Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
Considerações finais
A partir das análises realizadas nas partes 5 e 6 deste livro,
defendemos a tese de que a abordagem de questões
sociocientíficas (QSC) na prática docente pode contribuir para a
formação continuada de professores de Ciências conforme os
seguintes aspectos:
1) Problematização da ideologia tecnicista do currículo
tradicional de acordo com a linguagem da crítica e a linguagem
da possibilidade.
2) Compreensão dos professores de Ciências em serviço sobre
a autonomia docente.
3) Interações dialógicas na formação continuada de professores
de Ciências.
Problematização da ideologia tecnicista do
currículo tradicional de acordo com a linguagem
da crítica e a linguagem da possibilidade
O ensino dos professores de Ciências em serviço pode ser
instrumentalizado pela ideologia do currículo tecnicista, uma vez que
seu trabalho docente é reduzido à definição de metodologias de
ensino, deixando em segundo plano as questões sobre o que, por
que e para quem ensinar.
A ideologia tecnicista do currículo pode ser legitimada racionalmente
pelos professores porque eles parecem entender que o currículo
preestabelecido deve ser seguido, porque dessa forma é garantida a
“qualidade” educacional de todos os estudantes. No entanto, essa
ideia está investida ideologicamente, porque não existem indícios
contundentes que corroborem que a aplicação de determinados padrões curriculares por parte dos professores desencadeie uma
melhor qualidade da educação.
Nesse contexto, as discussões desenvolvidas com os professores
participantes (PP) da pesquisa sobre a abordagem de QSC em sala
de aula favoreceram a emergência da linguagem da crítica e a
linguagem da possibilidade a respeito das restrições impostas pelo
currículo tradicional de Ciências.
A abordagem de QSC é uma maneira de problematizar essa
ideologia tecnicista do currículo tradicional de Ciências, uma vez
que implica pensar por que e para que ensinar Ciências na
sociedade atual, transcendendo a mera busca de metodologias
voltadas ao ensino de conteúdos preestabelecidos.
Assim, a linguagem da crítica é importante para desvelar os efeitos
ideológicos do currículo tradicional, mas parece não ser suficiente
para favorecer outras propostas curriculares. Por essa razão, é
necessário investir maiores esforços na linguagem da possibilidade,
na medida em que se busca uma articulação da prática docente
com os processos de democratização do ensino de Ciências e a
formação de professores, visando a participação ativa destes na
definição de seus próprios conteúdos de ensino conforme os
problemas educacionais que eles enfrentam junto a seus alunos.
A linguagem da possibilidade como um elemento relevante da
formação crítica de professores propende para o discurso da ação
refletiva, que oferece maiores possibilidades para o
desenvolvimento de um currículo de Ciências, dinamizado pelo
trabalho colaborativo entre professores em serviço e professores
universitários comprometidos com a formação docente.
A articulação entre a linguagem da crítica e a linguagem da
possibilidade também nos oferece um embasamento teórico para
repensar a apropriação da ideologia tecnicista do currículo
tradicional nas práticas docentes, constituindo, dessa forma, uma
concepção do currículo que envolve a pesquisa sobre o ensino do
professor, conforme suas contradições, intencionalidades e práticas. Assim, defendemos a necessidade de investir maiores esforços em
construir com professores de Ciências em serviço uma concepção
reflexiva e crítica do currículo.
Os trabalhos de Stenhouse (1987), Kemmis (1993), Giroux (1997),
Apple (1999b) e Gimeno e Pérez-Gómez (1998) nos ajudam a
fundamentar essa concepção sobre o currículo que valoriza os
professores como agentes ativos que constroem o currículo, porque
o currículo implica uma representação da cultura escolar que
expressa as relações entre teoria e prática, bem como entre
educação e sociedade.
A abordagem de QSC também nos possibilitou entender que o
currículo não pode ser reduzido aos conteúdos específicos de
Ciências, porque, apesar de serem relevantes para a educação em
ciências e tecnologia dos cidadãos, não são suficientes para
abordar as questões sociais, políticas e éticas atreladas ao
progresso científico e tecnológico. Em tal sentido, é importante que
o professor de Ciências mobilize uma diversidade de conhecimentos
de fontes diversas sobre assuntos políticos, sociais, científicos e
pedagógicos que lhe permita favorecer o crescimento pessoal e
social de seus alunos.
