Preces Atendidas
Capítulo 12
No dia seguinte à briga com Pam , Brad estava a cam inho do trabalho. Passou pela Catedral de St. Mary em Gough e teve um a idéia repentina. Tinha um com prom isso às nove horas e não dava tem po para parar, então entregou um bilhete para sua secretária assim que chegou ao escritório, e ela prom eteu conseguir a inform ação. Um a hora depois, ela lhe entregou um pedaço de papel com um endereço, enquanto ele conversava ao telefone com o escritório do prom otor público; ele assentiu em agradecim ento. Saiu para resolver isso às onze horas. Levou m ais tem po do que im aginava, m as estava de volta à um a hora.
Escreveu um cartão para Faith e havia um a pequena caixa em sua m esa, que pediu para a secretária enviar para Nova York via Federal Express. Pelo m enos j á com prara um presente. Agora só precisava passar na Tiffany e cuidar do resto, o que planej ava fazer na tarde seguinte.
Os planos de Faith e sua fam ília para o Natal eram bem tradicionais. Teriam um a ceia inform al j untos na véspera.
Faith costum ava ir à Missa do Galo sozinha, ou com Zoe, se conseguisse convencê-la, e tinham um a ceia m ais form al na noite de Natal. Abriam os presentes na m anhã de Natal e passavam o dia em casa. Quando as m eninas eram m enores, o dia era m ais anim ado, m as ainda era im portante para todos eles.
Falaram com Ellie, que estava na Suíça, na m anhã da véspera de Natal. Para ela, j á estava na hora da ceia, e parecia em ocionada quando falou com todos pelo telefone. Era a prim eira vez que passava o Natal longe deles, e estava sendo m ais difícil do que im aginara, em bora todos em Saint Moritz estivessem sendo m aravilhosos para ela.
— Sentim os saudades de você, querida — exclam ou Faith na sua vez de falar.
— Por que não vem a Londres depois do Ano-Novo, m ãe? — perguntou Ellie, parecendo m uito j ovem e com saudade de casa e da fam ília.
— Não posso, querida. Vou com eçar na faculdade. Terei de esperar agora até ter um a folga. Você poderia vir para casa em um fim de sem ana prolongado.
— Não sabia que você j á tinha decidido voltar a estudar. — Ela parecia decepcionada, o que confirm ava as obj eções de Alex de que isso iria interferir com ele e com a fam ília deles.
Não tivera tem po de contar a ela desde que fizera a m atrícula. A últim a conversa que tiveram fora sobre a ida de Ellie para a Suíça com Geoffrey e a fam ília, e Faith esquecera de contar suas próprias novidades.
— Minhas aulas com eçarão em duas sem anas — anunciou Faith, esperando ser parabenizada, m as Ellie pareceu chateada.
— É um a coisa m esquinha de se fazer com o papai. — Era um a desaprovação, e Faith ficou m agoada. E era difícil falar sobre isso com Alex ao seu lado. Sabia que Zoe tam bém ficaria chateada com a reação da irm ã. Não era m uito generosa com Faith.
— Conversam os a respeito, e acho que ele j á aceitou — rebateu Faith com calm a. Não queria que seus planos arruinassem o Natal assim com fizeram com o dia de Ação de Graças, e queria m udar de assunto o m ais rápido que pudesse. — Mas o m ais im portante, com o você está, querida? Está se divertindo?
— Sinto m uita saudade de vocês. É legal, m as sinto m ais falta de vocês do que achei que sentiria. Vam os a um a grande festa hoj e e depois vam os andar de tobogã. Dá um pouco de m edo m as parece divertido.
— Cuidado — avisou a m ãe. — Não faça bobagem ! — Preocupava-se com ela, quase tanto quanto quando era criança. Não im portava a idade das filhas, ainda era seu dever. Então passou o telefone para Zoe, e as duas irm ãs conversaram por bastante tem po. Faith ficou aliviada por elas terem feito as pazes. E Zoe dissera diversas vezes que sentia saudade dela. Alex foi o últim o a falar e tinha pouco a dizer, m as era óbvio pelo tom de voz e pela escolha das palavras com o se sentia íntim o dela. Foi um m om ento feliz m as doloroso para todos quando finalm ente desligaram .
— É tão estranho ela não estar aqui — com entou Zoe parecendo triste. Então virou-se para a m ãe: — Posso ir a Londres visitá-la na próxim a folga que tiver?
— Seria m aravilhoso — Faith sorriu para a filha m ais nova — e se eu tiver um a folga, vou com você. Senão, pode ir sozinha e eu vou quando puder.
