Preces Atendidas

Danielle Steel · Capítulo 5 de 25

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Preces Atendidas

Capítulo 4

 

QUANDO ALEX VOLTOU DE MIAMI, estava com um hum or pavoroso. Faith o conhecia bem o suficiente para não perguntar nada. Era óbvio que as reuniões não tinham sido boas. Preparou o j antar para ele em silêncio e, assim que ele term inou a últim a garfada, levantou-se, subiu, tom ou banho e foi para a cam a. Não dissera um a palavra enquanto com iam . E foi apenas na m anhã seguinte, no café da m anhã, que ele perguntou com o ela estava.

— Bem — respondeu ela, servindo um a xícara de café para ele. Preparara m ingau de aveia, cereais e m uffins, e ele parecia com um hum or um pouco m elhor. — Viagem difícil?

— Ele assentiu, m as não se ofereceu para dar detalhes. Ele era assim . Quando as coisas não corriam do j eito que queria, não falava m uito. E se as coisas corressem bem , ela conseguiria perceber por sua postura, m as ele guardava as novidades para si m esm o.

— Falei com Eloise em Londres — contou Faith enquanto ele lia The Wall Street Journal. Ele pareceu não escutar o que ela disse, e j á tinham se passado uns cinco m inutos quando ele falou por trás do j ornal.

— Com o ela estava?

— Bem . — Faith estava acostum ada com seu estilo e sabia o que ele estava perguntando. — Ela virá para casa para o Dia de Ação de Graças, passará o fim de sem ana prolongado.

— Bom . — Ele então abaixou o j ornal, levantou, olhou para o relógio e depois para a esposa. — Não tenho tem po para conversar com você agora, Faith. Mas quero que saiba que pensei m uito sobre nossa discussão.

— Sobre o quê?

— Sobre seu sonho fantástico de ir para a faculdade de Direito. Quero que saiba que não vou concordar. Você terá de encontrar outra coisa para fazer. — Ele não esperou ela com entar, sim plesm ente virou-se e saiu da sala. E a m aneira com o ele agiu deixou-a furiosa na m esm a hora. No passado, ela teria se dado por vencida. Mas desta vez, por algum a razão, se sentia insultada, e seguiu-o até o vestíbulo. Ele estava vestindo sua capa, estava chovendo m uito do lado de fora.

— Você não pode sim plesm ente m e dispensar assim , Alex.

E não é um sonho fantástico. É um a coisa razoável que quero fazer. Estou disposta a m e dedicar a isso e a fazer funcionar para nós dois.

Ele lançou um olhar gélido que por anos a subj ugara.

— Mas eu não estou. Não vou viver com um a estudante em tem po integral e todo o estresse e afetação que isso envolve. Você é m inha esposa, Faith. Tem obrigação de cum prir sua parte no acordo.

— Você tam bém — respondeu ela. — Isso não é j usto. Por que você não consegue m e respeitar com o pessoa e perceber que preciso de algo em m inha vida, algum a coisa inteligente para fazer, agora que as m eninas saíram de casa?

— Vá a um psiquiatra se está tendo dificuldades em se adaptar à saída das m eninas. Não saia por aí precipitadam ente tentando recapturar sua j uventude. A verdade é que você não pode.

— Você fala com o se eu tivesse cem anos. Eu não tenho.

— Tenho plena consciência da sua idade, Faith. Você não é m ais um a m enina, não aj a com o se fosse. Essa história toda é infantilidade e im aturidade. Aj a com o um a adulta. Suas filhas foram em bora. Você é casada, tem responsabilidades com igo. Não poderá dar conta delas se for para a faculdade. — Tudo tinha a ver com ele. Sem pre tinha.

— Com o que você está preocupado? Que eu não possa ir a um j antar ocasional porque estou na faculdade? Não vou para a lua, pelo am or de Deus. Estarei aqui, posso arranj ar as coisas. — Ela parecia desesperada e estava à beira das lágrim as. Ele nunca fora tão irracional quanto desta vez. Mas ela nunca o desafiara a este ponto.

