Preces Atendidas
Capítulo 11
O final de sem ana passou voando com Zoe e as am igas entrando e saindo de casa. Faith cozinhou para elas, pagou pizzas e táxis, fez as cam as e lavou toalhas, aj udou a escolher roupas e a trançar cabelos, e esperou acordada à noite até Zoe voltar para casa. Ficou aliviada quando a filha pegou um trem para a festa em Connecticut, em vez de ir dirigindo, e naquela noite Zoe chegou em casa às três da m anhã.
Faith sentia-se com o um a m ediadora; por causa do barulho e da bagunça, Alex estava cada vez m ais nervoso, e ele e Zoe não conseguiam se engolir. Ele detestava a m úsica que ela escutava e a linguagem que usava, os m eninos que apareciam , a bagunça que todos deixavam e a form a com o as am igas dela se vestiam . Ele achava que pareciam m endigas, e que a m úsica que escutavam era obscena, o que na verdade era. Mas Faith estava acostum ada e era tolerante com todas as m odas e excentricidades dos j ovens de 18 anos. Mais de um a vez durante as férias de Natal, Zoe afirm ara que sua m ãe era "m uito legal".
Ellie ligou de Saint Moritz na segunda-feira à noite, e Zoe não estava em casa, m as Faith ficou aliviada ao saber que ela estava bem . Estava se divertindo m uito esquiando, conhecera m uitas pessoas e dissera que a fam ília de Geoffrey estava sendo m uito am ável com ela. Parecia feliz m as, para o alívio de Faith, não estava loucam ente apaixonada. Ao escutá-la contar tudo que estava fazendo, Faith decidiu que talvez Alex estivesse certo e que valeu a pena fazer um sacrifício para deixá-la ir. Estava passando um a tem porada excepcional, m elhor do que se estivesse em Nova York.
— Você estava certo — com entou Faith de form a indulgente no j antar daquela noite. — Ela está se divertindo m uito.
— Eu geralm ente tenho razão — respondeu ele sem hesitar.
— Tam bém estou certo sobre sua volta à faculdade. Será um erro descom unal. — Faith não queria discutir isso. Não queria brigar, m as ele não recuou quando olhou para ela. — Já se convenceu disso, Faith? — Ela não sabia por que ele trouxera isso à tona agora, m as deixou-a angustiada. Prestaria o LSAT em m enos de um a sem ana, e ainda se sentia culpada por esconder isso dele.
— Não, Alex, não m e convenci. Com eçarei em três sem anas.
— Ela pagara a m atrícula de seu próprio dinheiro. Sua m ãe lhe deixara um pouco quando m orreu no ano anterior. Tudo que Jack tinha ficara para sua viúva, que tam bém recebeu o dinheiro do seguro. Ela levou tudo consigo quando desapareceu. Ela deixara para Faith um a caixa com os obj etos preferidos dele e levara o resto.
— Você vai se arrepender disso — continuou Alex, enquanto Faith tentava m udar de assunto e não conseguia. — Você deve ser reprovada logo no prim eiro período.
— Eu realm ente não quero discutir isso com você — frisou ela finalm ente de form a abrupta, e ele não falou m ais pelo resto da refeição. Depois, subiu para ler. Ela ficou desanim ada enquanto lavava a louça, e quando term inou de arrum ar a cozinha, m andou um e-m ail para Brad.
Ele respondeu m inutos depois, pois com o sem pre estava em sua m esa quando recebeu o aviso de que tinha e-m ail.
"Pelo am or de Deus. Do que ele está falando? Você tinha notas m elhores do que as m inhas e as do Jack na escola. Você se graduou em Barnard com m érito. Ele não sabe quem você é? Fui reprovado na prova da ordem na prim eira vez que tentei. Aposto que você vai passar na prim eira tentativa. Por que ele não larga do seu pé? Mande ele se danar da próxim a vez que disser isso", escreveu ele, parecendo irritado. "Acredito em você, Fred. Agora você tam bém acredita em si m esm a. Com am or, Brad."
Faith respondeu:
"Acho que ele ainda está furioso com a m inha volta à faculdade Eu tinha esperanças de que ele j á tivesse superado isso."
Ao escrever isso, lem brou-se das coisas que Zoe dissera. Não contara a Brad que Zoe a acusara de estar apaixonada por ele e que achava que deveria se apaixonar se ainda não estivesse. Não sabia se ele ficaria preocupado. E estava m uito longe da verdade. Ela o am ava com o am igo.
Mas era difícil para um a m enina da idade de Zoe entender.
As belezas de um a am izade platônica. Na idade dela, tudo tinha a ver com sexo.
"Estou cansado de ver Alex im portunando você", desabafou Brad ao responder de novo. "Com o você consegue viver com isso sem se sentir esgotada?"
