Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores

Parte VI – Interações dialógicas e contribuições da abordagem de questões sociocientíficas (QSC) na formação continuada de professores de Ciências

Parte VI – Interações dialógicas e

 

contribuições da abordagem de

 

questões sociocientíficas (QSC) na

 

formação continuada de professores

 

de Ciências

 

17 – Interações dialógicas impositivas,

 

persuasivas e polifônicas desenvolvidas entre

 

professores de Ciências em serviço

 

Na quinta parte deste livro, em primeiro lugar, analisamos as

aproximações dos professores de Ciências em serviço a respeito da

perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) e das

questões sociocientíficas (QSC). Discutimos dificuldades e

contribuições expressadas pelos professores a respeito da

abordagem de QSC. Também, caracterizamos a presença da

ideologia tecnicista do currículo tradicional como um aspecto

relevante que restringe a autonomia e a formação dos professores.

Por último, analisamos a influência da abordagem de QSC nos

processos de construção da autonomia docente.

 

A construção da autonomia é um processo pessoal e social que

pode ser compreendido de forma individual, reflexiva e dialógica,

mas sua construção exige processos formativos permanentes.

 

Essa formação permanente do professor de Ciências pode ser

dinamizada por meio da abordagem de QSC embasada na

preparação do professor pesquisador, de modo que essa

abordagem contribui à reflexão crítica da prática docente, a qual

encontra maiores possibilidades de desenvolvimento quando é estruturada a partir de problemas de ensino propostos pelos

próprios professores.

 

A abordagem de QSC na formação continuada de professores de

Ciências ligada à pesquisa constitui uma relação relevante para

reposicionar a perspectiva CTSA na prática dos professores de

Ciências, uma vez que contribui para a inovação educacional e a

construção de conhecimentos escolares.

 

Ampliaremos nossas análises neste capítulo focando em

caracterizar o contexto de produção discursiva, no qual os

professores em serviço abordaram QSC e estruturaram novas

compreensões sobre a autonomia docente. Analisaremos os tipos

de interações dialógicas que foram estabelecidas com os

professores participantes da pesquisa (PP) durante o

desenvolvimento da disciplina Ensino de Ciências com Enfoque

CTSA a Partir de QSC e, finalmente, analisaremos as contribuições

desse processo para a formação continuada de professores de

Ciências em termos do melhoramento da prática docente e da

construção de novas compreensões sobre a perspectiva CTSA.

 

Apoiaremos nossas análises no conceito de interdiscursividade

oferecido pela ADC (Fairclough, 2001a; 2001b), uma vez que nos

possibilita estudar os processos de produção e transformação

discursiva.

 

O conceito de interdiscursividade e intertextualidade foi discutido no

Capítulo 3, dedicado à análise de discurso crítica (ADC). Neste

capítulo, caracterizamos a intertextualidade como a propriedade dos

textos de serem conformados por fragmentos de outros textos, os

quais podem ser delimitados, explicitados ou misturados,

envolvendo processos de adoção, contradição, reprodução ou

reformulação. Os textos são considerados sob uma perspectiva

ampla, que abrange qualquer tipo de produção linguística, seja

verbal ou não verbal. Assim, todos os registros constituídos durante

esta pesquisa podem ser considerados como textos suscetíveis de

interpretação crítica.

A intertextualidade pode ser manifesta ou constitutiva. No primeiro

caso, os textos que estão sendo representados em outro texto são

explicitamente marcados ou diferenciados, e no segundo caso são

representados em um mesmo texto, de forma tal que são

praticamente imperceptíveis ou indiferenciáveis, dado que um texto

não referencia diretamente o outro. A intertextualidade constitutiva

de preferência é denominada interdiscursividade.

 

Os conceitos de intertextualidade manifesta e interdiscursividade

são relevantes para entender que todo discurso não é totalmente

autônomo, porque ele está constituído de pelo menos duas vozes,

mesmo que uma delas permaneça em uma posição de

subordinação, como ocorre no discurso autoritário ou absolutista.