— Não faz idéia do que está falando, Faith. A faculdade de Direito vai consum ir você. Não terá tem po para m ais nada. E eu tenho voz ativa nisso.

— E eu não? — perguntou ela, enquanto lágrim as brotavam em seus olhos.

— Não neste caso. No que m e diz respeito, esse assunto está encerrado. Encontre outra coisa para fazer. — E com isso, antes que ela pudesse dizer m ais algum a coisa, ele abriu a porta e saiu na chuva, enquanto Faith ficou parada encarando-o. O Hom em de Gelo. Zoe tinha razão.

Alex fechou a porta com firm eza ao sair, e Faith voltou para a confortável cozinha com paredes revestidas de m adeira e sentou-se. A louça do café ainda estava na m esa, e ela só conseguia chorar. Soluços longos, altos, nervosos. Sentia-se com o se estivesse na prisão. Ele agia com o se fosse seu dono, com o se o que ela sentia ou queria não fosse de nenhum interesse para ele. Nunca se sentira tão im potente em toda a vida. Ainda estava chorando quando finalm ente ficou de pé e subiu para seu quarto.

Ficou parada na j anela, olhando a chuva cair, por m uito tem po. No m om ento, estava deprim ida. E, quando recebeu um e-m ail de Brad naquela tarde, não respondeu. Sentia-se com o se tivesse fracassado com ele tam bém . Ele esperava m uito dela, m as não conhecia Alex. Ninguém conhecia. Não assim . As outras pessoas achavam -no razoável, inteligente e atencioso. Só Faith e suas filhas sabiam com o ele era frio, ou podia ser. Tudo tinha de ser do j eito dele. Zoe e Alex tiveram inúm eras discussões desse tipo até que ela acabou desistindo de conversar qualquer assunto com ele. Apenas Eloise parecia capaz de conversar com ele. Ele considerava o m undo delas com o seu feudo, e Faith sentia-se sua escrava.

Brad tinha razão.

Nos dois dias seguintes, Faith sentiu-se deprim ida, e eles m al se falaram no café da m anhã ou no j antar. E finalm ente, dois dias depois de Alex dar seu ultim ato, Brad enviou-lhe outro e-m ail.

"Ei, você está bem ? Tem estado m uito quieta. Algum a coisa errada? Estou preocupado com você. Dê notícias para que eu saiba que pelo m enos está viva. Com am or, Brad."

Com um longo suspiro, ela com eçou a digitar, m as não tinha m uito o que dizer.

"Perdi a guerra. Alex m e disse que a faculdade de Direito está fora de questão. Do ponto de vista dele, a faculdade entraria em conflito com as m inhas responsabilidades com ele. Alex não falou com igo a sem ana toda. Estabeleceu a regra e pronto. E agora estou deprim ida. Além disso, aqui choveu a sem ana toda. Estou infeliz e m e sentindo para baixo. Conversando com as form igas, acho. Agora o que farei pelo resto da m inha vida? Com am or, Fred."

A resposta dele chegou quase im ediatam ente. Ele estava na m esa quando o e-m ail chegou. E assim que leu, ficou profundam ente chateado. Pensou em ligar para ela, m as acabou decidindo m andar um e-m ail.

"Isso é péssim o. Aguente firm e, Fred. Você está deprim ida porque sente com o se tivesse perdido o controle de sua vida.

Por um a boa razão. Não quero dizer o que deve fazer, só cabe a você decidir. Mas se deixar ele fazer isso, dar-lhe ordens e ultim atos, vai ficar deprim ida. Muito. Acha que tem algo que você possa fazer para reconquistar sua força?

Com o for m elhor para você. Decida o que e quando. Mas tem de fazer algum a coisa. Não pode ser tratada com o um a criança. Pior, com o um a coisa. Ele tam bém tem de respeitar suas necessidades. E se ele não consegue, você tem de se respeitar. Se não fizer isso, pagará um preço alto dem ais. Eu sei, j á passei por isso. Desafiar parece m uito arriscado, principalm ente com pessoas com o Pam e Alex. Mas se não desafiar, você se perderá. O que é horrível.

