Preces Atendidas

Danielle Steel · Capítulo 21 de 25

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Preces Atendidas

Capítulo 20

 

BRAD NÃO LIGOU PARA FAITH antes de seu avião partir para Londres porque sabia que ela ainda estava na faculdade. Mas pensou nela enquanto esperava no aeroporto e depois que o avião decolou. Ficou apenas olhando pela j anela, pensando em Faith. Ficar sentado ao lado dela em frente a um a lareira, com o na noite anterior, era tudo que queria da vida. Que sem pre quis. E sabia que nunca teria.

Mais que tudo, sabia que não tinha direito a ela. Faith m erecia um a vida boa, com alguém que a am asse e fosse bom para ela. Ele não tinha intenção de deixar Pam , e Faith m erecia m ais do que um a parte de um hom em casado.

Nunca faria isso. Estava grato por ela não fazer nem idéia dos sentim entos dele. Mas, diferente dela, ele não tinha nenhum a vontade de afastar esses sentim entos. Só queria escondê-los e alim entá-los. Com exceção de seus filhos, ela se tornara a coisa que m ais im portava para ele na vida.

Depois de um tem po, ele pegou no sono e dorm iu a m aior parte do voo. Acordou para j antar e voltou a dorm ir. E, quando finalm ente acordou, pouco antes de aterrissarem , estava pensando em Faith de novo. Tinha a distinta im pressão de que sonhara com ela a noite toda.

O avião aterrissou pouco depois de um a hora, horário de Nova York, e ele foi direto para um telefone e usou seu cartão de crédito para ligar para ela. Queria se despedir de novo antes de se encontrar com Pam no hotel. Partiriam para a Zâm bia naquela noite.

O telefone tocou duas vezes e Faith atendeu com voz de sono. Para ela estava no m eio da noite.

— Alô? — Ela não podia im aginar quem era. E sorriu quando ouviu a voz de Brad.

— Desculpe por acordar você — desculpou-se ele. — Só queria m e despedir de novo.

— Com o foi sua reunião em Nova York? — Ela rolou na cam a, segurando o telefone, e abriu os olhos.

— Ótim a. Consegui uns conselhos m uito interessantes do m eu am igo. Não sei se vai dar certo, m as vou tentar o quanto puder quando voltar. — Faith sabia o quanto isso era im portante para ele. Perdera um j ulgam ento dois m eses antes, e um garoto de 16 anos fora condenado a cinco anos de prisão. Brad ficara arrasado e convenceu-se que a culpa era sua por não ter feito um trabalho m elhor.

— Sei que vai — assegurou ela. — Com o está o tem po em Londres?

— Gelado. Chovendo. Com o de costum e.

— Parece Nova York — ela sorriu. Apesar de tudo, estava feliz por ele ter ligado.

— Gostaria de poder ir ver Eloise para você. Acho que poderia convencê-la a m e escutar, com certeza eu adoraria tentar. — Mas am bos sabiam que era im possível. Ele era um estranho para a filha dela.

— Tam bém gostaria que você pudesse. Vai fazer algum a coisa especial em Londres? — Era difícil im aginá-lo com Pam por duas sem anas. Suas vidas eram separadas a m aior parte do tem po, e ela desconfiava que a proxim idade seria dura para ele, e talvez tam bém para ela. Eram quase estranhos um para o outro. A única coisa que tinham em com um eram os filhos.

— Nada dem ais. Pam vai querer fazer com pras. Pensei em ir ao British Museum por um as duas horas. Talvez eu vá com ela. Mas fazer com pras m e deixa louco depois de um tem po. — E então ele teve um a idéia. — Talvez eu vá a um a igrej a e acenda velas para você e para Jack. — Essa idéia fez com que ela sorrisse, ao escutá-lo deitada no escuro.

— Vicia, não vicia? — perguntou ela, e ele riu.

— É verdade. O engraçado é que acredito nisso. É com o se enquanto aquela pequena luz estiver acesa, algo especial acontecerá com você e estará segura. Quero lhe dar isso — disse ele de form a gentil.

— Você j á m e dá. Mas agradeço as velas tam bém . Sinto por não ter atendido às suas ligações de m anhã, fui à igrej a bem cedo.

— Engraçado, tive a sensação de que você estava lá. Parecia m uito séria ontem à noite, Fred. Você está bem ? — Estivera pensando nele e em seus sentim entos, e não tinha nenhum a intenção de contar, ou teria de se confessar de novo.

— Estou bem — assegurou ela. — É que tem m uita coisa acontecendo na m inha vida nos últim os tem pos. Muito em que pensar.

— Eu sei. É por isso que m e preocupo com você. — E então, depois de um a pausa, ele suspirou e disse que era m elhor ir para o hotel. — Cuide-se, Fred. Falarei com você em duas sem anas.

