Preces Atendidas

Danielle Steel · Capítulo 3 de 25

Páginas do PDF

Preces Atendidas

Capítulo 2

 

ALEX JÁ TINHA SAÍDO para Chicago quando Faith acordou com o despertador às oito da m anhã seguinte. O funeral era às onze, e ela prom etera pegar a filha de Charles com a lim usine. Allison era 14 anos m ais velha do que Faith m as, aos 61, a diferença parecia ser de m il anos. Allison tinha filhos com quase a m esm a idade de Faith. O m ais velho tinha 40, e Faith m al o conhecia. Todos eles m oravam no Canadá, ao norte de Quebec. Allison nunca tivera nenhum tipo de laço particular com a m adrasta nem com Faith. Ela j á era casada e tinha filhos quando o pai casou-se com a m ãe de Faith. E seus irm ãos postiços, Faith e Jack, não eram de seu interesse.

Allison e o pai não eram chegados, pela m esm a razão de ele não ter sido chegado a Faith. Charles Arm strong não via nenhum a utilidade para as m eninas. Ele se form ara em West Point, academ ia m ilitar am ericana, e tivera um a carreira no Exército. Tinha 49 anos quando se casou com a m ãe de Faith e logo se aposentou. E tratara seus enteados com o cadetes de West Point. Inspecionava seus quartos, dava ordens, im punha castigos e um a vez deixou Jack do lado de fora na chuva a noite toda por ir m al em um a prova na escola. Faith deixou-o entrar pela j anela e escondeu-o em baixo da cam a; de m anhã, respingaram água nele para que suas roupas ficassem m olhadas, e ele saiu sorrateiram ente quando am anheceu. Charles não os pegou, m as teria sido o inferno se tivesse.

A m ãe deles nunca interferiu em favor deles, da m esm a form a que nunca interferira na vida anterior. Ela evitava confrontos a todo custo. Tudo que queria era um a vida pacífica, Ela tivera um prim eiro casam ento difícil, em ocionalm ente estéril. E dois anos de problem as financeiros sérios quando o m arido m orreu deixaram -na afogada em dívidas. Era grata por Charles tê-la salvo e estar disposto a cuidar dela, de Jack e de Faith. Ela não ligava para o fato de Charles raram ente falar com ela, exceto para dar ordens. Tudo que ele parecia querer dela era que estivesse lá para lim par a casa. E tudo que ele queria de Faith e Jack era que obedecessem às suas ordens, tirassem boas notas e ficassem longe dele. Isso aj udou no fato de am bos terem se casado com pessoas tão frias e sem em oção com o Charles e a m ãe deles tinham sido, e o pai deles antes disso.

Faith e Jack conversaram m uito a esse respeito no ano anterior à m orte dele, quando ele e a esposa se separaram de novo. Am bos tinham consciência dos paralelos em seus relacionam entos. Casaram -se com pessoas frias, distantes, que não eram afetuosas nem generosas. Em bora no início Alex parecesse afetuoso, esfriara rapidam ente quando Eloise nasceu. E fora um processo progressivo de esfriam ento depois disso, sim plesm ente com o ele era. Faith não se ressentia m ais por isso, m as aceitava-o do j eito que era.

Alex tam bém era m uito m ais sofisticado do que Charles, que fora um hom em rude, de West Point, até a m orte. Mas de algum a form a, com o passar dos anos, Alex com eçara a lem brá-la de Charles. Sua m ãe sofrera com isso por m uito tem po. Era seu m ecanism o de defesa. Ela conseguira transm itir, m esm o sem dizer um a palavra, que a vida a decepcionara, e m esm o assim fazia o que esperavam que fizesse e, quando m orreu, estava casada com Charles havia 34 anos. Ela nunca pareceu feliz para Faith ou Jack. Não era um casam ento que Faith gostaria de ter e, m esm o assim , por m ais estranho que pareça, era o casam ento que tinha agora.

Perguntava-se por que não vira isso quando ela e Alex se casaram . E Debbie, a esposa de Jack, tam bém era fria com ele.

A história deles foi o que fez Faith decidir ser extrem am ente carinhosa com Zoe e Eloise. No princípio, esforçara-se ao m áxim o para ser diferente com Alex. Mas ele deixara claro com o passar dos anos que afeto era um a coisa que não apenas o deixava desconfortável, com o não precisava que ela lhe desse. Ele precisava de um a vida disciplinada, um a carreira de sucesso, um a casa bonita e um a esposa que estivesse ao seu lado, fazendo o que ele esperava que ela fizesse, enquanto ele conquistava o m undo dos negócios.

Mas ele não queria os enfeites, as baj ulações, o carinho que Faith teria gostado de lhe oferecer. Então, em vez disso, todo o am or que transbordava dela era dedicado ao irm ão e às filhas.

A lim usine estava esperando do lado de fora quando Faith saiu, às 10h15. Estava usando vestido e casaco pretos, assim com o m eia-calça e escarpins altos de couro tam bém pretos.

Seu cabelo louro estava preso para trás no m esm o coque do dia anterior, e a única j óia que usava era um par de brincos de pérola que fora de sua m ãe e que Charles lhe dera. Faith estava linda, transpirava tranquilidade e nobreza, e, apesar da roupa, parecia m ais j ovem do que realm ente era. Havia algo franco e afável em seu rosto, e tinha um sorriso fácil e m aneiras gentis. Quando estava de calça j eans e com o cabelo solto, ainda parecia quase tão j ovem quanto as filhas.

As tristezas que tivera nos últim os anos não apareciam em seu rosto, e quando sentou no banco de trás da lim usine estava pensando em Jack. De algum a form a, ele tentaria ser irreverente, m esm o em um dia som brio. Teria facilitado as coisas para ela e encontrado algum a frivolidade sutil ou absurda que sussurraria em seu ouvido. Pensar nisso, enquanto seguia para o hotel de Allison, fez com que sorrisse para si m esm a. Ele fora cheio de travessuras até seu final inesperado.

Jack era advogado de um a em presa de Wall Street e era adorado por seus colegas e am igos. Só Alex o considerava indigno e tinha problem as com ele. Os dois estavam em polos opostos em todos os assuntos, e Jack achava seu cunhado enfadonho, em bora raram ente o expressasse, por respeito a Faith. Sabia que não tinha por que discutir sobre isso. Faith tam bém não gostava de sua esposa, e dizê-lo só o deixaria m ais constrangido. Seus cônj uges eram um tabu a m aior parte do tem po, exceto quando eles próprios resolviam tocar no assunto. E Jack era sábio o suficiente para ser o m enos crítico possível, devido ao am or profundo pela irm ã.

