Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
Parte I − A perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) no ensino de Ciências e as questões sociocientíficas (QSC)
Parte I − A perspectiva ciência,
tecnologia, sociedade e ambiente
(CTSA) no ensino de Ciências e as
questões sociocientíficas (QSC)
1 – Uma leitura crítica sobre a ciência e a
tecnologia na modernidade: questões de
ideologia e de interesse
Vivemos em uma sociedade altamente dependente da ciência e da
tecnologia. Novas tecnologias da comunicação e da informação
invadem o cotidiano de todas as pessoas, oferecendo-lhes
inumeráveis produtos para satisfazer os padrões de consumo da
sociedade moderna.
A ciência e a tecnologia contemporâneas criam um grande
paradoxo: por um lado, trazem bem-estar social e, por outro,
causam impactos sociais e ambientais questionáveis.
Nesse sentido, a sociedade experiencia uma ambiguidade sobre o
papel da ciência e da tecnologia, caracterizada como uma
“percepção pública esquizofrênica”, segundo Gonzáles, López e
Luján (1996) ao se referirem à confiança e à desconfiança de
parcela da sociedade diante do avanço científico e tecnológico.
Essa percepção é tanto reforçada pelos meios de comunicação de
massa e pelos artigos e trabalhos de divulgação científica, como
fortalecida pela tecnocracia dos modelos de gestão governamentais,
que inviabilizam a participação de cidadãos nas discussões públicas
sobre questões científicas e tecnológicas.
Além de a ciência e a tecnologia constituírem-se como temas
polêmicos, o ensino formal ainda as apresenta como um conjunto de
conhecimentos estáticos que devem ser memorizados e
ocasionalmente aplicados no mundo social. Dessa forma, pretende-
se que os estudantes pensem a ciência como uma atividade social e
cultural com forte peso em valores e crenças situadas em um
determinado contexto histórico, e a institucionalização e a prática da
ciência são pouco questionadas (Pedretti, 2003).
O ensino formal nas escolas deve favorecer condições pedagógicas
e didáticas para que cidadãos construam conhecimentos e
capacidades que lhes permitam se posicionar e influenciar nos
debates sobre temas controversos do mundo contemporâneo. Isso
não é uma tarefa fácil, uma vez que a escola formal normalmente
trata a ciência como atividade objetiva e não problemática,
privilegiando a visão cientificista, que leva os alunos a aderir à
racionalidade técnica, na qual o conhecimento científico é visto
como verdade imutável e imune a questionamentos.
A perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) no
ensino de Ciências é uma forma de problematizar a visão
cientificista e instrumental da ciência e da tecnologia, resgatando-
lhes as implicações sociais, políticas, culturais, éticas e ambientais
como aspectos relevantes para entender o empreendimento
científico como processo histórico e humano mediado por diversos
interesses, ideologias e pontos de vista em disputa.
Segundo Pedretti (2003), a perspectiva CTSA no ensino de Ciências
tem o objetivo de formar cidadãos socialmente responsáveis, o que
implica desenvolver o raciocínio crítico de estudantes e professores
sobre questões sociais, políticas, culturais e ambientais postas pela
ciência e pela tecnologia.
A perspectiva CTSA tem promovido a importância de uma educação
em ciências e tecnologia para todos os cidadãos, a fim de que eles
compreendam o funcionamento da ciência na sociedade,
desvelando as formas como ela se articula com determinados
interesses e o modo como ela altera nosso relacionamento com a sociedade e com a natureza. Assim, ensinar Ciências no contexto
contemporâneo deve ir além da mera apresentação de teorias, leis e
conceitos científicos, implicando a reflexão sobre o que estudantes
entendem por ciência e tecnologia na sociedade em que vivem.
Apesar dessa permanente preocupação com uma educação em
ciências e tecnologia para todos, encontramos entre os professores
de Ciências uma recusa da ciência e de sua aprendizagem
(Cachapuz et al., 2005). Pesquisadores do ensino de Ciências
justificam tal recusa pela visão de ciência individualista,
descontextualizada, aproblemática e linear que com frequência os
professores têm ensinado nas escolas (Gil-Pérez et al., 2001;
Maiztegui et al., 2002).
As concepções que impedem o desenvolvimento de uma educação
em ciências e tecnologia para todos podem ser identificadas na
análise crítica da constituição social da ciência. Sob essa
perspectiva, o problema não está somente na visão de Ciências dos
professores e seus correspondentes processos de ensino e
aprendizagem, mas também na forma como essa visão é construída
socialmente e entrelaçada à construção da ciência e da tecnologia
na modernidade e institucionalizada na gestão tecnocrática do
Estado. Nesse sentido, a análise da visão “deformada” dos
professores sobre ciência e tecnologia deve ser contextualizada
socialmente para que possamos entender a evidente resistência dos
professores em construir uma compreensão mais ampla do tema.
