Preces Atendidas

Danielle Steel · Capítulo 2 de 25

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Preces Atendidas

Capítulo 1

 

FAITH MADISON PARECIA pequena, séria e elegante ao colocar a m esa, preparar um a salada e exam inar no forno o j antar que preparara. Estava vestindo um terno preto bem cortado e, aos 47 anos, ainda era tão esbelta quanto fora quando se casou com Alex Madison, 26 anos atrás. Parecia um a bailarina de Degas, com seus olhos verdes e longos cabelos louros, presos em um coque perfeito. Suspirou e sentou-se tranquilam ente em um a das cadeiras da cozinha.

A pequena e elegante casa no estilo brownstone na 74th Street em Nova York estava quieta dem ais, e ela conseguia escutar o tique-taque do relógio enquanto esperava Alex voltar para casa. Fechou os olhos por um m inuto, pensando em onde estivera naquela tarde. E, quando abriu-os de novo, ouviu o barulho da porta da frente. Não houve m ais nenhum som , nenhum passo no carpete, nenhum grito de "olá" enquanto ele entrava. Sem pre entrara dessa form a. Trancava a porta, guardava a pasta, pendurava o casaco no closet e olhava a correspondência. No devido tem po, entraria procurando por ela. Verificaria no pequeno escritório e depois na cozinha, para ver se ela estava lá.

Alex Madison tinha 52 anos. Conheceram -se quando ela estava na faculdade, em Barnard, e ele, na Universidade de Colum bia cursando Adm inistração. As coisas eram diferentes naquela época. Ficara encantado pelo seu j eito natural e livre, seu entusiasm o, sua alegria. Ele sem pre fora quieto e reservado, cuidadoso com as palavras. Casaram -se assim que ela se form ou e ele term inou o MBA. Desde então, ele trabalhava em bancos de investim ento. Faith chegou a trabalhar com o editora j únior na Vogue por um ano, depois da form atura, e adorara, m as parou para cursar Direito por um ano. Largou quando sua prim eira filha nasceu. Eloise acabara de com pletar 24 anos e m udara-se para Londres no início de setem bro. Estava trabalhando na Christies e aprendendo bastante sobre antiguidades. A sua outra filha, Zoe, com 18 anos, era caloura em Brown.

Depois de 24 anos sendo m ãe em tem po integral, Faith estava sem trabalho há dois m eses. As m eninas se foram , e de repente ela e Alex estavam sozinhos.

— Oi, com o foi? — perguntou Alex ao entrar na cozinha, parecendo cansado. Ele m al olhou para ela e sentou-se.

Estivera trabalhando duro na abertura da oferta de ações ao público de duas em presas. Nem lhe ocorreu tocá-la ou abraçá-la. A m aior parte do tem po, ele conversava com ela quando estava do outro lado da sala. Não agia por m al, m as j á fazia anos desde a época em que ele chegava do trabalho e a abraçava. Ela não se lem brava quando ele tinha parado.

Estivera tão ocupada com as filhas que nem notou, até que um dia percebeu que ele não a tocava m ais quando chegava em casa. Estava sem pre fazendo o dever de casa com as filhas ou dando banho em um a das duas, quando ele chegava em casa à noite. Mas j á fazia m uito, m uito tem po desde que ele dem onstrara afeto por ela. Tanto tem po que nenhum dos dois sabia ou se im portava em lem brar. Havia um abism o entre eles agora que há m uito tem po aceitaram , e, enquanto lhe servia um a taça de vinho, ela sentia com o se estivessem m uito distantes.

— Foi tudo bem . Triste — respondeu, enquanto ele olhava o j ornal e ela tirava o frango do forno. Ele preferia peixe, m as ela não tivera tem po de com prar no cam inho de casa. — Ele parecia tão pequeno. — Estava falando de seu padrasto, Charles Arm strong, que m orrera dois dias antes, aos 84 anos. O rosário fora naquele dia, e o caixão ficara aberto para que a fam ília e os am igos pudessem "ver" Charles.