— Cuide-se tam bém . E divirta-se! — exclam ou ela, e então ele desligou, e ela ficou deitada na cam a pensando nele por horas depois de desligar o telefone. Arrancar Brad de seu coração não seria um a tarefa fácil. E regar o que eles tinham até então, apenas am izade, seria tão difícil quanto. Não sabia o que fazer.

Já passava das seis horas em Londres quando Brad chegou, e até passar pela alfândega, ligar para Faith e pegar um a lim usine para a cidade, j á eram quase nove. Pam ficara no Claridges na noite anterior e j á saíra quando ele chegou ao quarto. Deixara um bilhete dizendo que voltaria a tem po de sair para o aeroporto com ele e que suas m alas j á estavam prontas. Com o de costum e, ela trouxera coisas dem ais.

Brad tom ou banho e fez a barba, pediu ao serviço de quarto algo para com er, e saiu ao m eio-dia. Foi ao British Museum , com o dissera a Faith, e encontrou um a bonita igrej a antiga em Kingsway, a seis quadras do m useu; ali, acendeu as velas que prom etera para ela e Jack. Ficou sentado na igrej a por um longo tem po, pensando nela e na pessoa decente que era, e em com o gostaria de poder fazer m ais para aj udá-la. E então saiu para um a longa cam inhada. Acabou chegando na New Bond Street e vagou por algum as galerias de arte.

Entrou na Asprey s para adm irar os anim ais de prata e artigos de couro, então encontrou Pam saindo da Graff's. Era um a das j oalherias m ais im portantes do m undo.

— Se você m e disser que com prou algum a coisa, vou ter um ataque do coração — brincou ele, e ela riu.

— Só vendo vitrines — explicou-se ela com inocência. Não contou a ele que tinha com prado um bracelete fino de diam antes e um relógio novo. Eles m andariam para sua casa em San Francisco, então ainda não precisava confessar para Brad.

Pam estava em um a lim usine do hotel e Brad pegou um a carona. Ela estava m uito elegante em um terno azul-m arinho e um a capa enfeitada com pele. Era difícil im aginá-la na África. Ficava m uito m ais à vontade em Londres, no banco de trás da lim usine.

— O que você fez hoj e? — perguntou ela, de form a divertida, enquanto voltavam para o hotel. Ele sorriu para si m esm o pensando em quão horrorizada ela ficaria se ele falasse que foi à igrej a.

— Fui ao British Museum — respondeu ele de form a inocente.

— Im pressionante. — Ela sorriu enquanto chegavam ao Claridge's, e o porteiro e um bando de carregadores correram para aj udar. O m otorista colocara m eia dúzia de bolsas de loj as no porta-m alas, e Brad gem eu quando as viu.

— Espero que tenha com prado outra m ala para guardar essas coisas, se pretende levar tudo isso para a África. — Ele não conseguia nem im aginar o que ela com prara. Tinha bolsas da Gucci, Herm es, Saint Laurent e Chanel. Sem m encionar a parada na Graff ’s.

— Tenho lugar nas m inhas m alas. Não se preocupe — disse ela se dirigindo ao hotel, enquanto os carregadores seguiam -na com as bolsas. Ao ir atrás, ocorreu a Brad com o ela era diferente de Faith. Era forte, confiante, não hesitava em falar com as pessoas o que fazer e passava para todo m undo a im pressão de que poderia m andar no m undo, e m andaria, se tivesse a chance. Faith era infinitam ente m ais gentil, tranquila, m ais sutil em seus m odos, e sem pre que estava perto dela, Brad sentia-se em paz. Quando estava com Pam , tinha a sensação de estar em pé sobre um vulcão prestes a entrar em erupção. Um vulcão de tensão e energia retidos de form a inadequada. E nunca sabia quando sua fúria estaria direcionada para ele.

Não conversaram enquanto subiam no elevador, e Pam virou-se para olhar para ele quando entraram no quarto.

Sentia-se com o se não o tivesse visto há m uito tem po. E de certa form a isso era verdade, apesar de m orarem sob o m esm o teto.

— É m uito chato os m eninos estarem na África — queixou-se Pam ao sentar-se em um a poltrona na sala de estar da suíte. Ela sem pre ficava em hotéis luxuosos e reservava as m aiores suítes. — Gostaria que eles estivessem em algum lugar m ais civilizado — disse ela, tirando os sapatos. — Com o Paris ou Nova York.

— Acho que não seria tão divertido para eles — contem porizou Brad abrindo um a garrafa de vinho da geladeira e oferecendo a ela.

— Provavelm ente não — concordou ela, e m al tom ou fôlego antes de sua próxim a pergunta. Ela era esperta e sabia interpretá-lo bem . Sabia que tinha algo na cabeça dele.