Blikstein (1999) assinalou que o discurso está conformado por

várias vozes que se entrecruzam no tempo e no espaço, de tal

maneira que é necessária uma análise profunda para desvelar o

sentido do discurso, uma vez que este pode estar tratando de um

referente x e, na verdade, está ocultando um referente y, que

permanece imperceptível nas redes da interdiscursividade.

 

Intertextualidade manifesta e interdiscursividade envolvem um

caráter polifônico relevante na ADC, porque na caracterização das

vozes presentes em um texto teremos mais elementos para

compreender os processos de produção, reprodução ou

transformação discursiva.

 

A ideia bakhtiniana de interações dialógicas ou dialogismo implica

necessariamente o conceito de polifonia, que constitui uma dialética

multifuncional entre sentidos que configuram a própria arquitetura de

qualquer tipo de discurso (Brait, 1999).

 

Existe um considerável número de trabalhos em ensino de Ciências

que têm analisado as interações discursivas em sala de aula,

especificamente no ensino básico (Mortimer; Scott, 2002; Martins,

2006). No entanto, são poucos os trabalhos que analisam as

interações discursivas no ensino superior e, particularmente, nos

espaços de preparação dos professores, tais como licenciaturas,

programas de pós-graduação e programas de formação continuada. Dos poucos trabalhos de pesquisa existentes sobre questões

discursivas no nível da preparação dos professores, destacamos os

de Camargo e Nardi (2008), Camargo (2007) e Cortela e Nardi

(2004), os quais analisam discursos de licenciandos e professores

em serviço sobre processos de reestruturação curricular de cursos

de licenciatura em Física. Em geral esses trabalhos contribuem para

a compreensão das relações de força que são estabelecidas por

atores no processo de definição do que deve ser estabelecido no

currículo dos cursos de licenciatura. Apesar de as pesquisas citadas

apontarem tensões entre diferentes interesses e ideologias nos

processos de estruturação curricular, não nos oferecem análises

específicas sobre interações discursivas dos formadores de

professores e dos licenciandos em sala de aula ou em outros

espaços destinados ao ensino.

 

Levando em consideração as poucas pesquisas existentes sobre as

interações discursivas nos cursos de formação de professores de

Ciências, realizaremos uma análise nas interações dialógicas

estabelecidas entre os PP embasados na noção de linguagem como

constituinte fundamental das relações sociais e culturais do ser

humano. Essa ideia, de origem bakhtiniana, é uns dos fundamentos

centrais da ADC.

 

A ADC resgata e desenvolve as contribuições translinguísticas

propostas por Bakhtin, o qual foi o fundador da teoria semiótica da

ideologia embasada no conceito de dialogismo. Bakhtin salientou

que a essência da linguagem não repousa na interioridade dos

sistemas linguísticos, mas nos processos sociais de interação

discursiva, seja verbal ou não verbal (Bakhtin; Volochínov, 1988;

Bakhtin, 2000).

 

Bakhtin criticou contundentemente o objetivismo abstrato dos

linguistas formalistas, defendido por Saussure, o qual considerava a

língua como um sistema sincrônico homogêneo que desconsidera

suas manifestações individuais e históricas. De forma contrária,

Bakhtin valorizou a língua em uso (enunciação), indissoluvelmente vinculada às condições de comunicação existente nas relações e

estruturas sociais.

 

A língua está presente em todos os atos de compreensão e em

todos os atos de interpretação. O centro de gravidade da língua não

reside na conformidade à norma da forma utilizada, mas na nova

significação que essa forma adquire no contexto social. No entanto,

o processo de significação do locutor não necessariamente precisa

de um simples receptor, pois a decodificação não é reconhecer

somente a expressão linguística utilizada, mas compreendê-la em

um contexto específico. Ou seja, o importante é compreender o

significado na enunciação, e não em sua formalização abstrata, que

não especifica seu contexto de produção.

 

O problema da interação verbal não é a simples expressão segundo

determinadas normas formais linguísticas. O problema central é a

comunicação, que não é reduzível à dupla locutor-ouvinte, como se

essa relação fosse condição necessária da linguagem, pois tal

redução restringe a compreensão social da linguagem, que pode ter

maior abrangência quando é estudada em termos de enunciação

que constituem as interações dialógicas.