Descubra o que precisa fazer para sentir-se um pouco m ais controlada, ou m uito m ais se preferir, e então levante e dê a volta por cim a. Vale a pena. Estarei segurando a sua m ão.

Agora, pegue um guarda-chuva e saia para um a cam inhada. Parece que você precisa de ar. Estou aqui se precisar de m im . E se você m atá-lo, defenderei você. Hom icídio j ustificado, com certeza. Sim ples assim . Com am or, Brad."

Ela sorriu ao ler o e-m ail e apagou-o para que ninguém pudesse ler o que ele escreveu. A parte sobre m atar Alex poderia aborrecer as m eninas, no m ínim o. E então ela decidiu seguir o conselho dele. Calçou botas e um a capa de chuva e saiu de casa. Ele estava certo, ela precisava de ar, e isso lhe deu tem po para pensar. Desceu a Lexington e pegou a Fifth Avenue até o parque.

Enquanto cam inhava, não percebeu, m as ficou fora por duas horas, e isso lhe fez m uito bem . Brad estava absolutam ente certo. Tinha de reconquistar algum tipo de força. Alex estava tratando-a com o se fosse seu dono, com o se ela fosse um obj eto que ele com prara. E ela não estava m ais disposta a deixá-lo fazer isso. Era um a enorm e m udança para ela.

Esperara que ele fosse razoável e aceitasse, m as com o não aceitou, ela sabia o que queria fazer agora. Enviaria os form ulários para a Escola de Educação Continuada e para o curso preparatório para o LSAT. Pelo m enos, era um com eço. Mas dessa form a, fizera sua escolha. O curso preparatório para o LSAT com eçaria na sem ana seguinte, e ele não precisaria saber. Faith ainda tinha três m eses para conversar com ele, fazer o LSAT, preencher seus requerim entos e decidir-se. Tentar entrar na faculdade de Direito lhe daria opções, e só o fato de decidir ir para a Escola de Educação Continuada j á lhe deu um a sensação de controle.

Faith enviou os form ulários naquela tarde. Enquanto eles caíam na caixa do correio, ela ficou parada lá, debaixo de chuva, e sorriu. Havia um nó em seu estôm ago, m as ao m esm o tem po seu coração estava m ais leve e a m ente m ais clara. Sabia que tinha feito a coisa certa. Correu de volta para dentro de casa e ligou para Brad. Ele atendeu.

— Eu consegui! — exclam ou ela, e ele soube na m esm a hora quem era. Ela parecia um a criança que ganhou um a gincana na escola. Prim eiro lugar.

— O que você fez? — perguntou ele sorrindo ao se recostar na cadeira e balançá-la sobre duas pernas.

— Você estava certo. Prim eiro, saí para um a cam inhada. Um a longa cam inhada. E quando voltei para casa, j untei os form ulários e enviei. Acabei de deixá-los na caixa do correio na esquina e m e sinto ótim a. O curso preparatório para o LSAT com eça na próxim a sem ana. Não vou dizer nada a Alex. Sim plesm ente vou. — Ela se sentia desonesta, m as poderosa e no controle. — Pelo m enos fiz algum a coisa para reconquistar m inha força. Agora, m e sinto hum ana de novo.

Ela estava im pressionada de com o suas ações trouxeram um alívio rápido para a forte depressão em que estava.

— Estou feliz, Fred. Fiquei preocupado com você. Parecia m uito m al. — Na verdade, pior do que isso. — E estou m uito orgulhoso!

— Estava m e sentindo com o nada. A propósito, com o você está? Desculpe, só falei de m im m esm a. Fiquei péssim a a sem ana toda.

— É natural. O discurso dele não foi feito exatam ente para você se sentir ótim a. Você sabe, passei por isso com Pam quando saí da firm a do pai dela. Am eaças, ultim atos, culpa, acusações, achei que ela fosse m e deixar quando m e dem iti.

