Preces Atendidas
Capítulo 9
Com o prom etido, Brad pegou-a às seis horas na noite seguinte. Tudo que disse era que teriam um j antar sim ples e que ela deveria vestir roupas quentes, o que ela fez. Colocou um grande casaco com prido e um a suéter de gola alta verde, da m esm a cor de seus olhos, calças de veludo preto e botas forradas com pele. Esfriara naquele dia.
— Então, aonde vam os? — perguntou ela quando ele passou para pegá-la. Ele dera o endereço para o m otorista antes de ela entrar.
— Você verá — respondeu ele, fazendo m istério. Pararam em frente à loj a Saks na Fifth Avenue e atravessaram a rua.
Foi quando ela percebeu que estavam indo para o Rockefeller Center para j antarem e assistirem às pessoas patinarem no rinque. Sentaram -se em um a m esa em frente à grande j anela que dava para o rinque, e foi divertido assistir às pessoas girarem , fazerem piruetas e rodopios, e outros cam balearem e caírem . Parecia que todos estavam se divertindo, e havia m uitas crianças entre os adultos.
— Você se lem bra quando nós três íam os patinar no Central Park? — perguntou Faith com os olhos cheios de lem branças felizes e um am plo sorriso.
Brad pensara em levá-la ao parque, m as decidira por aquele restaurante. Achou que o Wollm an Rink no parque teria feito com que ela se lem brasse m uito de Jack, assim com o ele. Tiveram tantas aventuras j untos, e Brad adorara todas elas. Ser criança em Nova York fora divertido. Eles m oravam em Upper East Side, em um a verdadeira vizinhança ao norte de Yorktown, e ele e Jack frequentaram a m esm a escola.
— É claro que lem bro — respondeu ele com um a expressão superior. — É por isso que estam os aqui. Pensei que, talvez depois do j antar, pudéssem os dar uns giros. Ou levar uns tom bos, se for o caso. Não patino há m ais de vinte anos. Não patinam os m uito no gelo na Califórnia. — Quando crianças, os três costum avam patinar pelo m enos um a ou duas vezes por sem ana. Jack fora até do tim e de hóquei do colégio.
— Você está dizendo patinar? Aqui? — Ela pareceu surpresa e encantada, m as adorou a idéia. — Seria divertido!
— Fico feliz que tenha gostado da idéia tam bém . Pode m e levantar quando eu cair de bunda no chão.
— Não conte com isso. Não patino desde que éram os crianças. — Ela costum ava levar as filhas para patinar frequentem ente quando eram pequenas, m as só assistia.
— Bom . Som os um par perfeito.
Pediram o j antar, e Faith percebeu que estava com endo rápido para poder ir para o gelo. Ele calculara o tem po com exatidão. Tinham um a reserva para às seis e m eia, term inaram pontualm ente às oito horas, bem a tem po da próxim a sessão. Foram até a sala dos arm ários para alugar patins, enquanto um hom em alisava o gelo usando um a m áquina apropriada. E assim que acabaram de calçar os patins, a sessão com eçou.
Com cuidado, Faith aventurou-se no gelo antes de Brad.
Prim eiro sentiu-se insegura e im aginou que j á fazia m uito tem po. Mas, depois de dar duas voltas no rinque, ficou surpresa de com o estava com eçando a se sentir segura. Brad j á estava patinando ao lado dela, inseguro no com eço, m as com o Faith, percebeu que suas longas pernas estavam m ais velozes do que im aginara. Um dia, am bos foram patinadores m uito bons. E em m eia hora, estavam felizes patinando pelo rinque de m ãos dadas e se divertindo m uito.
— Não acredito que ainda sei fazer isso — disse Faith, sentindo-se m uito com petente, com bochechas rosadas e brilhantes e o cabelo voando ao vento, ao olhar para Brad.
Estava satisfeita por ter trazido luvas depois do aviso dele para vestir roupas quentes. Não fazia idéia de seus planos, e im aginou que ele talvez quisesse fazer algo tão sossegado quanto um a longa cam inhada. Nunca poderia pensar nisso, m as estava feliz por ele ter pensado. Era com o voltar ao passado.
— Você ainda é m uito boa, Fred. — Tão logo ele disse isso, ela se estatelou no gelo, m as ele estendeu a m ão para aj udá-la a levantar enquanto am bos riam e continuavam a patinar.
Duas horas depois, am bos estavam exaustos, m as encantados com o que tinham feito. Tiraram os patins com tristeza, m as Brad adm itiu que se continuasse patinando por m ais um a hora, m orreria.
— Devo estar ficando velho — reclam ou ele de form a pouco convincente, m as não enganou Faith. — Am anhã vou estar doído da cabeça aos pés.