— É ridículo você ficar presa por "folgas", Faith. Deveria poder visitar sua filha sem pre que quisesse. É o m eu ponto — sentenciou Alex, e saiu. E Faith não respondeu. Só esperava conseguir fazer m alabarism o com todas as bolas que fossem necessárias para fazer sua vida em casa e seus horários na faculdade se encaixarem . Seria um desafio.
Os três cearam j untos naquela noite, com o planej ado. Faith preparou um pato com um a receita dada por um a am iga. Foi um a refeição deliciosa, e logo depois Zoe saiu. Alex dem orou-se um pouco m ais à m esa e tentou puxar conversa com Faith, m as nenhum deles tinha m uito o que dizer. As linhas de com unicação estavam interrom pidas há tanto tem po que era difícil restabelecê-las.
— Você vai à igrej a m ais tarde? — perguntou Alex de im proviso enquanto Faith apagava as velas e com eçava a tirar a m esa.
— Acho que vou à Missa do Galo — com o sem pre fazia. — Gostaria de vir com igo? — Ele nunca ia, m as ela sem pre convidava. Zoe dissera que a encontraria na igrej a se pudesse. E Faith não insistiu. Iria à igrej a de St. Ignatius na Park Avenue.
— Não, obrigado — recusou Alex e subiu para ler. Mesm o na véspera de Natal não havia m uita anim ação entre eles hoj e em dia.
Às onze horas, Faith estava em seu escritório, preparando-se para sair para a igrej a, quando o telefone tocou, e ficou surpresa ao escutar a voz de Brad. Para ele eram oito horas.
— Feliz Natal, Fred. — Ele soava am igável e afetuoso, m as tam bém um pouco triste. Era um a época difícil para todo m undo, um a época de se lem brar de quem você um dia foi, de quem gostaria de ser e de todos os sonhos perdidos.
— Obrigada, Brad. Para você tam bém .
— Recebeu m eu presente? — Não se falavam há vários dias, e os e-m ails eram curtos e rápidos. Am bos estavam atolados.
— Recebi — ela sorriu. Era um a pequena caixa em brulhada em papel de Natal e estava em cim a de sua m esa. Chegara em um envelope da Federal Express, e ela estava guardando para o dia de Natal. Ela m andara para ele um a coleção de livros antigos de Direito com um a linda encadernação de couro. — Está bem aqui. Estou deixando para abrir am anhã.
— Foi por isso que liguei. — Ele parecia satisfeito. — Queria assegurar que você abrisse esta noite.
— Tem certeza?
— Tenho. Por que não abre agora? — Ele parecia anim ado e ela riu.
— Adoro presentes. É tão divertido. Recebeu o m eu? — perguntou ela enquanto tirava o papel com cuidado e olhava para a pequena caixa chata e branca. Não podia im aginar o que tinha em seu interior. Nada nela dava algum a pista.
— Tam bém deixei para abrir am anhã. Mas queria que você visse o seu esta noite. Vam os, Fred, abra. — Sendo cuidadosa, ela levantou e tam pa da caixa e suspirou ao ver o que tinha ali. Era um lindo terço antigo que ele com prara em um a loj a de artigos religiosos. As ave-m arias eram lindos citrinos antigos, e os pai-nossos e o crucifixo eram de esm eralda cabuchão, e havia pequenos rubis nas pontas da cruz. O terço parecia ter sido usado e am ado por m uito tem po. Faith nunca vira um m ais bonito. Brad ficou satisfeito com sua descoberta e esperava que tivesse um significado m uito especial para ela.
— A m ulher disse que é italiano e tem uns cem anos. Tam bém disse que foi abençoado. Queria que você o levasse para a igrej a hoj e, Fred — sugeriu ele com um a voz suave, e os olhos dela estavam m arej ados de lágrim as. Dem orou um bom tem po até que ela falasse algum a coisa. — Fred?... Fred?... Você está aí?
— Não sei o que dizer. É a coisa m ais linda que j á vi. Obrigada, de todo coração. Vou usá-lo na m issa hoj e. E rezarei o terço por você. — Ela sorriu. Tinha um a qualidade m uito antiquada, apesar de sua aparência. Tinha valores sólidos, paixão por sua fam ília e um profundo respeito por sua igrej a. Ela crescera e se tornara ainda m elhor do que ele im aginara. — Acenderei um a vela para você tam bém . E para Jack.
— Talvez eu acenda um a para você.
— Você vai à igrej a? — Ela parecia surpresa. Não achava que ele iria.
— Acho que vou. Não tenho nada m ais para fazer. Vam os j antar com alguns am igos daqui a pouco, e o pai de Pam está aqui. Mas lá pelas onze todos j á terão ido em bora. Pensei que seria legal ir. — Brad estava querendo ir à igrej a de St. Dom inic, que era um a linda igrej a antiga em estilo gótico, com um santuário de São Judas, que ele sabia ser o santo de devoção dela. Perguntara à m ulher na loj a de artigos religiosos aonde ir, quandc com prou o terço para Faith. — Tem um a igrej a aqui perto que tem um santuário de São Judas. Se eu for, acenderei um a vela para você lá.