Allison e o m arido estavam esperando do lado de fora do hotel quando Faith parou para pegá-los. Um casal respeitável. Há quarenta anos, adm inistravam um a fazenda próspera no Canadá. Tinham três filhos quase da idade de Faith que os aj udavam , m as que não vieram para o funeral, e um a filha que ficara em casa porque estava doente. Allison e o m arido, Bertrand, pareciam desconfortáveis com Faith, que era educada e cosm opolita, e, em bora Allison a conhecesse desde que era um a criança, m al tinham se visto na vida adulta, e suas vidas estavam baseadas em m undos diferentes.

Eles perguntaram sobre Alex e ela explicou que ele tivera de voar para Chicago naquele dia. Allison assentiu, encontrara-o poucas vezes, e ele era com o um ser de outro planeta para ela. Alex não tinha nenhum interesse neles e não se esforçara para conversar quando se conheceram nem quando os viu no funeral da m ãe de Faith.

Elas eram virtualm ente estranhas depois de terem sido parentes por m ais de três décadas, e enquanto seguiam para a igrej a, Faith não pôde deixar de se perguntar se voltariam a se ver algum dia depois daquele dia. Não tinham nenhum vínculo real, e saber disso aum entava sua sensação de perda.

Allison era outra pessoa que desapareceria de sua vida, que parecia um processo de descam ação. Ninguém entrava m ais, só saía. Jack, sua m ãe, Charles, suas filhas de um certo m odo... agora Allison... nos últim os m eses com eçara a se sentir com o se estivesse para perder tudo em sua vida. E a m orte de Charles, em bora oportuna e apropriada aos 84 anos, parecia outro golpe. Outra partida. Outra pessoa afastando-se dela, abandonando-a.

Faith, Allison e Bertrand falaram pouco no cam inho para a igrej a. Allison parecia quieta e serena. Ela e o pai raram ente se viam e nunca foram íntim os. Ela disse a Faith que queria convidar as pessoas para irem ao hotel depois, caso quisesse incluir alguém . Alugara um a sala de estar grande e contratara um buffet, o que Faith achou um a oferta com ovente e atenciosa de sua parte. Seria bom para os am igos de seus pais.

— Não tenho certeza de quantas pessoas eu conhecerei — com entou Faith, sendo honesta.

No obituário que colocaram no j ornal estava escrito onde o funeral seria, e ela ligara para alguns am igos de seus pais. Mas m uitos deles j á tinham m orrido ou estavam em asilos. O casal m orou em Connecticut por m uitos anos e tinha am igos lá, m as depois da m orte da m ãe de Faith, Charles m udou para um asilo na cidade e esteve doente a m aior parte do últim o ano. Sua m orte chegou sem surpresa para nenhum deles. Mas era difícil dizer quantas pessoas iriam ao funeral.

Faith suspeitava de que poucas pessoas com pareceriam .

Iriam para o cem itério logo após o funeral, para enterrá-lo. E ela e Allison concordaram que provavelm ente à um a e m eia j á estariam de volta ao hotel. Acreditavam que receberiam as pessoas pelo resto da tarde, e Allison e Bertrand voariam de volta para o Canadá às oito horas daquela m esm a noite. Faith e Alex iriam a um j antar, que seria um a boa diversão depois de um a tarde depressiva.

Ao entrarem por um a porta lateral da igrej a, os três ficaram surpresos pelo núm ero de pessoas que vieram e j á estavam sentadas nos bancos. Charles fora um m em bro respeitado da com unidade na pequena cidade em Connecticut onde viviam . Faith sem pre sentira que as pessoas gostavam de Charles e achavam -no decente e íntegro, e até interessante.

Na j uventude, ele servira em alguns lugares exóticos e sem pre tinha histórias para contar, sendo que não costum ava com partilhá-las com a esposa ou com os enteados. Mas as pessoas que estavam fora de seu círculo im ediato sem pre tiveram um a boa im pressão. Ele não era tão frio e esforçava-se de form a considerável para ser m ais sim pático, o que Faith sem pre estranhara. Principalm ente desde que ele e a m ãe dela pareciam não trocar m ais do que algum as palavras, e ela nunca conseguiu entender o que a m ãe vira nele, além de ele ser um cidadão honesto e, um dia, um hom em de boa aparência. Mas, para Faith, seu padrasto não era nem um pouco carism ático ou charm oso.

O serviço com eçou pontualm ente às onze horas. Faith e Allison tinham escolhido as m úsicas no dia anterior, e o caixão ficou alguns m etros à frente delas, em baixo de um grande arranj o de flores brancas. Faith usara seu próprio florista para as flores da igrej a e oferecera-se para pagar, o que foi um alívio para Allison. O serviço foi sim ples, ele era presbiteriano, apesar de a m ãe de Faith ter sido católica e eles terem se casado na igrej a católica. Mas nenhum dos dois fora dedicado à sua fé, ao contrário de Faith e Jack. Eles sem pre iam à m issa j untos, até a m orte dele.

O serm ão foi rápido e im pessoal, com o parecia apropriado.

Charles não era o tipo de hom em sobre quem alguém faria poesias ou contaria anedotas. O m inistro listou suas realizações, falou sobre seu passado em West Point, sua carreira m ilitar e referiu-se a Allison e Faith. Ele se confundiu e presum iu que as duas fossem filhas de Charles, m as Allison não pareceu se im portar. Todos cantaram "Am azing Grace" no final, e enquanto cantavam Faith sentiu lágrim as escorrerem por seu rosto. Por algum a razão, ela só tinha a visão de quando Charles era m ais j ovem , um a vez quando eles eram crianças e ele os levou para um lago e estava tentando ensinar Jack a pescar. Jack tinha olhos grandes e brilhantes e olhara com carinho para ele naquele m om ento raro, quando Charles não estava repreendendo-os, e tudo que ela conseguia ver em sua m ente era o padrasto em pé, atrás de Jack, m ostrando com o segurar a vara de pescar, e Jack sorrindo de orelha a orelha... Isso fez com que sentisse m ais saudades de Jack do que de Charles, quando fechou os olhos e quase conseguiu sentir em seu rosto o calor do sol de agosto daquele dia. Pensar no passado causou dor em seu coração. Tudo se fora agora, parte de um a vida de lem branças.

Não conseguiu evitar as lágrim as que escorriam em seu rosto nem o soluço preso em sua garganta quando alguns hom ens pegaram o caixão e lentam ente o carregaram , assim com o fizeram com o de Jack três anos antes. Os am igos carregaram o caixão, e ele tinha m uitos am igos. Havia centenas de pessoas em seu funeral e, para Faith, essa lem brança era apenas um vago borrão. Estava tão perturbada naquele dia que m al conseguia se lem brar, o que era um a graça. Mas assistir o caixão de Charles ser levado lentam ente pela nave da igrej a trouxe lem branças angustiantes, principalm ente ao seguir Allison e Bertrand. Pararam na entrada da igrej a onde os hom ens que carregavam o caixão o colocaram no carro fúnebre, e os três parentes vivos de Charles esperaram para apertar as m ãos dos am igos.

