Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
16 Maneiras como a autonomia docente é compreendida pelos professores de Ciências em serviço
16 – Maneiras como a autonomia
docente é compreendida pelos
professores de Ciências em serviço
As análises realizadas anteriormente sobre os trabalhos de
pesquisa apresentados pelos professores constituem uma evidência
da construção da autonomia durante a abordagem de questões
sociocientíficas (QSC), uma vez que os professores, como
pesquisadores de sua prática, vão se tornando sujeitos que podem
definir seus próprios objetivos e estratégias de ensino para enfrentar
os problemas específicos de seu trabalho docente.
Nesse contexto, focaremos nossas análises em caracterizar a forma
como os professores compreendem a autonomia docente depois de
terem participado na disciplina Ensino de Ciências com Enfoque
CTSA a Partir de QSC. Para a caracterização dessas
compreensões avançaremos, do nível descritivo, utilizado em
grande parte das análises realizadas até agora, para um nível mais
analítico, conforme dispositivos linguísticos oferecidos pela análise
de discurso crítica (ADC).
Segundo Fairclough (2001b) e Leal (2003), prestaremos especial
atenção ao emprego de verbos na primeira pessoa nas falas dos
PP, pois o uso da primeira pessoa e a utilização de determinadas
expressões verbais nos indicam um posicionamento do sujeito de
quem escolhe e decide, o que pode ser valorizado como um
indicador de construção da autonomia dos professores em termos
de crescimento pessoal e social.
Nos episódios que analisaremos nesta parte, sublinharemos
algumas vezes o emprego de verbos na primeira pessoa para
identificar posicionamentos pessoais dos professores e, dessa forma, constituir evidências a respeito da compreensão dos
professores sobre a autonomia docente.
A partir da análise das falas dos PP, subsidiados pelos elementos
linguísticos da ADC e embasados no trabalho de Contreras (2002),
identificaremos três formas de entender a autonomia: a) como
capacidade individual; b) com reflexão e forma de intervenção na
prática; e c) como processo dialógico e crítico. Discutiremos cada
uma dessas formas de entender a autonomia apontando suas
possibilidades e limitações.
A autonomia entendida como capacidade
individual
O termo “autonomia profissional” poder ser entendido simplesmente
com a capacidade individual de agir de uma determinada forma sem
a intervenção de fatores externos. No Episódio 24 apreciamos que o
professor Ricardo compreende sua autonomia docente conforme
uma perspectiva individualista, na medida em que valoriza sua
capacidade de agir segundo seus próprios desejos e sem restrições
impostas pelo contexto escolar. Essa visão individualista indica
aparentemente que o professor não tem problemas com sua
autonomia, uma vez que os processos de ensino desenvolvidos em
espaços escolares parecem depender exclusivamente dele.
Episódio 24 (EF Grupo 4)
31. PU: [...] Outro questionamento seria: depois desse processo
formativo que temos desenvolvido, como vocês estão
entendendo sua autonomia? Vocês, como entendem sua
autonomia docente?
32. Ricardo: Poder fazer o que eu quero em termos
acadêmicos. No caso das escolas públicas, eu não tenho
problema com a questão da autonomia. De manhã estava
justamente comentando com uma colega o seguinte: eu chego
à escola e falo para o coordenador: “Tenho uma proposta para
melhorar o projeto pedagógico da escola”, e ele me diz: “Pode
trabalhar à vontade”. Eu não tenho problema nem no nível
metodológico. Lá [na escola] recebo até apoio [###]. Eu faço o
que eu quero, utilizo as estratégias que eu quero, utilizo
instrumentos, faço o que eu quero.
No caso da professora Adriana e do professor Lucas, a autonomia
também é compreendida como uma capacidade individual do
professor para desenvolver determinadas estratégias de ensino.