"Estou acostum ada. Ele não quer m e aborrecer. Ele apenas é assim " — ela defendeu Alex no seu e-m ail seguinte.
Mas do lado de Brad as coisas tam bém não andavam m uito bem . O período de festas pareceu trazer o pior de todos.
Principalm ente de Pam . Ela ia de um a festa para outra e queria que Brad a acom panhasse, e ele estava m uito ocupado no escritório e não ligava para os eventos sociais que ela adorava. Ele j á dissera há m uito tem po que preferia que ela fosse com um am igo. Mas em determ inadas épocas do ano ela insistia que Brad a acom panhasse. Em especial durante a abertura da tem porada social em setem bro e no Natal. Pam ia a coquetéis, j antares, festas dançantes, beneficentes, estréias e com em orações de final de ano. Ele não podia com eçar a seguir a agenda social dela à risca, nem queria.
Estava fazendo coisas que eram m uito m ais im portantes para ele. Tinha um j ulgam ento rápido na sem ana anterior ao Natal, o que fazia com que excluísse todo o resto. Mas isso criou um a tensão enorm e entre eles. Pam não estava gostando.
— Pelo am or de Deus, não pode pedir para os estagiários fazerem o trabalho preparatório? Tem de fazer tudo sozinho? — Brad acabara de falar que não poderia sair nesta noite. Na noite anterior, ficara até às duas da m anhã no escritório, que era um refúgio que ele am ava.
— Não posso deixar esse tipo de trabalho nas m ãos de outra pessoa, Pam , e você sabe disso.
— Por que não? Tam bém vou ao tribunal. Meus estagiários e m eu assistente fazem m etade do trabalho.
— Você não está tentando livrar crianças de acusações de assassinato. É diferente. Tem vidas em j ogo aqui.
— Na verdade, você está certo, Brad. As nossas vidas. Estou cansada de você nunca estar por perto. — Ela estava enfurecida, ao andar de um lado para o outro na frente dele em um vestido de lantej oulas azul. Estava altiva e bonita, e seu olhar teria assustado a m aioria dos hom ens, m as não Brad. Estava acostum ado com ela e com seus acessos de raiva, que não m ais o im pressionavam com o antes. Em bora fossem am edrontadores às vezes.
— Achei que tivéssem os chegado a um acordo anos atrás — rebateu ele, parecendo exasperado.
— Você disse que iria com igo pelo m enos a alguns eventos, se eles fossem im portantes para m im .
— Mas não quando estou m e preparando para um j ulgam ento. Não posso. É sim ples assim . — Ele se recusava a ser intim idado por ela. Ela vinha fazendo isso, ou tentando, há m uito tem po.
— Por que não? E a sua nam oradinha? Ela não gosta que você saia com ela de vez em quando? — Brad estava chocado pelo que ela acabara de dizer e estreitou os olhos.
— O quê? Do que você está falando? — Ele parecia não entender.
— Vi um e-m ail seu para ela um dia desses, sobre que alm a generosa ela era e algo sobre irem à igrej a j untos. Desde quando você é religioso? O que ela é? Um a freira?
— Mais im portante, o que você é, Pam ? O que você estava fazendo bisbilhotando m eu com putador? Isso é algo repugnante de se fazer.
— Você deixou aberto quando foi até a garagem . Então, sobre o que é isso?
— Ela é um a velha am iga de infância. O irm ão dela, Jack, era m eu m elhor am igo. É a irm ã dele, Faith. E som os am igos. Nada m ais que isso. Não devo a você desculpas nem explicações. Jantei com ela em Nova York, e sim , fom os à igrej a j untos.
— Que patético. Está dorm indo com ela? — Era com o se Pam tivesse lhe dado um tapa. Não faziam am or há anos, e cenas com o esta eram o m otivo, pelo m enos para Brad. E tinha certeza de que Pam o traíra várias vezes ao longo dos anos. Era esperto o suficiente para não perguntar, e não ligava m ais.
— Não. Não estou dorm indo com ela, se é que isso é da sua conta. Não faço perguntas sobre sua vida. — Pararam de dorm ir j untos de com um acordo. Ele sim plesm ente não a am ava m ais. Era com o fazer am or com um a m áquina. Pam era apenas am bição e ím peto. Depois de um tem po, Brad passou a sentir com o se estivesse fazendo am or com um com putador ou com sua m esa. Não podia m ais. Preferia ficar no celibato do que fazer am or com a esposa, em bora ela estivesse convencida de que ele tinha am antes. Com o ele fora m uito sexual no início do relacionam ento, era inconcebível para ela o fato de ele não fazer sexo há anos.
Este fora um dos sacrifícios que fizera, dos quais ele e Faith tinham conversado, em bora não tenha contado esse aspecto de sua vida, e nem tivesse intenção de contar. Não era um a inform ação apropriada de se trocar.