Mas no final, eu sabia que precisava m e arriscar. Se não m e arriscasse, perderia o respeito por m im m esm o, e m inha vida teria ido por água abaixo.

— Você é m ais coraj oso do que eu — com entou ela, im pressionada pelo que ele fizera. Pam parecia bem difícil, e era.

— Você está indo m uito bem . Hoj e m erece nota dez. Estou realm ente orgulhoso de você, Fred.

— Obrigada, tam bém estou orgulhosa de m im m esm a. Se você não tivesse dito o que disse, eu ainda estaria aqui sentada, chorando. — Ele detestava pensar nela assim e estava feliz por tê-la aj udado. — Obrigada, Brad.

Ela ainda não fizera nada definitivo para desafiar Alex, m as estava com eçando a abrir as asas. Apenas o suficiente para ressuscitar seu auto-respeito.

— De nada — agradeceu ele com gentileza. Ela fez com que ele se sentisse útil e im portante. Era um a sensação boa, e ele se sentiu m ais próxim o dela.

— Com o está o trabalho? — Ela parecia alegre e interessada de novo, e sentia-se viva.

— Louco com o sem pre. Vam os ao tribunal na sem ana que vem com o garoto acusado de hom icídio em prim eiro grau. Tenho m uito o que fazer.

— Acha que vai ganhar?

— Espero que sim . Ele está confiando em m im . Eu tam bém . Serei duro. Ele é um bom garoto, m erece um a oportunidade. Não foi prem editado, m as no m om ento que se põe um a arm a na m ão de um a criança, na m ão de qualquer um , na verdade, coisas ruins acontecem e pessoas se m achucam . É assim que funciona. Em todo caso, não m e deixe com eçar com isso. Então, o que você vai fazer agora? Espero que não estej a pensando em contar a Alex que enviou os form ulários.

— Ainda não — respondeu ela com honestidade. Detestava m entir para ele sobre o curso preparatório para o LSAT.

Sim plesm ente desapareceria todas as m anhãs por três horas, e ele nunca saberia. Ele raram ente ligava durante o dia, exceto para falar sobre algum a m udança de planos. E ela estaria em casa na hora do alm oço todos os dias. — Não tem por que brigar com ele por enquanto. Vam os nos enlouquecer. Em todo caso, talvez o LSAT sej a m uito difícil para m im . Vam os ver com o vou m e sentir depois que com eçarem as aulas.

— Você vai se dar bem — encoraj ou-a. Ela era um a das m ulheres m ais inteligentes que conhecera, sem pre fora boa aluna e j á entrara na faculdade de Direito antes. Mas am bos sabiam que ela acabaria tendo de enfrentar Alex, e Brad não tinha dúvidas de que ela seria aceita na faculdade de Direito. E então teria de decidir. Ela m al podia acreditar em com o estava se sentindo m elhor desde que enviara os form ulários para as aulas. Afastara totalm ente a depressão. Não se sentia m ais im potente e indefesa.

— Você fez a coisa certa, Fred — apoiou-a ele. — Tenho de voltar ao trabalho. Preferia conversar com você, m as o dever m e cham a.

— Obrigada, Brad. Em breve nos falarem os de novo — prom eteu ela. Fez pequenos serviços em casa no resto da tarde e estava com um bom hum or surpreendente quando Alex chegou em casa. Ela estava cantando na cozinha enquanto preparava o j antar.

Alex com entou a esse respeito assim que entrou na cozinha.

— Você está de bom hum or. O que fez hoj e? — perguntou ele com cautela, enquanto ela sorria. Ele esperara m ais daquela tensão que pesara sobre eles no café da m anhã. E em vez disso, ela parecia relaxada e feliz.

— Nada dem ais. Dei um a longa cam inhada e fiz algum as coisas sem im portância — respondeu ela vagam ente.

Detestava m entir para ele, m as sentia que não tinha escolha.