Apesar de não serem íntim os, ela tinha instintos notáveis a respeito dele. E nem sem pre os m elhores. Às vezes ela só queria encurralá-lo e provar que conseguia. — Com o foi em Nova York?

— Muito bom — respondeu ele, parecendo satisfeito. — Consegui tudo que queria com Joel Steinm am sobre aquele caso de pena de m orte.

— Que bom . — Ela nunca se interessava pelo trabalho dele, assim com o ele tam bém não se interessava pelo dela. — Com o está a sua am iga? — Bingo. Ela conseguia ver isso nos olhos dele, independente do que ele respondesse.

— Faith? — Não iria esconder dela nem dar a satisfação de ela interpretar com o um últim o encontro. — Bem . Jantei com ela ontem .

— Ela j á percebeu que você está apaixonado por ela? — perguntou Pam , sem dem onstrar nenhum a em oção. Tinha tudo que queria dele. Respeitabilidade, com panhia lim itada e a conveniência de não term inar um casam ento de anos, do qual ela não gostaria de abrir m ão, assim com o ele. Esse era o m otivo para perm anecerem casados. Funcionava para am bos. Mas ele não gostou da natureza da pergunta dela, nem do tom de voz.

— Não, ela não percebeu. Porque eu não estou. — Pam descobrira antes dele próprio, m as Brad não tinha nenhum a intenção de adm itir isso. Em seu íntim o, ele sabia que ela estava certa. Mas seria perigoso para todos os envolvidos adm itir. E m ais que tudo, ele devia proteção a Faith. — Já disse para você. Som os velhos am igos.

— Não sei se você está m entindo para você m esm o, para m im ou para ela. Provavelm ente para os três.

— Isso é invenção sua — rebateu Brad, parecendo ofendido ao tom ar um gole de vinho. Pam estava quieta tom ando o dela e o observando.

— Não fique tão indignado — im plicou ela. — Deve estar m esm o apaixonado por ela para estar tão na defensiva. Não é nada dem ais, Brad. Nós dois j á nos apaixonam os antes. Por que está tão sensível em relação a isso? O que essa m ulher tem de tão sagrado?

— Ela é irm ã do m eu m elhor am igo, que j á m orreu. E eu cresci com ela, que é com o m inha irm ã m ais nova. E acho que é m au gosto de sua parte fazer esse tipo de insinuação.

— Desculpe se m eu com entário foi de m au gosto. Você sabe com o sou. Falo o que vej o. E conheço você. Acho que tem um a queda por ela. Nada dem ais. Não m e im porto com isso. Por que você deveria se im portar? — Pam tinha um j eito de introm eter-se em sua vida sem nenhum tato nem sensibilidade. Foi por isso que o casam ento deles acabou não dando certo. De um j eito ou de outro, ela era um a tirana. E esta era um a das coisas que m ais am ava em Faith: era gentil com ele, com todo m undo. Pam batia em todos com um m artelo, principalm ente nele.

— Por que sim plesm ente não esquecem os este assunto em particular pelo resto da viagem ? Será m uito m elhor para nós dois. — Eles estavam prestes a passar m ais tem po j untos, m uito próxim os, do que passaram em anos. Em San Francisco, eles conseguiam se m anter afastados, cada um cuidando de sua vida. Nesta viagem , seria com o serem irm ãos siam eses. E Brad não estava anim ado.

Ficaram longe um do outro nas duas horas seguintes. Pam tom ou um banho e Brad cochilou, e pediram sanduíches ao serviço de quarto antes de irem para o aeroporto. Seria um a longa noite. Tinham um a viagem de 12 horas pela frente e aterrissariam em Lusaka, Zâm bia. De lá, pegariam outro avião para Kalabo, sobre o rio Zam bezi e as Cataratas Vitória.

Os m eninos tinham prom etido encontrá-los com um a van para levá-los para o parque nacional onde m oravam e trabalhavam .

Pam desapareceu enquanto esperavam no aeroporto de Heathrow, queria conferir as loj as. E Brad foi com prar um livro. Tentou ligar para Faith, m as ela não estava em casa.

Então deixou um recado. Ele e Pam se reencontraram m eia hora depois no portão, e ela entregou-lhe um a pequena caixa em brulhada para presente.

— O que é isso?

— Um presente para você — respondeu ela, parecendo arrependida. — Desculpe por ter im plicado com sua am iga. — Algum as coisas ficavam além dos lim ites, e Pam estava com eçando a achar que Faith era um a dessas coisas, o que só confirm ava suas desconfianças. Mas preferia fazer as pazes com ele antes da viagem .

— Obrigado, Pam — disse ele, parecendo com ovido. Abriu a caixa e encontrou um a pequena câm era j aponesa com lentes panorâm icas. Era perfeita para esta viagem . — Que presente legal. Obrigado. — Isso fez com que ele se lem brasse que um dia eles se gostaram e foram am igos, m as j á se passara m uito tem po desde então. Passara m uita água por baixo da ponte, e m uitas decepções para am bos para reacender m uito m ais do que am izade. Mas para esta viagem , pelo m enos, era suficiente.