— Eu tam bém , m as valeu cada m inuto. — Ela sorriu. Não se divertia tanto desde que eram crianças. Fora um a idéia m aravilhosa. — Deus, você se lem bra de todas aquelas vezes que vocês iam patinar com os am igos e deixavam eu ir j unto? Vocês estavam sem pre tentando conquistar as m eninas e eu sem pre estragava tudo para vocês dois. Eu fazia isso de propósito porque tinha um a paixão secreta por você. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos.
— Então por que m e casei com Pam e não com você? Burrice, acho — im plicou ele. Não havia nenhum clim a rom ântico entre eles desde que estavam no início da adolescência.
— Acho que superei essa paixão quando estava com 14 anos. — Ela riu. Na verdade, fora com 16, quando ele foi para a faculdade e ela descobriu os outros garotos. Mas até então, durante oito anos, ela acreditou que o sol nascia e se punha nele. E agora que se reencontraram , ainda acreditava.
Cam inharam devagar em direção à Fifth Avenue, corados pelo frio e sentindo o exercício, m as am bos estavam relaxados e em paz. Enquanto esperavam na esquina por um táxi, Faith olhou para a Catedral de St. Patrick e teve um a idéia.
— Quer entrar e acender um a vela para Jack? — perguntou ela de form a solene, e o brilho nos olhos dela quase partiu o coração dele. Ela acendia velas para ele na m issa várias vezes por sem ana.
— Claro. — Ele não ia à igrej a havia anos, em bora costum asse ir com ela, Jack e a m ãe deles quando eram crianças.
Ele era episcopal, m as gostava da pom pa e da cerim ônia da Igrej a Católica, e com ungara um a ou duas vezes com eles, ficando surpreso ao ver que não era diferente da sua igrej a.
Para ele, a Igrej a Católica sem pre parecera m ais m isteriosa e im pressionante. Um a vez Jack desafiou-o a se confessar, e ele ficou surpreso de com o o padre fora am ável.
Muitos aspectos do catolicism o o encantavam , em bora tenha se afastado da sua própria igrej a nos últim os anos. Faith ainda ia à igrej a com frequência, e Alex não era religioso e resistia bastante, e ela nunca conseguiu passar isso para as filhas. Era um a coisa que fazia sozinha, m as ia com m ais frequência desde que o irm ão m orrera. Em vez de um a ou duas vezes, agora ia várias vezes por sem ana. Isso lhe dava um a sensação de com unhão com ele e de paz. Era o único lugar em que conseguia consolar-se da m orte dele. Brad não disse nada enquanto seguiu-a até a igrej a.
Eram um pouco m ais de dez horas e as portas ainda estavam abertas. Havia um a linda decoração de Natal e a igrej a estava ilum inada de um a form a espetacular. Quando entraram , pararam e olharam a sua volta, era um a visão im pressionante.
Havia altares para santos individuais em todas as laterais e filas de velas na frente deles, e o altar principal ficava no final da nave central, bem à frente. Ela fez o sinal da cruz e, lado a lado, eles cam inharam até a frente da igrej a. Era quase com o se ela pudesse sentir Jack andando j unto com eles.
Sentaram -se em silêncio em um banco e ficaram ali por um tem po, e ela aj oelhou e rezou, por Jack, por sua m ãe e por Charles, e finalm ente por suas filhas; então, ainda de j oelhos, virou-se e sorriu para Brad. Ele nunca a vira m ais linda. Era quase com o se houvesse um a aura de paz a sua volta, e um brilho de ternura em seus olhos.
— Posso senti-lo aqui conosco — sussurrou ela. Am bos sabiam de quem ela estava falando, e Brad assentiu, com lágrim as nos olhos, e então aj oelhou-se ao lado dela.
— Eu tam bém . — Então ele abaixou a cabeça e fechou os olhos.
Era com o nos velhos tem pos, patinar j untos e ir à igrej a. Só estava faltando Jack, m as não parecia que realm ente estava.
Após um m om ento, os dois levantaram a cabeça e passaram do altar principal para os m enores em honra dos santos.
Faith fez a genuflexão quando cruzaram o centro da igrej a. E ele seguiu-a até o altar de São Judas, que sem pre fora o santo favorito dela.
Ela colocou um a nota de cinco dólares em um a fenda, acendeu um a vela para Jack e depois estendeu a vara com fogo para que Brad pudesse acender um a tam bém . Isso sem pre fora m ágico para ele, com o se algo tão poderoso com o isso só pudesse resultar em coisas boas. E eles ficaram lá, lado a lado, por um m om ento, pensando em Jack em suas orações silenciosas. E então deram as m ãos e saíram devagar.
Pararam antes de sair da igrej a, e Faith m olhou os dedos na água benta, fez o sinal da cruz e sorriu para ele.
