Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
Introdução
Segundo Aikenhead (2005a), a perspectiva Ciência, Tecnologia e
Sociedade (CTS) no ensino de Ciências surgiu na década de 1970
como um movimento de renovação curricular, abordando discussões
sobre os objetivos da formação científica e tecnológica nas escolas,
os processos de ensino e aprendizagem de Ciências, a formação
dos professores 1 e a elaboração de políticas públicas educacionais.
O surgimento da perspectiva CTS esteve relacionado com as
reivindicações de movimentos sociais mais amplos, tais como o
movimento da contracultura, o movimento pugwash e o movimento
ambientalista, que em linhas gerais representavam uma resposta
crítica e um certo modo de enfrentamento diante da ordem vigente
da época, caracterizada por conflitos bélicos e processos de
dominação e controle cultural.
O trabalho de Carson (1969) embasou várias das críticas realizadas
pelos ambientalistas, e o trabalho de Kuhn (2001) contribuiu para
questionar a aparente neutralidade do conhecimento científico,
salientando os fatores sociais como relevantes para a evolução da
ciência.
Foi precisamente no cenário de tensão social das décadas de 1950,
1960 e 1970 e de discussões acadêmicas sobre a natureza da
ciência que o movimento CTS foi se constituindo no ensino, levando
em consideração os problemas socioambientais alertados pelos
movimentos ambientalistas e sociais, bem como os trabalhos
acadêmicos da Filosofia e da Sociologia da Ciência que são
inerentes ao ensino CTS.
A educação não tem sido indiferente às correntes de ativismo
social e da pesquisa acadêmica, que desde finais de 1960 tem
reivindicado uma nova forma de entender a ciência-tecnologia e
uma renegociação de suas relações com a sociedade. Tudo
isso produziu na década de 1970 a aparição de numerosas
propostas para o desenvolvimento mais crítico e
contextualizado do ensino das Ciências e dos temas
relacionados com a ciência e a tecnologia, tanto no ensino
médio quanto no ensino superior. (López, 1998, p.47, tradução
nossa)
As influências do movimento CTS reclamavam um ensino
humanístico de Ciências, em oposição ao ensino elitista e
tecnocrático, tendo a pretensão de superar o status quo da
educação em ciências e tecnologia, caracterizado pelo ensino
conteudista e compartimentalizado das disciplinas científicas
(Química, Física e Biologia). O trabalho de Hurd (1975)
representava um esforço importante para problematizar a
abordagem disciplinar do ensino de Ciências para a década de
1970. No entanto, só a partir das décadas de 1980 e 1990
evidenciar-se-ia uma constituição importante do ensino de Ciências
com enfoque CTS, como orientação pedagógico-didática para a
reestruturação dos currículos de Ciências.
Podemos dizer que o trabalho de Ziman (1980) foi o primeiro a
oferecer uma base teórica para discutir as possibilidades de
desenvolver uma renovação do ensino de Ciências com enfoque
CTS. De fato, o primeiro problema enfrentado por ele foi a análise
da diversidade de abordagens interessadas na contextualização
social da ciência. Na época, sob os rótulos de “estudos sociais da
ciência”, “ciência e sociedade”, “responsabilidade social da ciência”,
“estudos políticos da ciência”, “ciência em contexto social”, “História,
Filosofia e Sociologia da Ciência”, entre outros, agrupavam-se um
amplo espectro de abordagens relacionadas com determinadas
intencionalidades.
Apesar da diversidade de denominações, Ziman (ibidem) conseguiu
caracterizar sete abordagens do ensino de Ciências com enfoque
CTS: relevante, vocacional, interdisciplinar, histórica, filosófica,
sociológica e problemática, as quais são descritas sucintamente no
Quadro 1.
Quadro 1 – Abordagens do ensino de Ciências com enfoque CTS
Abordagens Características centrais das
CTS no abordagens
ensino de
Ciências
Relevante Foca em abordar aplicações científicas
e tecnológicas na sociedade com o
objetivo de aumentar o interesse dos
estudantes sobre a ciência e dessa
forma favorecer melhores
aprendizados.
Vocacional Tem o objetivo de tornar os estudantes
futuros profissionais das ciências, das
tecnologias ou das engenharias.
Interdisciplinar Busca o estabelecimento de relações
entre diferentes disciplinas científicas
no intuito de favorecer uma
compreensão social da ciência.
Histórica Aborda aspectos históricos das
ciências para entender a evolução e as
transformações sociais do progresso
científico.
Filosófica Aborda a reflexão sobre os critérios de
demarcação do conhecimento
científico e a compreensão da natureza
da ciência.
Sociológica Foca em analisar a construção social
da ciência em termos de implicações
políticas e econômicas.