Observamos no Episódio 25 que o professor Lucas expressa que a
autonomia tem a ver com a capacidade do professor para ensinar
de determinada forma sem se preocupar em questionar a ideia de
ensinar conteúdos ou temas que parecem estar predeterminados no
currículo. O professor deixa claro, em sua fala, que o problema não
são os conteúdos que devem ser ensinados, mas as estratégias
apropriadas para ensinar esses conteúdos. Dessa forma, permite
entrever o tecnicismo didático assumido por ele. Da mesma forma, a
expressão da professora Adriana “existem umas diretrizes, uns
padrões [curriculares] que se devem cumprir” evidencia um
posicionamento passivo do sujeito, uma vez que sua ação está
limitada por um fator externo, que nesse caso seriam os padrões
curriculares. Embora a professora Adriana manifeste certo
posicionamento ativo em termos de fazer pesquisa ou aplicar
determinadas estratégias como uma forma de desvincular-se do
fator externo, a evasão não implica problematização de sua
condição de dependência com o currículo.
Episódio 25 (EF Grupo 1)
26. PU: Bom! Outra questão para pensar: no processo
formativo que temos vivenciado durante a disciplina, como
vocês compreendem a sua autonomia docente? Levando em
consideração o último que falou, o professor Vinícius, quando
se referia à sua autonomia no caso da proposta dos ciclos
[refere-se à nova proposta curricular da secretária de Educação
de Bogotá] em sua escola. Então, como vocês compreendem a
autonomia docente no trabalho que temos desenvolvido?
27. Adriana: No planejamento curricular existem umas
diretrizes, uns padrões [curriculares], certo? Que se devem
cumprir [###]. Para sermos mais autônomos devemos seguir
pesquisando, seguir aplicando estratégias para resolver
problemas. Cada dia há novas ferramentas, há novas
inovações que devemos levar em consideração. Então eu
acredito que essa parte da autonomia é fundamental [###].
28. Lucas: Eu acho que a autonomia se consegue em sala de
aula, e não é deixar de abordar os temas que estão estipulados
no currículo, simplesmente é buscar as novas estratégias e
considerá-las conforme um enfoque diferente. Não esquecer os
estudantes, as competências, mas enfocá-las a partir de outro
ponto de vista, no qual levemos em consideração os rapazes
[estudantes]...
No Episódio 26 observamos que a professora Natália também
entende a autonomia docente como uma capacidade individual, na
medida em que sua construção estaria relacionada com ensinar
aquilo de que se gosta. Ela também concorda que deve seguir um
currículo que está preestabelecido. A expressão da professora
Natália “eu tenho um currículo que devo cumprir, mas eu também
penso que posso fazer algo de que gosto” evidencia um
posicionamento passivo do sujeito com respeito ao currículo
preestabelecido. No entanto, em seguida a professora valoriza o
trabalho em sala de aula como o espaço que possibilita a
construção de sua autonomia, o que poderia ser interessante para
encorajar a professora no desenvolvimento de seu ensino.
Episódio 26 (EF Grupo 6)
28. PU: Pronto! Depois deste processo [o desenvolvido durante
a disciplina], como vocês estão entendendo a autonomia
docente? Como vocês a estão entendendo ou compreendendo?
29. Natália: Eu penso que a autonomia, a vejo assim: eu tenho
um currículo que devo cumprir, mas eu também penso que
posso fazer algo de que gosto, então eu penso que aí está
minha autonomia, em ter um espaço para algo que me vai
servir e que pode ajudar a eles [os estudantes]. Então, como
Ciências Naturais têm a ver com a tecnologia, aí está
contemplado.
Em todos os casos citados anteriormente, observamos que os
professores compreendem a autonomia como um território individual
ou privado que os restringe aos processos de ensino que
desenvolvem em sala de aula. Essa forma de compreender a
autonomia docente foi, até certo ponto, apropriada historicamente
pela concepção do profissionalismo, que defende a ideia de
considerar a docência como uma profissão autônoma (Contreras,
2002).
