de falar com igo, e aparentem ente ele disse que não tinha problem a. Não quis ser a chata, então concordei. Ele nem m e contou.
As reclam ações dela sobre Alex não eram novidade para Brad. Vinha com partilhando-as com ele havia dois m eses.
Brad achava que ela passava m aus bocados com ele, sem pre passara, m as até agora estava sendo cauteloso na form a de verbalizar isso. Não queria ofendê-la. Mas seu ponto de vista era o m esm o que Jack tivera, e o irm ão dela sem pre fora franco sobre o quanto não gostava de Alex.
— É surpreendente com o os filhos pregam peças na gente, não é? Junto com nossos cônj uges. Um ano, quando os m eninos estavam na faculdade, Pam disse que não precisavam se preocupar em voltar para casa no Natal porque ela queria fazer um cruzeiro sem eles. Ela não m e contou nada até com prar as passagens, e quando isso aconteceu eles j á tinham outros planos. Passei duas sem anas m areado naquele cruzeiro infernal e disse a ela que da próxim a vez que fizesse isso, eu m e divorciaria dela. — Mas pelo que Faith podia perceber, ela continuava fazendo o que queria. — Os m eninos ficaram extasiados. Foram para a casa de um am igo em Las Vegas e passaram o feriado com duas dançarinas. Até hoj e, falam que aquele foi o m elhor Natal que tiveram . — Ele sorriu e ela riu com ele. Só o fato de vê-lo e estar com ele fazia com que ela se lem brasse do irm ão de um a form a positiva. Poder estar com ele fora seu m elhor presente de Natal, e não apenas trocar e-m ails. Ele fora de um a dedicação notável nesses últim os dois m eses, e desta vez nenhum deles tinha a intenção de perder o contato com o outro. Passaram a contar com a constante com unicação, por telefone ou e-m ail.
Conversaram com tranquilidade no cam inho para o restaurante. Ele falou sobre os últim os casos em que trabalhou, e quando passaram pela Universidade de Nova York, lem brou com otim ism o que logo ela estaria ali, na Faculdade de Direito, e ela sorriu. Era confortável estar com ele e conversar. Ela adm itiu para ele o quanto ficara m agoada quando Ellie disse que não viria para casa.
— É difícil, Fred — com entou ele, olhando para ela de form a gentil. — Tem os de ser bem duros. Não é fácil vê-los crescendo e indo em bora. Nem eu consigo acreditar com o senti falta dos m eninos este ano. Mas eles têm de voar com as próprias asas, e nós tem os de perm itir que eles façam isso. Sei que é difícil — repetiu, pegando a m ão dela.
Ficaram de m ãos dadas até chegarem ao restaurante. E ela ficou encantada de com o era aconchegante. Era um pequeno e adorável restaurante italiano. O garçom ofereceu a eles um a m esa em um canto tranquilo, e ela e Brad se acom odaram . Ela deixou o casaco nas costas da cadeira para o caso de sentir frio. E Brad não pôde deixar de notar m ais um a vez com o ela estava bonita.
— Às vezes esqueço com o você é — im plicou ele. — Quando recebo seus e-m ails, na m inha cabeça é com o se você tivesse 10 anos de novo, no m áxim o 14. E de repente quando vej o você, é um a adulta.
— É engraçado. Tam bém acontece com igo. Na m inha cabeça, você sem pre terá 14 anos e eu, 12. Lem bra daquela vez que colocam os um sapo na cam a do Jack? — Ela riu só de lem brar, assim com o Brad.
— Lem bro. Ele quase m e m atou por causa disso. Na outra vez que dorm i na casa de vocês, ele colocou um a cobra na m inha cam a para se vingar. Eu detestava aquelas cobras não-venenosas dele.
— Eu tam bém .
Pediram o j antar então, e m eia garrafa de vinho branco. Era o lugar perfeito para terem vindo, calm o e agradável, era confortável ficar ali sentada conversando com ele. E com Alex fora da cidade, tinham todo o tem po do m undo.
— Então, o que acha que vai acontecer quando com eçarem suas aulas em j aneiro? — Para am bos, as aulas preparatórias não contavam realm ente, apesar de serem bem puxadas.
