Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
14 A influência da abordagem de questões sociocientíficas (QSC) sobre a construção da autonomia dos professores de Ciências
14 – A influência da abordagem de
questões sociocientíficas (QSC) sobre
a construção da autonomia dos
professores de Ciências
A abordagem de QSC no ensino de professores implica um
questionamento da ideologia tecnicista do currículo de Ciências, na
medida em que os professores devem mobilizar seus
conhecimentos disciplinares para esferas sociais controvertidas.
Esse processo de mobilização apresenta obstáculos que estão
relacionados com a preparação do professor e as dinâmicas sociais
das instituições educacionais (escolas e universidades) altamente
governadas pela lógica tecnocrática e pelo predomínio de currículos
rígidos, que cada vez ocupam um maior espaço nas discussões
sobre o que devem ensinar os professores em suas aulas. Dessa
forma, o papel central do professor na elaboração do currículo é
desconsiderado, contribuindo para a perda de sua autonomia, pois
seu trabalho docente e suas experiências pedagógicas parecem não
ter maior importância.
A perda da autonomia na profissão docente é um tema relevante a
ser discutido na formação continuada de professores de Ciências.
Embora tenha sido um tema frequentemente considerado na
literatura educacional, ainda apresenta problemas não superados
sobre as condições de trabalho e de formação dos professores.
Entender a forma como a perda da autonomia do professor é
promovida ideologicamente por meio do tecnicismo curricular
contribuiria para que se repensasse e reconstruísse a própria
autonomia por meio de processos de formação continuada de
professores.
No item “A ideologia do currículo tradicional e as possibilidades de
mudança na abordagem de QSC” discutimos o caráter tecnicista do
currículo, que caracteriza o professor apenas como executor de
estratégias para o ensino de conteúdos preestabelecidos,
desconsiderando sua capacidade de pensar o que, por que e para
quem ensinar determinados conteúdos.
Segundo Apple (1989), a perda da autonomia do professor está
relacionada com a tecnologização do ensino, que representa o
processo de separação da fase da elaboração curricular da fase da
execução curricular, de tal forma que o ensino é reduzido a simples
aplicações de orientações definidas pelo currículo oficial ou pelos
especialistas em desenho curricular.
Na obra de Contreras (2002) discute-se a forma como o controle
ideológico do professor é sofisticado e se encobre na necessidade
de desenvolver mais habilidades para que esse profissional ensine
melhor e mais eficientemente. A forma de legitimação do
profissionalismo que advoga pela eficácia do ensino encontrou seu
embasamento no campo discursivo da instrumentalização da
linguagem e da prática cientificista, pois assim o crescimento
profissional seria validado com a crença de que a ciência e a
tecnologia constituem o motor principal do progresso humano.
A racionalidade técnica da ciência na profissão docente justificou a
utilização do conhecimento científico como construção neutra e
objetiva que devia fundamentar o ensino eficiente sem maiores
questionamentos sobre os interesses e visões do mundo adjacentes
à produção desses conhecimentos. Nesse processo de
instrumentalização os professores foram hierarquizados naqueles –
geralmente professores universitários – que tinham um
conhecimento reconhecido por sua legitimação científica e naqueles
que possuíam uma titulação em Pedagogia, que na maioria dos
casos não se tornavam professores universitários.
Conforme Contreras (idem, p.63), essa hierarquização pode ser
explicada com a própria história dos sistemas educativos.
[...] conforme foram sendo desenvolvidas as práticas
institucionalizadas da educação, surgiram corpos
administrativos de controle sobre a atuação dos professores e
se institucionalizou sua formação para controlar as
características sob as quais desenvolveram seu trabalho.
Portanto, a formação dos docentes não surge como um
processo de controle interno estabelecido pelo próprio grupo,
mas como um controle estabelecido pelo Estado.
Ainda segundo Contreras (ibidem), o resultado dessa hierarquização
é que os professores ocupam uma posição de subordinação em
relação aos grupos acadêmicos ou pesquisadores universitários que
detêm a condição de profissionais por representarem a autoridade
das disciplinas acadêmicas, enquanto os professores geralmente
não universitários se veem como consumidores de conhecimentos
construídos por outros.
Nesse contexto, a autonomia não poderia ser dita simplesmente
como desenvolvimento profissional dos professores, porque isso
poderia ser utilizado como elemento de legitimação de reformas
educativas, que se caracterizam pelas metas curriculares definidas
pelo Estado ou pelos interesses do mercado.
Geralmente as reformas são justificadas sob uma lógica
tecnocrática que privilegia os conhecimentos dos especialistas, que
com suas orientações tecnicistas pretendem que os professores
sejam autônomos, na medida em que desenvolvem habilidades para
executar currículos definidos por eles. Por essa razão, concordamos
com Contreras (ibidem, p.70) que é necessário ressignificar o
conceito de autonomia transcendendo os aspectos impostos pelo
profissionalismo tecnicista e, portanto, prestando maior atenção “no
que o trabalho de professor tem de educativo e no que ele teria de
profissão”. O autor citado busca entender a autonomia em termos
de qualidade educativa, e não apenas como qualidade profissional
do trabalho docente.
Todavia, vislumbramos que ainda existem valores atrelados à
profissão docente que devem ser potencializados e articulados ao trabalho educativo dos professores. Dessa forma seria possível
construir uma visão de autonomia que parte da docência do
professor, ou seja, o interesse seria pela profissionalidade docente,
e não pelo profissionalismo.
A profissionalidade estaria referida às qualidades e aos valores da
prática profissional dos professores, em conformidade com a
exigência e a dinâmica da prática de ensino, o que não significa de
forma alguma que as “qualidades a que faz referência a
profissionalidade docente” sejam uma descrição do “bom ensino”,
nem uma precisão do que o professor deveria fazer, porque, se
fosse assim, novamente se enfrentaria o risco de entender o ensino
como um “catálogo de atrações externamente impostas”, tal como
tem sido compreendido sob o profissionalismo (ibidem, p.74).
A profissionalidade implica uma defesa das características do
trabalho do professor com o objetivo de conquistar status e
reconhecimento social, bem como reivindica melhor formação dos
professores para enfrentar os complexos problemas educativos que
não são redutíveis a normas ou à dignificação da carreira docente
que leve a um melhor bem-estar pessoal.
Embora os processos formativos estejam relacionados e dependam
de alguma forma de adequadas condições de trabalho, as quais são
cada vez mais prejudicadas pelo avanço das concepções
conservadoras e mercadológicas dominantes nas reformas
educacionais (Apple, 1999a; 1999b; 2002c), tais processos são mais
profundos e também estão relacionados com a capacidade dos
professores de se posicionar e decidir de modo responsável o tipo
de ensino que possibilitaria a realização pessoal e social de seus
alunos.
O conceito de profissionalidade nos ajuda a construir um conceito
de autonomia que envolve os seguintes aspectos: responsabilidade
ética dos professores com seu trabalho docente, comprometimento
social de seu ensino e desenvolvimento do conhecimento
profissional. Conforme esses aspectos, assumimos um ponto de
vista crítico sobre a autonomia docente, o que nos ajuda a entendê-la como um processo mediado por conflitos e possibilidades
abrangidas nas práticas docentes.
Analisaremos alguns episódios que mostram a influência da
abordagem de QSC com respeito ao desenvolvimento da autonomia
docente dos PP. Os dados constituídos foram agrupados de acordo
com os seguintes elementos de análise: a pesquisa dos professores
em serviço como expressão da construção da autonomia docente e
maneiras como a autonomia docente é compreendida pelos
professores de Ciências em serviço.