Problemática Aborda questões controversas de
ciências na sociedade conforme
aspectos internos e externos do
progresso científico.
Fonte: Martínez (2010). Quadro adaptado a partir de Ziman (1980).
A abordagem mais relevante é sobre o entendimento da ciência e
suas aplicações na sociedade, sendo bastante comum essa
abordagem pelos professores de Ciências, por exemplo, quando
ressaltam a importância da Química para a produção de
combustíveis ou da Biologia para a preservação do ambiente. Essa
abordagem pode fazer com que os estudantes se interessem pela
ciência, transcendendo o ensino convencional de conteúdos
científicos descontextualizados socialmente.
Apesar de salientar as aplicações práticas da ciência, essa
abordagem não necessariamente articula questões tecnológicas
com suas correspondentes implicações econômicas e políticas.
Nesse sentido, o enfoque CTS não pode restringir-se aos limites
praticamente inexistentes entre ciência “pura” e tecnologia, sem
penetrar no ambiente social da ciência e da tecnologia, sob o risco
de permanecer no nível instrumental de suas aplicações, mostrando
apenas o que a ciência faz ou está fazendo, sem se perguntar o que
ela deveria ou poderia fazer.
Esse tipo de abordagem pode ser favorável à racionalidade
tecnocrática, pois a atenção está voltada aos especialistas ou
técnicos envolvidos em inovações tecnocientíficas, deixando para
trás as preocupações relacionadas a valores e implicações políticas.
A abordagem vocacional também é bastante influente no currículo
escolar de Ciências, dado seu interesse em tornar os estudantes
futuros profissionais das ciências, das tecnologias ou das
engenharias. Assim, a ênfase social está orientada para os aspectos
laborais da profissão, o que já representa um avanço, pois nos
currículos tradicionais de preparação profissional esses aspectos
são praticamente inexistentes e estão reduzidos a uma preparação
restrita para as disciplinas.
Aproximar os estudantes de seus prováveis espaços de
desenvolvimento profissional é algo interessante para eles. No
entanto, essa aproximação geralmente é realizada de acordo com a
visão de cientistas sociais, engenheiros ou outros profissionais
leigos em questões educacionais, de tal forma que o mais provável
é o favorecimento de determinados interesses de indústrias ou
empresas que constituem o cenário profissional.
A abordagem vocacional, apesar de colocar implicações morais
relacionadas a valores e responsabilidades profissionais,
permanece limitada ao treinamento profissional, contribuindo para a
configuração de papéis sociais estereotipados, de modo que os
futuros profissionais outorgam pouca importância às consequências
sociais de seus trabalhos, pois eles simplesmente seriam
contratados para exercer sua profissão, reduzindo a educação
profissional a uma doutrinação da ideologia do individualismo.
A abordagem interdisciplinar, na verdade, reúne uma velha
preocupação pela fragmentação do conhecimento em disciplinas.
Como salientou Ziman (1980, p.115), essa preocupação sempre foi
“alvo da reforma”. O próprio ensino de Ciências tem sido construído
nos “interstícios” do estabelecimento das disciplinas acadêmicas.
O princípio de interdisciplinaridade no ensino de Ciências com
enfoque CTS resulta em um importante componente para evitar o
reducionismo técnico das disciplinas, pois os problemas de ordem
científica e tecnológica estão relacionados a várias dimensões
sociais. Contudo, a interdisciplinaridade tem o problema de se
remeter sempre às disciplinas, sejam experimentais ou sociais,
constituindo, na maioria dos casos, uma trava para superar a
dimensão transdisciplinar mais rica para entender a ciência em
contexto social. Cabe lembrar que a abordagem interdisciplinar pode
ser reduzida a juntar conhecimentos específicos de várias
disciplinas, contribuindo para a indesejável fragmentação do
conhecimento.
A abordagem histórica, filosófica e sociológica do ensino de
Ciências com enfoque CTS busca o estudo da ciência como um fenômeno histórico, como um corpo de conhecimentos organizado e
como uma atividade social ou institucional. Hoje sabemos que a
abordagem histórica é inquestionável no ensino de Ciência com
enfoque CTS, mas não é imune às dificuldades, especialmente na
prática do ensino de Ciências com enfoque CTS, pois suas teorias,
na maioria dos casos, são de difícil contextualização no currículo
escolar, o que é agravado pelo seu afastamento dos problemas
educacionais. Conforme Ziman (ibidem, p.122, tradução nossa), “os
guardiões acadêmicos da história da ciência nem sempre ajudam a
tornar suas disciplinas familiares e populares”, de modo que os
objetivos de CTS não podem ser tomados automaticamente com os
mesmos objetivos da história das ciências. Na verdade, a ciência
também pode ter diferentes histórias individualistas, tecnocráticas,
filosóficas, sociológicas ou ideológicas.