Acom odaram -se em seus assentos no avião, pediram o j antar e escolheram film es para as telas individuais. Pam pegou um a pilha de revistas de m oda que trouxera e alguns papéis do escritório. Estava trabalhando em alguns acordos im portantes quando saiu, e seu pai prom etera tom ar conta deles. Ele era o único em quem ela confiava na firm a. Além dele, só confiava em si m esm a. Apesar de todos os outros advogados e pessoas capacitadas a sua volta, ela era um a equipe de um a pessoa só. Pam não trabalhava bem em grupo. Nem Brad. Eles nunca confiaram um no outro quando trabalhavam j untos. Ele lidava com seus clientes, e ela, com os dela, e costum avam discutir sem pre sobre trabalho.

Foi um a das m uitas razões que o fizeram sair. Isso e o fato de ele sentir-se em um a coleira, presa por Pam e pelo pai. Para ele se tornou insustentável. E isso foi parte do que a deixou tão furiosa quando ele saiu. Perdera o controle sobre ele.

Que era um a das coisas que ele m ais am ava em trabalhar sozinho. Estava por conta própria, não precisava prestar contas nem a ela nem ao pai dela.

Conversaram m uito pouco durante a viagem , e am bos pareciam exaustos quando chegaram ao prim eiro aeroporto.

Nenhum dos dois dorm ira. E, ao assistir aos film es que selecionara, Brad só conseguia pensar em Faith. Preferia m orrer a adm itir, m as Pam estava certa. Não conseguia tirá-la de sua cabeça. Preocupava-se com seus sentim entos, com seu bem -estar e com o que Alex estava fazendo. Tinha m edo de que Alex fizesse algo realm ente ruim em sua ausência.

Sentia-se triste pelo com portam ento de Ellie. Só conseguia pensar nos dez m il problem as que ela poderia ter enquanto estivesse viaj ando. E, ela não teria com o entrar em contato.

— Você está péssim o — observou Pam , de form a abrupta, enquanto esperavam o próxim o voo.

— Estou cansado.

— Eu tam bém . Espero que os m eninos deem o devido valor por estarm os fazendo essa viagem toda. Estou com eçando a achar que deveríam os ter esperado até que eles voltassem para casa. — Mas Brad sentia m uitas saudades dos filhos, e eles tinham prom etido ir. E Brad convencera Pam de que seria um a viagem ótim a. Mas ela j á estava preocupada com a com ida e até com a água m ineral quando pegaram o voo seguinte. E desta vez, por pura exaustão, am bos dorm iram .

Era de m anhã em Kalabo quando chegaram . E os dois acordaram exatam ente no m esm o instante, quando o avião tocou o chão. Havia um nascer do sol inacreditável, e o céu estava colorido de laranj a e rosa enquanto o sol pairava sobre as m ontanhas, e era possível ver rebanhos de anim ais reunidos nas planícies. Brad nunca vira algo assim em sua vida. O terreno parecia se estender para sem pre, e havia poucas estradas e veículos. E havia tribais sem inus na pista esperando as pessoas desem barcarem .

— Bem , aqui vam os nós — disse Pam , nervosa. — Tenho a sensação de que não estam os m ais em Kansas, querido — com entou ela enquanto Brad ria. Ela não era um a m ulher que gostava de ser tirada de seu próprio am biente ou de lugares em que se sentia no controle. E este aqui estava longe de ser um deles. Mas Brad não se im portava de onde aterrissaram nem do que teriam de passar para chegar. Já fazia nove m eses desde que vira seus filhos, e isso era o suficiente. Teria ido ao inferno e voltado para vê-los.

Desceram as escadas até a pista e cam inharam até o term inal para passarem pela alfândega, que consistia em um hom em descalço usando um a cam isa com dragonas e short branco.

A cabeça dele parecia um a escultura africana, e ele olhou para Brad e Pam , verificou os passaportes e acenou para passarem . O oficial alfandegário tinha o tipo de rosto e postura que teria deixado Pam aterrorizada se estivesse sozinha. Tudo que queria era voltar para o Claridges e então para casa. A única consolação era ver Dy lan e Jason, m as, para Pam , estar lá era um preço alto para ver os filhos.