Entender a institucionalização da ciência na sociedade moderna nos
leva a compreender como essa visão “deformada” é estruturada, na
maior parte dos casos, de acordo com uma racionalidade técnica.
Nesse contexto, coloca-se em discussão o que está por trás da
“democratização” da ciência e da tecnologia, uma vez que a gestão
tecnocrática do Estado moderno legitima o controle dos cidadãos
por meio das valorações dos especialistas e exclui, dessa forma, a
possibilidade de participação da população. Para Gonzáles, López e
Luján (1996), trata-se da ideologia cientificista institucionalizada socialmente sob a forma de uma “democracia”, mas com a
ignorância do povo.
O ponto de partida para compreender a racionalidade técnica e a
ideologia cientificista está na intenção esclarecedora da ciência
moderna, o que motivou sua institucionalização social, uma vez que
sua pretensão de libertar o homem dos mitos, dos deuses e das leis
da natureza terminou constituindo-se em uma nova forma de
dominação social. Nesse sentido, em seguida, resgataremos
algumas contribuições da Teoria Crítica da sociedade desenvolvida
pela escola de Frankfurt, com o objetivo de discutir a questão da
racionalidade técnica da ciência na modernidade e a questão da
ideologia cientificista.
A conquista da autonomia por meio da razão proposta por Kant
(1724-1804) perdia espaço no Esclarecimento, reduzindo-se à razão
instrumental e manifestando-se na ciência e na tecnologia. Assim, a
razão, o sujeito, o abstrato da história individual e coletiva do
homem de Kant e Hegel (1770-1831) tornam-se, segundo Adorno
(1903-1969) e Horkheimer (1895-1973), uma razão alienada que
perde seu objetivo emancipatório. Esses autores, ao estudarem a
filosofia empirista de Bacon (1561-1626), debelam os processos por
meio dos quais o Esclarecimento atua na compreensão do homem e
dos problemas, na medida em que busca manipulá-los.
O mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera
objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento de
seu poder é alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O
esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se
comporta com os homens. Este os conhece na medida em que
pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na
medida em que pode fazê-las. (Adorno; Horkheimer, 1985,
p.24)
A análise crítica sobre o positivismo evidente na teoria do
conhecimento sobre as ciências empíricas evidencia-se
principalmente no debate entre Popper (1902-1994) e Adorno em
1961, na cidade de Tübingen (Alemanha), promovido pela Sociedade de Sociologia. Nesse debate, que desencadeou
importantes discussões que contaram com a participação de
Habermas (1972a; 1972b), a perspectiva dialética dos frankfurtianos
faria contraste com o racionalismo crítico de Popper, que defendia
uma única concepção teórica tanto para as ciências da natureza
como para as ciências sociais.
Adorno (1972a; 1972b; 1972c) conforme a sua visão dialética
analisa o positivismo, de tal forma que evidencia o conhecimento
científico e tecnológico como uma força social produtiva e como o
novo mito da modernidade.
A ciência seria por um lado autônoma e por outro não seria
autônoma. Toda dialética que advogue isto tem que desistir de
considerar-se neste e em qualquer caso como um “pensamento
privilegiado”, não devendo se apresentar como uma capacidade
especial subjetiva em virtude de que uns penetram em regiões
fechadas para outros, nem proceder como mera intuição. Os
positivistas, ao contrário, terão que fazer o sacrifício de
abandonar a postura de “não compreendo”, como tem
denominado Habermas esta reação, desistindo de desqualificar
de uma vez só como inteligível tudo aquilo que não coincida
com categorias tais como “critério empirista”. (Adorno, 1972a,
p.14, tradução nossa)
A intenção do racionalismo crítico de fundamentar a supremacia da
ciência se articula com sua ingênua pretensão de neutralidade ao
basear suas críticas à teoria social em termos de suas
incongruências lógicas. Igualmente, o positivismo adjacente a esse
racionalismo defende a teoria da objetividade científica, embora esta
não transcenda o subjetivismo cientificista.
Sem pretender reduzir a complexidade do debate entre o
racionalismo crítico de Popper e a visão dialética dos frankfurtianos,
no Quadro 2 são apontadas algumas diferenças fundamentais entre
essas visões; diferenças que contribuem para a fundamentação
crítica sobre o positivismo presente na teoria da ciência e,
principalmente, problematizam tanto a pretensão de reduzir o conhecimento das ciências sociais e humanas quanto as pretensões
de validade universal das ciências naturais.