Mas Pam parecia chocada pelo que ele dissera. Algo nos olhos dele fez com que ela parasse e o encarasse.
— Você está apaixonado por ela?
— Claro que não. Ela é um a am iga. Nada m ais. Nós nos conhecem os desde que éram os crianças.
— Se você não está dorm indo com ela e foram à igrej a j untos, aposto que está apaixonado, Brad.
— Tem de ser um ou outro? Não podem os ser apenas am igos? E isso não explica o que você estava fazendo no m eu com putador. Não fico bisbilhotando o seu.
— Desculpe. Acabei vendo. O e-m ail estava na tela. — Ele perguntou-se se tinha escrito algo desagradável sobre ela, em bora suspeitasse que, se tivesse escrito, Pam j á teria com entado. — Ela deve ser patética se passa a vida em um a igrej a.
— O que ela faz não é da sua conta. Agora, vam os voltar ao X da questão. Tenho de trabalhar. Não vou sair. E francam ente, depois de toda essa porcaria, não iria com você a lugar nenhum . Então procure outra pobre alm a para acom panhá-la. Encontre alguém que queira levar você a festas todas as noites. Eu não quero.
E com isso, ele saiu do quarto e foi para o escritório. Viera em casa para com er algum a coisa e pegar um arquivo.
Sentou-se a sua m esa por alguns m inutos e percebeu que estava trem endo. Sentia-se violado pelo fato de Pam ter lido seus e-m ails e ter falado de Faith da m aneira que falou. Faith não tinha nada a ver com ela, e ele não fizera nada de errado. Estava afrontado por Pam tê-lo acusado de dorm ir com Faith ou m esm o sugerir que estava apaixonado. Não era nada disso, para nenhum dos dois. Eles curtiam o sagrado laço de um a am izade de quase quarenta anos. Algo do qual Pam nada sabia. Não havia nada sagrado para ela.
Voltou para o escritório m eia hora depois com um a séria indigestão e dor de cabeça. Ninguém m ais no universo conseguia deixá-lo m ais furioso do que Pam . Ela possuía um talento especial para fazê-lo perder a cabeça. Era teim osa, insensata e agressiva. E, se ele deixasse, discutiriam por horas. Ainda estava chateado quando chegou ao escritório e acabou decidindo ligar para Faith e ver se ela estava em casa.
Ela estava em casa sozinha enquanto Alex fora a um j antar de negócios. Ficou surpresa e feliz de falar com ele, que acalm ou-se quase no m esm o segundo em que escutou a voz dela.
— Desculpe incom odar você — com eçou ele, e ela percebeu que ele estava estressado.
— Você está bem ? — Faith pareceu preocupada com ele, que sorriu. Ela era tudo que Pam não era. Gentil, sensível, cuidadosa, atenciosa, um a alm a generosa e educada em todos os sentidos.
— Só estou cansado. E m al-hum orado — explicou ele. — Tive um dia ruim . Com o foi o seu? — Ele se sentia culpado por sobrecarregá-la, principalm ente sobre Pam . Mas era bom ter um om bro para chorar. Não tinha esse tipo de apoio e conforto há anos, talvez nunca tenha tido. E nos últim os dois m eses, ela esteve ao seu lado de form a infalível.
— Foi bom . Alex e Zoe saíram , m as não j untos. E eu estava curtindo um a noite sossegada em casa. Parece que estou adm inistrando um hotel aqui. Passo o dia todo lavando toalhas, arrum ando cam as e apagando velas, torcendo para a casa não pegar fogo. Mas é bom tê-la em casa. Conte-m e sobre seu dia ruim . O que houve?
— Perdi um a m oção em um a audiência esta m anhã, e eu precisava que fosse a j ulgam ento. Não estou pronto e preciso j untar m ais testem unhas ou esse garoto vai se dar m al. Minha secretária está doente, o que está m e deixando louco. E fui para casa j antar e tive um a briga com Pam . Nada dem ais. Só um m onte de besteiras.
— Sobre o que foi a briga? — Faith sem pre o escutava, e fazia isso com atenção.
— Ela quer que eu vá a dez m il festas. Ela vai a duas ou três por noite, e eu não tenho tem po nem vontade de bancar o príncipe consorte. Ela sabe que eu odeio essas coisas, e assim que chegam os lá, ela desaparece. Minha única utilidade é para ela fazer um a entrada glam ourosa. Não tenho tem po para essas besteiras. Estou sem pre em algum j ulgam ento ou m e preparando para um . E esses garotos precisam que eu faça isso da m elhor m aneira.
— Ela se retratou? — perguntou Faith com calm a, e ele respirou fundo e se acalm ou. Estava m ais tranquilo depois de contar a ela sobre sua briga com Pam .