A abordagem filosófica contribui para questionar tanto a concepção
cientificista da ciência, que a mostra como verdadeira e sem
problemas, como a visão anticientífica, que a considera totalmente
questionável. Esse dilema pode ser tratado com o estudo sério das
características do conhecimento científico, o status das diferentes
áreas da ciência e o papel da observação e da experimentação.
A abordagem sociológica é praticamente uma resposta à falta de
reflexão da Filosofia sobre os aspectos coletivos e suas implicações
sociais, por estar focada até certo ponto na dimensão cognitiva e
subjetiva do conhecimento.
Segundo Ziman, entre as abordagens identificadas por ele, a que
mais traz possibilidades para o processo de renovação do ensino de
Ciências é a problemática, de modo que o currículo preste atenção
aos grandes problemas sociais e às condições de injustiça. Assim
as influências da CTS ganham uma importante sensibilidade para a
contextualização pedagógica das disciplinas acadêmicas (Filosofia,
História e Sociologia da Ciência).
Ao trabalhar uma questão problemática é possível mostrar o papel
social da ciência tanto em seus aspectos internos quanto externos.
A abordagem problemática CTS adquire uma força considerável, orientada para a responsabilidade social de cientistas, tecnólogos e
cidadãos.
Já no começo da década de 1980, a abordagem problemática do
ensino de Ciências com enfoque CTS oferecia importantes
possibilidades para trabalhar questões reais do mundo
contemporâneo, que apresentavam implicações sociais, científicas,
tecnológicas e ambientais. Assim, problematizar implicava um
questionamento profundo das causas dos grandes problemas
associados à destruição da natureza, à contaminação, às doenças,
à guerra e à pobreza.
Os primeiros esforços mais expressivos de renovação do currículo
escolar de Ciências sob a orientação CTS nasceram na Inglaterra,
nos Estados Unidos, no Canadá e na Holanda. Nesses países, o
CTS foi abordado de forma diferente. No entanto, identificamos, por
um lado, uma tendência às propostas curriculares mais localizadas
em associações de professores de Ciências e pesquisadores do
ensino de Ciências e, por outro lado, uma tendência às propostas
realizadas por profissionais com titulação em Ciências em parceria
com associações para o avanço da ciência.
Na primeira tendência realçamos o projeto Science in a Social
Context (Siscon), da Inglaterra (Solomon, 1983), o projeto Science
and Culture, o projeto Synthesis e o projeto Science Through STS,
dos Estados Unidos (Yager; Casteel, 1968; Roy, 1984), o projeto
Science: a Way of Knowing, do Canadá (Aikenhead; Fleming, 1975),
e o projeto Dutch Physics Curriculum Development Project (Plon),
da Holanda (Eijkelhof; Kortland, 1988).
Na segunda tendência destacamos o projeto Science & Techonology
in Society (Satis), da Inglaterra (Obach, 1995), e o projeto
Chemestry and the Community (Chemcom), dos Estados Unidos
(American Chemical Society, 1993).
De acordo com a proposta de Ziman (1980), identificamos na
primeira tendência uma predominância da abordagem
interdisciplinar, histórica, filosófica, sociológica e problemática das relações CTS, em um esforço importante para problematizar a
concepção rígida das ciências da natureza desvinculada da
realidade social e fechada ao debate público sobre suas
contradições e implicações. Desse modo, as críticas à visão
cientificista dos questionamentos com respeito ao ensino de
Ciências convencional são permanentes. Entretanto, na segunda
tendência predomina a abordagem relevante e vocacional das
relações CTS, focando na elaboração de materiais de ensino que
destacam as aplicações sociais da ciência e da tecnologia, com
ênfase em sua importância e no treinamento de futuros profissionais
e consumidores.
Na Inglaterra, as propostas de renovação curricular CTS
começaram a estruturar-se a partir de 1976 (Solomon, 1995),
quando foi fundada pelo doutor Bill Williams, da Leeds University, a
associação de professores de Ciências de universidades e escolas
técnicas, denominada Siscon. Os professores organizados na
associação se preocuparam com a elaboração de materiais para o
ensino de Ciências que contribuíssem com o ensino da natureza da
ciência e com seu impacto social.
O trabalho desenvolvido pelos professores organizados na Siscon
resgatava os estudos da História Social da Ciência do físico irlandês
John Desmond Bernal (1901-1971), que reconhecia que as ciências
da natureza poderiam contribuir para a liberdade humana. Da
mesma forma, resgatava tanto a discussão realizada por Snow em
1959 sobre a separação entre cultura científica e cultura
humanística, como os trabalhos de Filosofia e Sociologia da Ciência
promovidos por Kuhn (2001) como embasamento teórico para a
renovação do currículo de Ciências.