— Não posso acreditar que você m e deu isso — balbuciou ela, olhando para o terço. Tinha um toque suave em sua m ão, e a corrente era em ouro am arelo. Havia um pequeno saco de cetim para guardá-lo e protegê-lo em sua bolsa. Ela nunca vira um terço tão bonito em sua vida. — Acho que posso aposentar o m eu de m adeira — acrescentou ela. Era um presente realm ente m uito especial.
Conversaram por alguns m inutos. Tudo que ele conseguira fazer foi deixar um recado para os m eninos. Não havia linha direta para a reserva de caça onde m oravam . E era óbvio que eles não tinham conseguido um a linha na agência dos correios, j á que não ligaram para casa. Isso fazia o feriado ainda m ais difícil para Brad, sem m encionar a tensão que existia entre ele e Pam . Hoj e em dia, sentia-se um estranho em sua própria casa. Com o sem pre, ela convidara pessoas para j antar que ele não conhecia bem , e o pai dela tinha um j eito de m onopolizar as conversas e fazer tudo girar em torno dele.
— Fico feliz que não estej a trabalhando hoj e — com entou Faith, segurando o terço. Isso fazia com que se sentisse m ais próxim a dele.
— Acho que o m elhor que tenho a fazer é ficar por aqui e m arcar alguns pontos, antes que com ece um a guerra. — Não havia por que fazer isso, e Faith concordava. E sabia que no dia seguinte eles teriam um a grande ceia, black-tie de novo.
— Acho que Pam deve ter sido casada com um m úsico de orquestra em outra vida, ou m aestro talvez, ela sem pre quer que todos estej am usando sm oking. Não é exatam ente a m inha praia. — Ele ficava m ais feliz usando j eans velhos, suéter de gola alta e botas, em bora tam bém ficasse bonito de terno, com o ela vira em Nova York. — Pensarei em você esta noite quando estiver na igrej a.
— Ficarei com o lindo terço que m e deu o tem po todo na m ão. E pensarei em você. — Havia um vínculo de afeto entre eles que m al precisava de palavras.
Poucos m inutos depois, ela olhou para o relógio e disse que precisava ir para a igrej a ou não conseguiria um lugar para se sentar. A Missa do Galo era popular, e a igrej a costum ava ficar cheia. E ela sabia que Brad tinha de se j untar a sua fam ília e convidados para a ceia.
— Mais um a vez, obrigada pelo lindo presente. Foi o m elhor que j á ganhei.
— Feliz Natal, Fred... Fico feliz que tenha gostado... E obrigado por tudo que m e deu nos últim os dois m eses. Você é o m elhor presente de todos.
— Você tam bém — retribuiu ela com suavidade, e um m om ento depois desligaram . Ela foi se despedir de Alex, m as ele estava dorm indo na poltrona com um livro. E alguns m inutos m ais tarde, Faith saiu pela porta da frente, usando o grande casaco verm elho, e cham ou um táxi.
Em San Francisco, Brad esforçou-se para falar com todo m undo na sala. Estava usando blazer e calças sociais, assim com o seu sogro. A Véspera de Natal era sem pre inform al na casa deles, em bora todos os hom ens usassem gravatas. E Pam usava um conj unto de calças e cam isa de seda verm elha e sandálias douradas. Estava bonita, festiva e escultural. Era um a m ulher bonita, m as toda vez que Brad olhava para ela via em quem se transform ara. Era m ais dura, m ais forte e m ais poderosa do que ele poderia ter sonhado. Com prara para ela um colar de ouro com diam ante, com bracelete e brincos fazendo conj unto, e sabia que era o tipo de j óia que ela usaria m uito. Mas ficara m uito m ais anim ado com o terço que m andara para Faith. Eram m ais significativos para ele. E para ela.
Estavam à m esa na hora em que a m issa com eçou em Nova York. Tiveram um a refeição tradicional inglesa, com rosbife e pudim Yorkshire, e pudim de am eixa com calda caram elada de sobrem esa. Mas ele estava distraído quando com eçaram a com er, e seu sogro fez um brinde com vinho de Napa Valley. Só conseguia pensar em Faith aj oelhada na igrej a, com o estivera na Catedral de St. Patrick quando foram j untos.
— Você parece um pouco distraído esta noite — observou Pam quando finalm ente se levantaram . — Você está bem ?
— Só pensando em um caso — respondeu ele, parecendo vago, e seus olhos se encontraram .