Quadro 2 – Algumas diferenças entre o racionalismo crítico de
Popper e a perspectiva dialética de Adorno com respeito às
Ciências
Concepção do Concepção dialética da
racionalismo crítico teoria crítica sobre a
sobre a natureza das natureza das ciências
ciências naturais e as sociais
ciências sociais
– As ciências se – As ciências sociais não
fundamentam na lógica podem ser entendidas no
e em seu caráter modelo nomológico de
nomológico em busca explicação e predição, dadas
de explicações causais as irregularidades que se
de fatos ou fenômenos. observam e que são, por
No entanto, a natureza, dificilmente
construção de determináveis.
explicações segue uma
lógica dedutiva de uma
argumentação
composta por leis e
condições iniciais.
– Tradicionalmente se – Atribui-se às ciências
atribui às ciências da sociais a função de aplicar
natureza a função de valorizações.
descrever e explicar os
fatos.
– Todas as ciências, – Os dialéticos da escola de
tanto as da natureza Frankfurt rejeitam a
quanto as da imposição positivista sobre a
sociedade, devem teoria das ciências da
seguir a mesma lógica natureza. A sociedade não é
de estabelecimento de um objeto da natureza, ela
hipóteses e falsibilidade tem suas próprias
das teorias. características e uma
totalidade que precisa ser
entendida em sua
globalidade, uma vez que é
contraditória em si mesma,
racional e irracional.
– Popper propõe o – Adorno sustenta o princípio
critério de refutação e de criticidade, nada kantiano,
equipara objetividade da dependência do método
científica e tradição de acordo com o objeto, a
crítica. relevância e o interesse como
meio do conhecimento social.
Fonte: Martínez (2010). Quadro adaptado a partir de Adorno et al.
(1972).
No contexto dessa leitura crítica sobre o positivismo da teoria das
ciências encontramos a riqueza na filosofia teórica de Habermas,
especialmente em seus trabalhos sobre Técnica e ciência enquanto
"ideologia" e Conhecimento e interesse. Esses trabalhos oferecem
importantes contribuições que merecem ser consideradas na
tentativa de constituir uma leitura crítica das Ciências na nossa
sociedade.
Habermas (2006) parte da discussão da ideia de racionalização
introduzida por Max Weber (1864-1920) em seu estudo sobre
atividade econômica capitalista e o direito burguês. A racionalização
significa a extensão dos setores sociais submetidos a determinados
padrões racionais que penetram, transformam e reproduzem o
mundo e a vida.
Essa racionalização procura alcançar determinados fins e também
se encontra ligada à ideia do progresso da ciência e da tecnologia,
que penetra as instituições sociais, transformando-as e abrindo
espaço para as legitimações culturais e sociais.
O agir racional de acordo com fins (ou razão teleológica) é o
mecanismo de controle e de institucionalização de uma forma de
dominação política irreconhecível. Dessa forma, Habermas cita Marcuse (1898- 1979) para mostrar que a razão técnica talvez
possa ser uma ideologia não apenas em sua aplicação, mas
também em seu próprio ímpeto de dominação da natureza e do
homem. No entanto, Habermas considera que a técnica é um
projeto histórico social, no qual é projetado o que a sociedade e os
interesses que a dominam determinam fazer com o homem e com
as coisas.
Em relação às reflexões de Marcuse sobre a sociedade capitalista
industrialmente desenvolvida, Habermas concorda com a tese de
que os princípios da ciência moderna foram definidos a priori, de
modo a poderem servir de instrumentos conceituais para um
universo de controle produtivo que se refaz automaticamente. O
método científico, que levou à dominação cada vez mais eficaz da
natureza, passou a oferecer os conceitos e os instrumentos para a
dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem por meio
da dominação da natureza.
Segundo Hebert Marcuse, não seria possível a emancipação
humana sem a revolução da ciência e da técnica, em virtude de
seus próprios métodos e conceitos projetarem e promoverem um
universo no qual a dominação da natureza permanece vinculada à
dominação do homem. No entanto, Habermas encontra na obra
titulada A alma na era da técnica, de Arnold Gehlem (1904-1976),
uma conexão entre a técnica e a racionalidade teleológica que pode
ser reconstruída historicamente, demonstrando que a técnica não
atua sob o controle da vontade do homem, pois na modernidade
substitui as funções e as atividades humanas. Assim, a não
compreensão do processo técnico, em termos de sua lógica de agir
racional com respeito aos fins controlados pelo sucesso,
impossibilita o pensar em outra técnica. No entanto, Habermas
considera que é necessário reconsiderar tal apreciação, oferecendo
uma nova leitura da natureza e do homem, na qual estes não sejam
considerados como objetos, mas como interlocutores.