Brad perguntou com curiosidade quando term inaram a salada e esperavam o prato principal. — Acha que Alex vai se acostum ar ou vai ficar louco de raiva? — Ele não sabia sobre as aulas para o LSAT, então não podia fazer obj eção.
— Acho que ele vai reclam ar. Mas a verdade é que m al nos vem os. Mal nos falam os. Ele chega, j anta e vai para a cam a. E passa uns dois dias por sem ana viaj ando a negócios. Ele quer m uito m enos atenção de m im do que pensa — contou ela, sendo prática. Tinha tudo planej ado em sua cabeça.
— E você? — perguntou Brad de form a bem direta. — O que quer dele? — Era o tipo de pergunta que Jack costum ava fazer e que ela raram ente fazia a si m esm a. Faith era um a m ulher que exigia pouco e tinha poucas necessidades. Tom ara conta de sua parte em ocional sozinha por m uito tem po, assim com o quando era criança, com exceção do apoio de Jack.
— Não preciso de m uito — respondeu ela com calm a, baixando os olhos e olhando para as m ãos. — Tenho tudo que quero — com pletou, voltando a olhar para ele.
— Não quero dizer coisas m ateriais, e sim o que precisa dele para fazer com que sua vida dê certo? — Essa era um a pergunta que ele se fizera recentem ente.
— Minha vida está dando certo da m aneira que está. Além disso, Alex não é o tipo de hom em disposto a pensar nas necessidades das outras pessoas. — Ele era fechado e sem pre fora. Era algo que aceitara nele havia m uito tem po.
— Que bom para ele, se consegue escapar im pune disso. E quem fica ao seu lado, Fred? — A pergunta era abrupta e direta, e Faith deu de om bros. Por diversos m otivos, se isolara nos últim os anos. Precisara de tem po para chorar a perda de Jack. E concentrara todas as suas energias nos últim os anos das m eninas em casa. E nesse período, Alex não gostava de se socializar com ela. Estava consum ido pelo trabalho. E particularm ente desde a m orte de Jack, ela se afastara das am igas. Tornara-se m uito solitária, o que a deixava ainda m ais grata pela am izade de Brad. Era m ais fácil perm itir que ele entrasse em sua vida j á que fazia parte de sua infância e fora tão íntim o de Jack. Em alguns aspectos, ainda não se refizera da m orte do irm ão.
— Só preciso realm ente das m inhas filhas. Elas estão sem pre ao m eu lado. — Ela reduzira suas necessidades a isso, e era tudo que im portava agora.
— Mesm o? Não m e parece que Ellie estej a nesse tim e, j á que vai passar o Natal em Saint Moritz. Ela está correndo atrás de suas próprias necessidades, em bora isso sej a norm al no com portam ento dos filhos. — Ele era direto em relação ao que via, e ficava aborrecido por Eloise ser tão doce com o pai e tão dura com Faith.
— Ela é j ovem — respondeu Faith na m esm a hora, disposta a inventar desculpas para a filha, assim com o sem pre fizera com todos. Enquanto as pessoas a sua volta eram críticas, Faith sem pre se esforçava para desculpar e perdoar. Era generosa dem ais.
— Em todo caso, a verdade é que na m aior parte do tem po nossos filhos não estão ao nosso lado. Não é dever deles estar. Estão m uito ocupados organizando suas próprias vidas — disse Brad, filosofando. — Mas isso faz com que de vez em quando nos perguntem os quem está ao nosso lado, se é que alguém está. É m aravilhoso ter um a fam ília grande, irm ãos e irm ãs, um cônj uge que dê apoio. Mas se não tem os, o que nos sobra? Não é um a pergunta difícil, m as eu m esm o não sei responder. Estava pensando no avião quando vinha para cá. Pam está tão ocupada com a própria vida e os próprios interesses, que não sei se ela estaria ao m eu lado se eu precisasse dela. É algo triste de perceber. Tive de ir ao hospital para fazer um check-up há pouco tem po, rotina, m as m e perguntaram para quem deveriam ligar em caso de em ergência. Depois de pensar, coloquei o nom e da m inha secretária, porque sabia que se ligassem para Pam , ela provavelm ente não atenderia. Isso fez com que eu acordasse.