— No final — disse ele, e então ficou aborrecido de novo.
Vinha perguntando-se se deveria contar a Faith e viu que não havia razão para não contar. Não tinha nada a esconder.
— Ela leu um dos m eus e-m ails um dia desses, o que m e deixou m uito irritado.
— Não culpo você. — Faith tam bém detestava esse tipo de introm issão. Era um a pessoa m uito reservada e não gostava que as m eninas lessem seus e-m ails, principalm ente os de Brad.
— Parece que foi um e-m ail para você. Acho que foi aquele agradecendo pelo tem po que passam os j untos em Nova York. Não havia nada inapropriado nisso, m as m e tirou do sério. — Então ele riu. — E ela disse que eu estava apaixonado por você. Ela não entende.
Faith sorriu quando ele disse isso.
— Zoe disse a m esm a coisa para m im um dia desses. Ou pelo m enos m e perguntou. Ela queria saber se estávam os tendo um caso.
— O que você disse?
— Que não estávam os, ela ficou m uito decepcionada e disse que achava que eu deveria. Disse que eu m ereço, assim com o Alex, por causa da m aneira com o ele m e trata. Achei um a afirm ação interessante vindo dela.
— Ela está certa. Ele não faz nada por você, Faith. Nunca leva você para j antar fora ou ao cinem a. Parece que só o que ele faz é trabalhar, dorm ir e reclam ar... com o eu. — De repente ele riu do quadro que pintou. — Acho que Pam deveria estar tendo um caso tam bém , exceto que, nesse caso, ela provavelm ente está.
— Está falando sério? — Faith parecia horrorizada. Ele não dissera a ela que não dorm iam m ais j untos. Havia coisas que não contava, nem m esm o para Faith.
— Não pergunto. Acho que não é m ais da m inha conta. — Era tudo que ele queria dizer sobre o assunto, m as ela entendeu o que ele quis dizer e ficou surpresa. Ele não parecia o tipo de hom em que desiste das coisas, m as nunca se sabe o que acontece entre as quatro paredes das outras pessoas. — Em todo caso, o que faço não é da conta dela. E não quero que fique caluniando você. — Ele era protetor em relação a Faith, e não contou sobre o com entário de Pam sobre a ida deles à igrej a. Sabia que ela ficaria ofendida, e estava certo. — Desculpe por ligar para você para reclam ar, Fred. Já disse, estou cansado. E ela m e deixou furioso. — Era bom ter alguém com quem se abrir, e eles conversaram m ais um pouco antes de ele voltar para a preparação do j ulgam ento.
E ela estava feliz por ter falado com ele, que assim pôde desabafar. Com o sem pre, am bos sentiram -se m elhor depois que desligaram . Ela subiu para tom ar banho e se arrum ar para dorm ir. E ele ficou sentado alguns m inutos a sua m esa, olhando para o nada e pensando nela.
Ele estava achando estranho Pam tê-lo acusado de dorm ir com Faith, e Zoe ter perguntado a m esm a coisa à m ãe. Mais estranho ainda, as duas terem insinuado que estavam apaixonados. Com o ele dissera para Pam , não era nem um a alternativa, para nenhum dos dois. Sem pre foram apenas am igos, desde o início. E o fato de ele gostar da com panhia dela não m udava nada. Na vida dele, ela era a m esm a pessoa que fora quando m enina, quando ele a aj udava a subir em árvores e pintar suas tranças de verde. Era m esm o? De repente, com eçou a pensar em quanto ela significava para ele, e com o se tornara dependente dela nos últim os dois m eses. E ao pensar nisso teve um a visão dela patinando ao seu lado no Rockefeller Center e acendendo um a vela no altar de São Judas na Catedral de St. Patrick... nunca vira um rosto m ais lindo em sua vida. Ela estava ilum inada rezando ali. E então perguntou-se se Pam não estava certa... e se ela não estava, talvez deveria estar. E então, com um sorriso cansado, ele balançou a cabeça. Estava im aginando coisas.
Não estava apaixonado por Faith. Não im porta o quão linda ela fora quando criança, ou era agora, ela era sua am iga, só isso.
E em Nova York, Faith estava pensando na m esm a coisa, sentada em sua banheira, fazendo-se as m esm as perguntas. E chegou à m esm a conclusão de Brad. Elas estavam sendo tolas, tanto Zoe quanto Pam . Ela e Brad não estavam apaixonados um pelo outro, Faith garantiu para si m esm a.
Eram am igos, m ais que isso, eram com o irm ãos. Era tudo que queriam , tudo de que precisavam um do outro. Apenas am izade. Aém disso, se fosse m ais do que isso, teria estragado tudo. E Faith queria evitar o estrago a todo custo.