— Ele era velho, Faith. Estava doente há m uito tem po. — Com o se isso não apenas explicasse, m as desconsiderasse o fato. Alex fazia isso. Desconsiderava as coisas. Com o há anos havia deixado de considerá-la. Ultim am ente, ela sentia-se com o se tivesse cum prido seu papel, feito seu trabalho, e fora dispensada não apenas pelas filhas, m as tam bém pelo m arido. As m eninas agora tinham suas próprias vidas, saíram de casa. E Alex vivia em um m undo no qual ela não estava incluída, exceto em raras ocasiões, quando esperava que ela entretesse seus clientes ou o acom panhasse a um j antar. O resto do tem po, esperava que ela se divertisse. Às vezes, via algum as am igas durante o dia, m as a m aioria delas ainda estava com os filhos em casa e tinha pouco tem po. Nos últim os m eses, desde que Zoe partira para a faculdade, Faith passava a m aior parte do tem po sozinha, tentando descobrir o que fazer com o resto de sua vida.

E Alex tinha um a vida cheia. Parecia um a eternidade desde que os dois passaram horas na m esa do j antar, conversando sobre o que achavam im portante. Já fazia anos desde a últim a vez que saíram para um a longa cam inhada em um fim de sem ana ou para ir ao cinem a, de m ãos dadas. Mal conseguia lem brar com o era fazer essas coisas com Alex. Ele raram ente a tocava ou conversava. Mas, m esm o assim , sabia que ele a am ava, ou pelo m enos achava isso, m as ele parecia não sentir necessidade de se com unicar. Eram sem pre palavras curtas e diretas, o silêncio se adequava m elhor a ele, com o agora, enquanto Faith servia seu j antar e afastava um a m echa de cabelo louro. Ele parecia não notá-la, absorvido por algum a coisa que lia no j ornal. Levou um bom tem po até que respondesse quando ela falou de novo.

— Você vai am anhã? — perguntou com educação. O funeral de seu padrasto era no dia seguinte. Ele balançou a cabeça ao levantar o olhar.

— Não posso. Vou para Chicago. Reuniões com a Unipam . — Ele estava tendo problem as com um a conta im portante.

Os negócios vinham antes de qualquer coisa, era assim há m uito tem po. Ele se tornara um hom em m uito bem -sucedido. E esse sucesso com prara a casa em que m oravam , a educação de suas filhas e m uitos luxos que Faith nunca im aginara usufruir. Mas havia m uitas outras coisas que teriam significado m ais. Conforto, risos, calor. Sentia com o se não risse m ais, há bastante tem po, exceto quando estava com as m eninas. Não que Alex a tratasse m al. Ele nem a tratava. Tinha outras coisas na cabeça e não hesitava em deixar isso claro. Até seus silêncios prolongados diziam que preferia pensar a conversar com ela.

— Seria bom se você estivesse lá — com entou Faith com prudência, enquanto sentava-se à m esa em frente a ele.

Alex era um hom em bonito, sem pre fora. Aos 52, tam bém parecia distinto, com a cabeça grisalha. Tinha olhos azuis penetrantes e um a estrutura atlética. Um de seus sócios m orrera de repente dois anos antes, e desde então Alex ficara m ais cuidadoso com a alim entação e com os exercícios. Era por isso que preferia peixe a qualquer outra coisa e estava deixando o frango que ela preparara de lado.

Ela não tivera tem po de ser criativa. Passara toda a tarde na capela funerária com Allison, filha de Charles, enquanto as pessoas apareciam para prestar condolências. As duas m ulheres não se viam desde o funeral da m ãe de Faith no ano anterior e por dez anos antes disso. Allison não viera para o funeral de irm ão, Jack, dois anos antes do de sua m ãe.

Nos últim os anos houve m uitos funerais. Sua m ãe, Jack, agora Charles. Muitas pessoas haviam desaparecido. E, apesar de ela e o padrasto nunca terem sido íntim os, ela o respeitava e ficava triste em pensar que ele se fora. Parecia que todas as suas referências fam iliares estavam desaparecendo de sua vida.