Já estavam na m etade da fila de cento e poucas pessoas, quando Faith escutou um a voz m uito fam iliar atrás de si, e tudo que pôde fazer foi congelar. Estava apertando a m ão de um a senhora que fora am iga de sua m ãe, e antes que pudesse se virar, ele disse um a única palavra.

— Fred. — Isso trouxe um sorriso ao seu rosto apesar das circunstâncias, e ela estava radiante ao virar-se. Só havia um a pessoa no m undo que a cham ava assim , além de Jack.

Na verdade, ele inventara isso e Jack adotara. Fora o apelido dela durante os anos em que cresciam . Ele sem pre dizia que Faith era um nom e estúpido para um m enina, então a cham ava Fred.

Faith virou-se com um sorriso aberto e olhou para ele, incapaz de acreditar que estava ali. Ele não m udara nem um pouco com os anos, apesar de ter a m esm a idade de Jack, dois a m ais do que ela. Aos 49, Brad Patterson ainda parecia um m enino quando sorria. Tinha olhos verdes com o os dela, um corpo esguio e com prido que sem pre fora m uito m agro, m as parecia m ais razoável agora. Quando eram crianças, ela sem pre dizia que as pernas dele pareciam as de um a aranha.

Ele tinha um sorriso que se espalhava pelo rosto de form a irresistível, um a covinha no queixo e um cabelo negro que ainda não com eçara a ficar grisalho. Brad era o m elhor am igo de Jack desde os 10 anos. Faith tinha 8 quando o viu pela prim eira vez, e ele pintou o cabelo dela de verde para o dia de St. Patrick, que é um a festa em que tudo é verde, até a cervej a. Ela, Jack e Brad acharam a idéia ótim a, m as a m ãe deles não gostou tanto assim .

Brad sem pre aparecia com m ilhões de planos e travessuras.

Ele e Jack foram inseparáveis por uns 12 anos. Foram para Penn State j untos e só pararam de se ver quando am bos foram para a faculdade de Direito. Brad fora para Boalt, em Berkeley, e Jack, para Duke. Brad se apaixonou por um a m enina e acabou ficando na Costa Oeste, e então, de algum a form a, a vida real interveio. Ele casou e teve gêm eos da m esm a idade de Eloise. E, conform e o tem po passava, Jack voava para vê-lo a cada dois anos. Mas Brad parou de vir para o leste. Fazia anos que Faith não o via, desde o funeral de seu irm ão. Am bos estavam acabados naquele dia e passaram horas conversando sobre Jack, com o se o sim ples fato de contarem tudo que lem bravam fosse trazê-lo de volta. Brad voltara para casa com ela, onde conheceu Zoe e Eloise. As m eninas tinham 15 e 22 anos na época. Alex não ficou m uito im pressionado com ele, achou-o m uito californiano, com o dissera, e foi indiferente, principalm ente por ser am igo de Jack. Mas Faith não se im portou, tudo que queria era apegar-se a ele. Ela e Brad trocaram cartas por um ano e acabaram perdendo contato de novo. Ele parecia ser devorado pela própria vida. Ela não o via desde o funeral de Jack e não tinha notícias há quase dois anos. Estava m aravilhada por vê-lo no funeral de Charles e não conseguia im aginar com o viera parar ali.

— O que você está fazendo aqui? — O sorriso que trocaram poderia ter ilum inado a igrej a inteira.

— Estava na cidade para um a conferência e vi o obituário no j ornal de ontem . Achei que seria apropriado vir. — Ele sorriu para ela com o fazia quarenta anos antes. Ainda parecia um m enino para ela, e em seu coração sem pre seria, independentem ente da idade que tivesse. Só conseguia lem brar da j uventude. Ele era um dos três m osqueteiros, ela e Jack com pletavam o grupo. Ela sorriu para ele, agradecida por ter vindo. De repente, ficou m ais fácil, sentiu que Jack ainda estava ali. — E sabia que a encontraria aqui. Você está ótim a, Fred.

Quando crianças, ele im plicava com ela sem piedade, e quando ela tinha uns 13 anos, teve um a paixão por ele. Mas quando ele foi para a faculdade, três anos depois, ela j á superara e estava nam orando m eninos da sua idade. Mas ele continuou sendo um de seus m elhores am igos. O fato de terem perdido contato entristecia Faith, m as era difícil vencer o tem po e a distância para m anter a am izade. Tudo que tinham era a história e o carinho enorm e que ela ainda sentia por ele. Am bos valorizavam as interm ináveis lem branças dos anos em que cresceram j untos.

Ela convidou-o para ir ao hotel e ele aceitou, os olhos parecendo absorvê-la. Ele parecia tão em ocionado por vê-la quanto ela estava por reencontrá-lo.

— Estarei lá — prom eteu ele. Ele a vira chorar ao cantar "Am azing Grace", assim com o ele tam bém chorara. Ele não conseguia m ais escutar o cântico sem lem brar-se do funeral de Jack, três anos antes. Fora um dos piores dias de sua vida.

— Foi delicado de sua parte vir — disse ela, sorrindo para ele, enquanto as pessoas na fila de cum prim entos m oviam -se em volta deles ao apertar as m ãos de Allison e Bertrand.

— Charles era um cara bacana — respondeu Brad de form a benevolente. Tinha algum as lem branças boas com ele, m elhores do que as de Faith. Ele e Jack fizeram coisas com Charles que Faith nunca tivera a chance de fazer, com o caçar cervos e pescar no lago. Ele era bom em coisas desse tipo, e nunca pensaria em incluir Faith. — Além disso — acrescentou Brad —, eu queria ver você. Com o estão suas filhas? — perguntou, e ela sorriu m ais um a vez.

— Ótim as. Mas longe, infelizm ente. Eloise está em Londres, e Zoe é caloura em Brown. Com o estão os gêm eos?

— Muito bem . Estão passando um ano na África, perseguindo leões. Eles se form aram na UCLA em j unho e partiram logo depois. Quero ir vê-los um dia desses, m as ainda não tive tem po.

Faith sabia que ele estava trabalhando sozinho havia alguns anos, fazendo algum tipo de trabalho com unitário, defendendo m enores acusados de delitos. Jack com entara com ela a respeito um pouco antes de m orrer, e ela e Brad conversaram sobre isso no funeral dele. Mas não tinha tem po para perguntar sobre trabalho agora, Allison estava sinalizando que tinham de ir para o cem itério. Faith assentiu e olhou de volta para Brad.

— Tenho de ir. Você vai ao hotel m ais tarde? No Waldorf. — Ela parecia um a criança de novo ao lem brá-lo, e ele sorriu. Ele queria abraçá-la. Algum a coisa nos olhos dela dizia que estava passando por tem pos difíceis. Ele não sabia se era Jack ou algum a outra coisa, m as havia algo forte e triste nos olhos dela que tocou seu coração, com o quando ela era um a criança e parecia triste. Sem pre fora protetor em relação a ela, e ainda era.