— O que você vai fazer a esse respeito? — perguntou ela, enquanto colocavam um steak suculento na frente dele, e um linguado grelhado na frente de Faith.
— Absolutam ente nada. — Ele sem pre era honesto. — Mas de vez em quando m e faz bem encarar a realidade. Eu costum ava ter m uitas ilusões sobre o que o casam ento deveria ser. E a verdade é que nunca foi. No m eu caso, nem o m eu nem o dos m eus pais. Eles se odiaram por anos até se divorciarem . E quando isso aconteceu, fizeram m uitas coisas feias um para o outro, depois m al se falaram por anos. Nunca quis ter um casam ento assim , e não tenho. Pam e eu não nos odiam os, graças a Deus, m as tam bém não sei o que sentim os um pelo outro, se é que sentim os algum a coisa. Som os am igos, eu acho, ou algum a coisa parecida. Ou talvez apenas estranhos que m oram na m esm a casa. — Era um a adm issão difícil de se fazer, m as resignara-se a isso anos atrás, assim com o Faith aceitara a form a que Alex a tratava e o pouco que se envolvia com sua vida diária. Ela esperava que ele estivesse ao seu lado se um dia ficasse doente. Fora isso, ele oferecia m uito pouco em term os de envolvim ento diário e apoio. Ele estava m ais interessado em sua própria vida, e estivera por m uito tem po. Ela nem conseguia se lem brar de quando com eçou a ser assim , ou o quanto fora diferente antes. Provavelm ente não m uito. Ela sim plesm ente se ocupara com as m eninas e não tivera tem po de perceber com o ele estava ausente. Mesm o quando o corpo dele estava lá, o coração e a cabeça não estavam .
— Sabe — disse Faith de form a pensativa —, é m ais um balanço sobre nós m esm os do que sobre eles. As necessidades deles estão sendo supridas, ou estão vivendo suas fantasias sobre casam ento ou suas histórias. Nenhum deles parece precisar m uito de nós ou querer se envolver. Vem os isso de form as diferentes, e acho que querem os m ais, m as estam os dispostos a aceitar o pouco que eles oferecem . O que você acha que isso diz sobre nós?
— Eu costum ava pensar que isso fazia de m im um bom rapaz. Mas agora j á não tenho essa certeza. Acho que tem m ais a ver com covardia e m anutenção do status do que qualquer outra coisa. Não quero m e revoltar. Não quero brigar com Pam . Nunca quis o divórcio. Quero term inar a m inha vida da m esm a form a que com ecei, no m esm o cam inho, na m esm a casa, com a m esm a esposa, com o m esm o trabalho que tenho agora. Acho que odeio m udanças por causa do m odo com o fui criado. Meus pais se am eaçavam constantem ente, um deles estava sem pre prestes a ir em bora. Cresci m e preocupando com o que ia acontecer, e finalm ente aconteceu. Não quero viver assim agora. Não quero nenhum a surpresa.
— Nem eu — concordou Faith, soltando um suspiro de conforto. Era bom conversar com ele sobre isso. Fazia isso com Jack, m as não tivera ninguém para preencher este vazio desde que ele m orreu.
— Mas pagam os um preço alto por isso — com entou Brad, term inando seu steak e colocando o garfo e a faca sobre o prato. Faith só com era m etade de seu peixe, m as tinha um apetite m oderado, que se refletia em sua pequena figura. — Sacrificam os m uito quando assum im os um com prom isso, principalm ente quando estam os dispostos a deixar que a outra pessoa dite os term os. Acho que eu devo acreditar que vale a pena, senão, não faria. O preço do sossego. — Ele era m uito franco, e ela o adm irava por ser assim . Ele sabia do que abrira m ão e parecia confortável com isso. Em certos aspectos, a vida dele não era diferente da dela. Exceto que Alex era um pouco m ais ditatorial com Faith do que Pam era com Brad. Eles pareciam ter resolvido isso seguindo cam inhos separados. Ela e Alex ainda tinham um a vida em com um , pelo m enos a m aior parte do tem po, m esm o não se com unicando m uito nem com partilhando seus pensam entos. Ela não confiava nele há anos.
— É solitário às vezes — sussurrou Faith, com o se com m edo de dizer as palavras. Era algo que raram ente adm itia para si m esm a, m as sentia-se segura em dizer para ele agora. Sentia-se segura com ele, com o sem pre se sentira.