Ressaltamos a ideia de polifonia discutida em nossa pesquisa, que
pode ser relacionada com a ideia de não homogeneidade e
descontinuidade de conhecimentos dinamizados por culturas
diversas, tal como tem sido sustentado por Lopes (2007) em suas
pesquisas sobre currículo e epistemologia, nas quais tem defendido,
entre outras coisas, a tese da escola como produtora de cultura e do
conhecimento escolar mediado pelas relações entre saberes
teóricos e práticos.
A ideia de polifonia na formação do professor também pode ser
interessante para avançar na construção da epistemologia da
prática profissional do professor, uma vez que mobiliza saberes dos
professores de Ciências em serviço a partir da reflexão sobre sua
própria prática. Da mesma forma, possibilita a reflexão do professor
universitário sobre seu papel como formador de formadores. Em tal sentido, podemos investir maiores esforços para repensar o
problema epistemológico referido à lógica disciplinar que domina a
preparação dos professores e impossibilita a abordagem dos
problemas próprios da ação docente (Tardif, 2006).
A lógica estritamente disciplinar das Ciências encontra espaço no
currículo tradicional, contribuindo para reproduzir a ideia do ensino
como um processo neutro, desinteressado e afastado das relações
de poder, sendo questionado ao longo da pesquisa, conforme a
concepção crítica da formação dos professores, que envolve um
comprometimento com as construções de espaços democráticos na
escola e na sociedade, o que possibilita o empoderamento dos
estudantes como cidadãos ativos e críticos para exercer sua
cidadania responsavelmente.
O empoderamento dos estudantes e dos professores para o
exercício de sua cidadania faz parte da construção de uma cultura
política que favorece a reflexão sobre as relações de poder que são
materializadas em recursos discursivos e, dessa forma, contribui
com a construção de uma sociedade democrática (Giroux, 1997;
2003a; 2003b; 2005).
A cultura política é importante porque ajuda a repensar a tese do
currículo tradicional, que reduz o ensino a um processo tecnicista de
transmissão de conteúdos, desconhecendo a natureza política do
ensino, pois o ensino é um processo intencional e inacabado sobre
o próprio desenvolvimento do ser humano, o qual é condicionado,
mas não determinado, tal como foi salientado por Freire (2007) e
vem sendo defendido na atualidade por Giroux (2003c; 2005).
Ainda segundo esses autores, dimensão política do ensino significa
reconhecer que as escolas e outros espaços culturais não estão
isolados dos problemas sociais mais amplos que são enfrentados
por estudantes, professores e comunidades. Assim, a construção da
cidadania não é produto de eficiência técnica de um currículo, mas
uma construção social resultado de conflitos pedagógicos, os quais
podem alterar a forma de pensar, de ser e de viver em uma
sociedade democrática.
De acordo com uma visão dialógica da formação continuada de
professores de Ciências, o conflito é inerente a essa formação, pois
no encontro intersubjetivo estabelecido entre professores são
expressas direta ou indiretamente várias vozes, as quais, por sua
vez, expressam diferentes formas de pensar e de agir.
Assim, o conflito envolve divergências e convergências entre
diferentes sujeitos que interagem em qualquer processo dialógico,
de modo que na diferença existe a possibilidade de valorizar da
melhor forma as vozes dos sujeitos que interagem, enquanto em
espaços de homogeneização a possibilidade de subordinação é
maior, dependendo dos posicionamentos assumidos pelos sujeitos
no diálogo. Desse modo, os sujeitos podem estabelecer interações
dialógicas autoritárias, de persuasão ou polifônicas.
Ao valorizar o conflito adjacente às interações dialógicas,
construímos uma nova forma de explorar a interface estabelecida
entre sujeitos e discursos no campo da formação continuada de
professores de Ciências, uma vez que o embasamento teórico da
análise de discurso crítica (AD C), adotado nesta tese, nos permitiu
compreender que o discurso posiciona o sujeito, mas que o sujeito
também desenvolve práticas ativas, a partir das quais reconstrói
processos discursivos conforme os posicionamentos que vão sendo
adotados nas suas ações. Dessa forma, a mudança é uma questão
própria dos processos discursivos, na medida em que nos
comprometemos com processos comunicativos que valorizam nossa
subjetividade atrelada à subjetividade dos outros.