— Tenho de estar nesta reunião em Chicago am anhã — respondeu Alex, olhando para o prato com atenção. Estava apenas brincando com o frango, m as não se deu ao trabalho de reclam ar.

— Outras pessoas vão a funerais — retrucou Faith de form a suave.

Não havia nada insistente em Faith. Ela não discutia com ele, não brigava. Raram ente discordava. De qualquer form a, não tinha por quê. Ele tinha seu j eito de agir. Fazia o que queria, geralm ente sem perguntar a Faith ou consultá-la, e era assim há anos. Ele se com portava com o um a entidade separada dela a m aior parte do tem po, e o que o m otivava eram os negócios e a carga que colocavam em cim a dele, não o que Faith queria que fizesse. Ela sabia com o ele funcionava e o que pensava. Era difícil atravessar o m uro que ele construíra ao redor de si. Nunca teve certeza absoluta se era um a defesa ou sim plesm ente o que o deixava confortável. Fora diferente quando eram j ovens, m as era assim há anos. Ser casada com ele era solitário, m as estava acostum ada. Só sentia m ais agora porque as m eninas tinham ido em bora. Elas foram toda a alegria de que precisou por anos. Era a ausência delas que sentia agora, m ais do que a dele. E parecia ter sido carregada para longe de m uitos de seus am igos. O tem po, a vida, o casam ento e os filhos de algum a form a entraram no cam inho.

Zoe partira para Brown dois m eses antes. Parecia feliz lá e ainda não viera para um fim de sem ana, apesar de Providence não ser longe. Estava ocupada com os am igos, sua vida, as atividades na faculdade. Assim com o Eloise estava feliz em Londres com seu em prego. Faith vinha sentindo há um tem po o fato de todos terem um a vida m ais cheia do que a sua e vinha tentando decidir o que fazer com o resto de sua vida. Pensara em conseguir um em prego, m as não fazia idéia de que tipo de trabalho poderia realizar.

Passaram -se 25 anos desde que trabalhara na Vogue, antes de Eloise nascer. Tam bém pensara em voltar para a faculdade de Direito e m encionara isso com Alex um as duas vezes. Ele achara a idéia ridícula, na idade dela, afastando-a com um aceno de m ão.

— Na sua idade, Faith? Não se volta para a faculdade de Direito aos 47. Já estará com 50 anos quando se form ar e passar para a Ordem . — Dissera isso com um olhar de puro desprezo, e em bora ela ainda pensasse nisso de vez em quando, não contava para ele. Alex achava que ela podia continuar fazendo trabalhos filantrópicos, com o fizera por anos, e saindo para alm oçar com am igas. Tudo isso com eçara a parecer sem sentido para Faith, particularm ente agora que as m eninas estavam longe. Queria algo m ais substancial para preencher sua vida, m as ainda tinha de traçar um plano que lhe parecesse razoável, para convencer seu m arido de que valia a pena.

— Ninguém vai sentir m inha falta no funeral do Charles — disse Alex para encerrar o assunto, enquanto Faith lim pava seu prato e lhe oferecia sorvete, que ele recusou. Era cuidadoso com o peso, e estava em boa form a. Jogava squash várias vezes por sem ana e tênis nos fins de sem ana, quando o tem po de Nova York perm itia. Quando as m eninas eram pequenas, eles costum avam alugar um a casa de fim de sem ana em Connecticut, m as j á não faziam isso há anos.

Alex gostava de ir para o escritório, se precisasse, nos fins de sem ana.