Em vez de se tratar a natureza como objeto de disposição
possível, poderíamos considerá-la como o interlocutor de uma
possível interação. Em vez da natureza explorada, podemos
buscar a natureza fraternal. Na esfera de uma
intersubjectividade ainda incompleta podemos presumir
subjectividade nos animais, nas plantas e até nas pedras, e
comunicar com a natureza, em vez de nos limitarmos a
trabalhá-la com rotura da comunicação. (Habermas, 2006, p.53)
Esse novo relacionamento com a natureza considera um projeto
humano que valoriza a linguagem e o trabalho, reconhecendo o
subjetivo das coisas, e não apenas sua mera contemplação ou
objetivação, como são entendidas pelo agir teleológico. Esse
desconhecimento subjetivo da natureza permanece mesmo em um
processo de revolução que muda a ordem institucional vigente, mas
não as forças produtivas enquanto tais. E, desse modo, o processo
técnico-científico também é mantido como tal. O que realmente
muda em um processo revolucionário são os valores que o
orientam, e a novidade seria a direção desse progresso. Assim, a
ciência e a técnica se tornaram uma forma universal de produção
material, envolvendo toda uma cultura e projetando uma totalidade
histórica. Nesses aspectos podemos dizer que o pensamento de
Habermas aceita a ambivalência do progresso científico e
tecnológico como é descrito por Gonzáles, López e Luján (1996): o
progresso tem beneficiado a humanidade em várias áreas, trazendo
qualidade de vida e superando problemas de sobrevivência; no
entanto, o progresso também tem sido parte de grandes projetos de
destruição. Em qualquer caso, isso não dependeu somente da
ordem institucional, mas também dos interesses que a têm
orientado.
Habermas considera que Marcuse, ao falar do teor político da razão
técnica, e Weber, ao analisar a racionalização da sociedade,
referem-se à racionalidade nos sistemas do agir com respeito aos
fins, expandidos até se tornarem uma forma de vida; em outros
termos, esses sistemas não foram suficientemente desenvolvidos
para reformular o conceito de racionalização, cabendo a Habermas
propor um esquema de interpretação a partir da crítica de Marcuse a Weber na construção de sua tese dupla sobre o progresso científico
e técnico enquanto força produtiva e enquanto ideologia.
Com a ideia de dar uma nova reformulação à racionalidade proposta
por Weber e compartilhando as orientações valorativas de Parsons
(1902-1979) para entender a transição da sociedade tradicional para
a sociedade moderna, Habermas (2006, p.11-43) propõe outro
quadro categorial, partindo da distinção entre “trabalho e interação”,
além de criar a ideia de agir comunicativo compreendido como
interação mediatizada simbolicamente e regida por normas que
definem expectativas recíprocas e compreendem sujeitos e agentes.
Valendo-se de proposições empíricas e analíticas, o agir
comunicativo é fundamentado no agir intersubjetivo de um
entendimento sobre intenções e no reconhecimento universal de
obrigações. Assim, é estabelecida a diferença entre trabalho e
interação, e em conformidade com isso é possível classificar os
sistemas sociais conforme neles predomine o agir racional com
respeito aos fins ou à interação.
Em uma ordem socialmente estabelecida, existem normas que
orientam as interações mediatizadas verbalmente e existem
instituições, como o aparelho do Estado e o aparelho econômico,
que agem de acordo com fins técnicos. Por outro lado, existem
subsistemas, como a família e o parentesco, que repousam em
regras de interação. No plano analítico, distinguem-se a ordem
estabelecida de uma sociedade ou de um mundo cultural e
subsistemas de racionalidade técnica encaixados. As ações, ao
serem determinadas por esses subsistemas, são ao mesmo tempo
dirigidas e impostas, moldadas a partir de esquemas de agir
instrumental e estratégico. Com essas distinções, Habermas oferece
um novo esquema de interpretação do conceito weberiano de
racionalização.
Na sociedade moderna, essa racionalização é caracterizada por
uma superioridade do modo de produção capitalista em relação às
sociedades tradicionais. Tal superioridade funda-se tanto na
instauração de um mecanismo econômico, que garante, a longo prazo, a ampliação dos subsistemas, quanto na criação de uma
legitimação econômica sob a qual o sistema de dominação pode
adaptar-se às novas exigências de racionalidade desses
subsistemas progressivos, seja de baixo para cima ou de cima para
baixo. Em qualquer caso, o sistema de dominação se apodera aos
poucos de todas as esferas vitais da sociedade (sistema escolar,
saúde, família etc.). Assim, as subculturas ensinam o indivíduo a se
desligar de um contexto de interação para o agir racional
instrumental. Nesse processo de instrumentação do mundo e da
vida se apresenta a pressão para a racionalização realizada desde
baixo, que é coibida pela racionalização a partir de cima, fazendo
com que os tradicionais mecanismos de legitimação percam
vigência diante dos novos critérios da racionalidade teleológica.