 

Bakhtin (2000) entende o diálogo intrinsecamente relacionado à

vida, pois a vida é dialógica por natureza. O ser humano vive

questionando, respondendo, ouvindo e interagindo de diferentes

formas durante o decorrer da vida pessoal e social.

 

O dialogismo bakhtiniano abrange um espectro amplo de interações

intersubjetivas, nas quais o eu e o outro são inseparáveis, porque

sua construção e realização dependem um do outro. O

relacionamento dialógico mediado pela linguagem pode ou não levar

ao entendimento entre seres humanos, pois envolve

permanentemente conflitos ou disputas entre interesses e ideologias

que concorrem permanentemente nas interações sociais.

 

A alteridade é uma característica central do dialogismo, na medida

em que o “eu” é pensado necessariamente em relação com o

“outro”. O “eu” e o “outro” valorizam-se a partir de diferentes posições e lugares sociais, a partir dos quais constroem o

significado de suas interações.

 

Oliveira (2006) pontua que a ideia de que o sujeito não seja

indiferente ao “outro” não pressupõe de forma alguma a identidade

plena do “eu” com o “outro”, porque o “eu” também compreende a

subjetividade do “outro” a partir de seu próprio ponto de vista, de tal

forma que a alteridade é complexa, pois não funciona de maneira

unilateral, mas dialeticamente. O dialogismo, portanto, não implica

necessariamente concordância entre sujeitos que assumem as

mesmas posições e também não se limita a ter como objetivo a

concretização do consenso, porque o dialogismo é construído entre

a diversidade de vozes, às vezes divergentes, às vezes

convergentes, mas sempre em permanente interação e

transformação.

 

Segundo Oliveira (ibidem), existem dois tipos de interações

dialógicas, que por sua vez circulam em dois discursos. As

interações dialógicas de tipo polifônico (discurso polifônico) e as

interações dialógicas transgressoras (discurso autoritário ou

absolutista).

 

As interações dialógicas polifônicas envolvem sujeitos dialogando

nas mesmas condições sobre suas convicções e seus próprios

pontos de vista sem maiores restrições, o que representa um ideal

importante do dialogismo, mas não corresponde necessariamente à

realidade social, na qual o direito de dizer ou ouvir está altamente

limitado, tal como é salientado por Kramer (2000). Esse tipo de

interação dialógica é relevante para construir um ponto de referência

para insistir na busca da conquista de democracia plena, a qual

implicaria a materialização de relações intersubjetivas em igualdade

de condições.

 

O essencial dessa relação de natureza polifônica é a garantia

do espaço de dizer e de ser ouvido, é a presença de mais de

uma consciência, de mais de um ponto de vista, onde as

diferenças não signifiquem desigualdades sociais. (Oliveira,

2006, p.40)

As interações dialógicas transgressoras envolvem modos de agir e

pensar que negam ou desconhecem o direito do sujeito de dizer e

de fazer-se ouvir. Esse tipo de interação é fortemente desenvolvido

em contextos e situações de autoritarismo. No entanto, em toda

interação dialógica transgressora existe uma forte confrontação e

discordância entre valores e culturas, de tal forma que os sujeitos

em condições desiguais lutam para dizer sua palavra e por fazer

ouvir as outras consciências que concorrem no diálogo.

 

Conforme Bakhtin (2000), as interações dialógicas nem sempre são

consensuais e, portanto, envolvem conflitos, mas o diálogo também

pode superar as controvérsias para alcançar um alto nível de

compreensão. Assim, o diálogo é compreendido no sentido amplo

de modos de ação e de interação, nos quais o “eu” e o “outro” se

constituem mutuamente.

 

A partir das considerações teóricas expostas anteriormente,

analisaremos os tipos de interações dialógicas estabelecidas entre

os PP e o autor desta pesquisa (PU), identificando as posições

adotadas pelos professores em serviço, bem como as adotadas pelo

PU no decorrer de dois encontros 1 representativos da disciplina

Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC. Focamos

as análises em apenas dois encontros, por serem os mais

importantes do trabalho desenvolvido com os professores, uma vez

que foram destinados à apresentação e discussão das propostas de

pesquisa elaboradas pelos PP sobre a abordagem de QSC em sala

de aula.