Ela queria dizer que sentiria a falta dele no funeral do padrasto no dia seguinte. Mas sabia que não adiantaria. Um a vez que ele colocava um a coisa na cabeça, de um j eito ou de outro, não desistia. Nem pensara que ela podia precisar dele lá. E não era da natureza do relacionam ento deles que ela se com portasse dessa form a. Ela era capaz e podia tom ar conta de si. Nunca apoiara-se nele de form a opressiva, m esm o quando as m eninas eram pequenas. Tom ava boas decisões e era autoconfiante. Fora a esposa perfeita. Nunca se "lam entava", com o ele dizia. E não se lam entou agora. Mas estava decepcionada por ele não querer estar lá. A decepção se tornara um m odo de vida para Faith. Alex praticam ente nunca estava ao seu lado quando precisava. Ele era responsável, respeitável, inteligente e lhe dava um bom padrão de vida. E o lado em ocional dele desaparecera anos atrás. Eles acabaram com o m esm o tipo de relacionam ento que os pais dele tinham . Quando os conheceu, Faith ficou chocada com a frieza e com a incapacidade de expressarem sua afeição um pelo outro. Em particular, o pai dele era distante, exatam ente com o Alex se tornara com o tem po, em bora Faith nunca tenha com entado com ele com o era parecido com o pai. Alex não era do tipo efusivo e, na verdade, sentia-se desconfortável quando os outros eram , principalm ente Zoe e Faith. Suas constantes exibições de afeição sem pre o deixavam constrangido e ainda m ais distante e crítico em relação a elas.

Das duas m eninas, Zoe era a m ais parecida com a m ãe, sensível, afetuosa, afável, com um senso de hum or que lem brava Faith quando m ais j ovem . Era um a excelente aluna e um a m enina brilhante. Eloise era m ais chegada ao pai, tinham um a espécie de vínculo silencioso que o deixava m ais confortável. Era m ais quieta do que a irm ã, sem pre fora e, com o Alex, costum ava ser m ais crítica em relação a Faith e ser sincera a esse respeito. Talvez porque ele fosse. Zoe era rápida em vir em defesa da m ãe e apoiá-la. Ela quisera vir para o funeral de Charles, apesar de não ser íntim a dele. Ele nunca tivera um a verdadeira afeição pelas duas m eninas.

Mas Zoe tinha provas e não poderia faltar. E não havia m otivos para Eloise vir de Londres para o funeral do padrasto de sua m ãe, j á que ele nunca passara um dia de sua vida com ela. Faith não esperava isso delas, m as teria sido gentil se Alex tivesse se esforçado para estar lá.

Faith não m encionou isso. Assim com o fazia com um m onte de outras coisas, deixou passar. Sabia que não venceria a discussão. No que dizia respeito a ele, ela era perfeitam ente capaz de ir sozinha. E ele sabia, assim com o as filhas, que ela e o padrasto nunca foram chegados. Era um a perda m ais sim bólica. E Faith não verbalizou que isso era m ais doloroso, pois fazia com que se lem brasse dos outros que j á partiram .

Sua m ãe e seu irm ão Jack, cuj a m orte acabou com Faith. O avião dele caíra a cam inho de Marthas Viney ard, três anos antes, quando tinha 46 anos. Era um excelente piloto. O m otor pegou fogo, o avião explodiu em pleno voo, um choque do qual apenas recentem ente ela com eçara a se recuperar. Ela e Jack sem pre foram alm as gêm eas e os m elhores am igos. Ele fora seu único suporte em ocional e fonte de conforto durante a infância e a vida adulta. Era sem pre generoso, nunca crítico, e extrem am ente leal. Havia dois anos de diferença entre eles, e quando cresceram a m ãe sem pre dizia que pareciam gêm eos. Principalm ente quando o pai deles m orreu repentinam ente de um ataque no coração, quando Faith tinha 10 anos, e Jack, 12.

O relacionam ento de Faith com o pai fora difícil; na verdade, um pesadelo. Era um assunto do qual nunca falava, e que levara boa parte de sua vida adulta para resolver.