Brad soltou um grito no m om ento em que os viu. Estavam esperando perto da van do lado de fora, e assim que Pam e Brad e um carregador saíram , eles correram na direção dos pais e os abraçaram . Estavam bonitos e altos, com os cabelos louros clareados pelo sol e os rostos tão bronzeados que pareciam nativos. Estavam idênticos e pareciam com Brad, até nas covinhas, com exceção dos cabelos louros que ninguém nunca conseguira explicar, a não ser por algum parente distante. Brad sem pre dizia que devia haver um sueco em algum lugar. Quando eram bebês e crianças, tinham o cabelo tão louro que até parecia branco. E Brad percebeu ao vê-los que tinham o cabelo da m esm a cor que Faith. Era m ais um a coisa para fazer com que se lem brasse dela, até ali.

— Vocês dois estão incríveis — elogiou Brad. Eles estavam m aiores e, por causa do trabalho que faziam , desenvolveram m úsculos fortes nas costas, om bros e braços. Pareciam fisio-culturistas vestindo cam iseta e j eans. E até Pam parecia anim ada agora que estava aqui. Era m aravilhoso vê-los.

— Você tam bém está ótim o, pai— retribuiu Dy lan enquanto Jason aj udava a carregar as m alas da m ãe. Brad era o único capaz de diferenciá-los. Sem pre j urou que eram diferentes.

Pam nunca tinha certeza com qual estava falando e, quando eram pequenos, resolvera o problem a calçando tênis de cores diferentes, que eles acabaram aprendendo a trocar m ais tarde. Mas m esm o agora, adultos, era difícil diferenciá-los. Jason era um centím etro m ais alto, m as nem isso aparecia.

Os dois deram m uitas inform ações e dados interessantes enquanto iam para o Parque Nacional Liuwa Plain, perto do rio Zam bezi, onde m oravam e trabalhavam . Explicaram paisagens ao vê-las, nom earam anim ais que passavam , falaram de tribos que viviam no m atagal ao longo da estrada.

O que estava vendo era exatam ente o que Brad esperara e fez com que ficasse feliz por ter vindo. E m ais do que nunca percebeu a experiência extraordinária que os m eninos estavam tendo. Sabia que nunca se esqueceriam e que seria difícil ter outra experiência com o esta depois que voltassem para casa. Deveriam voltar em j ulho, em bora estivessem falando sobre passar um ano em Londres ou talvez seis m eses viaj ando pela Europa, antes de irem para a pós-graduação ou conseguirem em pregos. Pam estava determ inada a pressioná-los a entrar na faculdade de Direito.

E depois do que estavam vivendo, Brad não sabia m ais se a m ãe tinha algum a chance. Os m eninos viram um m undo m ais am plo. Essa experiência não tinha preço. E nenhum deles expressara interesse em Direito nem em trabalhar para ela no futuro.

Levaram quatro horas em estradas estreitas e esburacadas até a reserva de caça no parque nacional e, quando chegaram lá, Pam estava com eçando a parecer nervosa. Tinha a distinta im pressão de que estavam no fim do m undo, e estavam .

Brad adorou, assim com o os m eninos. Ela parecia estar pronta para voltar para casa. E piorou quando chegaram . Os em pregados da reserva de caça m oravam em barracas do lado de fora. Havia dois prédios estreitos, um tinha um a grande sala de recreação e um escritório, e o outro, um refeitório e dois m inúsculos quartos. Os m eninos reservaram um para eles, m as Brad sugeriu que preferia dorm ir com os m eninos na barraca.

— Eu não! — exclam ou Pam logo, e todos riram . Havia um chuveiro externo, que na verdade era um a barraca grande com um a m angueira, e cabines que serviam com o sanitários.

De fato, estava entre as reservas de caça m ais suntuosas da região, m as não era tão elegante quanto algum as no Quênia, que Pam teria preferido. Para Pam , o lugar era tão ruim quanto parecia.

— Ah, m eu Deus — m urm urou ela baixinho enquanto Dy lan abria um a porta e m ostrava a ela os sanitários. — E só isso? — perguntou ela, rezando para cair um banheiro do céu. A idéia de passar duas sem anas ali quase a fazia chorar.

— Você ficará bem — confortou-a Brad, batendo no om bro dela, e ela lançou-lhe um olhar enfurecido.

— De quem foi esta idéia? — sussurrou ela para Brad quando os m eninos saíram para pegar cobertores quentes e travesseiros, e Brad riu.

— Dos seus filhos. Eles queriam que nós víssem os o lugar onde estão m orando há nove m eses. Você vai se acostum ar. Prom eto.

— Não conte com isso. — E Brad a conhecia bem o suficiente para saber que provavelm ente estava certa. Mas tam bém sabia que ela tentaria. Ela era m im ada e adorava conforto, m as quando pressionada, tam bém era capaz de ter espírito esportivo. E fez esse esforço pelos m eninos. Em bora quase tenha desm aiado quando viu sua prim eira cobra, e os m eninos avisaram que havia insetos voadores enorm es que voariam pelo quarto à noite. Só de escutar, ela queria gritar ou arrum ar tudo e voltar para casa.