 

Nos dois encontros analisados da disciplina Ensino de Ciências com

Enfoque CTSA a Partir de QSC foram registrados 380 turnos, dos

quais 29 corresponderam a apresentações dos PP. Cada

apresentação contou com quinze minutos, totalizando sete horas e

25 minutos para a realização do total de apresentações. Tendo em

consideração que os dois encontros duraram aproximadamente

doze horas, registramos quatro horas e 35 minutos de discussões

entre os professores e o PU, de modo que focaremos as análises

nos registros correspondentes a esse período de tempo.

Conforme foi descrito no Capítulo 4, a intenção do PU em cada um

dos encontros consistiu em favorecer a construção de um espaço de

reflexão sobre aspectos teóricos e metodológicos da perspectiva

CTSA e das QSC, favorecendo uma metodologia de trabalho

interativa, uma vez que se propendeu à participação ativa dos

professores. Dos 380 turnos registrados nos encontros, 7,6%

destinados às apresentações dos professores, 65% foram utilizados

pelos PP e 27,4% foram utilizados pelo PU. Os dados apoiam a

ideia de que o trabalho realizado com os professores foi interativo,

dado o significativo uso da palavra por parte dos PP.

 

Na Tabela 4 sintetizamos as formas como o PU dinamizou o diálogo

dos PP por meio de questionamentos, explicação de algum tema

particular, realização de algum tipo de recomendação,

retroalimentação de alguma inquietação exposta pelos professores

e organização do diálogo. A maior parte das intervenções do PU foi

focada na organização do diálogo e na realização de explicações ou

reflexões de algum tema particular de acordo com seu próprio ponto

de vista, o que representa outra evidência do trabalho interativo

desenvolvido com os professores.

Tabela 4 – Tipo de participação do PU durante os encontros

analisados

 

Tipo de participação do professor Número

universitário (PU) de

turnos

Realização de questionamentos. 20

Explicação ou reflexão de algum tema 21

particular de acordo com seu próprio ponto

de vista.

Organização e motivação do diálogo (motiva 41

o diálogo e passa a fala para os

professores).

Retroalimentação requerida (feedback). 10

Realização de algum tipo de recomendação 12

sobre os trabalhos dos professores.

Total 104

 

A partir de uma análise global dos turnos registrados nos encontros

analisados, caracterizamos a interação entre os PP e o PU

conforme os quatro momentos descritos no Quadro 19. Os

momentos que mais tempo tiveram para seu desenvolvimento foram

os utilizados pelos PP, os quais corresponderam à apresentação de

seus trabalhos e as discussões sobre estes. Contudo, se

considerarmos que os momentos foram apresentando-se

periodicamente durante o maior tempo dos encontros, podemos

dizer que a estrutura dos momentos desenvolvidos privilegiou a

autoridade do PU, pois ele é quem iniciava e fechava as

intervenções, o que garante o controle da interação desenvolvida

como os PP.

Quadro 19 – Momentos de interação entre o PU e os PP

 

Momentos Descrição do momento

que

caracterizam

a interação

entre o PU e

os PP

 

Início do O PU iniciou os dois encontros

diálogo por realizando síntese das discussões e

parte do PU. das atividades desenvolvidas. A partir

dessa síntese, salientava os acordos e

tarefas estabelecidos. Finalmente, dava

vez à apresentação das propostas dos

professores.

 

Apresentação Os professores geralmente

das apresentavam os objetivos de suas

propostas de propostas de ensino voltadas à

pesquisa dos abordagem de QSC, o referencial

professores teórico e a metodologia.

de Ciências

em serviço.

 

Discussão Registraram-se perguntas e

aberta sobre comentários dos PP sobre as propostas

as propostas apresentadas. A participação era livre.

dos

professores.

 

Fechamento O PU também participava da discussão

da discussão por meio de perguntas e comentários e

da proposta e geralmente fechava a discussão

início da passando a fala para outro professor,

apresentação para realizar sua correspondente

de outra apresentação.

proposta.

Fonte: Martínez (2010).