Todo esse processo seria definido por Weber e exposto por
Habermas como secularização, na qual as imagens do mundo e as
objetivações tradicionais perdem seu poder nas tradicionais formas
de justificação (mito, ritos tradicionais, religião etc.) e são
transformadas em convicções éticas e subjetivas reestruturadas em
construções que fornecem uma crítica à tradição e uma
reorganização do material liberto pela tradição.
Desse modo, as legitimações enfraquecidas serão substituídas por
novas legitimações, nas quais as ciências experimentais assumem a
forma de um saber tecnicamente utilizável, por desenvolver-se em
um marco metódico de referência que reflete o ponto de vista
transcendental da possível disposição técnica. Embora suas
intenções subjetivas não tenham essa pretensão, isso levou, ao final
do século XIX, à interdependência das ciências e da técnica.
[...] até o fim do século XIX, não existiu uma interdependência
de ciências e técnica. Até então a ciência moderna não
contribuiu para a aceleração do desenvolvimento técnico e,
portanto, também não para a pressão racionalizante que se
exerce a partir de baixo. (Habermas, 2006, p.67)
Da mesma forma que Marcuse, Habermas reconhece a limitação da
visão de racionalização de Weber, que, ao possuir um conceito abstrato desse processo, não entendeu a análise de Karl Marx
(1818-1883) sobre o modo de produção capitalista imposto na
Inglaterra e na França em meados do século XIX. Nessa análise,
Marx reconheceu o marco institucional da sociedade nas relações
de produção e, ao mesmo tempo, criticou o fundamento próprio da
troca de equivalentes, levando a cabo sua crítica à ideologia
burguesa ao demonstrar, na teoria do valor-trabalho, a fictícia
liberdade do livre contrato do trabalho que torna irreconhecível a
violência social inerente à relação do trabalho assalariado.
Nesse contexto, era necessário estudar a evolução do capitalismo
liberal a partir do reconhecimento de duas tendências apresentadas
nos países capitalistas do século XIX: a primeira, caracterizada pelo
incremento da atividade intervencionista do Estado, que assegurou
sua estabilidade, e a segunda, determinada pela crescente
interdependência da pesquisa técnica que transformaria a ciência na
primeira força produtiva da sociedade. Ambas as tendências
destroem a constelação do capitalismo liberal de agir de acordo com
a razão instrumental, e com isso não se cumprem as condições
relevantes da economia política que, com razão, Marx daria ao
capitalismo liberal. Na opinião de Habermas, a tese fundamental de
Marcuse sobre a ciência e a técnica como elementos essenciais de
legitimação da dominação proporciona a base para entender que as
formas de organização do capitalismo liberal mudaram, na medida
em que a economia privada só pôde se manter por meio de
corretivos estatais de uma política social e econômica estabilizadora
do ciclo econômico. Isso é válido nas crises do capitalismo atual,
nas quais fica evidente o modo de estabilizar o normal
funcionamento do sistema (alterado pelas reformas do
neoliberalismo da década de 1990) por meio de pacotes
econômicos e políticos orientados para injetar capital do Estado (e,
portanto, da sociedade), com o objetivo de manter a economia
privada do capitalismo maduro (tardio). 1
A política do intervencionismo estatal exige a despolitização da
massa da população, e, na medida em que há exclusão de questões práticas, fica também sem função a opinião pública, deixando em
aberto a questão de legitimação do sistema.
O programa substitutivo legitimador da dominação deixa em
aberto uma decisiva necessidade de legitimação: como tornar
plausível a despolitização das massas a estas mesmas
massas? Marcuse poderia responder que assim a ciência e a
técnica adotam também o papel de uma ideologia. (Habermas,
2006, p.72)
Assim, podemos dizer que, segundo Habermas, desde o final do
século XIX impõe-se uma tendência que caracteriza o capitalismo
maduro como “cientificação da técnica”, que intensificou a
produtividade do trabalho por meio da introdução de novas técnicas.
No entanto, tal situação é modificada no século XX, na medida em
que a evolução da técnica é realimentada pelo progresso das
ciências modernas. Dessa forma, com a pesquisa industrial de
grande estilo, a ciência, a técnica e a revalorização do capital
confluem em um único sistema, no qual os estudos da indústria são
produto de um encargo do Estado que fomenta o progresso
científico e tecnológico, especificamente no campo militar. Daí as
informações fluem para esferas de produção civil de bens. Em tal
sentido, a institucionalização do desenvolvimento científico e
tecnológico e o potencial das formas produtivas assumem uma
forma que leva ao “dualismo do trabalho e interação a ocupar um
segundo plano na consciência dos homens” (ibidem, p.73).
