Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
6 A formação crítica de professores
A teoria da semicultura ou da semiformação foi proposta por
Adorno, em 1959, de acordo com sua análise do desenvolvimento
da sociedade capitalista, que visava à preparação de seus clientes,
negando-lhes a formação cultural. De forma análoga à que Kant
analisa o caráter problemático do esclarecimento no Iluminismo,
Adorno analisa a forma como a formação tornou-se problemática na
sociedade do capitalismo maduro.
Adorno (1996), na análise da crise da formação cultural da
sociedade moderna, já alertava sobre a falta de reflexão sobre o
significado da formação nas reformas educacionais e nos próprios
estudos sociológicos. De fato, as pesquisas das várias áreas, sejam
pedagógicas ou sociológicas, pareciam não se importar o suficiente
com essa questão, pois o termo era praticamente definido a priori.
Adorno nos oferece uma concepção ampla e enriquecedora sobre a
formação como um processo de apropriação cultural. Sua tese,
segundo a tradição filosófica da Alemanha, parte da distinção entre
o que significa civilização e cultura. A civilização representa a
reprodução material das sociedades em seu decorrer histórico,
enquanto a cultura corresponde ao mundo das ideias, das
sensações, dos valores e das visões de mundo que transcendem o
terreno material da civilização.
O mundo da cultura teve um grande papel nas grandes
transformações burguesas do final do século XVII com a vitória da
Revolução Francesa, a qual abriu o caminho não só para a
constituição de um modo de produção capitalista, mas, sobretudo,
para a concretização do ideal de liberdade, igualdade e fraternidade
como características relevantes da democracia.
A grande pretensão da proposta de formação cultural burguesa
era a de que os indivíduos livres e racionais poderiam fazer uso
da vontade e do livre-arbítrio, ainda que tivessem que viver em
sociedade e que com isso sublimassem seus impulsos. (Zuin;
Pucci; Oliveira, 2001, p.55)
O conceito de formação cultural burguês visava à construção de
uma humanidade mais justa socialmente, na qual todas as pessoas
tivessem as mesmas oportunidades de ascensão social.
No entanto, de acordo com Adorno (1996), o conceito de formação
cultural burguês experimentaria uma verdadeira crise no século XX,
pois a promessa de liberdade e justiça social diluía-se cada vez
mais com a rendição da produção material e espiritual à lógica do
valor do uso e de troca imposta pelo capital. Os próprios valores,
ideias e necessidades afetivas e materiais subsumiam-se cada vez
mais ao consumo exacerbado. Assim, a promessa da formação
cultural diluía-se em seu próprio processo de construção, pois desde
o começo parecia não atender à sua primeira promessa. Os bens
culturais constituíram-se em mercadorias acessíveis às grandes
camadas da população – o que excluiu seu caráter cultural para
adquirir valor de troca, para atingir a necessidade de acumulação e
consumo do sistema –, de modo que os produtos culturais
passaram a ser bens de consumo coletivos, destinados à venda e
avaliados de acordo com sua lucratividade ou aceitação no
mercado, de tal modo que foram desconsiderados por seus valores
estéticos, filosóficos ou literários intrínsecos.
A formação cultural foi se tornando semicultura ou semiformação na
medida em que as produções simbólicas foram reduzidas a uma
lógica instrumental que garantia a reprodução indefinida da
adaptação dos sujeitos à sociedade do mercado, de maneira que o
caráter emancipatório da cultura foi subjugado como processo
formativo, o que impossibilitou a insatisfação permanente dos
sujeitos diante da realidade social.
A formação cultural agora se converte em uma semiformação
socializada, na onipresença do espírito alienado, que, segundo
sua gênese e seu sentido, não antecede à formação cultural,
mas a sucede. Deste modo, tudo fica aprisionado nas malhas
da socialização. Nada fica intocado na natureza, mas, sua
rusticidade – a velha ficção – preserva a vida e se reproduz de
maneira ampliada. Símbolo de uma consciência que renunciou
à autodeterminação, prende-se, de maneira obstinada, a
elementos culturais aprovados. Sob malefício gravitam como
algo descomposto que se orienta à barbárie. (ibidem, p.389)
A formação, segundo Adorno (ibidem), é uma cultura tomada pelo
lado de sua apropriação subjetiva – dado seu caráter duplo,
enquanto adaptação para manter a ordem criada pelo homem ou
como desprendimento da mera adaptação, para a necessária
reflexão subjetiva que visa à emancipação dos sujeitos dos mitos
criados historicamente. Tal caráter, com o desenvolvimento da
sociedade burguesa, experimentou grandes transformações,
privilegiando uma perspectiva adaptativa e levando a cultura a
regredir e a se tornar um processo que, ao se conformar com a vida
real, impede os homens de se educarem uns com os outros. Desse
modo, a reflexão é afastada dos impactos dos bens culturais,
objetivados de tal forma que se tornam absolutos em si mesmos.
O duplo caráter da cultura nasce do antagonismo social não
conciliado no processo de reacomodação da cultura como nova
adaptação que desvela uma falsa formação, que instala a
adaptação sobre todo fim racional investido de uma falsa
racionalidade vazia que é rotulada com o slogan de uma falsa
liberdade.
Apesar de, com a instalação da sociedade burguesa e de seu
ideário de seres livres e iguais, a formação ter se tornado uma
reflexão de si mesma, seu caráter foi desprendido rapidamente de
seu fim e de sua função real, de tal maneira que o indivíduo era
livre, mas lentamente era afastado da realidade material e de suas
claras contradições e desigualdades, de modo que abandonava a
práxis como um elemento fundamental da cultura. Assim, os
indivíduos deixavam de atuar na sociedade e se afastaram da busca
de uma humanidade sem status e sem exploração. Ao contrário, a
sociedade capitalista progressivamente honrava o trabalho socialmente útil, transformava os bens culturais em mercadorias e
abraçava a desumanização adjacente com seu próprio modo de
produção.