— É verdade — concordou ele, pegando a m ão dela m ais um a vez. Era m aravilhoso estar com ela. — Você sente tanta falta do Jack quanto eu, Fred? — perguntou ele depois de um longo m om ento, e ela assentiu e olhou para ele, com os olhos transbordando de lágrim as.
— Sinto, principalm ente nesta época do ano. Não sei por quê. Sinto saudade dele o tem po todo. O Natal não deveria ser diferente das outras épocas, m as de algum a form a é.
— Mas não sinto falta de Debbie — com entou Brad com sinceridade, e Faith riu.
— Deus, não. Ela era um a cretina. Falando de sacrificar tudo por sossego, nunca entendi por que Jack a suportava. Era péssim a para ele. Nem sei quantas vezes ela o deixou ou am eaçou deixar. Debbie teria m e deixado louca. Pelo m enos Alex segue a vida dele, faz as coisas dele, assim com o parece que Pam tam bém faz. Mas Debbie estava constantem ente atrapalhando a vida de Jack.
— Mas ele era doido por ela — lem brou Brad. — Nunca consegui entender. Acho que foi um a das razões de ele e eu nos verm os cada vez m enos. Debbie m e odiava, e eu tam bém não gostava m uito dela. Ela m eio que se colocou no cam inho entre m im e Jack.
— Sabe, ela foi em bora sem nem olhar para trás — explicou Faith, recostando-se na cadeira contra seu casaco verm elho, que parecia um a flor gigante envolvendo-a. — O advogado dela nos avisou que ela ia se casar e m udar. Ela nunca ligou. Nunca escreveu. Nunca m ais tive notícias.
— Isso é horrível — sentenciou Brad, e Faith concordou.
— Por m ais que eu não goste dela, gostaria que Jack tivesse tido filhos com ela, ou com outra pessoa. Seria tão m aravilhoso acom panhar os filhos dele agora. Desse j eito, não ficou nada... apenas lem branças... não m ais que isso — queixou-se Faith, lutando contra as lágrim as de novo, enquanto Brad apertava sua m ão.
— Tem os um ao outro, Fred. Foi isso que ele nos deixou. Todos os bons m om entos que passam os, todas aquelas lem branças, todos aqueles anos de quando éram os crianças.
— Ela assentiu em resposta e, por um m om ento, não conseguiu falar.
Tom aram cappuccino depois do j antar e decidiram pular a sobrem esa. E Faith ficou surpresa quando Brad olhou bem em seus olhos.
— Você acredita que existam casam entos bons, Fred? Às vezes m e pergunto. Quando olho a m inha volta, para as pessoas que conhecem os, acho que nenhum tem algo que eu gostaria de ter. Parece cinism o, m as estou com eçando a achar que os sonhos de ninguém se realizam . Todos nos enganam os a respeito do que vam os conseguir quando chegarm os lá, com o vai ser, e no fim , todos acabam com o você e eu. Assum indo com prom issos que custam caro dem ais e agradecendo pelos nossos filhos e velhos am igos.
— É um a form a triste de encarar as coisas, Brad. Gosto de pensar que existem pessoas felizes. Tenho am igas que são. Pelo m enos, acho que são. Não posso dizer que não sou. Só não tive o que achei que teria com Alex. É diferente, só isso. — Ela não disse, m as sua fé a sustentava e acrescentava outra dim ensão a sua vida. Sem pre fora m uito devota, com o Jack. Brad sem pre adm irara am bos por isso e invej ava a fé que tinham .
— Acho que está se enganando, Fred. Não estaríam os trocando e-m ails pelos velhos tem pos se tivéssem os o que desej am os em nossos casam entos. Nossos filhos não seriam o ponto central de nossas vidas com o são. Talvez até ficássem os felizes quando crescessem e saíssem de casa. O que você acha que tem com Alex, Fred? Honestam ente? Acho que eu tive um a am iga e um a sócia em Pam , e agora que não trabalham os j untos, talvez ainda sej am os am igos. Som os colegas de quarto, não m ais que isso.