A mudança do ensino de Ciências na Inglaterra também foi
motivada pelos problemas apontados pelo relatório The limits to
growth (Os limites do crescimento), no qual se alertava sobre o
crescimento exponencial e incontrolado do uso de combustíveis, o
esgotamento dos recursos energéticos fósseis, o acelerado crescimento populacional e a limitada produção de alimentos
(Solomon, 1996).
De acordo com Solomon (ibidem), a Siscon não podia ser limitada
ao ensino superior nem ser reduzida a uma lógica tecnocrática de
produção de materiais educativos. Por isso, alguns dos professores
de escola participantes dos seminários oferecidos pela associação
decidiram criar a Siscon-in-Schools (Siscon nas Escolas), com o
objetivo de preparar cidadãos com capacidade de escolha para a
participação nas discussões públicas relacionadas com a ciência e a
tecnologia. Assim, foram elaborados materiais de ensino seguindo
um projeto de pesquisa-ação liderado por um grupo de professores
da London School. No total foram constituídas oito unidades
didáticas2 que, depois de cinco revisões articuladas a seu
desenvolvimento em sala de aula, foram publicadas em 1983, pela
Association for Science Education (Associação para o Ensino de
Ciências).
Apesar das importantes contribuições da Siscon nas escolas, sua
perspectiva de pesquisa articulada à reflexão da prática dos
professores foi até certo ponto ignorada na elaboração de outros
materiais CTS escritos por membros do projeto Satis, dado que, no
processo de aplicação e avaliação dos materiais nas escolas, os
professores foram treinados por profissionais sem formação em
Educação e ligados a indústrias e a outras áreas do conhecimento
científico. Solomon (1996) descreve como esses materiais foram
bem recebidos pelos professores por serem user friendly (usuários
amigáveis), sendo popularizados no ensino fundamental e no ensino
médio, de modo que muitas apostilas foram publicadas para
aplicação em sala de aula, embora os trabalhos de reflexão teórica
e de pesquisa fossem praticamente inexistentes, e permanecessem,
até certo ponto, solitários os relevantes trabalhos de Ziman (1980).
O projeto Satis focou na produção de materiais CTS para a
Inglaterra e posteriormente se expandiu pela Europa com o projeto
Science across Europe (Ciência através da Europa), que assumia
características semelhantes ao Satis. De fato, os dados dos próprios defensores do projeto Satis apontam que, entre os anos de 1986 e
1995, foram consolidadas trezentas apostilas ou unidades didáticas
orientadas para estudantes com idades entre 8 e 19 anos (Obach,
1995).
O projeto Science across Europe, desenvolvido em parceria entre a
Association for Science Education (ASE) e a British Petroleum (BP),
continuou basicamente com a mesma estratégia do Satis, que é a
elaboração de unidades didáticas e a aplicação e avaliação destas.
De acordo com Parejo (1995), o projeto publicava as unidades
didáticas sobre temas científicos e fornecia uma base de dados às
escolas participantes do projeto. Para participar do projeto os
professores interessados deveriam comprar as unidades. O projeto
se expandiu com rapidez pela Europa, contando com a participação
de escolas na Áustria, na Bélgica, na Dinamarca, na Inglaterra, na
França, na Alemanha, na Grécia, na Hungria, na Itália, em
Luxemburgo, em Malta, na Irlanda do Norte, nos Países Baixos, na
Noruega, na Polônia, em Portugal, na Escócia, na Eslovênia, na
Suécia, na Suíça, na Turquia e na Espanha. Aliás, a partir desses
países o projeto continuou se expandindo, com a elaboração de
outras unidades didáticas e com a aparição do projeto Science
across Asia Pacific (Ciência através de Ásia do Pacífico).
Ao analisar criticamente o desenvolvimento dos projetos Satis,
Science across Europe, Science across Asia Pacific e Chemcom,
todos eles relacionados com uma abordagem vocacional e
relevante, percebemos que, embora estivessem inspirados em
ideias do movimento CTS, eles terminavam instrumentalizando-as,
focalizando na aplicação de materiais na sala de aula que não eram
propriamente elaborados pelos professores. Preparar os
professores para renovar seu ensino a partir do uso de materiais
previamente elaborados não era uma opção pertinente para atingir
processos formativos de professores de Ciências que levassem em
consideração a constituição de sua autonomia. Os professores
teriam que lidar com os desafios trazidos pelo ensino de Ciências
com enfoque CTS, de modo que a preocupação com a formação teria que ir além dos projetos focados na elaboração de materiais
didáticos.