É importante compreender que o problema da formação por meio do
esclarecimento não é um processo exclusivo da sociedade
capitalista nem um processo somente da classe burguesa. Adorno e
Horkheimer (1985) evidenciam que o problema do esclarecimento é
um problema desde os primórdios da humanidade, no qual o
esclarecimento procurou solapar as explicações mitológicas e
irracionalistas substituindo-as pelo saber racional. Assim, no
decorrer da história o esclarecimento teve como objetivo libertar aos
homens do obscurantismo e da ignorância por meio da autorreflexão
subjetiva, inclusive na época moderna, quando o conhecimento
científico é esvaziado de seu caráter formativo e governado pela
razão instrumental, o que acaba constituindo-se como uma força
produtiva central do capitalismo tardio.
A universalização do gênero humano, por meio da
instrumentalização da razão, ao invés de provocar apenas a
emancipação, reproduz o isolamento e a dessensibilização.
Talvez possamos dizer que tal situação já acompanha a história
da humanidade desde o tempo em que a racionalidade mítica
passou a ser combatida, objetivando-se o controle racional da
natureza interna e externa. Contudo, torna-se também evidente
que esse procedimento encontra seu ápice quando a ciência
definitivamente se transforma na principal mercadoria da
sociedade capitalista contemporânea. (Zuin; Pucci; Oliveira,
2001, p.52)
A formação revela a tensão entre autonomia, liberdade e sua
configuração à vida social governada pela adaptação. Em termos de
Adorno (1996), o caráter duplo da cultura implica o paradoxo de ser
autônomo sem submeter-se à tutela de outro e submeter-se sem
perder a autonomia, o que implica a aceitação do mundo negando-o
permanentemente.
O paradoxo também é apresentado entre a universalização do
mercado que instaura a sociedade do consumo de bens culturais e
a adaptação da cultura à semicultura sem nenhum poder
emancipatório, pois serve à reprodução das estruturas sociais
estabelecidas. A semicultura constitui um processo mais perigoso
que a não cultura, dado que esse processo, que também é
denominado não saber, é uma predisposição fundamental para
conhecer. Assim, a ignorância motiva a busca pelo entendimento e a
compreensão. O semissaber pressupõe partir de que se sabe algo,
o que pode implicar um fechamento inicial à possibilidade de
conhecer ou saber.
A não cultura, como mera ingenuidade e simples ignorância,
permitia uma relação imediata com os objetos e, em virtude do
potencial de ceticismo, engenho e ironia – qualidades que se
desenvolvem naqueles que não são inteiramente domesticados
–, podia elevá-los à consciência crítica. Eis aí algo fora do
alcance da semiformação cultural. (ibidem, p.397)
O que é entendido pela metade, e nesse ponto se outorga a
verdade resistindo a qualquer tentativa de mudança, resulta mais
difícil de avançar no caminho de um processo formativo que implica
um entendimento crítico da adaptação enquanto processo
necessário para a sobrevivência, mas, especialmente, implica um
comprometimento com os processos emancipatórios que envolvem
a conquista da autonomia.
Concordamos com Pucci (1998, p.97) que a semiformação propicia
um “verniz formativo que não dá condições de se ir além da
superfície” e inibe as potencialidades das pessoas de contribuírem
na transformação social.
Apesar do poder hegemônico da semicultura para adestrar os
sujeitos, a formação cultural não desapareceu no capitalismo tardio
e, segundo Adorno (1996), representa a antítese da semiformação.
Por essa razão é fundamental outorgar um lugar privilegiado à
formação na educação dos professores, visando-a como um
processo permanente de questionamento e de luta pela autonomia. Embora a formação não possa ser reduzida nem à sua origem como
autonomia nem à adaptação das condições da vida social, dado o
esvaziamento do poder emancipatório da cultura no capitalismo
tardio, é necessário reivindicar com maior força o papel da
autonomia, pois oferece uma autorreflexão crítica da semicultura
como um passo essencial para quebrar sua perigosa naturalização.
A constituição da autonomia implica um resgate da experiência
formativa nos processos educacionais dos professores, na medida
em que o conhecimento experiencial desenvolvido desvia a atenção
das emoções contínuas de fácil alcance que são promovidas pela
semicultura. Resgatar a experiência formativa implica uma crítica a
todas as situações e realizações que impedem o homem de viver
plenamente sua capacidade de realizar-se na cultura.
Adorno (ibidem) reivindica a noção kantiana de esclarecimento para
destacar na experiência formativa os elementos da razão que levam
à maioridade e ao amadurecimento dos sujeitos por meio de um
processo objetivo da subjetividade, o que também pode ser descrito
como a formação e atuação do homem como sujeito ousado e
ilustrado.
O processo de semicultura é o antípoda da proposta de Kant,
pois priva o sujeito de sua iniciativa/criatividade subjetiva e o
despotencializa na objetivização de sua subjetividade em suas
ações concretas. [...] A busca da educação/formação enquanto
Aufklärung1 em sua contraposição ao processo de semicultura,
não se dá, pois, apenas no campo puramente subjetivo,
superestrutural; é uma busca que atinge o homem e a
sociedade enquanto um todo, em sua capacidade
subjetiva/objetiva, nas condições ideais e materiais de reagir, de
se contrapor e de direcionar e perspectiva da emancipação.
(Pucci, 1998, p.112)
Assim a educação como processo formativo atinge o homem e a
sociedade como um todo em sua capacidade subjetiva e objetiva, bem como nas condições ideais e materiais de agir com o objetivo
de alcançar a emancipação.
