Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores

Parte III – Análise de discurso crítica (ADC) como dispositivo analítico

Parte III – Análise de discurso crítica

 

(ADC) como dispositivo analítico

 

8 – Origem da análise de discurso crítica (ADC) e

 

principais elementos teóricos

 

Nos últimos anos, as pesquisas sobre a linguagem e o ensino de

Ciências têm aumentado consideravelmente, oferecendo um quadro

teórico e metodológico interessante para estudar as relações entre

ciência e cultura simbólica. Martins (2006) salienta que as pesquisas

preocupadas com as questões da linguagem têm abandonado as

análises das visões ou das concepções focadas no indivíduo para

privilegiar as análises dos sentidos e significados construídos nos

processos de interação discursiva.

 

Segundo a autora citada, as pesquisas sobre as interações

discursivas no ensino de Ciências estão preocupadas em discutir os

processos pelos quais as ideias são propostas, negociadas ou

defendidas no discurso, levando em consideração que o ensino e a

aprendizagem das Ciências são vistos como um processo de

enculturação científica, no qual estudantes e professores negociam

novos significados em um processo comunicativo.

 

O interesse pela linguagem e pela cultura no ensino de Ciências tem

favorecido o desenvolvimento de diversas perspectivas de análise

de discurso que fundamentam pesquisas na área.

 

Os trabalhos de Mortimer e Scott (2002), Mortimer et al. (2007) e

Martins (2006) têm adotado a perspectiva sociocultural, a partir da

qual vêm desenvolvendo seus trabalhos embasados na ideia de que

a pesquisa no ensino de Ciências envolve a análise tanto de

interações discursivas, como de suas condições sociais e cultuais

de produção. Assim, esses trabalhos têm constituído contribuições relevantes para entender os tipos de interações e padrões

discursivos estabelecidos em sala de aula.

 

Por sua vez, os trabalhos de Cortela e Nardi (2004), Almeida (2007)

e Camargo e Nardi (2008) têm adotado a análise de discurso de

linha francesa segundo a proposta de Michel Pêcheux (1938-1983)

para estudar questões de memória da área e discursos de

licenciandos e professores em serviço sobre processos de

reestruturação curricular de cursos de licenciatura.

 

Os trabalhos embasados na análise de discurso pêchetiana têm

oferecido importantes contribuições sobre as questões ideológicas e

políticas que abrangem o ensino de Ciências e a formação dos

professores.

 

Uma terceira perspectiva de análise de discurso pouco desenvolvida

na área corresponde à AD C, também denominada análise de

discurso crítica. Na área de ensino de Ciências no Brasil, essa

perspectiva tem sido utilizada por Martins (2007) e Martins e

Vilanova (2008) para estudar os discursos que mobilizam a

produção de textos didáticos que abordam temas de saúde.

 

Martins (2007) salienta que a abordagem crítica da análise de

discurso ajuda a compreender que os textos que circulam nos

espaços educativos em Ciências constituem práticas sociais que

podem constranger significações enunciativas dos sujeitos, mas que

também podem conter alternativas de deslocamento dos sujeitos.

 

No contexto internacional, a pesquisa de Hanrahan (2006) utiliza a

ADC para estudar os efeitos das práticas discursivas dos

professores de Ciências a respeito das compreensões e atitudes

dos estudantes sobre a ciência escolar e a ciência em um sentido

mais amplo. A pesquisa utiliza o modelo tridimensional da ADC, que

abrange a compreensão do discurso como texto, prática social e

prática discursiva, com o intuito de estudar as formas de representar

a ciência em sala de aula, bem como os modos de agir e de se

relacionar em aulas de Ciências.

Hanrahan (ibidem) conclui em sua pesquisa que os dois professores

participantes do estudo operam sob exigências curriculares

disciplinares, e as diferenças identificadas entre eles estão nos

estilos de ensino que desenvolvem em suas aulas. Nesse sentido, o

autor sugere trabalhar habilidades de comunicação, habilidades de

conhecimento pedagógico do conteúdo de Ciências que lhes

possibilitem favorecer a formação de todos os seus alunos, na

medida em que possam emancipar-se das práticas tradicionais do

ensino de Ciências.

 

A ADC oferece grandes possibilidades teóricas e metodológicas

para estudar processos de mudança educacional, uma vez que foca

na compreensão dos problemas enfrentados pelos sujeitos em

termos discursivos, oferecendo subsídios para que eles possam

superar esses problemas e se engajar em processos

transformadores de sua própria prática social.