Escutar o que ele dizia soava triste, m as ele parecia tranquilo em relação a isso. Ele era m uito honesto com ela e consigo m esm o. Sobraram -lhe poucas ilusões e nenhum sonho.
— Acho que Alex e eu som os am igos — respondeu ela séria, apesar de ele achar que ela estava sendo generosa dem ais, por tudo que j á escutara dela m esm a. Mas ela não se iludia de que ainda eram apaixonados. Não eram m ais, m as um dia foram . Ou pelo m enos ela foi apaixonada por ele. Não sabia m ais quanta em oção Alex era capaz de sentir. Provavelm ente m enos do que um dia esperara. — Dam os apoio um ao outro. Não, não é assim — corrigiu-se ela. — Eu o apoio. E ele m e sustenta. É um bom pai para as m eninas, é responsável. É um ser hum ano decente. — Ela estava esforçando-se para lem brar m ais e tendo dificuldade para encontrar as palavras para descrever o que ele era para ela. Era sólido, podia contar com ele. Mas na parte em ocional não oferecia m uito a ela há m uitos anos.
— Vê o que quero dizer? Não é exatam ente o que você esperava do casam ento, é, Fred? Quando olho com atenção, vej o a m esm a coisa. Mas assim com o você, eu não m udaria nada. Não acho que teria por quê. A conclusão a que cheguei é que o que tem de ser será. Mas a verdade é que fica um m onte de buracos em nossas vidas que não conseguim os preencher. Preenchem os com filhos, am igos, trabalho, sonhos, fantasias, arrependim entos, o que quer que funcione. Mas independente com o que preenchem os esses buracos, ou o quanto tentam os nos enganar, os buracos ainda estão lá.
— É um a form a dura de se ver as coisas — com entou Faith, um pouco chocada pelo que ele dissera, m as não podia discordar.
— Prefiro ser honesto com igo m esm o. Quando eu não era, estava desesperadam ente infeliz e tentando sem pre transform ar o m eu relacionam ento com Pam em algo que nunca poderia ser, e transform á-la em alguém que nunca foi. Quando aceitei o m eu relacionam ento pelo que ele era, ou não era, e Pam pelo que ela era em m inha vida, e quem nunca poderia ser, acho que finalm ente fiz as pazes com tudo isso.
— Existe outra pessoa em sua vida? — perguntou ela de form a aberta. Era um a pergunta que teria feito a Jack, m as nunca fora necessário. Ele era m uito obcecado por Debbie para traí-la, em bora ela o tivesse traído e o deixado arrasado quando descobriu. Mas não im portava o que ela fazia, ele sem pre a recebia de volta. Faith sem pre achara que o irm ão levara o perdão e a fidelidade a um grau doentio, pelo m enos quando se tratava da esposa. Mas tam bém am ara isso nele.
— Já tive alguém — respondeu Brad, com tanta sinceridade quanto seu irm ão teria tido. — Acho que Pam suspeitou, m as nunca transform ou isso em um problem a. Acho que ela não queria saber. Mas essas coisas não vão a lugar nenhum . Frustram todo m undo quando querem os continuar casados, e eu queria, e ainda quero. As pessoas se m achucam . Não m e sentia bem em fazer isso, e nunca m ais fiz. É m ais fácil assim . — Ele parecia tranquilo com a situação com o estava.
— Você se separaria de Pam se se apaixonasse por outra pessoa? — perguntou Faith, curiosa agora. O que ele dissera durante o j antar a deixara fascinada, e ele estava igualm ente intrigado com ela e com o que a fazia palpitar agora que era adulta, quais com prom issos assum ira em com paração com os dele.
— Nunca — respondeu ele, parecendo com pletam ente convencido. — Quando m e casei com Pam , fiz as prom essas de coração. Na saúde e na doença. Até que a m orte nos separe. Não vou com eter os m esm os erros que m eus pais com eteram . Devo isso aos m eus filhos e, m esm o agora que eles cresceram , não precisam de toda a infelicidade de pais que se odeiam , que não se falam e que destroem tudo que construíram . Sim plesm ente não m e divorciaria dela. E não vou m e apaixonar por ninguém . Não deixaria isso acontecer de novo.