— Choveu o dia todo — obj etou ele, parecendo desconfiado, com o se não acreditasse nela.

— Eu sei. Cam inhei na chuva — retrucou ela ao colocar o j antar deles na m esa. Não contou para ele sobre a conversa com Brad. Não tinha m otivos para contar. Ele se tornara seu am igo secreto e defensor de suas causas, exatam ente com o fora quando eram crianças. Era inofensivo. E em todo caso, Alex não se interessaria. Nunca se interessara por suas am igas, a não ser que os m aridos fossem im portantes. Ele não tinha nenhum interesse nas am igas dela. Nem teria em Brad, j á que ele era apenas um am igo de infância de Jack.

Alex não fez m ais perguntas sobre seu bom hum or. Em vez disso, com eu em silêncio, e ela perguntou com o estavam indo os negócios com a Unipam . Ele pareceu feliz por ela perguntar e fez um resum o dos progressos que fizeram . Foi um a daquelas noites raras em que eles realm ente conversavam . E no final da noite, ela se sentiu m ais próxim a dele e perdoou sua atitude sobre a faculdade de Direito.

Ainda tinha esperanças de convencê-lo nos próxim os m eses. Foram para cam a cedo naquela noite e, com o era previsto, quando ele se abriu um pouco, Faith se aninhou a ele. Fizeram am or e foi, com o sem pre, superficial e sem criatividade, m as confortável, satisfatório e fam iliar. Se ele pensasse a respeito, teria percebido a diferença de ser m ais atencioso. E, com um pouco m ais de esforço, eles poderiam até ter se curtido. Mas o relacionam ento deles não era algo em que ele costum ava pensar m uito, nunca fora. O casam ento era sim plesm ente algo que ele tinha com o certo, assim com o Faith.

Faith com eçou o curso preparatório para o LSAT na segunda-feira, e era em ocionante e desencoraj ador ao m esm o tem po. Havia m uita m atéria para absorver. Não fazia idéia de com o conseguiria fazer isso em oito sem anas. E todos os dias depois da aula, estava de volta em casa à um a hora.

As sem anas seguintes antes do Dia de Ação de Graças passaram sem nenhum incidente entre ela e Alex. Ela estava sendo m uito cuidadosa para não irritá-lo, e ele estava feliz e convencido de que ela vira a luz. Ela vira, m as não a que ele pensava. E ele tam bém estava ocupado. Viaj ou para Boston e para Atlanta e fez outra viagem rápida para Chicago. Faith estava ocupada com as aulas. Os dois outros cursos nos quais se inscrevera não com eçariam antes de j aneiro. E ela estava organizando o Dia de Ação de Graças e estava anim ada por rever Eloise e Zoe. Falou com Brad um a ou duas vezes, e ele enviou poucos e-m ails. Estava atolado com o j ulgam ento, e ela m al teve notícias dele até que term inasse, dois dias antes da Ação de Graças. E para deleite dela e alívio dele, o cliente foi absolvido da acusação de hom icídio em prim eiro grau. Ele foi considerado culpado por hom icídio culposo e pegou três anos de condicional e crédito pelos sete m eses que passou na prisão antes do j ulgam ento. Era um a vitória enorm e para Brad.

— Este foi por pouco — adm itiu Brad no prim eiro telefonem a depois do veredito. — O j úri ficou fora seis dias. A pobre m ãe do m enino estava praticam ente histérica, e ele estava m orrendo de m edo. Na verdade, eu tam bém . Era difícil saber por qual cam inho eles seguiriam . Havia m uitos argum entos bons para os dois lados. Tudo fica bem quando acaba bem . Eles vão ter um Dia de Ação de Graças m uito bom — concluiu ele, com um suspiro de alívio. — E você?