— Estarei lá. — Faith assentiu e duas pessoas se colocaram entre eles para oferecer suas condolências.

Brad acenou e saiu. Tinha algum as pequenas coisas para resolver antes de ir para o hotel. Não vinha a Nova York com frequência e queria ir a alguns lugares que preferia e um as duas loj as das quais gostava. Teria preferido ir ao cem itério com ela, para oferecer apoio, m as não quis se im por. Sabia que seria difícil para ela por causa de Jack.

Funerais e cem itérios agora eram m uito fam iliares para ela. E ele percebeu ao observá-la entrar na lim usine e sair atrás do carro funerário que não vira o m arido com ela. Im aginava se algo tinha acontecido entre eles, se tinham se separado, e se isso era a causa da tristeza que vira em seus olhos. Ele e Jack conversaram sobre isso depois de Faith se casar, nenhum dos dois ficara entusiasm ado com Alex. Ele sem pre parecera distante e frio com eles, m esm o naquela época, m as Faith insistira com Jack que ele era um a boa pessoa, m ais caloroso do que parecia. E Brad não era m ais íntim o o suficiente para perguntar com o estavam as coisas. Mas achou estranho Alex não estar lá.

O breve interlúdio no cem itério foi superficial e soturno. O m inistro leu vários salm os, e Allison disse algum as palavras enquanto o m arido continuava quieto. E então cada um deles colocou um a rosa no caixão de Charles e se afastou.

Concordaram em não ficar quando abaixassem o caixão.

Teria sido m uito triste. Apenas poucas pessoas vieram , e m eia hora depois j á estavam voltando para a cidade. Era um lindo dia ensolarado de outubro, e Faith estava feliz por pelo m enos não ter chovido. Caíra um a tem pestade no dia em que enterraram Jack, o que tornou o dia ainda pior. Não que o sol teria aj udado. Nada teria. Sem dúvida, fora o dia m ais angustiante de sua vida.

Enterrar Charles era diferente, tranquilo e triste. Fez com que pensasse em sua m ãe, no casam ento que tiveram e na infância que ela e Jack passaram com eles. Devido à experiência que tivera com seu próprio pai, Faith tivera m edo dele no princípio, quando casou-se com sua m ãe. Não sabia o que esperar. Mas ficara aliviada ao descobrir logo que ele não tinha nenhum interesse sexual por ela, em bora fosse inflexível e severo. Costum ava gritar com eles. Na prim eira vez em que fizera isso, ela chorara, e Jack segurara sua m ão.

Sua m ãe não dissera nada para defendê-los. Ela nunca queria criar atritos e não os apoiara, o que Faith considerou um a traição. Tudo que sua m ãe queria era que as coisas funcionassem , independente do preço, m esm o se tivesse de se sacrificar ou Faith ou Jack. Ela subm etia-se a Charles em todos os sentidos, até quando se tratava de seus filhos. Jack foi quem sem pre protegeu Faith. Ele fora seu herói por toda a vida, até o dia em que m orreu. Isso fez com que pensasse em Brad de novo, e em com o estava feliz por ele ter vindo.

Encontrá-lo no hotel era algo que estava esperando ansiosam ente, enquanto tentava afastar seus pensam entos das lem branças dolorosas. Havia m uitas delas.

O carro parou na porta do hotel, e Faith e Allison concordaram em dispensá-lo. Faith poderia ir andando ou pegar um táxi para casa, e Allison e Bertrand pegariam um táxi para o aeroporto às seis horas. Tudo que precisavam fazer agora com o parte do funeral de Charles era passar algum as horas com os am igos dele. Ao entrarem no hotel, Allison ainda segurava a bandeira dobrada que tiraram do caixão no cem itério. Fazia com que parecesse um a viúva de guerra, Faith pensou, enquanto cruzavam o saguão e pegavam o elevador.

A sala que Allison alugara para a tarde era sim ples e elegante.

Havia um grande piano no canto e um buffet de sanduíches, biscoitos e bolos. Havia café e um garçom servindo bebidas e vinho. O que ela encom endara para com er era básico, m as adequado, e as prim eiras pessoas com eçaram a chegar assim que Faith pendurou seu casaco. E ficou aliviada ao ver que Brad foi o terceiro a entrar.

Ela apenas ficou parada e sorriu por um m inuto enquanto ele cruzava a sala até ela. Isso fez com que pensasse em com o ele era desengonçado quando criança. Ele sem pre fora bem m ais alto do que ela, e quando era bem nova ele costum ava j ogá-la para cim a ou em purrá-la no balanço. Ele estava sem pre presente em suas lem branças da infância e da adolescência.

— Com o foi? — perguntou ele, enquanto o garçom lhe entregava um a taça de vinho branco e ele dava um gole.

— Bem . Não vou m ais a enterros, só quando não posso evitar. Mas não pude evitar este. Odeio cem itérios — disse ela, franzindo a testa, e am bos sabiam por quê.

— Eu tam bém não gosto m uito de funerais. A propósito, onde está Alex? — Seus olhos se encontraram e se fixaram , ele estava perguntando m ais do que apenas isso, e ela sorriu e depois suspirou.

— Ele teve de ir para Chicago encontrar clientes. Voltará à noite.

Não havia nada de crítico no tom dela, m as Brad achou que ele deveria estar lá, por ela. Ficou aborrecido pelo fato de Alex não estar, m as tam bém ficou contente. Isso lhe dava tem po para ficar sozinho com ela, conversar e colocar o papo em dia. Já fazia tem po dem ais que não conversavam .

— Isso é m uito chato. Ele estar em Chicago, quero dizer. Com o está tudo? — Ele encostou no braço de um a poltrona, e ficou quase da m esm a altura que Faith tinha de pé.

— Tudo bem , eu acho. É estranho não ter m ais as m eninas em casa. Não sei o que fazer com a m inha vida. Fico dizendo que vou trabalhar, m as não tenho nenhum a habilidade profissional. Estava pensando em voltar para a faculdade de Direito, m as Alex acha que é loucura. Diz que sou m uito velha para voltar para a faculdade ou passar na prova da Ordem .

— Na sua idade? Várias pessoas fazem isso. Por que você não conseguiria?

— Ele diz que, quando passar para a Ordem , ninguém vai querer m e contratar. — Só escutá-la dizendo isso deixou-o chateado. Nunca gostara de Alex m esm o.

— Isso é um absurdo. Você seria um a excelente advogada, Fred. Acho que deveria. — Ela sorriu em resposta e não tentou explicar com o seria im possível convencer Alex disso. Ele era um hom em teim oso.