A intersubjetividade que se materializa nas práticas por meio da
linguagem pode sustentar ações comunicativas que levem à
problematização permanente da racionalidade instrumental que tem
fundamentado a ideologia tecnicista do currículo tradicional de
Ciências presente até nossos dias, mas que na atualidade parece
se configurar de forma discursiva por meio de dispositivos
sofisticados de controle, que são apropriados nos discursos dos
professores de Ciências em serviço. Por essa razão, é importante
repensar a formação continuada de professores de Ciências em termos práticos e discursivos, uma vez que o discurso entendido
como prática social pode, entre outras coisas, possibilitar o resgate
da ação como um elemento importante para repensar a formação
em termos dialógicos.
Compreensão dos professores de Ciências em
serviço sobre a autonomia docente
As análises realizadas neste livro representam indícios empíricos
para considerar que a abordagem de QSC pode influir na
compreensão da autonomia docente por parte de professores em
serviço, e, dessa forma, poderíamos repensar os processos de
instrumentalização do ensino.
Alguns professores compreenderam a autonomia como um
processo individualista, por meio do qual poderiam orientar seu
ensino conforme suas próprias convicções, sem influência de
agentes externos. Se, por um lado, essa concepção da autonomia
ajuda a favorecer um encorajamento pessoal do professor, por
outro, limita seu desenvolvimento social e restringe dinâmicas
intersubjetivas que dinamizam o exercício docente. Essa visão
individualista também fortalece o isolamento do professor e tem
caracterizado a profissão docente historicamente, restringindo a
construção de processos coletivos que contribuam na transformação
educacional das escolas.
Outra forma de compreender a autonomia docente que transcende a
compreensão individual foi caracterizada em vários professores
como reflexão sobre a prática de ensino. A autonomia vista a partir
desse ponto de vista não é mais um atributo individual que se
possui, mas uma reflexão sobre a prática e um processo
desenvolvido na reflexão sobre a ação, no qual a participação e o
trabalho desenvolvido pelos estudantes são relevantes para a
construção da autonomia docente.
No entanto, essa forma de compreender a autonomia tem o
problema de restringir-se aos processos de ensino e aprendizagem desenvolvidos em sala de aula, de tal forma que o professor limita
seu trabalho às dinâmicas escolares, sem articulá-las às esferas
públicas mais amplas da sociedade. Dessa forma, os valores e as
responsabilidades sociais próprias do ensino podem ser facilmente
desconsiderados.
Assim, salientamos nas análises realizadas na Parte V deste livro a
compreensão, por parte de alguns professores, da autonomia
docente como um processo dialógico e crítico. Tal compreensão
transcende a concepção individualista e refletiva da autonomia,
prestando atenção aos processos pedagógicos desenvolvidos em
sala de aula e suas correspondentes relações com processos e
valores sociais voltados à formação democrática dos cidadãos.
A autonomia docente entendida como processo dialógico e crítico
tem a ver com a construção de uma sociedade plenamente
democrática, o que implica a existência de uma vida justa,
participativa e igualitária para todos os cidadãos. A autonomia volta-
se sobre os valores que fundamentam aspirações ontológicas e
sociais da humanidade.
A injustiça, a manipulação, a marginalização e a exclusão, ainda
presentes em nossas escolas e em nossa sociedade, constituem as
condições materiais que justificam a busca da autonomia crítica e
dialógica.
Defender, nesse caso, a autonomia dos professores é defender
um programa político para a sociedade e um compromisso
social com a profissão. E apenas sob este programa, isto é, em
beneficio de uma democratização maior da sociedade, de suas
estruturas e das novas gerações, de suas experiências e
aprendizagens escolares, pode-se sustentar uma concepção de
autonomia que possa em algum momento opor-se ou resistir às
demandas da sociedade. (Contreras, 2002, p.205)
A abordagem de QSC atrelada à pesquisa do professor fortalece a
autonomia docente em termos intersubjetivos, de modo que a autonomia não é restrita a competências individuais ou a meras
aplicações práticas.