— As m eninas vêm para casa am anhã. Mal posso esperar para vê-las. Vam os j antar aqui, só nós quatro. — Eles não tinham um a fam ília grande. Os pais de Alex m orreram anos atrás, e agora a fam ília dela tam bém se fora. — O que você vai fazer, Brad? — perguntou ela, feliz por falar com ele. Não tinha notícias há vários dias. E no últim o m ês conversar com ele se tornara um hábito que ela cultivava. Era difícil acreditar que ele sum ira de sua vida por tantos anos. Era com o encontrar um irm ão há m uito tem po perdido, e ela adorava conversar com ele. Brad lhe dava conselhos íntegros e um a enorm e sensação de bem -estar. Ele estava no topo da lista do que agradeceria no Dia de Ação de Graças, j unto com suas filhas.

— Pam vai oferecer um grande j antar — respondeu Brad, com a voz cansada. Foram duas sem anas estafantes para ele durante o j ulgam ento e a espera do veredicto, sem m encionar as horas de preparação necessárias antes disso. — Acho que devem vir um as trinta ou quarenta pessoas. Já perdi a conta. Ela convidou algum as pessoas do escritório. O pai dela vai estar aqui, claro, a m adrasta, os filhos, alguns velhos am igos. E um as pessoas que eu nunca vi, provavelm ente dos com itês e diretorias de que ela faz parte. Pam adora estar cercada por m uita gente.

— E você? — perguntou Faith com suavidade. Tinha o tipo de voz que sem pre o acalm ava. Era um a daquelas pessoas que sem pre traziam paz e ofereciam conforto. Sua qualidade m aternal sem pre o com ovia, e ao m esm o tem po um lado fem inino ingênuo fazia com que aparentasse ser m ais j ovem .

— Honestam ente? Preferia passar o dia tranquilam ente com poucas pessoas que eu realm ente am o. Mas Pam se sentiria traída se não pudesse transform ar isso em um grande evento. Esse é o j eito dela. De qualquer form a, terei de vir ao escritório de m anhã. Tenho m uita coisa para pôr em dia depois de ficar com a cara enterrada no j ulgam ento.

— No Dia de Ação de Graças? Você não pode tirar o fim de sem ana de folga? Parece exausto.

Ele sorriu.

— E estou, Fred. Exaurido. Mas tem outros garotos que contam com igo. Não posso deixar o caso deles de lado no feriado. Posso usar o tem po para m e atualizar.

— E seus filhos? Vêm para casa?

— Estão m uito longe para vir. Jason e Dy lan vão ficar na Zâm bia. Não posso culpá-los. Vou tentar ir até lá depois do Ano-Novo, se conseguir. Eles estão adorando. Você j á foi lá?

— Não. Alex j á. Ele foi em um safari com um grupo de am igos uns anos atrás. Eu queria ir, m as nenhum a das outras esposas foi. Acabei indo para as Berm udas com as m eninas.

— Um pouco m ais civilizado. — Brad sorriu. — A que horas você estará celebrando Ação de Graças? — perguntou ele, bocej ando. Ela não o estava deixando entediado, m as estava m uito cansado depois do j ulgam ento. O abatim ento era sem pre enorm e. Só queria ir para casa, tom ar um banho e cair na cam a. Mas quisera ligar para ela prim eiro para celebrar a vitória. Era estranho, m as quando não se falavam pelo telefone ou trocavam e-m ails por m ais de dois dias, ele ficava preocupado.

— Costum am os com er no m eio da tarde, por volta das três horas. É um a hora estranha, m as as m eninas gostam . E às cinco ou seis, podem os ir ao cinem a ou elas podem sair com as am igas. E você?

— O j antar está m arcado para as sete. Vam os com er por volta das oito. Ligarei para você antes de sair do escritório. Você provavelm ente j á vai ter acabado antes de eu voltar para casa, ligar o m otor e encontrar os am igos de Pam . — Ele fez parecer com o se fosse um estranho na própria casa, e nesses dias às vezes era. — A propósito, com o estão as aulas? — Ela m andara alguns e-m ails para ele sobre isso e parecia estar se sentindo desafiada e curtindo.