A perspectiva adorniana sobre a educação nos ajuda a
compreender a formação de professores como um processo
permanente que transcende os diferentes momentos de
escolarização, pois a semiformação permeia toda a vida social,
especialmente aquela que ocorre fora das instituições educacionais.
Por essa razão, é importante que a educação de professores
favoreça experiências crítico-formativas que os encorajem na
constituição de sua autonomia.
A tese da formação do professor como processo de apropriação
subjetiva e objetiva da cultura é importante no que diz respeito a
ensinar Ciências, pois as ciências também são uma construção
humana e cultural.
Existe um representativo número de trabalhos de pesquisa em
ensino de Ciências que apontam a ciência como uma forma de
cultura constituída historicamente por diversas, práticas, valores e
linguagens (Cobern; Aikenhead, 1998; Newton; Driver; Osborne,
1999; Roth; Lawless, 2002; Carvalho, 2007a; 2007b).
Levando em consideração os trabalhos citados, destacamos
algumas contribuições da concepção sociocultural do ensino de
Ciências que nos permitem trabalhar na formação dos professores a
natureza social do conhecimento científico em permanente evolução
e transformação de acordo com a visão crítica adotada em nosso
trabalho.
Segundo a perspectiva sociocultural, os modelos ou teorias
construídos pelas ciências são construções humanas e não podem
ser considerados como simples observações sistemáticas da
natureza, de tal modo que o ensino de Ciências deve aproximar os
estudantes de uma nova forma de ver os fenômenos do mundo em
que vivem, assim como deve favorecer a apropriação de uma
linguagem que lhes permita representar e explicar tais fenômenos. A
perspectiva sociocultural entende a aprendizagem dos estudantes como um processo de enculturação, no qual o professor favorece o
acesso às formas que a ciência possui para a construção de
conhecimento.
Segundo Carmo e Carvalho (2009), a concepção de aprendizagem
como enculturação implica envolver os estudantes na cultura
científica, apreendendo parte de suas linguagens, seus métodos,
seus processos e suas práticas, o que contribui para a construção
de novas visões de mundo. No entanto, é importante precisar que a
enculturação não pode ser considerada como uma mera aquisição
de uma nova cultura em detrimento da cultura preexistente formada
no cotidiano. O que interessa é que os estudantes aprendam a
valorizar e a utilizar suas próprias concepções e as concepções das
ciências conforme as situações específicas o exijam. Nesse sentido,
Cobern e Aikenhead (1998) salientaram que a enculturação
científica é evidenciada nos estudantes no momento em que eles
apreendem a valorizar e utilizar as explicações científicas em
determinados contextos sociais sem anular suas próprias
concepções e experiências que caracterizam sua própria cultura.
A enculturação científica é um elemento relevante para a
perspectiva CTSA na formação dos professores, porque implica um
diálogo entre cultura científica e cultura humanística, tendo em
consideração a dicotomia existente entre essas duas culturas. O
trabalho de Snow (1995, p.127) salienta a importância de superar a
dicotomia entre essas duas culturas.
A divisão da nossa cultura está nos tornando mais obtusos do
que necessitamos ser. Podemos restabelecer as comunicações
até certo ponto. Mas, como já disse antes, não estamos
formando homens e mulheres que possam compreender o
nosso mundo tanto quanto Piero della Francesca ou Pascal ou
Goethe compreendiam o seu. No entanto, com sorte, podemos
educar uma grande proporção de nossas melhores inteligências
para que não desconheçam a experiência criativa, tanto na
ciência quanto na arte, não ignorem as possibilidades da
ciência aplicada, o sofrimento remediável dos seus Os cientistas compartilham um sistema bem definido de significados
contemporâneos e as responsabilidades que, uma vez
estabelecidas, não podem ser negadas.
A enculturação científica é importante para a formação de
professores, porque é um processo que vai além do
desenvolvimento de habilidades para ensinar determinados
conteúdos científicos. Implica voltar o ensino de Ciências ao diálogo
entre cultura científica e as culturas escolares que os estudantes
desenvolvem a partir de suas experiências e convicções.
Maddock (1981) propôs um ponto de vista cultural salientando que a
ciência e o ensino de Ciências são empreendimentos sociais que
abrangem uma rede de significados, a partir dos quais o ser humano
interpreta o mundo em determinados contextos. Esse
empreendimento social representa uma subcultura da cultura
ocidental e, portanto, pode entrar em conflito com outras formas
culturais de outorgar sentido ao mundo.
De acordo com Cobern e Aikenhead (1998), sob uma perspectiva
antropológica, o ensino de Ciências pode ser entendido como um
sistema organizado de significados e símbolos em termos de
interações sociais. Assim, podemos caracterizar diversas culturas
(oriental, ocidental, indígena etc.) de acordo com o sistema de
significados e símbolos usados por determinados grupos sociais. A
cultura implica normas, valores, crenças e expectativas de um grupo
determinado. Conforme Giroux (1997, p.167), a cultura implica “as
maneiras distintas nas quais um grupo social vive e dá sentido às
circunstâncias e às condições de vida que lhe são dadas”.
Em uma cultura há subgrupos que normalmente são identificados de
acordo com a raça, a linguagem, a etnia, a classe social, a religião
etc. Uma pessoa pode fazer parte de vários subgrupos ao mesmo
tempo, de modo que se configura uma diversidade cultural
importante para os processos de ensino de Ciências. Furnaham
(1992) identificou a forte influência de determinados subgrupos na
aprendizagem da ciência. Cada subgrupo está composto por
pessoas que compartilham determinados significados e símbolos
em determinados lugares e contextos.
e símbolos em termos de determinadas interações sociais em
determinados espaços sociais (universidades, institutos de
pesquisa, empresas etc.) marcados por sua tradição ocidental,
sendo que a cultura ocidental, ao ocupar um lugar privilegiado de
prestígio, pode excluir outras culturas por considerá-las não cultura
e por não compartilhar sua visão de mundo, criando dessa forma
uma relação de dominação.