 

Apesar de o PU assumir um papel de autoridade, por sua própria

condição social de formador de formadores, é necessário precisar

que foram identificadas, na maior parte das ocasiões, interações

dialógicas persuasivas promovidas pelo PU e por outros PP, o que

foi importante para descentralizar a autoridade do PU e favorecer o

encorajamento dos PP. É interessante que as interações dialógicas

de persuasão vão se construindo interdiscursivamente, uma vez que

os PP também vão se apropriando desse tipo de interação, dado

que, em determinados momentos, também constituíram interações

de autoridade entre eles mesmos. Em seguida analisaremos vários

episódios que nos ajudarão a compreender melhor a forma como

foram se estabelecendo determinadas interações dialógicas.

 

No 2 Episódio 34 apreciamos o estabelecimento de uma interação

dialógica de autoridade por parte do PU, pois ele é quem estabelece

as orientações para o desenvolvimento dos encontros. Aliás,

estabelece alguns aspectos de pesquisa que os professores

deveriam utilizar para a realização de seus trabalhos. A frase “Em

um curso de mestrado, o objetivo é que se formem como

pesquisadores” (linha 10) pode indicar que o PU é um pesquisador

constituído e que os PP estão em processo de formação como

pesquisadores, reafirmando, dessa forma, a autoridade do PU. No

entanto, este tenta moderar a interação de autoridade estabelecida

colocando-se no lugar dos professores no momento em que

expressa “temos experiências, mas nos falta a teoria” (linha 13).

Assim, o PU parece estar assumindo a dificuldade apresentada

pelos professores para incorporar a reflexão teórica sobre suas

experiências como um processo permanente. A fala do PU da linha

15 até a linha 18 confirma que ele tenta manter sua autoridade

assumindo seu papel de avaliador, mas ao mesmo tempo tenta

valorizar a autoavaliação dos próprios professores.

 

Episódio 34 (GE ) 4

5 1. PU: [...] Gostaria de lembrar alguns

aspectos importantes da disciplina. Há umas

duas semanas foram encaminhadas

orientações prévias para a realização do

trabalho no quarto e quinto encontro [da

disciplina]. Escrevi um texto [com as

orientações] a partir da pedagogia da

autonomia, que é um livro que todos

deveríamos ler. [O livro] Foi escrito por Paulo

Freire, um autor latino-americano que

desenvolveu um pensamento pedagógico

para nossos contextos. Ele fala dos saberes

necessários para o ensino, que não pode se

desenvolver sem pesquisa.

 

10 O ensino não pode se marginalizar de um

objeto de conhecimento. Se não tivéssemos

um objeto de conhecimento, não teríamos

uma profissão.

 

15 Carr e Kemmis nos dizem que a autonomia é

um elemento fundamental, mas é cada vez

mais reduzida. Muitos somos técnicos. Em um

curso de mestrado, o objetivo é que se

formem como pesquisadores. Então a ideia

era pensar em uma QSC, pensar por que vou

trabalhar essa questão, levar em

consideração as características dos

estudantes, pensar para que [abordar a QSC],

pensar no objetivo. [...] Falta muita leitura,

temos experiências, mas nos falta a teoria Há

uma preocupação sobre o como ensinar, mas

não vai além disso. [...] Depois encaminhei

uma avaliação, ou melhor, uma proposta, que

é uma avaliação formativa para potencializar

sua autonomia.

Solicitei uma autoavaliação [de vocês].

Recebi dez propostas [de trabalhos sobre a

abordagem de QSC] e consegui realizar

comentários de oito, faltaram duas...

 

Conforme o Episódio 34, apreciamos que o PU desenvolve uma

interação dialógica de autoridade combinada com uma interação

dialógica persuasiva. Contudo, esses tipos de interação também são

desenvolvidos por outros PP, o que é interessante para entender a

forma como os sujeitos vão se posicionando uns com respeito a

outros no decorrer do diálogo sobre a abordagem de QSC.

 

No Episódio 35 observamos que o professor Roberto inicia uma

interação dialógica de autoridade no turno 3 por meio de um

questionamento sobre o título do trabalho da professora Adriana.

Diante de tal questionamento, a professora oferece uma resposta

factual no turno 4.