Trabalhara isso na terapia, e fizera as pazes com o passado da m elhor m aneira que pôde. Suas lem branças m ais antigas eram do pai m olestando-a. Ele fora sexualm ente inadequado e abusivo com ela, com eçando quando a filha tinha 4 ou 5 anos. Nunca ousara contar para a m ãe, e seu pai am eaçara m atar tanto ela quanto o irm ão se ela contasse. O am or profundo pelo irm ão fez com que m antivesse o silêncio até que Jack descobrisse, quando tinha 11 anos, e Faith, 9. Ele e o pai tiveram um a briga feia por causa disso. E ele dissera a Jack a m esm a coisa, que m ataria Faith se um dos dois contasse. Era um hom em doente. Isso fora tão traum ático para am bos que nunca conversaram a respeito de novo, até que os dois fossem adultos e ela estivesse na terapia, m as criou um vínculo inseparável entre eles, um am or nascido da com paixão e de um a tristeza profunda de que isso tivesse acontecido. Jack ficara atorm entado pelo fato de não ter sido capaz de proteger Faith do pesadelo que o pai infligia a ela física e em ocionalm ente. Ficava arrasado de saber o que estava acontecendo e de ser im potente para inverter o j ogo.

Mas era apenas um a criança. E um ano depois que descobriu, o pai m orreu.

Anos m ais tarde, quando Faith estava na terapia, tentara contar para a m ãe, m as seu m ecanism o de negação era insuperável. Recusou-se a escutar, ou acreditar, e repetia que o que Faith estava falando era um a m entira perversa, criada para denegrir a im agem do pai e m agoar a todos eles. Com o Faith tem era por toda a vida, sua m ãe se culpava e refugiava-se em suas fantasias e negação.

Insistia que o pai de Faith fora um hom em am ável, que adorava a fam ília e venerava a esposa. De algum a form a, ela conseguira canonizá-lo nos anos desde sua m orte. Isso deixou Faith sem ter com quem com partilhar suas lem branças, exceto Jack, com o sem pre. Ele fora à terapia com ela, e trouxera à tona lem branças dolorosas para am bos.

Faith soluçara em seus braços por horas.

Mas, no final, o am or e o apoio de Jack aj udaram -na a superar antigos fantasm as. A lem brança que tinha do pai era a de um m onstro que violara a inocência e a santidade de sua infância. E Jack levou anos para superar o fato de que não poderia ter evitado que isso acontecesse com ela. Era um vínculo doloroso que com partilhavam e um a ferida que am bos lutavam com coragem para que cicatrizasse. Faith acabou conseguindo superar isso, em grande parte graças a Jack.

Contudo, as cicatrizes cobraram seu preço. Am bos tiveram relacionam entos difíceis, com pessoas frias e críticas em relação a eles. Tentaram rivalizar a frieza da m ãe em seus casam entos e encontraram cônj uges que os culpavam por tudo que acontecesse de errado. A esposa de Jack era neurótica e difícil, e deixou-o várias vezes, por m otivos que ninguém conseguia entender. Alex m anteve Faith à distância por anos, enquanto a culpava por qualquer problem a que aparecesse. Faith e Jack costum avam conversar sobre suas escolhas, e apesar de am bos entenderem o que acabaram fazendo, nenhum dos dois nunca conseguiu dar a volta por cim a. Era com o se tivessem escolhido situações que reproduzissem m uitas de suas tristezas da infância, para que desta vez pudessem vencer e conseguir um resultado diferente, m as escolheram pessoas que não podiam ser vencidas, e o resultado nos dois casos foi tão decepcionante quanto suas infâncias, em bora m enos traum ático. Jack lidava com isso sendo um pacificador e tolerando quase tudo que a esposa fazia, incluindo os frequentes abandonos, a fim de não deixá-la com raiva nem arriscar-se a perdê-la. E Faith fizera a m esm a coisa.

Raram ente discutia com Alex, se é que algum dia o fez, nem o desafiava. As lições que seu pai lhe ensinara m arcaram fundo. Ela sabia em seu íntim o que era culpada por tudo. O pecado era seu, não dele. Seu pai a convencera disso. E por pior que tenha sido, seu castigo final foi abandonar am bos quando m orreu. De algum a form a, Faith sentira, ou tem era, que tam bém era culpada, e isso fez com que fosse cuidadosa em seu casam ento para que Alex não a deixasse. Passara m uito tem po tentando ser a m enina perfeita, para com pensar os pecados que ninguém sabia, a não ser seu irm ão. Durante esses anos, algum as vezes pensara em contar para Alex a verdade sobre sua infância, m as nunca contou.