— Ou na sua am iga de Nova York? — Ela o conhecia m elhor do que ele achava. — Mandou um e-m ail para ela esta noite? — perguntou Pam . Parecia um a caçadora indo atrás de sua presa, e ele balançou a cabeça. Não m andara um e-m ail para ela, m as telefonara.
— Não faça disso um a coisa m aior do que realm ente é, Pam . É o que é. Ela é um a velha am iga.
— Conheço você m uito bem . É um rom ântico inveterado, Brad. É exatam ente o tipo de coisa em que você m ergulharia de cabeça, ainda m ais se for um caso perdido.
— Não sej a boba. — Ele tentou dispensá-la, m as o que ela disse estava certo. Anos atrás, quando conheceu Pam , era um rom ântico inveterado. Mas ela arrancara isso dele há m uito tem po, ou assim ele achava. Ele não acreditava no que ela dizia sobre seus sentim entos por Faith. Sabia bem sobre o que isso se tratava. Ela só queria m arcar e defender seu território. Queria deixar claro que ainda era sua dona, independente da vontade dos dois.
Todos os convidados saíram por volta das onze, e um carro com m otorista foi pegar o pai de Pam . Ele não gostava m ais de dirigir à noite. E, quando Pam e Brad subiram , Brad olhou para o relógio.
— Tem algum encontro ardente? — im plicou ela. Nos últim os dias, andava pegando no pé dele, em bora Brad tenha percebido que flertara com vários hom ens naquela noite. Ela não hesitava em fazer isso na frente dele, nem m esm o beij á-los na boca. Ela fazia o que bem entendia, independente do que dizia a ele sobre Faith.
— Na verdade — revelou ele de form a casual —, estava pensando em ir à igrej a.
— Ah, m eu Deus. Você não tem um a am ante. Você perdeu o j uízo. Por que m otivo faria isso?
— Acho que é um a coisa legal — respondeu ele com calm a, tentando não ficar ofendido pelo que ela disse.
— Se quiser bancar um a de religioso para cim a de m im , Brad, quero o divórcio. Com um a am ante, posso lidar. Com um fanático religioso, não. Isso seria dem ais. — Ele teve de rir para si m esm o, im aginando o que ela acharia se soubesse que ele m andara um terço para Faith. Isso era tão religioso quanto parecia, m as ele sabia com o seria significativo para ela, e ficou em ocionado por ter sido.
— É um a tradição legal, e sinto saudade dos m eninos — explicou ele de form a honesta. Fora um dia solitário. Os m eninos eram os únicos aliados que norm alm ente tinha na própria casa. A ceia com o pai e os am igos de Pam fora dolorosa, m as levara na boa. Sem pre levava.
— Tam bém sinto saudade deles, m as não vou correndo para a igrej a. Deve haver outras form as de lidar com isso — rebateu ela, tirando os sapatos e j ogando os brincos na penteadeira.
— Cada um faz do seu j eito — concluiu ele, depois saiu do quarto e desceu. — Estarei de volta em um a hora — anunciou enquanto vestia o casaco e ela saía do quarto descalça e m eio vestida com um sorriso.
— Não se esqueça de m e avisar se quiser virar padre.
— Não se preocupe, eu aviso. — Ele sorriu para ela. — Não corro esse perigo ainda. É só um a m issa na Véspera de Natal. Acho que estou a salvo. A propósito, Feliz Natal. — Ele ficou olhando-a por um longo m om ento, sentindo-se triste, desej ando ainda sentir m ais por ela, m as não sentia há m uito tem po, nem ela.
— Obrigada, Brad. Para você tam bém — respondeu ela, desaparecendo.
Ele tirou o j ipe da garagem e dirigiu até a igrej a de St. Dom inic. Era um a linda igrej a em estilo gótico, e quando subiu os degraus pôde ver pinheiros altos dos dois lados do altar principal e a igrej a quase toda ilum inada por velas. O santuário de São Judas era à direita, e havia filas de velas lá tam bém . Decidiu ir lá prim eiro, então acendeu velas para Faith e Jack e aj oelhou por um m om ento, pensando nela e no velho am igo. Não sabia que orações deveria rezar, nem m esm o com o, então pensou neles e desej ou tudo de bom . E estava grato por algum a força oculta ter trazido Faith de volta para sua vida.
Sentou-se em um banco no fundo da igrej a e ficou im pressionado com a beleza, pom pa e cerim ônia da Missa do Galo. E quando cantaram "Noite Feliz" no final, lágrim as escorriam pelo seu rosto. Não sabia por que nem para quem eram , ou o que o fizera chorar. Só sabia que estava profundam ente em ocionado. E, quando foi para casa naquela noite, sentia-se m ais leve do que em anos. Era um a estranha sensação de paz, alegria e tranquilidade. Sorriu enquanto dirigia para casa, e por um m om ento sentiu com o se Jack estivesse ali no carro com ele.