— Alex acha que devo apenas ficar em casa e relaxar, aprender a j ogar bridge ou algo parecido. — Soava horrível para ela, e Brad concordava. Ao olhar para ela, ele se lem brou do longo cabelo louro que tinha quando era m enina e desej ou poder tirar os gram pos de seu coque, em hom enagem aos velhos tem pos. Sem pre adorara o cabelo dela.

— Você ficaria entediada. Definitivam ente acho que a faculdade é a solução ideal. Deve pensar nisso. — Era exatam ente o que Jack teria dito, e isso reacendeu seu entusiasm o, enquanto ia cum prim entar um grupo de pessoas que acabara de chegar. Reconheceu vários rostos e agradeceu por virem , e um pouco depois voltou para Brad.

— Então, o que Pam tem feito ultim am ente? Não estão m ais trabalhando j untos m esm o? — Am bos eram advogados e se conheceram na faculdade de Direito, sendo que Pam estava um ano na frente dele. Jack fora padrinho do casam ento deles, m as Faith só a vira um a vez. Pam pareceu-lhe insensível e bem assustadora, m as com certeza inteligente.

Brad encontrara seu par em Pam .

— Graças a Deus, não. — Brad sorriu. — Ela ainda está trabalhando na firm a do pai. Ele vive dizendo que vai se aposentar, m as j á está com 79 e ainda não se aposentou, nem sei se um dia vai. Ela m e acha louco pelo que faço.

— Por quê? — O que ele fazia soara tanto interessante quanto nobre para Faith. De acordo com o que ele dissera na últim a vez que se encontraram , ele defendia várias crianças acusadas de crim es m aiores.

— Não recebo dinheiro, por nada. A m aior parte das vezes, sou designado pela corte, as outras vezes não m e pagam ou não m e pagam o suficiente, de acordo com ela. Trabalho dia, noite e fins de sem ana. Ela acha que abri m ão de um em prego confortável na firm a do pai dela para ficar na porta da cadeia com um bando de m eninos alegadam ente irrecuperáveis. O bom disso é que alguns deles realm ente dão um a guinada em suas vidas, se têm a oportunidade. É um trabalho interessante. E funciona para m im . Você pode aparecer e trabalhar com o m inha estagiária por um verão se voltar para a faculdade de Direito — im plicou ele. — Você teria de trabalhar de graça, é claro, ou poderia m e pagar, isso seria bom . — Am bos riram enquanto vagavam pelo buffet, e Allison apresentou-os a um casal que Faith não conhecia.

Pelo m eio da tarde as pessoas com eçaram a ir em bora, m as Allison achou que deveriam ficar até as cinco, por educação, caso algum as pessoas chegassem atrasadas. Isso deu a Faith a chance de passar m ais tem po conversando com Brad.

— Então, conte m ais, Fred. — Brad provocou enquanto sentavam -se de novo, após com erem sanduíche de salada de ovos com agrião, alguns m orangos e petit fours. — Algum a contravenção? Delitos? Multas de trânsito? Casos? Pode confessar para m im , estou preparado para confidências — disse ele, e ela riu. Enquanto estavam sentados j untos, ele percebeu o quanto sentira falta dela nos últim os anos. Era tão fácil se afastar por causa do tem po e da distância, e da vida ocupada, pelo m enos a dele. E m esm o assim , quando estavam j untos era com o se nada tivesse m udado. E a m orte de Jack até os reaproxim ou, apertando seus laços. — Então, qual é o crim e?

— Sem crim es— respondeu ela, cruzando as pernas, enquanto se encaravam . Ao olhar para ele, Faith percebeu que ainda era um hom em m uito bonito. As m eninas sem pre ficavam loucas por ele, m as era sem pre Jack quem conseguia as m elhores. Ele tinha um charm e irresistível, e sob certos aspectos, Brad era tím ido. Faith sem pre adorara isso. — Você vai ficar decepcionado. Nenhum a contravenção nem delito. Tenho um a vida bem chata. Por isso quero voltar para a faculdade. Não faço nada desde que Zoe foi para Brown. Alex está sem pre ocupado. Ellie tam bém foi em bora. Isso é tudo. De vez em quando, faço algum trabalho filantrópico, organizando eventos para arrecadar fundos. Posso fazer isso até de olhos fechados.

— E casos, Fred? Você está casada há m uito tem po. Não m e diga que se com portou bem todo esse tem po! — Ele fazia a m esm a coisa quando eram crianças. Sem pre conseguia descobrir todos os seus segredos com seu j eito de irm ão m ais velho, e depois im plicava com ela. Mas desta vez ela realm ente não tinha nada a contar.

— Já disse. Minha vida é m uito chata. E não, nunca tive um caso. Acho que não teria coragem , m uito com plicado, além disso nunca vi ninguém que m e interessasse. Sem pre m e ocupei com as m eninas. Parece um tédio, não é? — Ela riu e ele sorriu, seus olhos verdes presos aos dela.

— Então você ainda deve ser com pletam ente apaixonada por Alex — com entou ele, e ela afastou o olhar, pensativa, e depois concentrou nele de novo. Era estranho, ainda existia a m esm a intim idade entre eles, m esm o depois de todos esses anos. Confiava nele, em quem ele era agora e em quem sem pre fora para ela. E, de certo m odo, estava aqui representando Jack. Sob certos aspectos, em alguns m om entos fora até m ais próxim a de Brad do que do irm ão.

Ela e Brad eram m uito parecidos. Jack sem pre fora m ais sociável do que os dois e às vezes até m ais indelicado. Ela e Brad sem pre tiveram m uito em com um . E no passado ela contara coisas para ele que não contara para Jack.

— Não — respondeu ela honestam ente. — Não sou apaixonada por ele. Não com pletam ente, com o você disse. Eu o am o, ele é um a boa pessoa, um bom pai, um bom hom em . Som os bons am igos. Na verdade, não sei m ais o que som os. Acho que em prim eiro lugar vem o trabalho dele, e ele não precisa de ninguém perto, nunca precisou. Moram os na m esm a casa, tem os filhas, vam os a j antares de negócios j untos e, de vez em quando, visitam os am igos. A m aior parte do tem po, tem os nossas próprias vidas. Não tem os m ais m uito o que dizer um para o outro. — Ele percebeu então que essa era a tristeza que vira em seus olhos.

— Que solidão, Fred — disse ele de form a suave, em bora sua vida não fosse m elhor do que a dela. Há anos, ele e Pam eram pouco m ais do que m eros conhecidos. As coisas não correram bem entre eles depois que ele seguiu seu cam inho profissional, e ela ainda tinha de perdoá-lo por deixar a firm a do pai. Ela via isso com o um abandono, até um a traição. Levou para o lado pessoal, e não conseguia ver que o que ele estava fazendo era m elhor para ele. Era extrem am ente oposto a tudo que ela queria e acreditava, para os dois. Ganhar dinheiro, m uito dinheiro, era m uito m ais im portante para ela.