A institucionalização do progresso científico e tecnológico articulada
ao crescimento econômico privilegiaria, na evolução do sistema
social, a tecnocracia, cuja ideologia de fundo seria a despolitização
das massas. Esse quadro poderia ser caracterizado como a
ideologia cientificista, de acordo com Gonzáles, López e Luján
(1996, p.32), na medida em que o Estado moderno seria realmente
um Estado confessional de novo porte, no qual o controle exercido
por especialistas que sustentam uma tecnocracia contribui para
manter a ordem institucional e excluir a participação do cidadão;
isso significa democracia com a ignorância da população e com a compreensão dos peritos, que servem, na maior parte dos casos, às
corporações privadas.
Retomando Habermas (2006, p.74), captamos a eficácia dessa
ideologia.
A eficácia peculiar desta ideologia reside em dissociar a
autocompreensão da sociedade do sistema de referência da
ação comunicativa e dos conceitos da interação simbolicamente
mediada, e em substituí-lo por um modelo científico. Em igual
medida a autocompreensão culturalmente determinada de um
mundo social da vida é substituída pela autocoisificação dos
homens, sob as categorias da ação racional dirigida a fins e do
comportamento adaptativo.
Na perspectiva otimista de Habermas, a intenção tecnocrática não
está realizada plenamente, mas serve como ideologia para a
resolução de tarefas técnicas que correspondem ao plano subjetivo
de diluir na consciência das ciências e do homem a diferença entre
ação instrumental e interação, levando-as a sua correspondente
diluição na consciência dos próprios homens. Esse problema não é
tão simples como considerar a ciência e a técnica como ideologia no
sentido de Marcuse, tampouco como desconhecer o progresso
científico e tecnológico enquanto forças produtivas fundamentais do
capitalismo maduro. Isso foi omitido por Marx. Seria necessário
reconhecer, conforme Habermas (idem, p.89), a existência de uma
nova zona de conflito em que a sociedade capitalista avançada
tenta se imunizar por meio da “despolitização das massas contra a
impugnação da sua ideologia tecnocrática de fundo; justamente no
sistema da opinião pública administrada pelos meios de
comunicação”.
As análises realizadas por Habermas sobre a racionalização da
sociedade capitalista relacionada com o progresso científico e
técnico oferecem um novo esquema de interpretação desse
progresso em termos da lógica da ação racional, de acordo com fins
que se institucionalizam no aparelho do Estado e invadem as
esferas sociais do mundo e da vida. No entanto, uma discussão epistemológica sobre a teoria do conhecimento que fundamenta
esse agir necessita de uma análise ampla do positivismo da teoria
da ciência. Essa será a preocupação central de Habermas (1987,
p.26) em seu livro Conhecimento e interesse, no qual já era
evidente, nas primeiras páginas, sua defesa da tese de que “a
ciência não foi, a rigor, pensada filosoficamente depois de Kant”.
A questão epistemológica sobre a possibilidade de adquirir um
conhecimento cientificista digno de crédito constituirá os esforços de
racionalistas e empiristas, da mesma forma que a delimitação
metafísica de uma área ou de um objeto como justificativa lógico-
psicológica de uma ciência da natureza concretizada pelo
experimento e pela linguagem formalizada. Dessa forma, a ciência
somente se deixaria compreender por uma teoria sobre a mesma
ciência, que em sua versão moderna constituiria uma epistemologia
positivista.
A teoria da ciência, que desde meados do século XX adota a
herança da teoria do conhecimento (epistemologia), tornar-se-á,
segundo Habermas, uma autocompreensão cientificista das ciências
(“cientismo”). Isso significa que as ciências humanas e as ciências
sociais vivenciaram certa tendência a se subordinar diante do
método e do estilo próprio das ciências da natureza ou ciências
experimentais.
Diante da tendência reducionista do cientificismo, é necessária uma
autorreflexão ao estilo de Hegel, uma radicalização indeclinável da
crítica ao conhecimento. Assim, Habermas reconstrói a filosofia da
identidade de Hegel para evidenciar as limitações envolvidas nas
ciências do “espírito” e nas ciências da natureza com respeito ao
saber absoluto, no sentido de favorecer a ideia fictícia e ingênua de
que o progresso científico e tecnológico é independente de qualquer
filosofia. Tal consideração constitui o fundamento de uma visão
positivista do conhecimento.
Uma contribuição importante de Habermas sobre a necessária
crítica da teoria das ciências experimentais é mostrar seu caráter
cientificista encorajado desde a mesma confiança passiva de Kant sobre a Física de sua época, passando pela rica, mas limitada,
dialética idealista de Hegel, e terminando com algumas limitações
do materialismo histórico de Marx. Retomar essas questões em
Habermas nos leva a resgatar o papel da Filosofia para repensar a
teoria do conhecimento dada como morta pelo positivismo que
sustenta a teoria das ciências e que reduz as realizações da ciência,
dogmatizando a fé das ciências nelas mesmas, embora isso possa
não coincidir com sua própria natureza.