O problema do profissionalismo radica em pretender reivindicar o
status social da profissão sem prestar suficiente atenção aos valores
educacionais próprios desta e sem levar em consideração a
participação de vários atores sociais.
A falta de atenção sobre os valores educacionais permitiu que as
reivindicações dos professores fossem se reduzindo a exigências
por melhores condições laborais, o que é importante, mas é
necessário transcender a uma visão mais ampla, na qual os
processos formativos dos professores tenham um papel central.
Outro problema do profissionalismo consiste em uma crescente
instrumentalização da profissão, pois o trabalho do professor
começou a ser valorizado pela eficiência e pelos resultados
positivos do ensino, e não em virtude dos processos formativos
desenvolvidos por ele. Dessa forma, o profissionalismo foi utilizado
para justificar o conhecimento de especialistas que validavam o
trabalho eficiente dos professores.
Surge a ideia de autonomia docente entendida como uma
capacidade individual que implica a não ingerência de estranhos no
processo educativo, o que desencadeia o isolamento do trabalho do
professor da dinâmica social. Assim, a pretensão de questionar o
intervencionismo dos especialistas não é orientada adequadamente ao comprometimento social, como também não é orientada à
formação.
Se bem que os professores avançaram em seu posicionamento
pessoal, conforme foi analisado. Eles restringem sua autonomia a
seu ensino individual, o que limita a construção da autonomia em si,
pois esta não se reduz a uma capacidade que os indivíduos
possuem. Conforme Contreras (ibidem), a autonomia não é apenas
uma capacidade individual, também não é um atributo da pessoa. A
autonomia é um exercício pessoal e social que o professor constrói
e reconstrói permanentemente em relação com outros atores em
determinados contextos sociais e culturais.
Compreender a autonomia implica considerar os processos sociais,
nos quais os professores se assumem como sujeitos autônomos
sob determinadas circunstâncias que os influenciam e que também
eles influenciam. Assim, a autonomia constitui um conjunto de
relações, e não é uma definição de elementos individuais, uma vez
que está determinada pela forma como os professores se
relacionem entre si (ibidem).
Identificamos nas falas de outros professores uma forma diferente
de compreender a autonomia docente como reflexão da prática, o
que transcendeu um pouco a compreensão individualista da
autonomia.
A autonomia compreendia como reflexão e forma
de intervenção na prática docente
No Episódio 27 observamos que o posicionamento do professor
Paulo deixa de estar subordinado à aplicação de um currículo
preestabelecido, pois ele se posiciona como pesquisador de sua
prática. A partir desse posicionamento ele constrói sua autoridade
diante de seus alunos. Assim, interpretamos na fala do professor
Paulo que sua autonomia é compreendida como uma reflexão de
sua prática, que implica considerar o papel de seus alunos nesse
processo.
Episódio 27 (EF Grupo 2)
14. PU: Pronto? Alguém deseja falar outra coisa?... Bom!
Então, outro questionamento: depois do processo que
desenvolvemos na disciplina, como vocês estão
compreendendo a autonomia docente?
16. Paulo: A maior autonomia que tenho conseguido é repensar
em que consiste meu trabalho docente. É só ensinar? É só ficar
de pé falando para os estudantes? É que os meninos
[estudantes] me respeitem? Convenci-me de que sou um
pesquisador e que tudo o que faço para contextualizar os
estudantes tem a ver com isso, então senti a autonomia e
também como trabalhá-la através da abordagem de QSC
conforme o que os estudantes querem e o que eu quero...
17. Fernanda: Eu tenho um problema com a autonomia.
Quando eu tenho os avanços [do trabalho realizado sobre a
abordagem de QSC] e escrevendo o que os meninos
[estudantes] têm discutido, eu agrupo as discussões e as
organizo e penso que é pertinente o que estou fazendo. Mas
quem me diz que aquilo que estou fazendo de uma forma
autônoma está bem? Pode ser que na abordagem de QSC
esteja estabelecido para ser autônoma. Nisso tenho sentido que
me falta [está se referindo a deixar de depender de sujeitos
externos que validem sua autonomia].