— É solitário às vezes. — Não quis dizer que era solitário o tem po todo. Não parecia j usto com Alex dizer isso, e soava deplorável adm itir isso para Brad. — Ele é um a pessoa m uito solitária, e tem os necessidades diferentes. Eu adoro pessoas, estar com as m eninas, adorava visitar os am igos, ir ao cinem a, sair j untos nos fins de sem ana. Nós m eio que perdem os tudo isso. Alex não vê m otivo para fazer nada que não sej a relacionado ao trabalho. — Mesm o seus j ogos de golfe eram com clientes ou pessoas que ele queria conhecer para fazer negócios.

— Meu Deus — sussurrou Brad, passando a m ão pelo cabelo e sentando-se, com um olhar agitado. Detestava pensar na vida dela desse j eito. Ela m erecia m uito m ais, e era isso que Jack sem pre falava, e Brad concordava. — Ele parece a Pam . Tudo que im porta para ela é quanto dinheiro ganham os. E francam ente — ele sorriu para Faith com tim idez — eu não ligo. Claro que não gostaria de m orrer de fom e. Mas isso não vai acontecer. Ela faz um a fortuna na firm a do pai, tem alguns clientes m uito im portantes. E ele vai deixar tudo para ela quando se aposentar ou m orrer, o que vier prim eiro. Tem os m ais do que suficiente. Tem os um a casa ótim a. Filhos m aravilhosos. O que m ais poderíam os querer? Quanto m ais precisam os ganhar? O bonito disso é que posso fazer o que quero, não tenho de trapacear clientes ou fazer declaração de im posto de renda para eles. Am o o que faço, isso significa m uito para m im . Acho que Pam fica constrangida com isso, porque não estou ganhando tanto dinheiro quanto ela acha que deveria. E no final quem liga, sem ser o Tio Sam ? Tem os m ais do que suficiente para deixar para os m eninos e tem os um a vida m uito confortável. Achei que estava na hora de eu devolver. Alguém deveria.

— Faz sentido para m im — com entou Faith, pensativa.

Parecia que ele tinha tom ado a decisão certa, pelo m enos para ele m esm o. Mas tam bém parecia que tinha criado um a desavença séria entre eles.

— Para Pam , tudo que im porta é prestígio e status, quem você conhece, o que as outras pessoas pensam , a quais clubes pertence, para quais festas foi convidado. Não sei, talvez eu estej a ficando velho, ou estranho, m as prefiro estar em um a cela de cadeia conversando com um m enino do que em algum j antar black-tie chato, sentado ao lado de algum inútil que não trabalha e não tem nada a dizer. — Ele ficava acalorado ao falar sobre isso, e Faith sorriu para ele.

— Acho que é de m im que você está falando. Acho que este é o m elhor argum ento que j á escutei para voltar para a faculdade.

— Talvez sej a — concordou ele, com sinceridade. — Não sei. Eu sim plesm ente sabia que tinha de fazer algo m elhor com a m inha vida do que ficar planej ando e escutando pessoas reclam arem sobre os im postos, e aj udá-los a preservar suas fortunas para seus filhos, que, afinal de contas, precisam sair e fazer suas vidas, m as provavelm ente nunca farão. Acho que eu teria m atado alguém se tivesse continuado. — Ele detestara os anos em que trabalhara na firm a do pai dela e sem pre desej ara sair.

— Fico tão entediada sem ter nada para fazer o dia inteiro — confessou Faith. — Sinto que estou desperdiçando m inha vida. As m eninas têm as próprias vidas. Alex tem o trabalho. Não sei o que fazer com a m inha vida agora que não estou m ais cuidando delas. Só o que tenho de fazer é aparecer e preparar o j antar à noite. A única coisa que tenho para fazer é ir a m useus e alm oçar com am igas.

— Você definitivam ente deveria voltar para a faculdade. — Ele parecia firm e.

— Ou voltar a trabalhar.

— E fazer o quê? Não trabalho desde antes de Ellie nascer, e eu era apenas um a estagiária. Podem os fazer isso aos 22 anos, m as não na m inha idade. Não faz sentido. Mas Alex vai ter um infarto se eu voltar para a faculdade.

— Talvez isso sej a um a am eaça para ele — opinou Brad, enquanto Faith pensava a respeito. — Talvez ele goste de saber que você não tem nada para fazer e é dependente dele. Acho que em parte era assim com a Pam . Acho que ela gostava de saber que eu trabalhava para eles. Isso m e deixava com um a sensação de claustrofobia. Preferi seguir em frente e m e ferrar sozinho.

— Tenho certeza de que isso não vai acontecer — anim ou-o Faith, segura. — Parece que você está indo bem , ou pelo m enos está fazendo a coisa certa. E parece que o dinheiro não é um problem a para nenhum de vocês. — Era um a boa posição para se estar.

— O dinheiro é um problem a para ela. É com o ela se avalia, pelo sucesso e pelo dinheiro que ganha. Não acredito que no final isso sej a o que conta. Quando eu m orrer, quero saber que fiz diferença para alguém , que m udei a vida de um a ou duas pessoas, que salvei um a criança e im pedi que destruíssem suas vidas. Não posso m e exprim ir econom izando dólares nos im postos de pessoas que têm m uito dinheiro.

— Acho que Alex e Pam são gêm eos. — Faith sorriu para ele. Sem pre adorara seus valores e pontos de vista, m esm o quando eram crianças. E ela ficou triste quando Allison lem brou a ela que tinham de liberar a sala às cinco horas, e que estava partindo para o aeroporto às seis.

— Acho que correu tudo bem — com entou Allison. Todos eles pareciam cansados, m as todos os velhos am igos de Charles com pareceram , e fora um a tarde de afeto e respeito.

— Você fez um trabalho m aravilhoso — elogiou-a Faith, de repente perguntando-se se algum dia elas se veriam de novo, e apesar de nunca terem sido nem am igas, pensar nisso entristeceu-a. — Charles teria ficado feliz.

— Acho que teria — concordou Allison, enquanto am bas pegavam seus casacos, e Bertrand assinava o cheque. Ele insistira que queriam pagar por isso. Faith pagara as flores da igrej a, que acabou sendo quase o m esm o valor.

Brad acom panhou-os até o elevador. Allison e Bertrand iam subir para pegar suas coisas. E Faith tinha de descer para o saguão para pegar um táxi.

— Quando você vai em bora? — perguntou Faith a Brad enquanto esperavam o elevador com Allison e Bertrand.

— Am anhã de m anhã — respondeu ele quando o elevador que subia chegou e Faith e Allison se abraçaram , enquanto Bertrand segurava o elevador.

— Cuide-se, Faith — disse Allison. Era m uito agradecida por tudo que Faith fizera nos últim os dois anos. Am bas tinham a m esm a sensação de que seus cam inhos provavelm ente não se cruzariam novam ente.