O abandono da teoria do conhecimento e, com isso, da própria
Filosofia na teoria das ciências evidencia-se no sujeito cognoscível
que não é mais sistema de referência, desistindo, dessa forma, da
pergunta pelo sujeito que conhece e que é voltado à atenção às
ciências disponíveis como exclusivo sistema de referência e de
proceder. Em outras palavras, como teorias ou leis constituídas por
determinadas regras formais, a teoria do conhecimento na teoria da
ciência é enfim reduzida a uma metodologia na concepção
positivista.
Uma teoria do conhecimento reduzida ao nível metodológico
perde de vista o ato-de-se-constituir dos objetos de uma
experiência possível, da mesma maneira como uma ciência
formal, decepada da reflexão transcendental, desconhece a
gênese das regras para a concatenação simbólica; ambas
ignoram, em terminologia kantiana, as realizações sintéticas do
sujeito cognoscente. (Habermas, 1987, p.91)
Em busca da recuperação do papel da reflexão filosófica, perdido na
teoria do conhecimento e reduzido na teoria das ciências, Habermas
visita o trabalho de C. S. Pierce (1839-1914) e W. Dilthey (1833-
1911), encontrando neles um conjunto de ideias relativas à
autorreflexão sobre as ciências. No entanto, essa autorreflexão
resulta insuficiente para escapar ao objetivismo do positivismo,
impedindo que se entenda o fundamento dos interesses
orientadores do conhecimento, embora seus fundamentos possam
ser ligeiramente percebidos.
A cuidadosa leitura de Habermas sobre os filósofos E. Mach (1838-
1916) e A. Comte (1798-1857), a partir do resgate da autorreflexão
de Pierce e Dilthey, levou-o a estruturar sua tese sobre os
interesses constitutivos do conhecimento, tese que já era exposta
em um artigo de mesmo título de seu livro Conhecimento e
interesse, publicado em dezembro de 1965. Nesse trabalho,
Habermas (2006, p.129) voltou à clássica discussão sobre o que
significa a teoria, e para isso retomou o trabalho de Horkheimer
(Teoria tradicional e teoria crítica), recontextualizado em uma nova
leitura do trabalho de Husserl (1859-1938), que não trata, como
Horkheimer, das crises existentes nas ciências, mas de sua própria
crise enquanto ciência, e alerta sobre o afastamento da Filosofia por
parte das ciências mais avançadas, como a Física, o que na
verdade pode ser chamado de uma questão teórica.
Com tais considerações, Habermas (2006, p.131) mostra a conexão
entre autocompreensão positivista e a antiga ontologia, ao
estabelecer o caráter cientificista das ciências empírico-analíticas
(abrangendo as ciências experimentais), identificando também esse
mesmo aspecto nas ciências histórico-hermenêuticas. No primeiro
caso, o cientificismo é inerente à intenção cosmológica de descrever
teoricamente o universo tal como é, na sua ordem conforme as leis
que regulam seu funcionamento. No segundo caso, essas ciências,
embora tenham que ver com as coisas percebíveis e com as
simples opiniões, constituem também um significado cientificista ao
descrever em atitude teórica uma realidade estruturada, debelando
um método da consciência, e com isso o historicismo se torna o
positivismo das ciências sociais.
Apoiado em Husserl, Habermas defende a existência de
determinados interesses que orientam as ciências empírico-
analíticas e as ciências hermenêuticas, o que corresponde, para o
primeiro caso, ao interesse técnico, e para o segundo, ao interesse
prático. Como alternativa a esses interesses, o autor propõe a ideia
de interesse emancipatório adjacente a uma ciência crítica.
[...] os interesses que guiam o conhecimento constituem-se no
meio do trabalho, da linguagem e da dominação [...] na força da
auto-reflexão, o conhecimento e o interesse são uma só coisa
[...] a unidade de conhecimento e interesse verifica-se numa
dialética que reconstrói o suprimido a partir dos vestígios
históricos do diálogo abafado. (Habermas, 2006, p.143-5)
O conceito de interesse como guia do conhecimento pode ser
percebido em situações do cotidiano, quando determinadas ideias
servem muitas vezes para mascarar pretextos legitimadores das
intenções reais de nossas ações. Esse tipo de agir será denominado
por Habermas, no caso individual, como certa racionalização, e no
plano da ação coletiva, como ideologia.