— Obrigada por vir aqui com igo — falou ela em um sussurro. Já estivera na igrej a naquela sem ana, m as agora fora m ais significativo porque ele estava aqui, com o se suas orações j untas fossem m ais poderosas, com o se rezar com ele por Jack fosse m ais expressivo.
Brad estava quieto ao sair atrás dela, profundam ente com ovido. Já fazia anos que não entrava em um a igrej a e estava surpreso de com o fora significativo para ele, ou talvez fosse o fato de estar j unto com ela que trazia à tona lem branças dos três.
— Você ainda tem seu terço? — perguntou ele ao descerem os degraus da Catedral de St. Patrick de m ãos dadas. Sentia-se m ais próxim o dela, com o se agora ela fosse sua irm ã tam bém , seu sangue, e não apenas sua am iga.
— Tenho.
— Você ainda reza? — Ele sem pre ficara fascinado por isso quando ela era m ais j ovem . Gostava dos rituais e da ostentação. Jack costum ava im plicar com ele, dizendo que deveria se converter e virar padre.
— Às vezes. Mais nos últim os anos, por causa de Jack. Às vezes sim plesm ente entro na igrej a e rezo por ele. — Brad assentiu, sem querer perguntar por que ou o que ela achava que isso fazia. Para ele, era suficiente ela querer e isso fazer sentido para ela. Sem pre fizera. Quando ela era um a m enina, chegou a falar um a ou duas vezes que queria ser freira. Mas Jack detestava a idéia e dizia para ela esquecer isso. E conform e o tem po foi passando e ela cresceu, ficou m ais interessada em ter filhos e casar, o que parecia m ais saudável para ele.
— Você e Pam vão à igrej a? — perguntou ela enquanto estavam parados na Fifth Avenue. Era hora de levá-la para casa, m as ele odiava ter de ir em bora.
Ele sorriu para a pergunta.
— Pam j á confessou ser ateia ou agnóstica, nunca sei qual. Ela tem certeza de que Deus não existe. — Ele disse isso com sim plicidade, sem j ulgá-la. Era o que ela era e em que acreditava. Suas próprias crenças sem pre pareceram um pouco vagas em sua form a, m as ele acreditava em Deus.
— Que triste — com entou Faith, e Brad sorriu para ela. Havia algo tão puro nela às vezes, e Brad am ava isso desde que ela era um a m enininha. — E os m eninos?
— Acho que eles não têm certeza ou não ligam m esm o. Não m e preocupei exatam ente com a vida religiosa deles. Sem pre achei que eles fariam o que quisessem um dia. Eu não ia à igrej a havia anos. Você e Alex vão à igrej a?
— Ele é episcopal com o você, e nunca vai. Não acho que ele sej a ateu. Apenas odeia ir à igrej a e considera um a perda de tem po. Acha que é coisa de m ulher. E as m eninas nunca querem ir, exceto para acender um a vela de vez em quando.
— Quando éram os crianças, eu achava isso m ágico. Com o fazer um pedido. Sem pre acreditei que todas as orações eram atendidas. Acho que sua m ãe m e disse que eram . — Ela fora um a m ulher m uito religiosa, o que a aj udara a suportar sua infelicidade quando era casada com Charles, e antes disso no seu prim eiro casam ento, em bora nunca tenha adm itido que era infeliz em nenhum dos dois casos. Naquela época, havia m uitos segredos e negações na fam ília de Faith.
— Eu tam bém achava que todas as orações eram atendidas — contou Faith, de form a triste. As orações das outras pessoas, não as suas.
— E agora? — Brad olhou para ela com atenção.
— Às vezes não sei.
— Por causa de Jack?— perguntou ele com suavidade, olhando nos olhos dela através do frio de um a noite de dezem bro, enquanto suas respirações soltavam fum aça no ar gelado. Ela assentiu em resposta. — Sabe, é engraçado. Não sou religioso, nunca fui. Nunca fui m esm o à igrej a, exceto com vocês dois e com a m ãe de vocês, quando éram os crianças. Mas ainda acredito no que ela m e disse sobre as orações serem atendidas.
Faith parecia sensata ao ponderar o que ele dissera.
— Gostaria de ter tanta certeza. — A vida não era m ais tão sim ples quanto parecera na época. Mesm o nos piores m om entos de sua vida, apoiara-se em sua fé.
— Ainda acho que são. — Havia um nó na garganta dele quando disse isso, e ela não sabia se as lágrim as nos olhos dele eram por causa do frio ou de outra coisa. — E acho que Jack acharia tam bém .
Faith não respondeu, apenas assentiu. E ela prendeu seu braço no dele, e cam inharam lentam ente pela Fifth Avenue, sem dizer um a palavra.