— Ótim as. Mas assustadoras. Não m e concentrava assim há anos. — E sem pre que Alex não estava por perto, ela estudava em casa.

— Estou orgulhoso de você, Fred — repetiu ele, com o sem pre fazia, e realm ente estava.

Desligaram uns m inutos depois. Faith arrum ou os quartos das m eninas aquela noite e colocou vasos com flores frescas neles. Queria tudo perfeito na vinda delas para casa, e sentia-se feliz e relaxada quando foi para seu quarto. Com eçou a dizer algo para Alex, m as percebeu que ele estava dorm indo com um livro nas m ãos. Gentilm ente, colocou-o na m esa de cabeceira e apagou a luz. Ele parecia tranquilo e bonito deitado ali, e ela não pôde deixar de perguntar-se por que às vezes ele era tão rígido e tão duro com ela e com as m eninas. E de repente, lem brou-se de Charles Arm strong.

Em alguns aspectos, os pontos de vista de Alex não eram tão diferentes dos dele. Ele tinha m uitas expectativas com relação às filhas, queria que elas trabalhassem duro, tirassem boas notas e fossem bem -sucedidas. Era o que Charles exigia de Jack quando ele era j ovem , em bora esperasse m uito m enos de Faith por ser "apenas" um a m enina. Alex tinha as m esm as idéias ultrapassadas, apesar de tê-las m odificado um pouco porque teve filhas em vez de filhos: suas expectativas estavam sobre elas com o se fossem hom ens. Mas ele tratava Faith quase da m esm a form a que Charles tratara sua m ãe, com o se ela não existisse a m aior parte do tem po e não entendesse o que ele fazia durante os dias, com o se ela fosse de certo m odo m enos com petente que ele. Era um a form a sutil de desvalorização que a incom odava quando criança.

Ficava aborrecida por a m ãe deixar Charles tratá-la daquela form a. E agora Faith percebia que fizera a m esm a coisa.

Deixara Alex colocá-la para baixo, criticá-la, depreciá-la e ignorá-la. Deixar que ele a proibisse de ir para a faculdade de Direito era algo que sua m ãe teria feito. E ao deitar na cam a ao seu lado, enquanto ele roncava de leve, ela prom eteu não deixar que ele fizesse a m esm a coisa. A m aré estava com eçando a m udar.

Não podia deixar de se perguntar se escolhera Alex por ele ser parecido com Charles. Seu silêncio e distância eram fam iliares, apesar de não serem tão perceptíveis no início.

Mas algum a coisa nele deve ter lhe despertado algum a lem brança. O que ela tem ia agora era ter se tornado a sua m ãe, que era precisam ente o que não queria ser. A principal diferença era que sua m ãe lam entava-se, reclam ava, tornando-se am arga e depois resignando-se. Era a últim a coisa que Faith queria que lhe acontecesse. Sua m ãe parecia im potente frente ao dom ínio de Charles, um exem plo que Faith não queria dar para suas filhas. Queria ser um m odelo de integridade, dignidade e força. Mas era um a batalha. Um a batalha que Alex não queria que ela vencesse. O Hom em de Gelo, com o Zoe o cham ava. O triste era que ele não era inteiram ente assim , havia um a essência calorosa em algum lugar dele que Faith conhecera e am ara no início de seu casam ento. Mas a essência calorosa fora coberta por cam adas de gelo ao longo dos anos. Era difícil chegar ali, e ela só conseguia vê-la de relance ocasionalm ente.

Ao cair no sono naquela noite, ela esperou ter um bom Dia de Ação de Graças. Não havia nenhum a razão para não ter, principalm ente com as m eninas lá. De repente sentiu-se útil, estando com elas de novo. Elas precisavam dela, ou pelo m enos costum avam precisar, e precisariam agora, m esm o que por alguns dias. Só o fato de saber que elas estariam em casa fazia com que se sentisse feliz, segura e am ada. Ficava triste ao perceber que Alex não causava m ais essa sensação nela. A única alegria que ainda tinha eram as m eninas.