Evidenciamos nas análises realizadas que a autonomia dos
professores foi fortalecida por meio dos projetos de pesquisa
elaborados por eles sobre a abordagem de QSC de seu interesse. A
partir dessas análises podemos sintetizar as seguintes contribuições
em termos do melhoramento da prática docente:
a) A abordagem de QSC e a tomada de decisão. A tomada de
decisão no ensino de Ciências não deve considerar apenas as
estratégias didáticas que favorecem o desenvolvimento de
habilidades dos estudantes para realizar suas próprias
escolhas, mas também deve levar em consideração a cultura
dos estudantes, o que influencia a forma como eles tomam
suas próprias decisões. Salientamos a necessidade de
relacionar a cultura dos estudantes com a das disciplinas
científicas do currículo, pois assim os estudantes terão
melhores condições e oportunidades de aprender a
fundamentar suas escolhas a partir de sua própria realidade.
b) A abordagem de QSC e a argumentação. A abordagem de
QSC em sala de aula pode favorecer o desenvolvimento de
processos básicos de argumentação, os quais são
evidenciados nas afirmações com justificação realizadas pelos
estudantes de ensino básico. O desenvolvimento de níveis
superiores de argumentação pode ser influenciado por crenças
e resistências culturais que naturalizam o raciocínio cotidiano
dos estudantes.
c) A abordagem de QSC e o pensamento crítico. A abordagem
de QSC em sala de aula pode favorecer o desenvolvimento de
habilidades de pensamento crítico nos estudantes, tais como a
habilidade para resolver problemas e tomar decisões. No
entanto, o desenvolvimento de habilidades de ordem superior
depende do nível educativo no qual foi desenvolvido o trabalho
com QSC, assim como do tipo de estratégias utilizadas pelo
professor para o favorecimento de determinadas habilidades.
As estratégias embasadas no enfoque CTSA, tais como a
realização de debates e o estudo de casos clínicos na área da
saúde, parecem oferecer melhores possibilidades para que os
estudantes desenvolvam habilidades de pensamento crítico.
d) A abordagem de QSC e a incorporação do enfoque CTSA à
prática do professor. A abordagem de QSC em sala de aula
pode favorecer a incorporação dos objetivos pedagógicos da
perspectiva CTSA à prática docente dos professores de
Ciências em serviço. Assim, as análises realizadas na Parte V
nos mostram indícios de que os professores orientaram o
ensino de Ciências à formação cidadã de seus alunos,
propiciando um ambiente didático propício para a participação
ativa dos estudantes.
As análises realizadas sobre os resultados dos projetos de ensino
desenvolvidos pelos professores nos permitiram também identificar
avanços em termos de inovação pedagógica por parte dos
professores de Ciências em serviço, uma vez que eles
desenvolveram estratégias embasadas na perspectiva CTSA, as
quais partiram da abordagem de QSC em sala de aula, oferecendo
uma alternativa de trabalho que não necessariamente parte dos
conteúdos disciplinares de Ciências estabelecidos no currículo
escolar.
A inovação pedagógica foi evidenciada, na medida em que a
abordagem de QSC envolve conhecimentos sociais, políticos e
éticos, que foram articulados com conhecimentos específicos de
Ciências. As QSC não podem ser entendidas como temas
convencionais de Ciências que, na maioria dos casos, estão bem
estabelecidos pela comunidade científica, e caberia recontextualizá-
los à realidade dos estudantes. No caso das QSC, o nível de
controvérsia social e científica é significativo por estarem articuladas
a pesquisas científicas relevantes para a sociedade contemporânea
e por suas correspondentes implicações sociais.
Devido ao caráter controverso das QSC e suas implicações éticas e
sociais, sua abordagem no ensino de Ciências implica necessariamente o posicionamento pessoal e social de professores
e estudantes.
O ensino de Ciências voltado às controvérsias suscitadas pelas
QSC possui um potencial considerável para a inovação educativa,
que também exige planejamento do ensino e ações bem
suportadas, assim como a participação ativa do professor de
Ciências. Esse tipo de inovação também estaria relacionado com a
contextualização sociopolítica dos conteúdos disciplinares das
Ciências, valorizando os benefícios e os prejuízos gerados pelo
progresso científico e tecnológico na sociedade.
A abordagem de QSC também pode contribuir com a construção do
professor como pesquisador de sua prática. A formação desse
professor implica a construção de espaços coletivos entre
professores da escola e professores universitários, no intuito de
desenvolver reflexões teóricas sobre a prática docente.