O problema em si não era a elaboração de materiais didáticos CTS,
pois, como tinha mostrado o projeto Siscon, isso poderia ser
importante para a formação dos professores sempre que fossem
vinculados a um amplo projeto de pesquisa-ação. No entanto, isso
era totalmente diferente e contrário ao desenvolvimento de uma
indústria de materiais elaborados por especialistas, o que afiançava
a lógica tecnocrática, esvaziando o conteúdo crítico do movimento
CTS.
Na década de 1990, o movimento CTS, com enfoque contrário à
instrumentalização, caracterizou-se como uma alternativa de
renovação curricular para o ensino de Ciências em vários países, de
modo que os currículos de Ciências, os projetos escolares e as
pesquisas didáticas acolhiam suas orientações teórico-
metodológicas (Membiela, 1995; 1997; 2005; Aikenhead, 2005a).
Nessa mesma década, as interações CTS, além de serem um
movimento de renovação, também emergiram como linha de
pesquisa do ensino de Ciências.
Cachapuz et al. (2008), a partir da análise de artigos publicados em
revistas internacionais de ensino de Ciências ao longo de uma
década (1993-2002), evidencia a emergência das interações CTS
como linha de pesquisa no início da década de 1990 e identifica um
importante crescimento das pesquisas nessa linha em relação a
outras linhas de pesquisa.
O autor salienta a evolução histórica da linha CTS ao longo da
década considerada em seu estudo e evidencia que as pesquisas
desenvolvidas nessa linha estão referidas tanto à dimensão cultural
da ciência, como à compreensão pública da ciência. Também é
destacada no estudo a necessidade de aumentar o letramento
científico dos estudantes e da população em geral, com o intuito de
que o ensino de Ciências ajude os cidadãos a compreenderem o
mundo em que vivem, para que eles tenham a capacidade de construir pontos de vista próprios que favoreçam uma ativa
participação social.
Na América Latina a preocupação com abordagens CTS no ensino
de Ciências emergiu na década de 1990 e foi fortemente
influenciada pelos trabalhos da Espanha e de Portugal. No entanto,
é importante precisar que os estudos CTS como campo de trabalho
em humanidades e Ciências Sociais (Ibarra; López, 2001) possuem
uma história mais antiga no contexto latino-americano, registrando
sua aparição no final da década de 1960. Segundo Vaccarezza
(1998), a origem dos estudos CTS na América Latina teve como
foco a análise de políticas públicas em Ciência e Tecnologia,
destacando-se os trabalhos de Jorge Sabato, Amilcar Herrera,
César Varsavsky, Miguel Wionseck, Máximo Halty, Francisco
Sagasti, Osvaldo Sunkel, Marcel Roche e José Leite Lopes. Vários
deles eram pesquisadores das ciências da natureza interessados
em questões sociais e ideológicas a partir da reflexão de sua própria
experiência. No grupo havia também economistas que focalizaram o
pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e o
Caribe (Cepal).
A Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) realizou um
papel destacável na divulgação de trabalhos CTS por meio da sala
de leitura CTS+i (Ciência, Tecnologia e Sociedade mais a Inovação),
a edição de uma revista específica sobre CTS e a realização de
cursos de professores sobre CTS.
Um dos primeiros trabalhos CTS no ensino de Ciências de autoria
latino-americana foi publicado por Garritz (1994). Esse trabalho
apresenta uma síntese do desenvolvimento da perspectiva CTS de
1984 a 1994, oferecendo um panorama geral dos pressupostos
teóricos de CTS e de seus correspondentes projetos de renovação
do currículo de Ciências.
Em 1998, a OEI também dedicou um número especial da Revista
Ibero-americana em Educação (n.18) para discutir questões
relacionadas com CTS no contexto ibero-americano. No entanto, dos oito artigos publicados nesse número, somente dois eram de
autores da América do Sul.
A perspectiva CTS na América Latina foi influenciada pelo contexto
sociopolítico da região, caracterizado pelas diferenças sociais que
limitavam o acesso de grande parte da população aos bens
materiais e culturais. Em determinadas situações, a miséria se
traduzia em um tipo de exclusão da modernidade, pois muitos
cidadãos não tinham acesso aos benefícios trazidos pela ciência e
pela tecnologia (Sutz, 1998).
Outra característica do contexto latino-americano salientada por
Sutz (ibidem) corresponde à percepção de desconfiança em relação
ao “desenvolvimento” científico e tecnológico, já que as inovações
ou mesmo a ciência e a tecnologia eram trazidas de fora,
considerando-se que nossa região não se destacava pela produção
de conhecimento científico como os países europeus e norte-
americanos.