Também apreciamos no Episódio 27 que a professora Fernanda
reflete sobre a construção de sua autonomia identificando o
problema de seu próprio encorajamento a partir da pesquisa, pois
ela deixa entrever a preocupação pela legitimação externa do
trabalho realizado por ela. A fala da professora nos mostra que a
forma como ela entende a autonomia transcende uma visão
meramente individualista, pois ela pensa sua autonomia na
intervenção que realiza com seus alunos e que busca sistematizar e
analisar.
O professor Roberto também compreende a autonomia como um
processo de reflexão de sua prática (Episódio 28). Em comparação
com o professor Lucas e as professoras Natália e Adriana, o
professor Roberto reflete criticamente sobre o currículo
preestabelecido, que limitaria a autonomia docente. Dessa forma ele
problematiza o fato de os conteúdos curriculares serem impostos
por agentes externos à sua prática (Ministério de Educação).
Episódio 28 (EF Grupo 6)
28. PU: Pronto! Depois deste processo [o desenvolvido durante
a disciplina], como vocês estão entendendo a autonomia
docente? Como vocês a estão entendendo ou compreendendo?
32. Roberto: A autonomia do docente ou do profissional [da
educação] é limitada, pois está regida por umas diretrizes
dadas pelo Ministério de Educação ou pela secretária de
Educação [da prefeitura da cidade]. Basicamente, a autonomia
está em saber que tipo de estratégias [podemos] utilizar,
através de uma determinada didática, para abordar uma QSC.
Eu acho que a autonomia é poder escolher corretamente diante
da perspectiva CTSA.
O posicionamento subjetivo do professor Roberto também questiona
a instrumentalização do ensino por meio do desenvolvimento de
determinadas estratégias, uma vez que o problema não é
simplesmente aplicar melhores estratégias, tais como as oferecidas
pela perspectiva CTSA. É necessário analisá-las para considerar
seus alcances.
Em todos os casos analisados anteriormente, apreciamos que a
autonomia não é mais um atributo individual que se possui, mas é
uma reflexão sobre a prática, é um processo desenvolvido na
reflexão sobre a ação, e, portanto, não é uma condição que se
possui individualmente como requisito prévio e necessário para a
ação.
Essa forma de entender a autonomia pode ser interpretada,
segundo Contreras (2002), como uma compreensão reflexiva da
prática e foi caracterizada inicialmente no trabalho de Schön (1997)
como característica do professor reflexivo.
A autonomia compreendida como processo reflexivo é construída na
autorreflexão e no questionamento permanente do currículo, que
não é reduzido a um conjunto de conteúdos que devem ser
ensinados, tal como é sustentado pela ideologia tecnicista do
currículo tradicional.
Concordamos com Contreras (ibidem) que a autonomia sob a
perspectiva reflexiva se constrói na dialética entre as convicções
pedagógicas e as possibilidades de sua realização, se constrói nos
eixos reais do transcurso e da relação do ensino, pois, se o
professor não entende as circunstâncias e expectativas de seus
alunos, não poderá realizar o trabalho coletivo que implica a
construção de sua autonomia.
Contudo, a autonomia entendida como reflexão sobre a prática
também tem o problema de limitar-se às dinâmicas do ensino
restrito à sala de aula, desconhecendo as possibilidades que
oferece o ensino articulado a esferas públicas mais amplas da
sociedade, de tal maneira que possa atingir sua própria natureza
social, na medida em que o ensino também envolve valores e
responsabilidades públicas, e não apenas responsabilidades
particulares da escola.