A enculturação autônoma proposta por Cobern e Aikenhead (1998)
articula o ensino de Ciências com a constituição da cidadania dos
estudantes ao reconhecerem sua cultura cotidiana. Assim, o
desejável é que eles transponham as fronteiras entre sua cultura
cotidiana e a cultura científica aprendendo a utilizar as
possibilidades que cada uma lhes possibilita em determinadas
situações ou contextos sociais.
A tentativa de construir processos de enculturação científica nas
aulas de Ciências não é uma tarefa fácil e pode favorecer processos
de encorajamento ou de perturbação nos estudantes, dependendo
dos cuidados que sejam considerados. Para o primeiro caso, o
ensino de Ciências articula-se com a cultura do cotidiano dos
estudantes (senso comum) buscando que eles desenvolvam um
raciocínio autônomo e crítico sobre as compreensões que possuem
a propósito do mundo que os envolve ou dos fenômenos
apresentados nesse mundo. Dessa forma, a enculturação autônoma
não é um processo de substituição ou de mudança radical de ideias
próprias do senso comum. Pelo contrário, busca-se que os
estudantes aprendam as regras, as linguagens e os sistemas de
valores da ciência que lhes permitam possuir uma visão de mundo
mais abrangente e que ao mesmo tempo favoreçam a análise do
senso comum contido em suas ações diárias.
No entanto, se o ensino de Ciências perturba o pensamento
cotidiano dos estudantes, obrigando-os a abandoná-lo ou
marginalizá-lo, para dar passo ao novo pensamento (cultura
científica), apresenta-se uma aprendizagem mecanicista, e não uma enculturação científica, tendo em consideração que esta precisa de
diálogo e negociação com o senso comum que orienta a vida da
maior parte das pessoas.
Conforme Aikenhead (2002a), o ensino de Ciências convencional
tenta transmitir a ciência livre de valores, o que seria uma
verdadeira ficção, pois na verdade transmite determinados valores
sociais investidos de uma ideologia cientificista fortemente
apropriada pelo pensamento científico que outorga autoridade à
ciência, desarticulando-a das preocupações humanísticas. Sob essa
visão a ciência é autoritária, objetiva, universal, impessoal e estéril
socialmente. A ideologia cientificista no ensino promove nos
estudantes a ideia de que eles devem pensar como cientistas e
devem excluir outras formas de pensamento.
A enculturação científica não é um problema de uma minoria de
estudantes que desejam propiciar uma visão científica do mundo e
que optam por cursos universitários de Ciências, pois implica
também a educação dos cidadãos, que, em suas vidas, enfrentaram
questões sociocientíficas. A maior parte dos estudantes que não
escolhem a ciência como opção profissional a considera algo
estranho à sua vida e termina alienando-se aos conteúdos
transmitidos no processo de ensino, o que inviabiliza sua
participação em debates públicos sobre ciência e tecnologia. O
problema da alienação é ainda mais marcante para estudantes de
outras culturas, por exemplo, aqueles que são descendentes de
culturas indígenas, pois terminam colonizados pela ciência
ocidental.
A imposição da cultura científica na escola decorre na transmissão
de determinada visão de mundo, e não implica um processo de
enculturação, pois os estudantes não outorgam sentido a um corpo
de conhecimentos que lhes é estranho. Por essa razão, a
enculturação científica trabalha nos limites entre a cultura dos
estudantes e a cultura científica em busca de um diálogo
intercultural.
Por exemplo, Maddock (1983) pesquisou algumas experiências de
ensino de Ciências em Nova Guiné (África) e concluiu, a partir de
fatos, que a ciência “transmitida” alienou os estudantes, separando-
os de suas culturas tradicionais, oprimindo permanentemente o
cotidiano dos estudantes e esvaziando-os do poder cultural do
grupo social ao qual pertenciam.
O ensino de Ciências tradicional tem favorecido a aprendizagem
mecanicista de uma cultura em detrimento da cultura dos
estudantes, diante do que Cobern e Aikenhead (1998) propõem
analisar os limites culturais da aprendizagem que favorecem uma
enculturação autônoma, a qual é compreendida como um processo
intercultural de fronteira entre aspectos de várias culturas, por
exemplo, a cultura dos estudantes e a cultura científica.
A perspectiva que relaciona equidade cultural entre os diferentes
saberes dos estudantes e conhecimentos científicos fundamenta um
modelo sociocognitivo para o ensino e a aprendizagem das
Ciências. Esse modelo proposto por O’Loughlin (1992) possui uma
visão dialógica que se opõe ao discurso convencional de
transmissão de informações e valores. Assim, o significado dialógico
ocorre quando a aprendizagem é influenciada pelos textos e
contextos que desempenham um papel ativo no desenvolvimento
pessoal e social dos professores que participam dos processos de
intercâmbio dialógico.
Conforme Aikenhead (2002a), a proposta de O’Loughlin abrange
uma compreensão mais ampla que a oferecida pelo ensino de
Ciências tradicional, que, entre outras coisas, é reduzido à
interpretação de textos para o sucesso em provas e graduações.
Pelo contrário, a visão dialógica de O’Loughlin implica o
desenvolvimento de aprendizagens para a participação da cultura.
Nessa perspectiva, o estudante, ao mesmo tempo que aprende,
também reflete criticamente sobre as relações de poder de que
participa.