Vislumbrando a tese do livro de Habermas sobre conhecimento e
interesse, encontraremos seu desenvolvimento teórico e filosófico,
especificamente no capítulo de crítica como unidade de
conhecimento e interesse, no qual é considerado que o positivismo
tornou-se dominante na teoria da ciência e que não será
interrompido nem com o neopositivismo.
Com a autorreflexão de Pierce e de Dilthey, a noção de interesses
orientadores do conhecimento era palpável. No caso da pesquisa
própria das ciências empírico-analíticas, trata-se de um saber
técnico articulado ao agir instrumental, e no caso da pesquisa
hermenêutica elucida-se uma prática eficaz. No primeiro caso, a
realidade é manifestada sobre processos objetivados da natureza e,
no segundo, a realidade é explorada na compreensão da
intersubjetividade entre indivíduos. Nesses termos, as ciências
experimentais estariam submetidas a condições transcendentais da
atividade instrumental, enquanto as ciências hermenêuticas
trabalhariam em um plano da comunicação.
No entanto, Habermas (1987, p.215) considerou que esses casos
consistem em regras que objetivam a mudança lógica de sentenças
e tornam-se válidas somente quando as proposições são
comprometidas em um quadro transcendental, seja este da ordem
do agir instrumental ou próprio de uma forma vital constituída na linguagem cotidiana. Podemos diferenciar os interesses
constitutivos do conhecimento adjacente das ciências experimentais
e das ciências hermenêuticas.
Falamos, portanto, de um interesse técnico ou prático na
medida em que, através dos recursos da lógica da pesquisa, as
conexões vitais da atividade instrumental e das interações
mediatizadas pelos símbolos pré-molduram o sentido da
validade de enunciados possíveis de tal forma que estes,
enquanto representam conhecimentos, não possuem outra
função senão aquela que lhes convém em tais contextos vitais:
serem aplicáveis tecnicamente ou serem praticamente eficazes.
(ibidem, p.217)
Advertindo que o significado do interesse não pode ser reduzido a
uma visão naturalista de determinações transcendentais ou a dados
empíricos, são essas orientações básicas que conformam
determinadas condições da reprodução e autoconstituição da
espécie humana.
Baseados na ideia de reflexão propriamente hegeliana, na qual o
sujeito se envolve em um processo de formação para sua própria
constituição, estabelecemos o interesse emancipatório que tem
como objetivo a realização plena na reflexão, claro está entre as
possibilidades da comunicação, e não dentro de uma perspectiva
transcendental.
O reconhecimento de um interesse emancipatório, segundo
Habermas, já era percebido na filosofia transcendental de Kant. No
entanto, só J. Fichte (1762-1814), depois de ter subordinado a razão
teórica à prática, desdobra seu significado inerente à razão na ação.
Nesse sentido, o interesse ligado às ações fixa as condições do
conhecimento, ações que alteram a vida em uma dinâmica de
emancipação, havendo, portanto, uma relação inseparável entre
conhecimento e interesse.
Desvelar a institucionalização da ciência e da tecnologia na
sociedade moderna, por meio da racionalização e instrumentalização inerente tanto ao interesse técnico das ciências
empíricas quanto à reflexão das ciências hermenêuticas, permitiu
que Habermas resgatasse o papel da autorreflexão na ação como
caminho para agir em conformidade com um interesse
emancipatório e, com isso, posicionar de novo a Filosofia nas
ciências como uma experiência formativa do sujeito por meio da
comunicação e da interação.
Até agora temos oferecido uma análise sobre o movimento
positivista, que tem contribuído com o esvaziamento das teorias do
conhecimento, de forma a perder o exercício reflexivo que seria
inerente a essas teorias e que levaria a ciência a uma autorreflexão.
A preocupação dessa teoria do conhecimento distorcida estaria no
processo de formalização da ciência por meio da lógica e em sua
preocupação excessiva pelo método, pela coleta e classificação dos
dados empíricos, excluindo de sua discussão a dimensão histórica e
as questões relativas ao poder, ao conhecimento e ao interesse.
Contudo, nossas reflexões críticas foram realizadas a partir de um
ponto de vista filosófico e sociológico externo à construção interna
da ciência. Em tal sentido, consideramos pertinente mostrar críticas
ao progresso científico, utilizando ideias da própria Filosofia da
Ciência e reivindicando particularmente os trabalhos históricos e
filosóficos de Fleck (1986) e Kuhn (2001; 2006).
1 Concordamos com Aragão (1992) ao privilegiar a expressão
“capitalismo maduro” e não “capitalismo tardio” ao se referir à
análise de Habermas sobre a sociedade moderna caracterizada por
um capitalismo avançado. O termo “tardio” seria pertinente sempre e
quando se referir a uma última fase desse capitalismo.