— Nem eu — concordou Faith com calm a, em bora não tivesse tido as oportunidades, não as teria aproveitado se tivesse. Pelo m enos por razões religiosas. Mas principalm ente por respeito ao próprio casam ento. — Tam bém penso assim — concordou ela. — Tudo que se faz é trocar um tanto de problem as por outro tanto. Não existem vidas perfeitas.
— Nós dois som os um par desgostoso. — Ele riu ao preencher o cheque, e depois olhou para ela sério. — Estou feliz por term os nos reencontrado, Fred. Você é com o um presente em m inha vida. De repente faz com que tudo valha a pena... Com o um a m oeda de ouro que você acha que perdeu há m uitos anos e encontra em um a gaveta, e ela não apenas continua tão bonita quanto antes, com o você descobre que ela se tornou ainda m ais valiosa do que era. Adoro conversar com você e trocar e-m ails. Você realm ente ilum ina m eus dias.
Ela sorriu, grata pelo que ele falara. E sentia-se da m esm a form a.
— A culpa é sua por eu estar voltando para a faculdade. Quando estiver fazendo trabalhos às três da m anhã, vou culpar você — im plicou ela.
— Quando você passar para a ordem , pode largar Alex e vir trabalhar com igo.
— Isso faria os piores pesadelos dele virarem realidade! — Ela riu, e eles saíram do restaurante de braços dados. Já passava das onze e ele tinha de acordar cedo no dia seguinte.
— Terá tem po para m e ver am anhã? — perguntou ele, enquanto desciam a Prince Street, e ele sinalizava para um táxi.
— Claro. Alex ficará em Los Angeles até o final da sem ana. E Zoe só chegará sábado ou dom ingo. Sou um a m ulher livre e j á term inei as com pras de Natal — anunciou ela com orgulho, quando ele fez um a careta.
— Nem com ecei as m inhas. Terei de fazer isso quando voltar para casa. — No caso dele, significava um a parada rápida na Tiffany para Pam . Ela adorava j óias e costum ava falar para ele exatam ente o que queria e vira recentem ente para facilitar. E era m uito com plicado m andar qualquer coisa para os m eninos. Levaria presentes quando fosse visitá-los na prim avera. Além disso, queria com prar um relógio para sua secretária, e poderia fazer isso na Tiffany tam bém . As com pras dele eram do tipo m asculino, feitas em um a ou duas loj as, com duração de no m áxim o um a hora, na véspera de Natal. — Quer j antar am anhã de novo? Parece que terá um j antar da conferência, m as posso m e esquivar. Por que não pego você às seis? Falarei com o recepcionista de novo para ver o que ele recom enda. Achei que a recom endação de hoj e foi m uito boa.
— Tam bém adorei. Meu peixe estava perfeito e am ei o vinho. — Ela nem bebera um a taça, e Brad riu do que ela disse.
— Você ainda com e com o um passarinho, Fred. Não sei com o não m orre de fom e. — Mas ela sem pre fora assim , m esm o na adolescência. Parte do tem po, ela beliscava quantidades invisíveis de com ida e então surpreendia todo m undo com endo dois cachorros-quentes e um a banana split. Ela adorava banana split quando era criança.
No táxi, ele passou um braço em volta dela, e ela aninhou-se confortavelm ente no cam inho para casa. Era aconchegante, e ela sentia-se segura só de estar com ele. Brad nutria um a parte íntim a dela que estava fam inta desde a m orte de Jack.
Era um a parte que Alex nunca alim entara.
Ele saiu do táxi e pediu ao m otorista para esperar, então observou-a desligar o alarm e e entrar em sua elegante casa brownstone.
— Vej o você am anhã à noite. Ligarei antes de vir para avisar aonde vam os. Quer ir a algum lugar elegante? — Ele a levaria onde ela quisesse ir, m as ela logo balançou a cabeça.
— Adorei a noite de hoj e. Para m im pode ser pizza, m assa, burritos. Só quero estar com você — frisou ela. Ele abraçou-a de novo, enquanto ela sorria. A noite fora tudo que ela desej ara que fosse.
— Vej o você am anhã! — prom eteu ele da j anela do táxi, ao se afastar, com um aceno, e ela fechou a porta e trancou. E ao subir as escadas até seu quarto vestida em seu grande casaco verm elho, teve um a sensação de paz que não tinha há anos.