Concordamos com Maldaner (2000) que a construção de espaços
coletivos de pesquisa entre professores em serviço e professores
universitários não aparece de forma espontânea. Pelo contrário, é
necessária a construção de novos espaços formativos e, nesse
sentido, os programas de pós-graduação e de formação continuada
de professores têm a importante responsabilidade de estimular e
dinamizar a construção de trabalhos coletivos entre esses
professores.
Nossa pesquisa concorda com as conclusões do trabalho de Villani,
Freitas e Brasilis (2009), as quais salientam que a formação do
professor pesquisador implica o comprometimento da academia
com os professores das escolas, em termos do estabelecimento de
parcerias genuínas que superem os tradicionais padrões de
dominação acadêmica oferecendo suporte ao desenvolvimento de
pesquisas nas escolas.
Interações dialógicas na formação continuada de
professores de Ciências O diálogo é uma dimensão relevante da construção da autonomia
dos professores e de seus processos permanentes de formação. É
o processo intersubjetivo por meio do qual podemos crescer em
criticidade, porque, refletindo junto com os outros sobre problemas
de interesse comum, abrimos novas possibilidades para nossa
realização pessoal e social.
O diálogo, segundo a perspectiva bakhtiniana, fornece um
embasamento teórico para entender os contextos de produção
discursiva que podem ser potencializados na formação continuada
de professores de Ciências voltada à abordagem de QSC.
As análises realizadas na Parte VI sobre interações dialógicas
estabelecidas entre os PP e o professor universitário (PU) durante
os encontros da disciplina Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a
Partir de QSC nos mostram que o discurso da abordagem de QSC
em sala de aula, proposto pelo PU, é representado de forma indireta
nos discursos dos professores de Ciências em serviço, na medida
em que eles vão expressando suas experiências docentes e
aspectos pedagógicos das QSC.
Na maioria dos episódios analisados no Capítulo 6 observamos que
os PP não estabeleceram um limite claro entre seus discursos e o
discurso da abordagem de QSC, uma vez que apresentam uma
afinidade subjetiva (modalidade subjetiva) com essa abordagem, o
que fortaleceu seu ethos ou sua subjetividade docente.
A forma como o discurso das QSC é representado no discurso dos
professores não parece estar enquadrada em uma relação de
superioridade desse discurso, mas sim em uma relação de
colaboração, a qual fez sentido para os professores de Ciências em
serviço, porque sua construção foi realizada a partir da reflexão
sobre a prática.
Na medida em que o discurso é considerado como uma prática
social, abrem-se novos caminhos para explorar a forma como as
vozes dos professores de Ciências em serviço e a voz do PU vão se
relacionando de forma autoritária, persuasiva ou polifônica.
Em determinados episódios identificamos que alguns professores
estabelecem um limite claro entre seus discursos e o discurso da
abordagem de QSC proposto pelo PU, o que foi evidenciado em
termos de polidez. Nesse caso, as interações de autoridade são
estabelecidas pelos PP, pois eles estabelecem suas experiências
docentes em um nível de superioridade.
Assim, o estabelecimento de interações de persuasão e
especialmente o de interações polifônicas constituem um desafio
para a formação continuada de professores de Ciências, pois dessa
forma professores de escolas e professores universitários podem se
reconhecer e valorizar mais seus saberes e experiências.
As interações dialógicas de persuasão representam um elemento
importante de produção discursiva para desenvolver processos
formativos de professores, na medida em que podem possibilitar a
interação ativa de professores em serviço e professores
universitários, com o objetivo de construir processos de pesquisa
coletivos que contribuam no melhoramento da prática docente.
Tradicionalmente, os espaços de preparação oferecidos aos
professores em serviço têm privilegiado as interações dialógicas de
autoridade ostentadas no conhecimento acadêmico produzido por
professores universitários ou especialistas, invisibilizando a voz do
professor da escola. Por essa razão, investir maiores esforços no
desenvolvimento de interações dialógicas polifônicas é importante
para fortalecer a autonomia docente.
Conforme uma visão bakhtiniana, as interações dialógicas
polifônicas também podem contribuir na construção de um discurso
polifônico na formação continuada de professores, o que é
interessante para desencadear mudanças nos processos de
preparação dos professores, que historicamente têm reduzido a
formação do professor à adoção passiva de um discurso autoritário
que impõe a voz da academia, desconhecendo ou negando a voz
dos professores.