Passaram a prim eira noite ao ar livre, sentados em volta de um a fogueira, escutando sons da aveludada noite africana.

Brad nunca vira nada parecido em sua vida e estava am ando.

E no dia seguinte, Brad saiu para um longo passeio de carro com os m eninos por estradas de terra até Lukulu, um a pequena cidade que tinha um m ercado público, e Pam ficou no acam pam ento, não queria se aventurar m uito longe. Ela teve visões da cam inhonete deles sendo destruída por um rinoceronte ou por um leão, ou virada por um búfalo aquático. E ela não estava m uito errada. Algum as dessas coisas aconteceram , m as na m aioria das vezes as pessoas da reserva sabiam o que estavam fazendo, assim com o agora seus filhos tam bém sabiam . Brad voltou m uito entusiasm ado sobre tudo que viram .

E durante a prim eira sem ana, os dias pareceram voar. A única coisa que ele desej ava era um telefone para que pudesse ligar para Faith e contar o que estava vendo. Tudo que Pam queria era um banheiro e um chuveiro. Mas parou de reclam ar depois dos prim eiros dias.

Os m eninos tam bém levaram -nos a Ngulwana, do outro lado do rio, onde eles trabalhavam cavando valas, construindo casas e restaurando um a igrej a destruída. Atualm ente, estavam aj udando a construir um posto, para onde um m édico vinha um a vez por m ês para tratar dos doentes e feridos. O hospital m ais perto ficava a duas horas na estação da seca, em Lukulu, e levava o dobro do tem po na estação chuvosa, se a pessoa conseguisse chegar lá. A única alternativa era pegar um pequeno avião. Não era um bom lugar para se adoecer, com entou Pam , e Brad concordou.

Mas ele tam bém estava im pressionado com quantas coisas os filhos j á tinham feito para os nativos. E todos pareciam conhecê-los e am á-los. Muitas pessoas acenavam e sorriam para cum prim entá-los quando passavam . E tanto Pam quanto Brad estavam m uito orgulhosos deles.

Na segunda sem ana, Brad j á estava apaixonado pela África, o povo, os sons, os cheiros, as noites quentes, os incríveis nascer e pôr-do-sol, a lum inosidade que era im possível de descrever. Estava sem pre com a câm era na m ão, e de repente com preendeu por que os filhos am avam estar ali.

Era m ágico, e ele teria am ado poder passar um ano ali tam bém . E Pam , em um esforço para ser um a boa com panhia, com eu tudo que lhe ofereceram , aprendeu a tom ar banho na barraca, m as ainda odiava usar os sanitários, berrava quando via insetos e, por m ais que am asse os filhos, m al podia esperar para voltar para casa. Aquilo sim plesm ente não era para ela. Na últim a noite, ela parecia aliviada e feliz.

— Mãe, você foi ótim a — parabenizou Jason, e Dy lan abraçou-a. Era Brad quem estava contrariado por ir em bora.

Passara as duas sem anas dorm indo na barraca com os filhos, saindo em passeios de carro à noite e acordando j unto com eles antes do am anhecer. Vira caçadas, debandadas e o lugar para onde os elefantes doentes e velhos iam para m orrer.

Vira coisas das quais só lera a respeito ou sonhara. Era um m om ento de sua vida do qual sabia que nunca se esqueceria, e am ara com partilhar isso com os filhos. E significara m uito para Dy lan e Jason. Eles tinham agora m ais coisas para conversar com o pai e m ais confiança nele do que em anos.

Falaram para Brad que não tinham nenhum interesse em entrar na faculdade de Direito, o que ele j á suspeitava, m as estavam com m edo de contar para Pam . Dy lan estava pensando em Medicina e queria voltar para trabalhar em países em desenvolvim ento com crianças contam inadas por doenças tropicais; e Jason queria fazer algum tipo de trabalho em saúde pública, em um a escala superior, m as ainda não sabia o quê. Em am bos os casos, tinham anos de estudo pela frente e queriam com eçar logo, provavelm ente no ano seguinte, depois de se candidatarem . Mas, para os dois, faculdade de Direito estava fora de questão.

— Quem vai contar para a m ãe de vocês? — im plicou Brad em um dos longos passeios antes do am anhecer.

— Acho que terá de ser você, pai — respondeu Dy lan. — Acham os que tem m ais experiência em dar notícias ruins para ela.

— Muito obrigado, m eninos. E quando esperam que eu dê essa pequena notícia? — Pam j á até im aginava os filhos trabalhando na firm a do avô, e planej ava isso desde que eram crianças. Os únicos que não estavam na m esm a página que ela eram Dy lan e Jason.

— Acham os que você poderia contar depois que fossem em bora. — Jason riu.