— Pode deixar, você tam bém . Qualquer dia desses, m e ligue. — Essas eram palavras de pessoas que não têm nada para conversar, m as tinham um pedaço de história em com um .

Eles entraram no elevador, e Faith acenou enquanto as portas se fechavam e virou-se para Brad com lágrim as nos olhos.

— Estou tão cansada de perder pessoas... de dizer adeus... e de as pessoas saírem da m inha vida e não voltarem m ais. — Ele assentiu e pegou a m ão dela na sua quando o elevador chegou, e eles entraram e desceram em silêncio.

— Está com pressa de ir para casa? — perguntou ele enquanto cruzavam o saguão até as portas para Park Avenue.

— Não m uita. Vam os sair à noite, m as não antes das oito. Tenho tem po.

— Gostaria de tom ar um drinque em algum lugar? — perguntou ele, apesar de terem passado a tarde toda com endo e bebendo no salão.

— Que tal andar com igo até em casa? — Eram 24 quadras, um a boa cam inhada, e ela queria um pouco de ar. Brad gostou da idéia e eles passaram pela porta giratória e foram na direção norte da Park Avenue de braços dados.

Ficaram em silêncio por um tem po, e então am bos falaram ao m esm o tem po.

— O que você vai fazer agora, Fred?

— Em que você vai trabalhar quando voltar?

Eles riram e ele respondeu prim eiro.

— Estou tentando inocentar um garoto que acidentalm ente atirou no m elhor am igo. É possível que não tenha sido tão acidental quanto parece. Os dois estavam apaixonados pela m esm a m enina. Ele tem 16 anos e foi acusado de tentativa de assassinato em prim eiro grau. É um caso difícil, e ele é um bom garoto. — Isso era rotina para ele.

— Páreo duro para m im — brincou ela enquanto cam inhavam em um passo agradável lado a lado, apesar das pernas com pridas dele. Ele estava se lem brando de adequar seus passos aos dela. Fizeram m uitas cam inhadas j untos nos velhos tem pos. — Na verdade, não tenho nada para fazer.

— Tem sim — opôs-se ele tranquilam ente, e ela pareceu surpresa. — Você vai procurar a Colum bia, a Universidade de Nova York e qualquer outra faculdade que lhe agrade e pegar os form ulários de m atrícula das faculdades de Direito. Terá de descobrir as provas que terá de prestar. Tem m uito o que fazer.

— Você j á resolveu tudo por m im , não é? — Faith parecia divertida, m as tinha de adm itir que gostava da idéia, assim com o ele.

— Vou ligar para você na sem ana que vem para saber dos progressos. E se deixar a peteca cair, vou brigar com você. Está na hora de se m exer, Fred. — Ele voltara para a vida dela com o um irm ão m ais velho substituto. Com o nos velhos tem pos. Ela não discordava do que ele estava falando, m as ainda não sabia com o convencer Alex, ou se conseguiria. E tam bém não sabia se era coraj osa o suficiente para enfrentá-lo. Isso não parecia um a boa idéia, e enfrentá-lo sem pre a assustava. Algum as lem branças rem anescentes das censuras e traições de seu pai sem pre a deixavam hesitante a respeito de fazer frente aos hom ens. Lá no fundo, bem escondido, ela suspeitava que estava com m edo.

Os únicos hom ens dos quais nunca tivera m edo eram Jack e, claro, Brad.

— A propósito, você tem e-m ail? — Ele perguntou de form a prática enquanto atravessavam a 65th Street. Estava escurecendo, e a Park Avenue tinha um a luz alegre, enquanto as pessoas voltavam dos seus trabalhos para casa.

— Tenho. Acabei de com prar um laptop para poder trocar e-m ails com Zoe. Estou ficando boa.

— Qual é o endereço?

— FaithMom @aol.com

— Devia m udar para Fred — brincou ele, sorrindo para ela.

— Escreverei para você quando chegar em San Francisco.

— Eu adoraria, Brad — respondeu ela. Seria bom m anter o contato com ele desta vez. A vida dele era m uito m ais cheia do que a dela. — Obrigada por ter estado lá hoj e. Você facilitou m uito as coisas para m im .

— Tive alguns m om entos bons com Charles m uito tem po atrás. Acho que devia isso a ele. — Ela ainda tinha dificuldade em pensar em Charles nesse contexto, m as com certeza ele tivera m uito m ais interesse em Jack e Brad do que nela ou em Allison.

— E eu queria ver você. — A voz dele ficou m ais suave enquanto cam inhavam , estavam na m etade do cam inho para a casa dela.

— Com o você está se virando sem ele? — Am bos sabiam a quem ele se referia, estava falando do irm ão dela.

— Em alguns m om entos não tão bem — confidenciou, olhando para a calçada ao andar e pensando em Jack. Ele fora um a pessoa tão extraordinária. Nunca houve alguém com o ele, e nunca haveria na vida dela. — Em outros, um pouco m elhor. É estranho, às vezes fico bem durante m eses, e então, de repente, tudo volta. Pode ser que sej a assim para sem pre. — Ela passara m uito tem po sozinha, lutando com sua tristeza, desde que ele m orreu. Isso fora outra coisa que a isolara de suas am igas. A tristeza era um sentim ento solitário. E costum ava ir à igrej a sozinha para rezar por ele.

Era reconfortante. Tentara falar com Alex sobre quanto sentia saudades do irm ão, m as isso o deixou desconfortável, e era em baraçoso conversar com ele sobre isso. Ele não gostava de escutar. Fora ver um m édium um a vez, que fizera "contato" com Jack, e Alex tivera um ataque quando ela lhe contou, e proibiu-a de fazer isso de novo ou tocar no assunto com ele. Disse que era um a coisa doentia para se fazer, e que o m édium se aproveitara dela. Mas, na verdade, Faith gostara. Voltara m ais duas vezes e não contou a Alex.

E conform e cam inhavam , contou a Brad. Ele tam bém não ficou convencido da veracidade do fato, m as não viu nenhum m al se isso a fazia sentir-se m elhor. Para ele, não parecia ter nada errado com isso.

— Sinto falta dele tam bém , Fred — solidarizou-se ele. Brad era um a pessoa gentil. — É tão estranho pensar que ele se foi. Ainda não consigo acreditar. Às vezes m e pego indo para o telefone ligar para ele quando algo engraçado acontece, ou quando estou triste ou aborrecido com algum a coisa, ou quando preciso de um conselho... aí eu lem bro. Não parece possível. Com o alguém com o Jack sim plesm ente desaparece? Ele era o tipo de pessoa que deveria viver para sem pre. Teve algum a notícia da Debbie? — Por escolha própria, ela tam bém desaparecera. Não m antivera contato nenhum com a fam ília de Jack. Faith nem sabia onde ela estava agora, a não ser que nos arredores de Palm Beach.

Pelo m enos foi para onde ela fora quando partiu, e então desaparecera.