Em algum nível de seu subconsciente, tinha m edo que, se ele soubesse o que o pai fizera, não a am aria m ais.

Nos últim os anos, perguntava-se se Alex j á a tinha am ado.

Talvez ele a am asse do j eito dele, m as era um am or que se sustentava no fato de ela fazer o que ele dissesse e não discutir. Logo percebera que ele não suportaria escutar a verdade sobre o que o pai fizera com ela. Seu terrível segredo perm aneceu com Jack, e o am or dele foi o único incondicional que j á conheceu. Era m útuo entre eles. Ela o am ava total e incondicionalm ente, assim com o ele a am ava, o que tornou a m orte dele ainda m ais difícil. Foi um a perda quase insuportável, principalm ente à luz de tudo que não tinha em casa.

Fora difícil para os dois quando a m ãe se casou com Charles, Faith com 12 anos e Jack, 14. Faith suspeitara dele, e realm ente esperava que fizesse as m esm as coisas que seu pai fizera. Mas ele ignorava-a com pletam ente, o que foi um a graça. Ele era um hom em que não se sentia confortável perto de m eninas ou m ulheres. Mesm o a própria filha era um a estranha para ele. Era m ilitar e foi severo com Jack, m as pelo m enos conseguiu dem onstrar algum carinho. Tudo que fez por Faith foi assinar seus boletins e reclam ar sobre suas notas, o que ele parecia achar que era sua obrigação. Era seu único papel. Além disso, para ele, Faith não existia, o que para ela era confortável. Ela ficou surpresa quando ele não tentou iniciar práticas sexuais com ela, esperara isso, e ficou atordoada por ele não dem onstrar nenhum interesse. O alívio que ela sentiu com pensava a frieza que Charles dem onstrava em relação a ela e a todo m undo. Pelo m enos, esse era um estilo fam iliar.

Charles acabou conquistando Jack fazendo coisas de hom em com ele, m as nunca deu m uita atenção a Faith sim plesm ente porque ela era m enina. Ela m al existia para ele. Jack fora seu único m odelo m asculino, seu único laço saudável com o m undo dos hom ens. E, diferente de sua m ãe e de Charles, Jack fora afetuoso, am ável, feliz e generoso, assim com o Faith. A m ulher com quem ele se casou era com o a m ãe deles, distante, insensível e fria. Parecia incapaz de ficar feliz por ele. Eles se separaram várias vezes, e em um casam ento de 15 anos nunca tiveram filhos porque Debbie não suportava essa idéia. Faith nunca conseguiu entender a atração que ele sentia por ela. Mas ele era dedicado e, apesar das dificuldades, sem pre inventava desculpas para sua personalidade e via coisas nela que ninguém m ais via. Ela perm anecera com o um a pedra em seu funeral, sem derram ar um a lágrim a. E, seis m eses depois, Debbie casou-se e m udou-se para Palm Beach. Desde então, Faith não tinha notícias dela. Nem um cartão de Natal. De um a certa form a, era outra perda, em bora Faith não gostasse m uito dela. Ela era um pedaço vivo de Jack, m as desaparecera.

Na verdade, Faith não tinha m ais ninguém agora, só Alex e as m eninas. Sentia-se com o se seu m undo estivesse dim inuindo cada vez m ais. As pessoas que conhecera e am ara, ou pelo m enos gostara, estavam partindo um a a um a.

Eram pessoas de seu m undo, assim com o Charles. E no final, a sanidade e a saúde dele, m esm o que distante e arredio, eram um porto seguro para ela. E agora todos se foram . Seus pais, Jack, Charles. Isso tornava Alex e as m eninas ainda m ais preciosos e im portantes.