— Mal posso esperar. Eu deveria deixar os dois lavarem a própria roupa suj a. Isso faz parte do am adurecim ento. — Mas, no final, ele concordou. Contaria algum dia depois que chegassem em casa, m as decidiu deixá-la se recuperar da viagem prim eiro. Ela tivera um a disenteria branda nos últim os dois dias, o que a deixou ainda m ais desesperada para voltar para casa.

No dia em que partiram , parecia que ela seria solta da prisão. Não fora a viagem preferida dela, exceto por ver os filhos. Ficara nervosa, im paciente e contrariada o tem po inteiro. Im aginava todo tipo de perigo e doença possíveis surgindo de todos os lugares, e m al conseguiu curtir os sons e cheiros e paisagens. Brad curtiu pelos dois, e adoraria voltar, m as os m eninos iriam em bora em três m eses. Gostaria de ter vindo antes, para que pudesse fazer um a segunda viagem , sem Pam . Era extenuante ter de tranquilizá-la o tem po todo. Mas foi paciente e solidário com os m edos dela. Era um a grande realização para ela, que teria preferido ir para o Havaí, Londres ou Palm Springs. África era dem ais. Ela estava com os nervos à flor da pele quando foi em bora e abraçou os filhos, despedindo-se com um alívio estam pado no rosto.

— Obrigado por vir, m ãe — disseram am bos em ocionados.

E sabendo com o ela se sentia em relação a isso, estim avam -na m ais ainda. Brad a respeitava por se esforçar. A viagem não estreitara os laços entre eles, m as o fizera entre ele e os filhos. Estava em ocionado por ter com partilhado esse tem po na África com eles.

— Vej o vocês em casa — disse Pam enfatizando a palavra "casa", e todos riram .

— Estarem os lá em j ulho — disseram eles. Já tinham concordado em voltar por um tem po, antes de partirem de novo, para viaj ar ou trabalhar na Europa por um ano. Dy lan queria ir para Austrália e Nova Zelândia. Jason estava tentando convencê-lo a passar um ano no Brasil. Em qualquer um dos casos, ainda não estavam prontos para se estabelecer.

— Eles têm de com eçar a pensar na faculdade de Direito ou pelo m enos se candidatar se quiserem entrar em um a boa faculdade — reclam ou Pam com Brad quando entraram no avião, e ele assentiu. Sabia que ainda era m uito cedo para dar a notícia para ela. Ainda nem tinham saído da África. E ela parecia ansiosa para voltar para Lusaka, onde sentou-se de form a m iserável no aeroporto com cólicas estom acais. Não estava se sentindo bem . Mas sentiu-se m elhor no voo para Londres, e parecia ter m orrido e chegado ao paraíso quando chegaram ao Claridges, onde passariam um a noite antes de voltar para casa. Fariam um voo direto, sem escala em Nova York. Para Brad, fora um a viagem m em orável, e sentia-se um novo hom em , com o se tivesse conquistado o m undo.

Pam estava grata por ter sobrevivido.

— Não vou visitá-los no Brasil — sentenciou ela ao cair na im aculada cam a. Tom ara um banho de banheira de um a hora e escovara o cabelo e as unhas. Sentira-se im unda por duas sem anas. E agora sentia-se com o um a rainha na enorm e cam a. Então disse boa-noite para Brad, apagou a luz e foi dorm ir, enquanto Brad foi para a sala de estar ler.

Esperou um a hora até que ela estivesse em um sono profundo e então ligou para Faith. Ela atendeu no segundo toque e ficou em ocionada ao ouvir a voz dele. Quase tanto quanto ele ao escutar a dela. No m om ento em que escutou sua voz, ele se perguntou com o sobrevivera duas sem anas sem falar com ela.

— Você parece ótim a, Fred. Está tudo bem ?

— Muito tranquilo — respondeu ela com a voz calm a. Em Nova York ainda era de tarde, e ela estava fazendo um trabalho em seu escritório quando ele ligou. — Com o foi a viagem ?

— Incrível. Não consigo nem descrever, foi tão bonito. Mandarei fotos para você. Quero voltar. — Ela ficou encantada por ele. Preocupara-se m uito, m as tinha de acreditar que ele estava bem . Tam bém se perguntara, com um trem or silencioso, se fora um a segunda lua-de-m el para ele e Pam . Rezou para isso, para o bem dele, m as um a parte m á e egoísta dela esperava que não.

— Com o estão os m eninos?

— Fantásticos. Grandes, bonitos, fortes e felizes. Foi a m elhor coisa que j á aconteceu a eles. Gostaria de ter feito algo parecido quando tinha a idade deles. Mas não teria tido coragem .

— Dá m edo? — perguntou ela soando im pressionada, e ele riu.