 

A ADC é uma perspectiva de análise de discurso desenvolvida para

estudar os diferentes usos da linguagem nos processos de mudança

social, pois os discursos constroem e constituem diferentes relações

sociais, que, por sua vez, posicionam os sujeitos de diferentes

modos. Assim, é de interesse da perspectiva crítica estudar os

efeitos sociais do discurso, bem como as mudanças culturais de

como os discursos se combinam em determinados contextos sociais

para produzir ou reproduzir significados, de acordo com

determinadas relações de poder, interesses e compromissos

ideológicos. Dessa maneira, a dimensão crítica da análise de

discurso é relevante, pois contribui no estudo das “opacas” ou

“transparentes” relações de dominação, discriminação, poder e

controle.

 

Nesse contexto, focaremos em discutir os fundamentos teóricos da

ADC conforme a sua origem e as dimensões de análise que serão

utilizadas nesta pesquisa.

 

Adotamos a denominação análise de discurso crítica, e não análise

crítica de discurso, porque foi o termo utilizado pela primeira vez em

língua portuguesa no trabalho de Magalhães (1986) para se referir ao estudo da linguagem como prática social na sociedade

contemporânea. Segundo Magalhães (2005), o termo Critical

Discourse Analysis foi introduzido internacionalmente por Norman

Fairclough em 1985 e foi se constituindo como um campo de

pesquisa crítica sobre as transformações socioculturais e

econômicas das últimas décadas. As discussões teóricas mais

importantes desse campo de pesquisa têm sido desenvolvidas em

três periódicos internacionais: Discourse and Society, Cadernos de

Linguagem e Sociedade e Critical Discourse Studies.

 

Conforme Wodak (2003a), a ADC se desenvolveu

internacionalmente no início da década de 1990, posteriormente à

realização de um simpósio realizado em Amsterdã, do qual

participaram autores tais como Teun van Dijk, Norman Fairclough,

Gunther Kress, Teo van Leeuwen e Ruth Wodak, que são

considerados atualmente como os representantes mais expressivos

da ADC.

 

A partir desse momento a ADC foi se construindo em uma

perspectiva teórica e metodológica de análise que abrange várias

teorias sociais e linguísticas, o que foi caracterizando a

transdisciplinaridade dessa perspectiva, em virtude de que

diferentes disciplinas estão abertas para experimentar

transformações na interação, transcendendo o nível interdisciplinar

(Fairclough, 2003a).

 

Conforme uma concepção transdisciplinar, a ADC resgata as

contribuições da filosofia da linguagem exposta por Mikhail Bakhtin

(1895-1975), a linguística sistêmica de Michael Halliday (1925-) e as

teorias sociológicas e filosóficas críticas de Gramsci (1891-1937),

Foucault (1926-1984) e Habermas (1929-). Assim, constrói uma

leitura particular sobre questões de discurso, ideologia e poder no

contexto da sociedade contemporânea.

 

Conforme Fairclough (2003b, p.91), o discurso é “um modo de ação,

uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e

especialmente sobre os outros, como também um modo de

representação”. Nesse sentido, o conceito de discurso envolve uma concepção de linguagem como uma prática social, e não como uma

atividade individual abstrata. O discurso também está relacionado

dialeticamente com as estruturas sociais, de tal maneira que as

dimensões sociais condicionam a produção de discursos, bem como

os discursos produzem determinadas estruturas sociais.

 

O discurso pode ser compreendido como texto, prática discursiva e

prática social. O discurso como texto constitui partes ou fragmentos

da linguagem falada, escrita ou gestual que é produzida por

determinados sujeitos em determinados contextos sociais e

históricos. Assim, a linguagem, de acordo com Bakhtin e Volochínov

(1988), é constituída fundamentalmente pelo fenômeno social da

interação verbal realizada por meio das enunciações.

 

O discurso entendido como prática discursiva abrange os processos

de produção, distribuição e consumo de textos, de tal forma que a

natureza desses processos varia, dependendo do tipo de discurso e

dos fatores sociais adjacentes. O discurso como prática social

entrelaça-se à questão de ideologia e de relações de poder.

 

O discurso como texto, prática discursiva e prática social possui

também três efeitos construtivos. Em primeiro lugar, contribui para a

formação de identidades sociais. Em segundo, contribui para

construir as relações sociais entre as pessoas e, finalmente, no

terceiro aspecto, contribui para a construção de sistemas de

conhecimentos e crenças. Esses três efeitos do discurso se

apresentam de três maneiras diferentes nas práticas sociais, como

modo de agir (significado acional), modo de representar (significado

representacional) e como modo de ser (significado identificacional).

 

Segundo Wodak (2003a), a ADC propõe pesquisar as diversas

formas como o uso da linguagem legitima, expressa ou constitui

desigualdades e injustiças sociais. Dessa maneira, o autor concorda

com Habermas (1987) que a linguagem também pode ser um meio

de dominação, bem como uma força social importante que serve

para legitimar as relações de poder constituídas em uma

determinada sociedade, seja de forma direta ou oculta, conforme

sejam desenvolvidas ideologicamente.