A despeito de a proposta de O’Loughlin ter sua importância, ela não
explicita com clareza o significado da perspectiva cultural delineada por Aikenhead (ibidem) nos seguintes aspectos: i) a ciência
ocidental é uma cultura em si mesma, uma subcultura da sociedade
euro-americana; ii) as identidades culturais das pessoas podem
estar a favor ou contra a cultura da ciência ocidental; iii) ciência em
sala de aula é uma subcultura da cultura escolar; iv) muitas
mudanças nas experiências dos estudantes ocorrem quando estes
transitam a partir de seus próprios pontos de vista até o mundo da
ciência escolar; e v) a aprendizagem das ciências é um evento que
perpassa a cultura dos estudantes.
A perspectiva cultural engaja os estudantes em processos de
negociação no momento em que aprendem e participam em seu
próprio mundo, que não é necessariamente o mundo da ciência
ocidental, mas um mundo cada vez mais influenciado pela ciência e
pela tecnologia ocidentais.
Consideramos que nós, professores de Ciências, devemos enfrentar
os problemas de ensino nas interfaces culturais de nossos
estudantes tomando em consideração sua cultura, bem como a
cultura científica que pretendemos ensinar. Sob essa perspectiva,
em seguida discutiremos as contribuições de Giroux (1999) para a
perspectiva cultural, bem como sua contribuição para a formação de
professores como intelectuais transformadores.
A formação dos professores como intelectuais
transformadores
Giroux (ibidem) nos ajuda a abordar a questão dos limites ou das
fronteiras culturais de nosso ensino oferecendo uma perspectiva
crítica que possibilita compreender e transformar a cultura escolar.
Nesse sentido, o autor (2003a; 2005) propõe um ensino crítico para
os estudos culturais que transforma a educação em um projeto que
visa a conquista da democracia radical.
Giroux (1999) incorporou novos discursos críticos dos estudos
culturais, da política, da identidade e da diferença abrangida nos
novos discursos sobre classe, gênero, raça, sexualidade etc., de modo que concebe as perspectivas da transdisciplinaridade
transformadora da educação, a teoria social e os estudos literários
como um “cruze de fronteiras”. O autor citado, ao utilizar uma
abordagem metateórica, expõe as razões da importância dos
estudos culturais na reconstrução da educação contemporânea e a
necessidade de uma nova compreensão da cultura, da política
cultural e da pedagogia que superem a ortodoxia da esquerda e da
direita e que visem a transformação social da democracia, trazendo
à realidade as promessas de igualdade, liberdade e justiça.
Giroux (1997) considera que a pedagogia crítica ou radical surgiu na
década de 1970 como uma resposta à ideologia da prática
educacional tradicional, que concebia as escolas como espaço para
a construção de uma sociedade democrática igualitária e ignorava
os mecanismos de dominação e controle envolvidos nos processos
de escolarização, de tal forma que o objetivo central dessa
pedagogia foi desvelar como as escolas reproduzem a lógica do
capital por meio de formas materiais e ideológicas que estruturam a
vida de estudantes de diversas classes, gêneros e etnias. No
entanto, a pedagogia radical precisou ser revitalizada com a
linguagem da possibilidade, pois focou exageradamente na crítica
da escola como espaço de reprodução de ideologias e interesses
dominantes, descuidando a construção de uma linguagem
programática que orientará o desenvolvimento de mudanças
educacionais por parte dos professores.
A pedagogia crítica oferece elementos teóricos importantes para a
formação do professor de Ciências como um intelectual
transformador que se preocupa em construir a escola como uma
esfera pública democrática.
O conceito de intelectuais transformadores na formação de
professores de Ciências é importante para abordar o ensino de
Ciências como um processo político e pedagógico, por meio do qual
os professores, enquanto pesquisadores, em sua prática, exercem
seu papel educacional e social junto aos seus colegas em busca de uma escola na qual os estudantes constroem conhecimentos e
habilidades necessárias para conquistar a democracia.
Os professores, como intelectuais transformadores, ultrapassam a
promoção de atividades de ensino orientadas à realização individual
de seus alunos, para engajá-los em raciocínios críticos que lhes
possibilitem interpretar e transformar o mundo em que vivem.
Mas especificamente, a fim de atuarem como intelectuais, os
professores devem criar a ideologia e condições estruturais
necessárias para escreverem, pesquisarem e trabalharem uns
com os outros na produção de currículos e repartição do poder.
Em última análise, os professores precisam desenvolver um
discurso e conjunto de suposições que lhes permitam atuarem
mais especificamente como intelectuais transformadores.
Enquanto intelectuais, combinarão reflexão e ação no interesse
de fortalecerem os estudantes com as habilidades e
conhecimento necessários para abordarem as injustiças e de
serem atuantes críticos comprometidos com o desenvolvimento
de um mundo livre da opressão e exploração. (ibidem, p.29)
A proposta de intelectuais transformadores como categoria
estrutural da formação continuada de professores de Ciências é
significativa para compreendermos de outra forma o trabalho
docente, o que nas últimas décadas tem sido reduzido a uma
racionalidade tecnocrática e instrumental em contextos sociais
diferentes, tais como o norte-americano (ibidem), o europeu (Carr;
Kemmis, 1988; Contreras, 2002) e o sul-americano (Reyes;
Salcedo; Perafan, 1999; Maldaner, 2000). Os trabalhos citados têm
documentado a existência dessa racionalidade entrelaçada à
preparação do professor que desconhece suas capacidades
pessoais e suas próprias experiências docentes. Essa racionalidade
também tem favorecido a exclusão dos professores da participação
ativa nas reformas educacionais.