Ela tem ia o funeral de Charles no dia seguinte. Sabia que se lem braria pelo m enos do funeral de Jack, e isso j á seria duro o suficiente. Estava pensando nisso quando passou pelo escritório onde Alex gostava de ler à noite. Estava estudando alguns papéis e não olhou quando ela parou na porta. Ele tinha um j eito de se isolar, de fazer com que as pessoas soubessem que não queria ser tocado nem perturbado. Isso o tornava inatingível, m esm o estando na m esm a sala que ela.

Não havia com o construir um a ponte para cobrir a vasta distância que havia crescido entre eles com o passar dos anos. Com o geleiras, m overam -se de form a im perceptível, distanciando-se lentam ente um do outro, e agora tudo que podiam fazer era olharem -se à distância e acenar. Não havia m ais com o se aproxim ar dele. Alex fora bem -sucedido na tarefa de isolar-se, m esm o vivendo sob o m esm o teto que ela.

E há m uito tem po ela desistira. Sim plesm ente aceitara e continuara com sua vida. Mas o vazio que sentia, agora que as filhas tinham ido em bora, era esm agador. Ainda não encontrara um j eito de preencher a lacuna. Enquanto observava Alex afastar os papéis sem dizer um a palavra, perguntava-se se algum dia encontraria, depois seguiu em silêncio até a escada.

Ele seguiu-a para o quarto m eia hora m ais tarde. Ela j á estava na cam a, lendo um livro que Zoe recom endara. Era um rom ance divertido, e estava sorrindo quando ele entrou no quarto. Parecia cansado, m as conseguira ler quase tudo que precisava para a reunião em Chicago no dia seguinte. Ele olhou para ela e foi se trocar, poucos m inutos depois deitou na cam a a seu lado. Contudo, era com o se existisse um a barreira invisível no m eio da cam a. Um a linha de segurança que nenhum dos dois cruzava, exceto para as necessidades carnais, um a vez em m uitas sem anas, às vezes um a vez por m ês. Fazer am or era um a das poucas coisas que fazia com que Faith se sentisse m ais próxim a dele, m as até isso era efêm ero. Era m ais um a lem brança do que um dia com partilharam , antes de seguirem cam inhos distintos, do que algo que com partilhassem agora. O ato do am or era breve e superficial, m as às vezes prazeroso. Era um reflexo da realidade, não a realização de um sonho que um dia com partilharam . Sim plesm ente era o que era, nada m ais. Por incrível que pareça, devido à boa terapia, Faith não tinha problem as sexuais apesar dos abusos do pai. Mas devido à falta de com unicação e calor entre ela e Alex, a falta de atividade sexual às vezes era um alívio.

E esta noite, quando Alex deitou, rolou para seu lado da cam a e se afastou. Era um sinal de que não queria nada esta noite. Jantaram j untos, ele disse aonde iria no dia seguinte.

Ele sabia onde ela estaria. E ela sabia pela agenda dele que iriam a um j antar de negócios na noite seguinte, depois do funeral. Era tudo que precisavam saber um do outro e eram capazes de com partilhar. Se ela precisasse de algo m ais, de algum gesto de proxim idade ou afeição em sua vida, teria de conseguir com suas filhas, e sabia disso. E era isso que fazia com que sentisse ainda m ais saudade de Jack. Com os casam entos que tiveram , precisaram um do outro para aconchego, conforto e calor.

Faith am ara o irm ão desesperadam ente e pensou que ia m orrer quando ele m orreu. Ela não m orreu, m as um a parte sua vagava com o um a alm a penada desde aquele dia, com o se tivesse perdido seu abrigo. Não podia falar com as filhas nem com m ais ninguém as coisas que sem pre com partilhara com Jack. Nunca houve ninguém com o ele em sua vida. Ele nunca a decepcionara ou deixara de estar disponível quando ela precisava. Ele nunca se esquecera de fazê-la rir ou de dizer o quanto a am ava, e ela fizera o m esm o por ele. Jack era o sol da vida dela, o coração, o salva-vidas a quem ela às vezes se agarrava. E agora, com Alex roncando de leve ao seu lado e suas filhas longe, Faith apagou a luz em silêncio e sentiu-se à deriva em um m ar de solidão.