As características de nosso contexto latino-americano têm motivado
a emergência do ensino de Ciências com enfoque CTS de cunho
crítico; poderíamos também caracterizá-lo como uma abordagem
mais problemática, nos termos colocados por Ziman (1980). Um
número considerável de trabalhos de autores latinos tem em comum
a preocupação com a formação crítica de cidadãos, com o objetivo
de contribuir para seu encorajamento na discussão pública sobre as
implicações sociais, políticas e ambientais da ciência e da tecnologi
(Amorin, 1996; Auler; Bazzo, 2001; Santos; Mortimer, 2001; 2002;
Osorio, 2002; Santos; Schnetzler, 2003; Martínez; Rojas, 2006;
Mion; Alves; Carvalho, 2009).
Nesse contexto, no mundo inteiro há uma emergência de se
constituir um ensino de Ciências com enfoque CTS como área de
pesquisa. Nesse sentido, diferentes trabalhos defendem a
importância da formação crítica de todos os cidadãos em questões
de ciência e tecnologia no contexto do compromisso e da
responsabilidade individual e social. Importantes precursores dessa
área (Solomon, 1993; Aikenhead, 1994) argumentaram a necessária compreensão da ciência e da tecnologia como um empreendimento
social e complexo, que exige a formação de sujeitos comprometidos
com o exercício da cidadania na medida em que agem criticamente.
De acordo com Pedretti et al. (2008), até aproximadamente o final
da década de 1990, as pesquisas preocupadas com a
contextualização social do ensino de Ciências adotavam a sigla
CTS. No entanto, nos últimos anos, vários autores têm adicionado a
dimensão ambiental (A) às relações CTS, o que oferece uma
denominação mais ampla. Por isso, neste livro adotaremos a
denominação CTSA para nos referirmos à abordagem
contemporânea de CTS orientada ao aprofundamento da
compreensão dos problemas socioambientais de ordem global e
local e que são entrelaçados aos desafios adjacente à crise
ambiental.
Segundo a denominação CTSA, destacamos os trabalhos de
Pedrett (2003), Solbes e Vilches (2004), Edwards et al. (2004),
Martínez e Rojas (2006), Martínez, Peña e Villamil (2007), Bernardo,
Vianna e Fontoura (2007) e Mion, Alves e Carvalho (2009).
Aikenhead (2005a) já reconhecia a relevância outorgada à
dimensão ambiental em alguns trabalhos de pesquisa CTS e
destacava a apropriação dessa dimensão no Canadá e em Israel.
Em Israel, Toller (1991) realizou uma pesquisa com professores de
Ciências em formação inicial e em serviço, com o objetivo de
analisar diferentes estilos de ensino e aprendizagem dos
professores ao lidar com problemas abertos relacionados com
CTSA. O estudo foi desenvolvido em dois cursos de graduação e
em um curso de treinamento profissional oferecidos para
professores de Ciências em serviço, apontando contribuições e
dificuldades deles ao trabalharem com problemas abertos.
Precisamente no contexto das pesquisas CTSA no ensino de
Ciências, interessa-nos estudar a questão da formação de
professores, pois estes têm uma grande responsabilidade em
orientar a educação científica e tecnológica dos cidadãos nos diferentes níveis e modalidades do ensino. Por tal razão, investir na
formação de professores é de vital importância para a
transformação de nossas sociedades.
Solomon (1998, p.137) afirmava, com razão, que “os professores
constituem o patrimônio cultural mais importante na educação de
um país”, mas esse patrimônio não se deve somente ao domínio
dos conteúdos específicos ou pedagógicos, mas do reconhecimento
de seu trabalho pela sociedade e por eles mesmos. Por essa razão,
no momento em que uma sociedade não valora ou não reflete sobre
o significado e sobre a importância da formação, podemos dizer que
essa sociedade está imersa em uma crise que leva à perda de
sentido sobre sua própria existência.
Na literatura sobre a formação de professores de Ciências,
encontramos várias pesquisas focadas em caracterizar as
concepções e/ou as crenças de licenciados ou professores em
serviço com respeito às relações CTS(A) (Acevedo, 2000; Acevedo;
Vásquez; Manassero, 2002; Acevedo et al., 2002a). Esses trabalhos
têm privilegiado a análise das crenças por serem praticamente
“responsáveis” por práticas de ensino tradicionais. No entanto, é
necessário realizar uma análise mais ampla que inclua as práticas
docentes e os fatores pessoais, sociais, culturais e escolares que as
influenciam.
A complexidade compreendida entre crenças e práticas apresenta
um desafio para o ensino de Ciências com enfoque CTSA,
entendido como uma perspectiva potencialmente formativa que
articula teoria e prática de acordo com um enfoque crítico do ensino.