Se considerarmos os professores como intelectuais
transformadores, estaremos reivindicando sua capacidade de refletir
e agir de acordo com seu próprio raciocínio. Em termos adornianos, estaremos admitindo que os professores podem ser autônomos
quando deixam de estar sob a tutela de agentes externos à sua
profissão, de modo que eles podem posicionar-se diante dos
problemas particulares de seu ensino e diante das políticas
curriculares que regulam seu trabalho docente.
Enfrentar a formação continuada de professores como um processo
de encorajamento de intelectuais transformadores implica enfatizar
que eles podem definir responsavelmente o que ensinar e por que
ensinar, transcendendo sua função instrumental de definir somente
o como ensinar. Cabe alertar que, sob essa perspectiva, o ensino do
professor não pode ser reduzido ao treinamento de habilidades
mentais ou práticas, por mais que estas sejam importantes, pois o
ensino também envolve uma formação política e ética, necessária
para o desenvolvimento de uma sociedade livre e democrática.
Os professores, como intelectuais, constituem uma crítica à
ideologia tecnocrática e instrumental que separa conceitualização e
planejamento das atividades de ensino de sua correspondente
prática.
Encarando os professores como intelectuais, nós podemos
começar a repensar e reformar as tradições e condições que
têm impedido que os professores assumam todo o seu
potencial como estudiosos e profissionais ativos e reflexivos.
Acredito que é importante não apenas encarar os professores
como intelectuais, mas também contextualizar em termos
políticos e normativos as funções sociais concretas
desempenhadas pelos mesmos. Desta forma, podemos ser
mais específicos acerca das diferentes relações que os
professores têm tanto com seu trabalho como com a sociedade
dominante. (Giroux, 1997, p.162)
Podemos recuperar a reflexão sobre a função social dos
professores como intelectuais transformadores refletindo sobre a
escola como um espaço sociocultural de disputas que congrega
sujeitos com histórias e vozes diferentes em determinadas relações
de poder, de tal forma que as escolas não são locais neutros e, portanto, os professores possuem determinados interesses políticos
e ideológicos que estruturam seus discursos e práticas. Nesse
sentido, Giroux (idem) salienta a importância de tornar o pedagógico
mais político e o político mais pedagógico. Tornar o pedagógico
mais político significa que os professores, como intelectuais
transformadores, contribuem com o encorajamento de seus alunos
na perspectiva de aportarem para a transformação das injustiças
econômicas, políticas e sociais. Assim, podemos dizer que o
conhecimento e o poder estão orientados pelo interesse
emancipador de alcançar uma sociedade democrática para todas as
pessoas sem relevar sua classe, gênero, sexo, cor, religião ou etnia.
Tornar o político mais pedagógico implica que a dimensão política
na escola trate os estudantes como agentes ativos que
problematizam o mundo e agem de acordo com raciocínios críticos.
Implica também que os professores deem voz ativa aos estudantes,
de tal forma que consideram seus alunos em suas conotações
subjetivas, coletivas e históricas.
O conceito de intelectual transformador na formação continuada de
professores de Ciências também faz parte de um discurso mais
amplo da pedagogia entendida como política cultural, que é
compreendida por Giroux (ibidem, p.31) como um conjunto concreto
de “práticas que produzem formas sociais através das quais
diferentes tipos de conhecimentos, conjuntos de experiências e
subjetividades são construídos”.
A dimensão da política cultural se enquadra em uma nova
compreensão do currículo diante das teorias curriculares tradicionais
focadas nos conteúdos e metodologias de ensino. Essa nova
compreensão do currículo considera a escolarização como espaço
cultural e político que incorpora um projeto de transformação, bem
como uma forma produtiva que constrói e define a subjetividade
humana por meio das ideologias e práticas que incorpora (Giroux;
Simon, 1997).
O currículo, sob um novo olhar, analisa a linguagem, a cultura
popular, a teorização da formação social, a história e a pedagogia como temas essenciais. A linguagem, além de ser uma forma de
nomear o mundo, implica um conjunto de relações sociais, de tal
forma que o construído historicamente envolve discursos que são
produzidos, distribuídos e consumidos de diferentes formas,
constituindo nossa identidade social. Assim, as pretensões
institucionais são intencionais. Diante disso, o professor precisa
questionar as formas simbólicas e materiais dos discursos
educacionais para estabelecer formas possíveis de educação.
As culturas populares e subordinadas constituem um tema relevante
nos processos de escolarização. Por exemplo, as experiências
desenvolvidas pelos estudantes em suas casas, bairros e na própria
escola constituem um espaço cultural a partir do qual eles outorgam
sentido à sua própria vida. As construções culturais dos jovens, na
maior parte dos casos, são desconhecidas nos processos de ensino
de Ciências e criam uma região de conflito com a cultura acadêmica
ou a cultura científica que os professores pretendem ensinar. Por
exemplo, Leal e Rocha (2008) salientam, no ensino de Ciências
(Química), a importância da análise da cultura juvenil, já que esta é
estigmatizada e gera choques com a cultura escolar.
A história é outro elemento relevante para a política cultural, pois
possibilita a análise das práticas educacionais como construções
históricas relacionadas com aspectos econômicos, políticos e
sociais de um determinado momento. Giroux e Simon (1997)
salientam a importância da história para a realização da crítica e a
busca de novas possibilidades para a educação, pois, ao comparar
diferentes experiências escolares em diferentes momentos e
condições, podemos abstrair novos elementos que fundamentem
nossa leitura do presente para propor um futuro diferente.