Contudo, o próprio discurso de autoridade é dialógico, pois nele são
contidas vozes alheias que geram conflitos e resistências diante da
pretensão totalizadora do discurso de autoridade. Os conflitos ou as
resistências que emergem diante de qualquer discurso autoritário
evidenciam a natureza dialógica das interações sociais. De tal
modo, o desafio da formação continuada de professores consiste
em problematizar as interações dialógicas autoritárias por meio do
encorajamento intersubjetivo dos professores, no qual eles tenham
maiores possibilidades para reconstruir sua autonomia docente de
forma colaborativa, e não apenas de forma individual. Assim,
interações dialógicas persuasivas e polifônicas podem favorecer a
construção da autonomia docente na medida em que encorajem os
professores em suas práticas.
Acreditamos que espaços democráticos de formação de professores
podem ser fortalecidos em termos de interações dialógicas
polifônicas, em detrimento das interações dialógicas autoritárias.
Nesse sentido, pode ser mais produtivo entender os processos de
formação de professores em permanente conflito e transformação
tal como foi interpretado a partir da análise de discurso crítica
(ADC).
A ADC oferece novos subsídios para entender as interações
dialógicas em espaços de formação continuada de professores de
Ciências e oferece também dispositivos analíticos (modalidade e
polidez) embasados na interdiscursividade que ajudaram a
caracterizar as contribuições e dificuldades da abordagem de QSC
na prática docente.
No Capítulo 6 identificamos que a maioria dos PP manifestou uma
afinidade subjetiva sobre a perspectiva CTSA, uma vez que a
abordagem de QSC lhes possibilita trabalhar implicações sociais da
ciência e da tecnologia.
Da mesma forma como foi apontado na pesquisa realizada por
Pedretti et al. (2008), nossa pesquisa salienta que a perspectiva
CTSA a partir de QSC não desconsidera o ensino de conteúdos
disciplinares de Ciências, valorizando-os em termos do papel desempenhado pelos professores na construção de
posicionamentos críticos sobre as implicações socioambientais do
progresso científico e tecnológico.
Finalmente, salientamos que as análises realizadas nas Partes V e
VI nos permitiram estabelecer as dificuldades curriculares,
pedagógicas e formativas enfrentadas pelos professores de
Ciências em serviço sobre a abordagem de QSC em suas práticas
docentes.
As dificuldades curriculares que foram caracterizadas estiveram
relacionadas com a ideologia tecnicista do currículo tradicional de
Ciências, que restringe a autonomia dos professores e os processos
de participação destes para a definição de seu próprio currículo.
Outras dificuldades de tipo curricular foram caracterizadas na
pesquisa realizada por Reis e Galvão (2008), na qual salientaram as
seguintes dificuldades que limitaram a abordagem de QSC:
Medo dos professores de enfrentar conflitos com os
diretores das escolas, que controlam as discussões sobre o
currículo.
Constrangimentos impostos pelo excesso de conteúdos ou
por sistemas de avaliação que não valorizam as QSC.
Santos e Mortimer (2009) também apontaram dificuldades
curriculares da abordagem de QSC no ensino de Ciências
associadas à carga horária das disciplinas de Ciências (Química) e
a dificuldade para construir equipes integrais de professores. No
entanto, os autores citados salientam que os resultados obtidos por
eles em sua pesquisa evidenciam a importância da inserção de
aspectos sociocientíficos nos currículos de Ciências como um
aspecto importante para a formação cidadã.
As dificuldades pedagógicas estiveram relacionadas com o
predomínio do ensino de Ciências tradicional centrado em
conteúdos disciplinares e na existência de visões tradicionais sobre
a tecnologia e suas correspondentes implicações sociais. Também foram identificadas dificuldades com respeito à falta de
compreensão da dimensão ética associada às QSC e a tendência
de vários professores de reduzir a perspectiva CTSA apenas à
contextualização social de conteúdos científicos, sem prestar maior
atenção às potencialidades dessa perspectiva para abordar as QSC
de forma interdisciplinar.