— Acho que não. Acho que não tem dinheiro no m undo que convença Pam a voltar. Realm ente não foi a viagem dela. Dorm iu em um quartinho e ficava apavorada a noite inteira. E ela ficou doente nos últim os dois dias. Eu dorm i na barraca com os m eninos. — Faith gostou de saber e odiou-se por isso. Rezara por isso por duas sem anas e não chegara a nenhum a conclusão. Até conversara com o padre, fora do confessionário, e contara a ele seus sentim entos por Brad.

Ele dissera para ela rezar para São Judas e contara m ilagres que aconteceram , o que apenas a deixou m ais confusa. O único m ilagre de que precisava era deixar de ter sentim entos por ele. Precisava encontrar o refúgio sossegado de ser apenas sua am iga de novo. Não podia se perm itir sentir m ais do que isso, e até agora São Judas não aj udara. Seu coração dera um pulo no m om ento em que escutou a voz dele. Ela até rezou o terço todos os dias para isso, m as com o usava o que ele lhe dera, apenas se lem brava m ais de Brad. Era sua m aior batalha interna nesses últim os dias. As externas eram sobre o divórcio. Alex estava tornando sua vida um inferno. Mas j á estava se acostum ando. E tinha um a notícia im portante para Brad.Deixou-o contar tudo sobre a viagem e então abriu um enorm e sorriso e contou a ele que tinha um a surpresa.

— Deixe-m e adivinhar. — Ele se concentrou, feliz por sim plesm ente estar falando com ela. Tinha tanta coisa que queria com partilhar com ela, m as não conseguia se lem brar de tudo agora. Era m uita coisa e ele estava m uito cansado. — Você só tirou A nas provas.

— Mais ou m enos. Na verdade, tirei A m ais em um a m atéria e A m enos na outra. Mas não é isso.

— Ellie pediu desculpas e descobriu que o pai é um canalha.

— Ainda não — disse Faith, um pouco triste.

— Não sei, m e dê um a dica. — Mas ela estava m uito excitada para isso. Já sabia há dez dias e estava m orrendo de vontade de dividir isso com ele. Ela e Zoe saíram para j antar em com em oração na sem ana anterior.

— Fui aceita na faculdade de Direito da Universidade de Nova York.

— Viva! Isso é fantástico, Fred. Estou tão orgulhoso de você!

— Eu tam bém . Isso não é ótim o?

— É m aravilhoso. Eu sabia que você conseguiria. E a Colum bia?

— Ainda não sei. Eles vão m andar os resultados na sem ana que vem . Mas de toda form a prefiro ir para a Universidade de Nova York. Além disso, j á estou lá. E para m im funciona bem . — Eles conversaram por m ais alguns m inutos, e ela atualizou-o sobre o divórcio. Alex ainda estava brigando por causa da casa, m as j á concordara em deixá-la ficar m ais tem po quando negociaram o acordo. Ela não queria pensão, em bora pudesse ter. Só queria a casa e alguns de seus investim entos. Em com paração ao que ele tinha, ela não queria m uito. Sua m ãe deixara o suficiente para recom eçar. E em alguns anos sabia que estaria recebendo um salário decente com o advogada. Ao contrário do que Eloise acreditava, ela estava pedindo pouco. Até o advogado achava que deveria pedir m ais, m as não era o estilo de Faith. Com o Brad sabia m uito bem , ela era m uito decente.

Conversaram por quase um a hora e finalm ente, apesar de adorar falar com ela, ele com eçou a bocej ar, e ela disse para ele ir dorm ir. Estaria partindo para San Francisco no dia seguinte ao m eio-dia e estaria em casa às seis horas, pelo horário de Faith.

— Quando chegar, vou ligar ou m andar um e-m ail.

— Obrigada por ligar — agradeceu Faith.

Foram duas sem anas interm ináveis sem ele, m as sobrevivera. E a boa notícia sobre a faculdade de Direito levantara seu astral, apesar do com portam ento de Alex. Não falava com Eloise havia um a sem ana. Estava ficando cada vez m ais difícil conversar. Ellie estava do lado do pai. E o que m ais doía em Faith, com o dissera para Brad, era que Alex sim plesm ente a tirara de sua vida, com o se nunca tivesse existido, im portado ou sido sua esposa. Sim plesm ente apagou-a de sua vida com o se apaga giz de um quadro-negro. Ele a rem overa. E independente de com o explicava para si m esm a, ainda doía.

Fazia parecer difícil confiar em alguém algum dia de novo.

Não conseguia nem im aginar um a vida com outro hom em , ou um encontro. Tudo que queria agora era se dedicar à faculdade, à igrej a e às m eninas. E agora só tinha de tirar Brad de sua cabeça. Estava determ inada a fazer isso. Assim com o ele estava em relação a ela. Independente da intensidade da atração que cada um deles sentia, estavam determ inados a perm anecer nos lim ites da am izade. E os dois, em seus esforços interm ináveis, não estavam chegando a lugar nenhum .