Assim, a autonomia não está desvinculada da conexão com as
pessoas com as quais se trabalha, nem tampouco é um padrão
fixo de atuação. Antes, representa uma busca e um
aprendizado contínuos, uma abertura à compreensão e à
reconstrução contínua da própria identidade profissional, ou de
sua maneira de realizá-la em cada caso. No entanto, não é
possível também desvincular a concepção de autonomia da
forma pela qual se interpreta a relação social e os propósitos
para ela, nem das pretensões educativas. (ibidem, p.199)
Buscaremos caracterizar nas falas de outros professores uma forma
mais ampla de entender a autonomia como processo dialógico e
crítico que leva em consideração o papel e a responsabilidade social
que os professores têm nos processos de ensino desenvolvidos por
eles.
Autonomia compreendida como processo
dialógico e crítico
A autonomia pode ser compreendida além de uma visão
individualista e reflexiva, visto que ela pode ser entendida sob uma
concepção mais ampla que envolve a dimensão pessoal dos
professores, os processos reflexivos sobre sua prática e o ponto de
vista crítico sobre o papel e a responsabilidade social dos
professores.
Uma forma de transcender a visão individualista da autonomia
consiste em assumi-la como uma construção colaborativa. Na
medida em que os professores reconheçam as possibilidades de
trabalho mútuo entre colegas e estudantes, eles perceberão as
possibilidades da construção de sua própria autonomia.
No Episódio 29 observamos que a professora Fernanda amplia sua
compreensão da autonomia (autonomia como reflexão sobre a
prática) apresentada no Episódio 27, manifestando que sua
autonomia tem a ver com a construção de seu próprio currículo,
bem como com a construção do currículo de seus colegas.
Episódio 29 (EF Grupo 2)
15. Fernanda: [Considero a autonomia] no momento de pensar
a QSC, [no momento] de como [ensinar], [penso] sob quais
conceitos [ensinar] e qual articulação existe [desses conceitos]
com o currículo. Pelo menos em meu caso, todas as atividades
que tenho desenvolvido têm sido sob minha autonomia e têm
sido enriquecidas com aquilo que os estudantes fazem. Tem
sido como pretendo ajudá-los e como abordar a QSC no
momento em que tenho em minhas mãos a organização de um
currículo como tal para trabalhar com os outros professores, aí
eu sinto que existiria uma boa autonomia. Colocá-las [as QSC]
como eixo transversal seria uma forma de mostrar autonomia,
mostrar que é possível exercer a prática, isso é o que tenho
construído sobre o conceito [da autonomia].
19. Roberta: Sim! Vejo que a maior virtude que tenho diante do
conteúdo [de ensino] é dominar o conteúdo curricular em meu
planejamento, porque sou absolutamente livre para planejar e
definir tempos, mas penso voltar analisar isto com os
estudantes. Penso que não temos cumprido com o objetivo,
então vamos retomar o trabalho. Então eu acho que esse é o
maior ganho. Eu não tenho problema algum porque eu tenho
autonomia. No entanto, me questiono bastante se meu
processo disciplinar [está se referindo ao ensino específico das
Ciências Naturais] está sendo o que deveria ser, acho que faz
falta maior trabalho transversal com os colegas [da escola dela].
[...] Então eu penso que é importante o encontro com o outro,
com o colega que está nas mesmas condições, porque, se eu
desejo validar minha pesquisa, uns dos elementos didáticos é o
trabalho com os colegas. Penso que a liberdade que eu ganho
com o planejamento curricular também há que ganhá-la no
debate sobre a validação e flexibilização das práticas, inclusive
para considerar como fazemos para estender os limites da sala
de aula.
A forma de realização da autonomia segundo a fala da professora
Fernanda estaria na construção de um currículo transversal, no qual
as QSC seriam o eixo articulador de outros conteúdos de ensino.
Isso é interessante porque o caráter controverso dessas questões
envolve uma potencialidade pedagógica importante para trabalhar
implicações sociais, éticas e ambientais do progresso científico e
tecnológico a partir de diferentes áreas do conhecimento.