Reis e Galvão (2008) também destacaram dificuldades pedagógicas
atreladas à abordagem de QSC, na medida em que os professores
participantes de sua pesquisa evidenciaram falta de conhecimentos
sobre aspectos políticos, sociológicos e éticos das QSC.
As dificuldades formativas estiveram relacionadas principalmente
com a preparação pedagógica por parte de alguns professores, que,
além de não terem realizado cursos de licenciatura, tinham pouca
experiência docente. No caso da maior parte de professores que
tinha uma preparação específica em Educação, as dificuldades
estiveram relacionadas com a falta de preparação na pesquisa
como elemento relevante da atuação docente.
A dificuldade de articular pesquisa, formação e prática em espaços
de interação docente representa um desafio enfrentado por vários
trabalhos dedicados à formação continuada de professores de
Ciências (Maldaner; Zanon; Auth, 2006; Zanon; Maldaner, 2007;
Villani; Freitas; Brasilis, 2009).
O desafio foi enfrentado nesta pesquisa constituindo evidências
empíricas que mostram a potencialidade da abordagem de QSC
para a construção da autonomia docente sempre que esteja
articulada à pesquisa sobre a prática dos professores.
As dificuldades que foram descritas anteriormente estabelecem
alguns limites para a abordagem de QSC na prática docente dos
professores de Ciências em serviço. No entanto, as contribuições
dessa abordagem constituem possibilidades para a construção da
autonomia dos professores e sua formação continuada em termos
dos contextos de produção discursiva, uma vez que o ensino,
enquanto prática educacional, é materializado no discurso que os professores constroem no desenvolvimento de seu trabalho
docente.
As perspectivas de pesquisa emergidas deste livro ficam em aberto
às potencialidades da ADC sobre interações dialógicas e processos
de interdiscursividade que nos ajudem a compreender os processos
intersubjetivos, por meio dos quais pode ser construída e
reconstruída a autonomia dos professores. Da mesma forma,
salientamos as possibilidades de novas pesquisas que analisem
detalhadamente a abordagem de QSC atreladas a projetos de
pesquisa em sala de aula, o que pode contribuir com o
desenvolvimento de pensamento crítico, da argumentação, da
tomada de decisão e da formação cidadã em estudantes de ensino
básico.
Destacamos, para a realização de outros trabalhos, o desafio de
desenvolver pesquisas no campo da formação de professores de
Ciências, particularmente interessadas em explorar as
potencialidades da perspectiva CTSA a partir de QSC, bem como as
potencialidades da ADC para estudos práticos e processos
discursivos atrelados a essa perspectiva. Nesse sentido,
salientamos alguns aspectos que poderiam ser abordados em
futuras pesquisas e programas de formação de professores de
Ciências:
Desenvolvimento de projetos de pesquisas entre
licenciandos, professores de Ciências em serviço e
professores universitários interessados em repensar a
prática docente e a construção da autonomia crítica a partir
da perspectiva CTSA e da abordagem de QSC.
Estudos sobre a incidência da abordagem de QSC nos
processos de enculturação científica no ensino de Ciências
voltado à formação para cidadania.
ADC sobre interações dialógicas desenvolvidas em sala de
aula por parte de professores interessados na abordagem
de QSC, visando valorizar novas formas de interação que
contribuam na transformação e no melhoramento do ensino
de Ciências.
Estudos sobre o papel das QSC nos processos de
divulgação científica e tecnológica na educação formal e
informal.
ADC sobre a abordagem de QSC nos meios de
comunicação (TV, rádio e internet), no intuito de
compreender como os processos de produção, consumo e
distribuição discursiva veiculados pela mídia influenciam a
construção de determinados significados sociais e
ideológicos sobre o progresso científico e tecnológico e de
que forma essas análises podem ser utilizadas na
formação de professores.
Os aspectos citados anteriormente apresentam algumas
perspectivas de pesquisa que podem ser exploradas na formação
de professores de ciências voltada ao fortalecimento da autonomia
crítica dos professores, assim como no desenvolvimento de
processos discursivos democráticos no ensino de Ciências que
possibilitem transformar a tradicional transmissão de conteúdos
disciplinares de Ciências, valorizando as subjetividades dos
estudantes e o trabalho coletivo, de tal forma que estudantes e
professores estabeleçam interações comunicativas que lhes
possibilitem repensar a ciência e a tecnologia em termos sociais,
políticos e culturais.