Nesse sentido, o ensino de Ciências precisa refletir sobre a práxis
do professor para a superação da racionalidade técnica (Schön,
1997; 2000) que reduz a atividade docente à mera aplicação de
teorias, modelos ou estratégias que são criados por especialistas ou
ainda são oferecidos por determinadas orientações curriculares.
Pensar o ensino de Ciências desde a práxis do professor requer
necessariamente sua participação na definição não só das
estratégias de ensino, mas também de problemas, conteúdos e objetivos associados a sua profissão. A ideia do professor como
sujeito ativo de sua práxis é uma construção que precisa do
estabelecimento de relações com seus pares (colegas,
pesquisadores, administradores educativos etc.) em espaços sociais
e históricos determinados.
Segundo Carr e Kemmis (1988), o ensino crítico exige uma
permanente reflexão do professor sobre seus próprios
conhecimentos teóricos e práticos, assim o ensino torna-se uma
prática profissional comprometida com a pesquisa dos problemas
pedagógicos enfrentados nas instituições educativas e em salas de
aula. Para esses autores, a pesquisa educativa não consiste apenas
em produzir teorias ou desenvolver práticas mais eficazes, o que se
busca é fazer da prática um processo crítico que permita
compreendê-la e transformá-la.
Embora a perspectiva CTSA tenha se constituído em uma linha de
pesquisa do ensino de Ciências, há poucos esforços para entender
a prática dos professores ao trabalharem esse enfoque pedagógico-
didático (Pedretti et al., 2008).
Para Pedretti (2003), as dificuldades da perspectiva CTSA na
prática do professor começam quando os professores decidem
trabalhar com seus alunos questões a respeito de poder, de
raciocínio ético e de ação responsável. Uma vez que
tradicionalmente a ciência e a tecnologia são abordadas em sala de
aula como um conjunto de conhecimentos a ser assimilado sem
maiores questionamentos, pouco é feito para que os estudantes
interpretem a ciência como uma construção social, cultural e
histórica.
Geralmente os professores de Ciências são especializados em
disciplinas específicas e não foram preparados em aspectos sociais,
políticos e éticos, que fundamentam o desenvolvimento da
perspectiva CTSA na prática docente, na medida em que essa
perspectiva busca que os professores trabalhem em suas aulas
temas tais como natureza da ciência e da tecnologia, raciocínio
ético-moral, reconstrução sociocrítica, ação responsável e sustentabilidade. Conforme Ramsey (1993), Watts et al. (1997) e
Pedretti (1997; 2003), a abordagem de questões sociocientíficas
(QSC) parece oferecer uma forma concreta de incorporar a
perspectiva CTSA às práticas dos professores de Ciências.
As QSC abrangem controvérsias sobre assuntos sociais que estão
relacionados com conhecimentos científicos de atualidade e,
portanto, em termos gerais são abordados nos meios de
comunicação de massa (rádio, TV, jornal e internet).
A clonagem, o uso de células-tronco, os transgênicos, as energias
alternativas e outros assuntos controversos na sociedade envolvem
consideráveis implicações científicas, tecnológicas, políticas e
ambientais que podem ser trabalhadas em aulas de Ciências com o
intuito de favorecer a participação ativa dos estudantes em
discussões escolares que enriqueçam seu crescimento pessoal e
social.
Levando em consideração as eventuais possibilidades da
abordagem de QSC como uma forma de trabalhar a perspectiva
CTSA na prática do professor, nosso objetivo de pesquisa consistiu
em estudar as contribuições e as dificuldades dessa abordagem
para a formação continuada de professores de Ciências por meio de
uma análise de discurso crítica sobre o trabalho realizado com tais
professores em serviço no decorrer da disciplina “Ensino de
Ciências com enfoque CTSA a partir de QSC” (ver Apêndice 1)
oferecida em um curso de mestrado em Docência da Química. De
acordo com esse objetivo, elaboramos as seguintes perguntas que
orientaram os procedimentos teórico-metodológicos e analíticos da
pesquisa:
Que dificuldades os professores de Ciências em serviço
enfrentam para abordar as QSC na prática docente?
De que forma a perspectiva CTSA é compreendida por
parte de professores de Ciências em serviço ao abordarem
QSC em sua prática?
Como a autonomia docente é configurada pelos
professores de Ciências em serviço ao abordarem QSC em
sua prática?
Quais são as contribuições da abordagem de QSC para a
formação continuada de professores?
Durante as discussões realizadas sobre a abordagem de
QSC, quais interações dialógicas foram estabelecidas entre
os professores participantes da pesquisa?
A pesquisa foi realizada no decorrer de uma disciplina de “ensino de
Ciências com enfoque CTSA a partir de QSC” proposta pelo autor
deste livro e oferecida para professores de Ciências em serviço no
curso de mestrado em Docência da Química da Universidad
Pedagógica Nacional de Bogotá, na Colômbia.