A ADC questiona a sociolinguística pragmática e a tradicional, nas

quais as variáveis contextuais são consideradas ingenuamente, uma

vez que a linguagem é considerada como um sistema autônomo ou

determinista em relação com o contexto social. Ao contrário, a

perspectiva crítica da análise de discurso considera os usos da

linguagem na produção discursiva como um processo histórico, no

qual as estruturas sociais dominantes se legitimam por meio de

ideologias de grupos que ostentam o poder. Portanto, é necessário

o estudo das pressões desses grupos e daqueles que resistem ou

geram propostas contrárias à ordem estabelecida.

 

As estruturas dominantes estabilizam determinadas convenções

sociais e as naturalizam até o ponto em que os efeitos do poder e

da ideologia na produção de sentido são naturalizados ou

coisificados como se fossem algo predeterminado e imutável. No

entanto, os efeitos do poder desencadeiam a crítica como processo

criativo, no qual são geradas rupturas das convenções

estabelecidas.

 

Podemos entender o papel da crítica como o necessário

distanciamento do estabelecido socialmente e o posicionamento

político aberto a outros pontos de vista que, na interação

intersubjetiva, constroem novas leituras e propostas sobre os usos

da linguagem na sociedade.

 

A crítica na análise de discurso abrange a teorização sobre

processos e estruturas sociais que motivam a produção de textos,

assim como a análise das estruturas e processos sociais, nos quais

os indivíduos e grupos, enquanto sujeitos históricos, constroem

sentidos em interação com esses textos. Conforme Fairclough

(2001a), usamos o termo texto(s) para nos referirmos a qualquer

tipo de produção discursiva, seja escrita, falada ou gestual.

 

Segundo Wodak (2003b), a ADC sob uma orientação sociológica e

filosófica da teoria crítica1 opera segundo um complexo conceito de

crítica social constituído por três aspectos inter-relacionados: a crítica imanente, a crítica sociodiagnóstica e a crítica de caráter

prognosticador.

 

A crítica imanente tem o objetivo de desvelar as incoerências, as

contradições, os paradoxos e os dilemas existentes nas estruturas

internas dos textos ou dos discursos. A crítica sociodiagnóstica

implica que o analista desenvolva um estudo mais amplo do

contexto social e político no qual está inserido o texto ou o discurso.

Portanto, esse tipo de crítica se fundamenta em teorias sociológicas

para interpretar os processos discursivos.

 

A crítica prognosticadora contribui para apontar possíveis

transformações nos processos comunicativos desenvolvidos em

diferentes estruturas sociais, tais como a família, a escola, os

órgãos de poder do Estado, entre outras.

 

O caráter crítico da ADC não nega o necessário posicionamento

sociopolítico do pesquisador, pois este realiza suas análises

investido de um compromisso social de desvelar os usos da

linguagem nos quais se pretende exercer o poder com o objetivo de

dominar e controlar as pessoas.

 

O compromisso político adotado na ADC não significa que essa

teoria de análise desenvolva uma interpretação parcial dos dados,

pois continuamente a análise é aberta aos novos resultados das

pesquisas e ao exercício permanente da autocrítica e de crítica de

outras perspectivas teóricas. Precisamente a própria construção

teórica da ADC abrange diferentes perspectivas das teorias sociais

do discurso e da linguística crítica com o objetivo de estudar a

complexidade entre discurso e relações sociais.

 

Conforme Fairclough (2001a, p.28), o caráter crítico da análise de

discurso “implica mostrar conexões e causas que estão ocultas;

implica também intervenção na sociedade”, de tal forma que os

problemas sociais e educativos estão estreitamente vinculados com

os usos da linguagem e, portanto, à produção, ao consumo e à

transformação do discurso.

Existem seis aspectos relevantes salientados por Fairclough e

Wodak (1997) que orientam os estudos da ADC: 1) as relações de

poder são discursivas; 2) o discurso implica um papel ideológico; 3)

o discurso é histórico; 4) o vínculo entre o texto e a sociedade é

mediado discursivamente; 5) a análise de discurso é interpretativa e

explicativa; 6) o discurso é uma forma de ação social. De acordo

com os pontos apresentados anteriormente, focaremos em discutir o

poder e a ideologia como dois elementos centrais da ADC.

 

1 A expressão teoria crítica utilizada por Wodak se refere às

contribuições teóricas da escola de Frankfurt, de acordo com os

trabalhos fundadores de Horkheimer, Adorno e Marcurse, bem como

os trabalhos dos teóricos contemporâneos, tais como Habermas e

Honneth.