A fala da professora Roberta no Episódio 29 também expressa uma
preocupação com o entendimento da autonomia como um processo dialógico, uma vez que para ela o desafio está na construção de
processos coletivos que envolvam a participação de seus colegas,
no intuito de estabelecer formas de validação dos conhecimentos
escolares produzidos por eles mesmos. Dessa forma, a autonomia é
entendida além do trabalho que o professor desenvolve em sala de
aula, pois a liberdade para construir um currículo do professor deve
ser conquistada em processos de discussão que levem a flexibilizar
as práticas docentes em um sentido mais amplo.
No Episódio 30 também identificamos na fala da professora Isabel a
preocupação com que se entenda a autonomia como uma
construção coletiva. Apesar de ela apontar as limitações impostas
pelas diretrizes curriculares (ou políticas curriculares), o destaque
está no diálogo com estudantes, a partir do qual salienta as
mudanças experimentadas por ela durante seu trabalho docente.
Episódio 30 (EF Grupo 5)
31. PU: Bom, pronto! Agora outro questionamento: como vocês
estão entendendo ou compreendendo a autonomia docente de
vocês? Depois do processo vivenciado [na disciplina], como
vocês estão compreendendo sua autonomia?
37. Isabel: Eu assumo minha autonomia em sala de aula, é
isso?
38. Sim! Como você a compreende ou a entende [a
autonomia]?
39. Isabel: Eu a entendo dessa maneira: eu provavelmente não
consegui influenciar grande coisa em meus colegas [da escola],
pelo contexto, pelas políticas [curriculares], as condições. Mas
tenho tentado resgatar espaços de conversa com eles, falar
com eles não com esse poder [de convencê-los], mas de
dialogar. Por exemplo, a professora de Química tinha alunos
reprovados, de quarenta estudantes, mas não se analisava
esse tipo de coisa, isso sobre minha autonomia profissional
pensar que é possível a mudança. A autonomia que assumo
com meus alunos é diferente. Eu dialogo como eles, eu sinto o
prazer de explicar-lhes a metodologia para fazer coisas novas
com eles. Mas não é fácil mudar algumas coisas, gerando
autonomia, pois lhes ensino uma coisa e de repente a aceitam.
Nisso sinto a autonomia.
Por sua vez, no Episódio 31 apreciamos que a professora Cristina
também questiona as políticas curriculares, que parecem
permanecer fixadas, impossibilitando outras dinâmicas
educacionais. >No entanto, a professora aponta que essas políticas
devem ser contextualizadas nos projetos educativos da escola.
Dessa forma, a articulação entre contexto e trabalho docente
poderia oferecer novas possibilidades para entender a autonomia
em termos do ensino em sala de aula, bem como do trabalho
docente compartilhado com outros colegas.
Episódio 31 (EF Grupo 6)
28. PU: Pronto! Depois deste processo [o desenvolvido durante
a disciplina], como vocês estão entendendo a autonomia
docente? Como vocês a estão entendendo ou compreendendo?
30. Cristina: Eu penso que, igual, existem várias políticas
educacionais [curriculares] que não mudam, mas sob essas
políticas podemos considerar algumas coisas. Também os
padrões curriculares devem ser articulados com o projeto
pedagógico no qual trabalhamos, e de acordo com essa
articulação há um contexto. E aí penso que está a autonomia,
quando podemos contextualizar o trabalho docente em nosso
fazer pedagógico. A autonomia profissional depende das
expectativas que tenhamos, porque por mais políticas
educacionais [curriculares], por mais padrões [curriculares],
percebemos que em sala de aula e partilhando com os colegas
[da escola], começamos a redefinir a dinâmica [escolar], então
apropriamos essa parte reflexiva.
Em todos os casos que analisamos anteriormente, evidenciamos de
diferentes formas que a autonomia docente é compreendida como uma forma de relacionamento com os outros, o que é fundamental
para o encorajamento dos professores, pois a autonomia envolve
uma responsabilidade social e, portanto, deve ser entendida como
uma interação intersubjetiva. Assim, segundo Contreras (2002), a
autonomia não deve responder tanto à definição legal dos direitos e
das competências docentes, pois depende mais das possibilidades
de sua construção no diálogo social e no entendimento mútuo. O
diálogo social constitui uma das qualidades centrais da autonomia
assumida como um processo dinâmico em construção.