A pedagogia é outro tema importante e transversal da política
cultural que implica uma preocupação com o que deve ser feito nos
espaços escolares de acordo com determinados propósitos. Essa
compreensão da pedagogia, sob o olhar de Giroux e Simon
(ibidem), é coerente com nossa preocupação com o ensino de
Ciências na medida em que nos interessa pensar sobre como os professores de Ciências podem organizar situações de
aprendizagem que problematizem a cultura científica como uma
forma de imposição cultural. Da mesma forma, interessa-nos pensar
sobre atividades que podem oferecer aos estudantes novas
possibilidades para que eles enfrentem as pressões sociais em suas
próprias vidas. Essa visão pedagógica do ensino nos ajudaria a
superar a visão tecnicista do ensino de Ciências, reduzido à simples
transmissão de conteúdos e procedimentos.
Estudar pedagogia nunca deveria ser confundido com nos
dizerem o que fazer, mas a mesma de fato requer novas formas
de estudo acadêmico que implicam definitivamente a faculdade
universitária em reais esforços para definir projetos
educacionais que sejam verdadeiramente transformadores.
(ibidem, p.169)
Linguagem, cultura popular, história e pedagogia sob a perspectiva
crítica são elementos estruturais da política cultural que identifica o
currículo como forma de teoria social relacionada com diferentes
formas de conhecimento e práticas sociais que reproduzem ou
problematizam formas particulares de vida social. O currículo
envolve uma dimensão política da educação que desvela questões
de poder ocultas nas relações sociais.
A política cultural implica uma teoria radical da educação, no entanto
é importante aclarar o que entendemos por radical em termos
pedagógicos, pois, como é alertado por Giroux e Simon (ibidem),
radical não significa que os estudantes devam aprender um
determinado discurso ou determinada doutrina, como o marxismo ou
o liberalismo. Ao contrário, o significado de radical é muito mais
amplo e se refere à articulação entre a teoria/prática curricular e a
pedagógica, entendida como um processo emancipatório, diante de
qualquer forma de dominação subjetiva e objetiva, mesmo aquelas
formas de dominação da esquerda ou da direita, em termos
políticos. Essa visão radical visa à produção de conhecimentos e
habilidades que contribuam para a construção de uma vida melhor e
mais justa para todos.
Por essa razão, o discurso curricular radical da política cultural
articula a linguagem da crítica com a linguagem da possibilidade no
movimento dialético da educação. A linguagem da crítica sustenta a
análise permanente das diferentes pretensões do conhecimento
(científico, político, escolar, popular etc.) no contexto escolar e social
como parte da dinâmica cultural entrelaçada à produção e à
legitimação de formas sociais reproduzidas nas relações
assimétricas de poder.
A linguagem da possibilidade reconhece que nos espaços escolares
e sociais de disputa cultural existe a possibilidade e a necessidade
de se construir teorias e formas de conhecimento que trabalhem
com as experiências que estudantes e professores trazem para o
ambiente escolar, o que implica um profundo reconhecimento da
riqueza cultural presente em experiências, histórias e raciocínios
próprios dos estudantes, que lhes dão voz no ambiente escolar.
Contudo, essa riqueza cultural deve ser considerada criticamente,
desvelando suas limitações e fraquezas, bem como suas
potencialidades dentro e fora do mundo escolar.
Como linguagem de possibilidade, o discurso curricular estaria
ligado a formas de autofortalecimento e social que envolvessem
a luta para desenvolver formas ativas de vida comunitária em
torno dos princípios de igualdade e democracia. Ele iria infundir
o trabalho pedagógico dentro e fora das escolas como um
discurso que pode funcionar para trazer esperanças reais, forjar
alianças democráticas e apontar para novas formas de vida
social que pareçam realizáveis. (ibidem, p.171)
A linguagem da crítica e a linguagem da possibilidade na prática
cultural também constituem uma nova leitura da relação
universidade e escola, valorando ambos os espaços culturais no
mesmo grau de importância, embora cada um tenha papéis e
funções sociais diferentes. Na universidade, bem como na escola, é
necessário reconstruir o conceito de intelectual como transformador
na medida em que contribua com outros grupos ou movimentos
sociais, aportando não apenas à produção de ideias, mas também às diferentes formas de luta coletiva com respeito às preocupações
econômicas, sociais e políticas. Tudo isso é importante porque os
programas curriculares têm esquecido a responsabilidade social de
formar intelectuais e profissionais preparados para enfrentar as
disputas sociais, preferindo privilegiar a preparação de funcionários
obedientes.
Concordamos com Giroux e Simon (ibidem), que veem os
professores como intelectuais transformadores e oferecem a
oportunidade de ligar as possibilidades da emancipação às formas
críticas de liderança articuladas com seu papel social.
A ideia de intelectual transformador proposta por Giroux está
fortemente influenciada pela ideia de intelectual orgânico de
Gramsci (1971), que defendeu o desenvolvimento de um novo
intelectual que não podia se limitar à eloquência momentânea dos
afetos e das paixões, mas era necessário seu comprometimento
com a prática social como sujeito persuasivo que não está mais
restrito aos seus conhecimentos técnicos e disciplinares, pois os
contextualiza em um determinado cenário político.
A pretensão de entender a formação do professor como um
intelectual transformador, articulando trabalho acadêmico com
aspectos sociais e políticos, envolve contradições entre a lógica do
mercado e a lógica da estrutura do trabalho docente, entre o desejo
de liberdade intelectual descomprometido socialmente e a
responsabilidade de se assumir como intelectual orgânico.
Tais contradições não têm uma solução determinada, mas podemos
pensar na possibilidade de serem consideradas em três categorias
oferecidas por Giroux e Simon (1997): a) o coleguismo ou trabalho
coletivo; b) questionamento de noção de estudantes como clientela;
e c) definição de conteúdo programático.