Fundamentamos nossa pesquisa na perspectiva crítica da formação
de professores (Giroux, 1997; 2003a; 2003b; Apple, 1999a; 1999b;
Contreras, 2002; King, 2008), porque oferece subsídios teóricos
relevantes para pensar a prática docente e desse modo contribuir
com o favorecimento de mudanças educacionais.
Para a constituição dos dados da pesquisa e sua correspondente
análise, optamos pela utilização da análise de discurso crítica (ADC)
segundo Fairclough (2001a; 2001b; 1995), Magalhães (2005),
Resende e Ramalho (2006) e Hanrahan (2006). Essa perspectiva de
análise oferece um dispositivo analítico interessante para estudar
processos de mudança educacional, uma vez que foca na
compreensão dos problemas enfrentados pelos sujeitos em termos
discursivos, oferecendo subsídios para que eles possam superar
esses problemas e possam se engajar em processos
transformadores de sua própria prática social.
O livro está estruturado em seis partes. A primeira, intitulada “A
perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) no
ensino de Ciências e as questões sociocientíficas”, apresenta uma
discussão sobre as características da perspectiva CTSA no ensino
de Ciências, e optamos por um ponto de vista crítico dessa
perspectiva, para o qual fundamentamos nossas reflexões na teoria
crítica sobre a ciência moderna, bem como nas contribuições
filosóficas e sociológicas oferecidos por Ludwik Fleck e Thomas Kuhn. Finalmente, salientamos o potencial das questões
sociocientíficas para desenvolver os objetivos pedagógicos da
perspectiva CTSA no ensino de Ciências.
Na segunda parte apresentamos uma revisão de vários trabalhos de
pesquisa sobre a formação de professores de Ciências. Também
mostramos trabalhos referidos às concepções ou crenças dos
professores de Ciências a respeito das relações CTSA. Por meio
dessa revisão percebemos uma falta de reflexão crítica sobre a
questão da “formação” dos professores de Ciências e resgatamos
especialmente as contribuições teóricas de pensadores críticos tais
como Adorno, Giroux e Contreras para estruturar uma leitura crítica
da formação continuada de professores de Ciências no contexto da
perspectiva CTSA.
Na terceira parte discutimos os fundamentos teóricos e
metodológicos da concepção de análise utilizada na pesquisa. Esse
dispositivo analítico foca no estudo dos diferentes usos da
linguagem nos processos de mudança social, pois os discursos
constroem e constituem diferentes relações sociais, que por sua vez
posicionam os sujeitos de diferentes modos. Dessa forma, é de
interesse da perspectiva crítica estudar os efeitos sociais do
discurso, bem como as mudanças culturais e como os discursos se
combinam em determinados contextos sociais.
Na quarta parte refletimos sobre a pesquisa qualitativa crítica,
compreendida como uma abordagem metodológica na qual as
brechas existentes entre a teoria e a prática são a fonte dos
problemas educacionais.
Na quinta parte analisamos os dados constituídos durante nossa
pesquisa utilizando a teoria de ADC e estabelecendo a influência da
abordagem de QSC na construção da autonomia docente dos
professores de Ciências. Nessa parte ressaltamos a pesquisa do
professor como um elemento relevante para a construção de sua
autonomia.
Na sexta parte caracterizamos o contexto de produção discursiva,
no qual os professores em serviço abordaram QSC e estruturaram
novas compreensões sobre a autonomia docente. Assim,
analisamos os tipos de interações dialógicas que foram
estabelecidas com os professores participantes da pesquisa e o
autor deste trabalho (professor universitário) no intuito de ampliar a
análise sobre as contribuições da abordagem de QSC, em termos
do melhoramento da prática docente e a construção de novas
compreensões sobre a perspectiva CTSA.
Finalmente, apontamos as considerações finais da pesquisa,
defendendo a tese de que a abordagem de QSC na prática docente
pode contribuir para a formação continuada de professores de
Ciências conforme os seguintes aspectos: 1) problematização da
ideologia tecnicista do currículo tradicional de acordo com a
linguagem da crítica e a linguagem da possibilidade; 2)
compreensão dos professores de Ciências em serviço sobre a
autonomia docente; 3) desenvolvimento de interações dialógicas na
formação continuada de professores de Ciências.
1 O uso do termo “professores” abrange os professores e as
professoras, tendo em consideração as discussões de gênero que
podem ser suscitadas.
2 Formas de vida: interações com a sociedade; Como podemos ter
certeza?; Tecnologia, invenção e indústria; População humana e
evolução; A bomba atômica; Energia: o poder para o trabalho;
Alimentação saudável; Espaço, cosmologia e ficção.