— Não tenho notícias dela — respondeu Faith. — Não sei se algum dia terei. Acho que ela sabe que eu nunca gostei dela, apesar de ter tentado por Jack. Ela realm ente o tratava m al. — Ela am eaçava deixá-lo com frequência, separava-se dele repetidas vezes, e nunca valorizava a pessoa m aravilhosa que ele era. Isso sem pre aborrecia Faith, em bora Jack tenha defendido Debbie com firm eza ao longo de todos os anos que foram casados. — Sem pre achei o relacionam ento deles doentio. Não sei por que ele aguentava isso. Ela m al trocou duas palavras com igo no funeral dele, deixou a cidade duas sem anas depois sem nem se despedir, e o advogado de Jack m e contou que ela casou de novo. Usou o dinheiro do seguro para com prar um a casa e depois casou. Acho que Jack passou m aus pedaços com ela.

— Sem pre achei isso tam bém . Acho que foi m uito ruim eles não terem tido filhos.

— De qualquer form a, ela provavelm ente não m e deixaria vê-los — ponderou Faith de form a triste, depois olhou para Brad de novo. Era tão bom conversar com ele a respeito de Jack, da vida, dos velhos tem pos. — Você vai m e m andar e-m ail m esm o? — perguntou ela, parecendo j ovem de novo, e ele queria pedir para ela soltar o cabelo para que parecesse a Fred que ele sem pre am ara. Ela era a irm ãzinha que ele nunca teve, sem pre fora. E em alguns aspectos, para ele, ainda parecia um a m enina, e ele sentia-se protetor dela.

— Já disse que vou. — Ele passou os braços em volta dela e abraçou-a forte enquanto andavam . Ela estava quase em casa.

— Não vai sum ir de novo? Sinto sua falta quando não tenho notícias. Não sobrou m ais ninguém da m inha infância, só você.

— Vou dar notícias, Fred. Prom eto. Mas quero que se inform e sobre as faculdades. O m undo precisa de m ais advogados com o você. — Am bos riram disso. E poucos m inutos depois, estavam parados do lado de fora da casa dela. Parecia elegante e respeitável, com adornos pretos recém -pintados por cim a dos tij olos e um a cerca viva recortada e estreita na frente.

— Obrigada por vir hoj e, Brad. É estranho dizer, m as acabou sendo um bom dia. É engraçado falar isso de um funeral. — Mas significara m uito para ela passar esse tem po com ele. Há m uito tem po não se sentia tão feliz. Sentia-se à vontade e em paz, e segura, e am ada, quase com o quando era um a m enina, quando estava reunida com ele e com Jack. Eles eram a única coisa que am ara em sua infância.

— Acho que Charles teria aproveitado se estivesse lá. Estou feliz por ter ido. Já fazia m uito tem po que eu e você não conversávam os. Cuide-se, m e preocupo com você. — Ele lhe deu um olhar apreensivo, e ela lhe devolveu um sorriso coraj oso.

— Ficarei bem . Tenha um a boa viagem de volta à Califórnia, e não trabalhe dem ais.

— É o que m ais gosto de fazer — adm itiu ele. A não ser pelos filhos, era a única coisa que realm ente tinha valor em sua vida. Não tinha m uito em com um com Pam , e não tinha m ais certeza se algum dia tivera.

Brad deu um forte abraço em Faith e acenou para um táxi, e ela observou-o entrar e se afastar. Ele abaixou o vidro um pouco antes de virar a esquina, e acenou pela últim a vez.

Faith não estava totalm ente certa de que receberia notícias dele de novo. Ele desaparecera de sua vida diversas vezes. Depois da faculdade de Direito, depois do funeral de Jack. Mas pelo m enos com partilharam este dia encantador. E, de um a form a estranha, fora com o ter um encontro não só com ele, m as com Jack. Ainda estava sorrindo quando virou a chave e entrou em casa.

Escutou Alex andando no andar de cim a. Pendurou seu casaco e subiu devagar, pensando em Brad.

— Com o foi? — perguntou Alex enquanto ela entrava no quarto, e ela olhou para ele com um sorriso.

— Bem . Tudo correu bem . Allison alugou um a sala no Waldorf, e m uitas pessoas com pareceram . Vários am igos dele... am igas da m am ãe. E Brad Patterson, não o via desde... há m uito tem po.

— Quem é ele? — Alex parecia distraído. A televisão estava ligada e ele estava assistindo ao j ornal. Ele estava de cueca e m eias, abotoando um a cam isa branca recentem ente engom ada. Enquanto conversava com ela, ele fazia o nó na gravata.

— É um am igo de Jack. O m elhor am igo, na verdade. Nós crescem os j untos. Você o conheceu no funeral de Jack. Ele m ora em San Francisco. Provavelm ente, você não se lem bra dele. — Tinham m uitas pessoas lá, e Alex nunca prestou m uita atenção a detalhes com o esse, ou a pessoas que não tinham nenhum a utilidade para ele. Brad se encaixaria nessa categoria.

— Não lem bro. Você fica pronta a tem po? — Ele parecia preocupado. Era um a noite im portante. Um j antar oferecido por um sócio sênior da firm a para um cliente novo que acabara de assinar o contrato. E ele não queria se atrasar.

Mas Faith raram ente se atrasava.

— Estarei pronta em m eia hora. Vou tom ar um banho rápido e arrum ar m eu cabelo. Com o foi em Chicago?

— Cansativo. Mas necessário. Correu tudo bem . — Ele não perguntou nada sobre o funeral, m as ela não se surpreendeu.

No m om ento em que ele decidiu que não iria, varreu isso da cabeça.

Ela foi para o banheiro então, e, com o prom etido, saiu de lá m eia hora depois, usando um vestido de seda preto e um colar de pérolas, a m aquiagem pronta e o cabelo solto. Ela parecia m ais um a de suas filhas do que a esposa dele. Am bas tinham o cabelo louro de Faith. Alex olhou para ela avaliando-a e assentiu, e não disse nada. Seria bom escutá-lo dizendo que ela estava bonita, m as ele não fazia isso havia m uito tem po.

Eles saíram de casa cinco m inutos depois e pegaram um táxi.

O j antar era dez quarteirões abaixo na Park Avenue, e Alex não disse nada a Faith no percurso. Ela nem percebeu. Seus pensam entos estavam a quilôm etros de distância. Estava pensando em Brad. Fora tão bom conversar com ele a tarde toda. Não confiava em ninguém dessa form a há m uito tem po. Não desde a últim a vez que conversara com ele, quando Jack m orreu. Isso fez com que sentisse que de repente alguém estava interessado em sua vida, nas suas preocupações, seus m edos, as coisas que im portavam para ela. Encontrara nele a fam ília que tanto desej ava e perdera nos últim os anos. Isso fez com que se lem brasse de algo que às vezes esquecia nesses dias: que alguém se im portava com ela e que era am ada.