O fato de nosso trabalho docente no capitalismo tardio ser regido
pelo individualismo e pela competitividade entre colegas para
adquirir os escassos recursos da economia educacional leva os
professores a disputar a realização de diversos cursos e a publicação de trabalhos como formas impostas para melhorar seus
salários ou ter melhores oportunidades laborais, condicionando,
dessa forma, a vida acadêmica aos desejos individuais, como pouca
interação social. Diante dessa situação, o trabalho coletivo oferece a
possibilidade de aproximar os professores para trabalharem de
acordo com interesses comuns, o que pode contribuir para
perpassar a fronteira do individualismo.
O trabalho coletivo realizado de acordo com interesses comuns
também é relevante para a educação dos estudantes e constitui
uma forma de questionar a ideia convencional de que eles são
clientes que precisam receber somente conhecimentos
especializados para torná-los cada vez mais individuais e
dependentes dos especialistas ou pesquisadores das universidades
ou das empresas.
Os professores podem pensar seu trabalho como parte de uma
aliança com grupos de pessoas fora de sua especialidade
conformando foros de discussão educacional que superem a
convencional separação entre teoria-prática, objeto-sujeito, saber e
fazer. Assim, a transformação interdependente de professores,
estudantes e circunstâncias orienta o ensino crítico e a política
cultural enquanto dimensão estrutural da formação continuada de
professores.
O conteúdo programático é outro aspecto relevante da política
cultural do currículo, pois esta não existe no vazio, ela precisa tratar
de algum tema ou assunto programático. No entanto, a definição de
conteúdos de ensino de acordo com uma perspectiva crítica não
pode ser reduzida aos conteúdos das disciplinas tradicionais. O
desejável é a constituição de grupos de trabalho interdisciplinar que
possam trabalhar temas de interesse comum.
A questão do conteúdo de ensino está direitamente relacionada aos
conteúdos que os professores ensinam e que os estudantes
aprendem nas escolas. É claro que, sob uma perspectiva crítica, é
concebível que os estudantes aprendam mais que conhecimentos e
habilidades, pois aprendem muito mais do que está definido no currículo oficial (Giroux; Penna, 1997). Nesse sentido, qualquer
intervenção de ensino pode fracassar se ignora as forças
sociopolíticas que influenciam as práticas pedagógicas em sala de
aula.
As escolas possuem um papel social e político importante que não é
cumprido pela família nem pelo Estado e constitui um espaço de
socialização particular, no qual crianças e jovens constroem
conhecimentos, habilidades e raciocínios que possuem um papel
fundamental na sua preparação para o enfrentamento dos
problemas apresentados ao longo da vida.
A formação do professor como um processo permanente de
amadurecimento intelectual orientado a um agir crítico implica que a
educação do professor deve ser vista de acordo com interesses
políticos e ideológicos que estruturam a natureza do discurso
pedagógico. Segundo essa perspectiva, os professores devem
tornar-se intelectuais transformadores na medida em que favorecem
o exercício pleno da cidadania de seus alunos (Giroux, 1997;
2003b).
A formação do professor entendida com um processo
eminentemente político reconhece a capacidade do professor de
interrogar-se sobre o papel que desempenha na sociedade e sobre
o papel de sua prática nos espaços culturais nos quais é
desenvolvida. Assim, a aprendizagem e o ensino inserem-se em um
espaço de disputa que pode favorecer o conformismo dos
estudantes ou, de maneira contrária, pode favorecer mudanças.
A dimensão política da formação é uma necessidade atual,
sobretudo quando o sentido de um professor intelectual crítico não é
considerado nos currículos oficiais dos cursos e, portanto, constata-
se que a formação do professor raramente ocupa um espaço crítico
e político em nossa sociedade (Giroux; McLaren, 1997).
A despolitização da educação do professor de Ciências oculta os
interesses inerentes a todo tipo de conhecimento, inclusive o
conhecimento científico e tecnológico, por exemplo, em situações do cotidiano, quando determinadas ideias servem muitas vezes para
mascarar com pretextos legitimadores as intenções reais das
nossas ações. Esse tipo de agir será denominado, no caso
individual, como certa racionalização e, no plano da ação coletiva,
como ideologia.
Essa despolitização é também reproduzida na educação tradicional
do professor de Ciências, garantindo a racionalidade técnica e a
visão cientificista do conhecimento científico e tecnológico. Pedretti
(2003) evidencia as dificuldades dos professores de Ciências para
trabalhar a dimensão política do ensino de Ciências com enfoque
CTSA, preferindo o ensino neutro da ciência. Assim, muitos
professores encaram como um verdadeiro dilema abordar questões
sociocientíficas (QSC) desvalorizadas no currículo, pois essas
questões indispõem a ciência tradicional transmitida aos estudantes,
colocando em perigo o próprio status do professor e do
conhecimento científico, já que a inclusão de conteúdos
sociocientíficos no currículo envolve um posicionamento político e
um agir crítico.
A formação crítica do professor implica investir maiores esforços em
pensar a questão da autonomia docente, na medida em que essa
dimensão se refere às formas diversas como o professor atua nas
escolas como profissional da educação, bem como remete aos
problemas políticos relacionados com as diferentes formas de
entender o trabalho docente.
Concordamos com Contreras (2002) que o estudo da autonomia
docente é relevante, porque não é reduzido a uma questão
individual, pois tem a ver com as relações sociais que o professor
estabelece em sua prática educacional.
1 O termo é traduzido do alemão para o português por Guido
Antonio de Almeida como “esclarecimento”, pois o termo
“iluminismo” fica restrito ao período histórico correspondente ao
Século das Luzes. Almeida, como tradutor da dialética do
esclarecimento escrita por Adorno e Horkheimer (1985), preferiu o termo “esclarecimento” porque significa o processo de
racionalização em que os homens tentam se libertar das potências
míticas da natureza, mas acabam submetidos a condições sociais
que exigem a regressão de suas próprias capacidades.