Segundo Freire (2003; 2007), o diálogo é uma forma relevante de
realização do ser humano, e por meio dele podemos superar
concepções ingênuas da realidade, pois o ser humano, ao
pronunciar o mundo com a palavra, desencadeia ações
transformadoras de sua própria existência e da existência dos
outros com os quais convive socialmente.
Dado que ainda existe uma influência considerável do currículo
tecnicista e da visão individualista que influi na forma como a
autonomia docente é compreendida por professores de Ciências em
serviço, o diálogo representa um elemento importante para repensar
a autonomia em um processo de ação-reflexão.
As análises realizadas sobre os episódios 29, 30 e 31 nos mostram
que os processos dialógicos na escola e em sala de aula podem
representar uma perspectiva importante para entender a autonomia
docente como um processo colaborativo entre sujeitos preocupados
em pensar sua prática, o que também pode ser relevante para
dinamizar processos de transformação do ensino de Ciências
tradicional.
O diálogo entendido como construção intersubjetiva encoraja os
sujeitos para a busca de sua realização pessoal em termos sociais,
e não apenas individuais. Nesse sentido, também identificamos uma
compreensão crítica da autonomia docente por parte de alguns PP.
No Episódio 32 observamos que a professora Fátima entende a
autonomia como um processo de encorajamento por meio do qual questiona as imposições estabelecidas pelo currículo e reivindica
sua formação docente como um processo permanente de pesquisa
crítica. No Episódio 33 também apreciamos o encorajamento da
professora Angélica, que compreende a autonomia como o poder
transformar sua prática docente e como o reconhecimento das
vozes dos estudantes, que são valorizadas no ensino desenvolvido
pela professora.
Episódio 32 (EF Grupo 2)
20. Fátima: Meu percurso profissional e, portanto, minha
experiência docente não são tão amplos, mas tenho algo claro
para nós desenvolvermos a autonomia. Deve-se ter uma
finalidade clara e não se deve deixar distorcer por todas
aquelas coisas que nos impõem no exercício profissional, a
emissão de notas, os relatórios de laboratório e outras coisas
que nos pedem para fazer. Eu acho que se deve considerar
essa autonomia docente como essa permanente pesquisa
crítica do que estou fazendo.
Episódio 33 (EF Grupo 5)
31. PU: Bom, pronto! Agora outro questionamento: como vocês
estão entendendo ou compreendendo a autonomia docente de
vocês? Depois do processo vivenciado [na disciplina], como
vocês estão compreendendo sua autonomia?
41. Angélica: O poder desenvolver uma prática pedagógica
diferente daquela que estava realizando antes. [A autonomia] É
poder ensinar, planejar e desenvolver as aulas com meus
alunos, permitindo-lhes o encontro com um determinado tema
para poder construir possibilidades de ensino e aprendizado. E
então, nesse sentido utilizei a QSC, gostei disso e vejo muitos
aspectos importantes sobre os quais os estudantes perguntam
e gostei que eles também percebem que como professora não
sei tudo.
Em síntese, apreciamos que a autonomia pode ser compreendida
além de um processo individual e reflexivo, passando a ser vista de
forma dialógica e relacionada com preocupações sociais e pessoais
dos professores que transcendem a dinâmica da sala de aula e
convidam a pensar em espaços educativos mais amplos da escola e
do currículo. Desse modo, a autonomia poderia enriquecer as
práticas dos professores e os contextos escolares com o intuito de
favorecer mudanças educacionais.
Para Contreras (2002), a autonomia entendida criticamente requer
análise das condições de nossa prática, nossos pensamentos e
nossos contextos sociais e escolares, contribuindo, dessa maneira,
para que o ensino não se torne uma prática de reprodução e
distanciamento do compromisso social.