 

Episódio 35 (GE ) 4

 

2. Adriana: Quero dar a conhecer minha proposta. Ainda não fiz

a minha apresentação, mas já sei que farei algumas mudanças.

Bom! Dou aula para estudantes da 3a série do ensino de médio

e quero trabalhar com eles. A questão sociocientífica pode se

relacionar com o currículo, com a unidade dos hidrocarbonetos.

Por isso, vamos trabalhar os biocombustíveis. Vamos trabalhar

o pensamento autônomo, a resolução de problemas e

habilidades de leitura. Como todos sabem, isto é todo um

processo, planejamento, aplicação, coleta de informações e,

finalmente, chegar a uma conclusão... [...] Apesar de mencionar

cinco habilidades de pensamento [crítico], vou focar em duas,

que me parecem importantes: a habilidade de comparar e

contrastar e tomar decisões, isto é, o que neste momento tenho

pensado. Já tenho trabalhado nisso, então escuto os

comentários e sugestões de vocês [a sala fica em silêncio por

uns minutos, e o professor Roberto pede a palavra]. Pois não!

[a professora autoriza a fala do professor Roberto por meio da

expressão “Si señor”]

 

3. Roberto: Fiquei como uma dúvida: qual é o título do trabalho?

 

4. Adriana: Eu tenho pensando que o título do trabalho poderia

ser “Desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico: um

ponto de vista desde a metaleitura”. Questão sociocientífica: os

biocombustíveis.

 

5. Roberto: Repete o título, por favor [outros professores dão

risada].

 

6. Adriana: “Desenvolvimento de habilidades de pensamento

crítico: um ponto de vista desde a metaleitura. A questão

sociocientífica são os biocombustíveis [a professora fala forte].

Deixo claro que, como meu problema são as habilidades de

pensamento, logicamente não as vou desenvolver todas. Vão

ser trabalhadas duas habilidades, que são comparar e

contrastar e tomada de decisão.

 

7. Roberto: Bom! Obrigado. Segunda pergunta: tem algum

referencial padrão [instrumentos] para contrastar com o estado

inicial e o estado final [da aplicação da proposta da professora

Adriana]? E ao final [do trabalho], tem como avaliar?

 

8. Adriana: Bem! Dentro dos instrumentos, tenho um que vou

aplicar no começo para ver o estado inicial e depois de

trabalhar as habilidades. Então aplico o mesmo questionário

[instrumento] para ver que avanços se alcançaram.

 

9. Roberto: Terceira pergunta [alguns professores dão risada].

Desculpem, não quero que seja percebido como se estivesse

atacando. Simplesmente a partir do que estou trabalhando vão

surgindo uma série de questionamentos. Então a seguinte

[pergunta] é sobre a situação das leituras que vão ser

fornecidas aos estudantes. E então, em que momento vai

aplicar o instrumento? Antes ou depois [de trabalhar as

leituras]?

 

10. Adriana: Está bem! Eu tenho pensado a proposta da

seguinte forma: na primeira sessão eu vou socializar a proposta

e se aplicarão os instrumentos, e um dos instrumentos é

identificar como estão suas habilidades. Na segunda sessão já

começo a aplicar as leituras, então já começo a analisar as

habilidades de pensamento, e em cada leitura há um exercício

enfocando essa habilidade, então são cinco leituras...

 

11. Roberto: E, finalmente. Que vergonha! Há uma forma de

contrastar o instrumento, ou somente vai ter o grupo de estudo?

[o professor está se referindo a outro grupo de estudantes que

poderia ser usado para contrastar os resultados da proposta

desenvolvidos pela professora]

 

12. Adriana: Na verdade, tenho a possibilidade de fazê-lo e

estava pensando na possibilidade de fazê-lo. Tenho duas

turmas, então posso aplicar o trabalho em uma e na outra não

[outra professora pede a palavra].

 

13. Mônica: Minha inquietação é com a questão sociocientífica.

Há uma parte na qual se considere o contexto [dos

estudantes]?

 

14. Adriana: Certo! Há vários aspectos. O primeiro é que o tema

dos biocombustíveis, eu o tenho trabalhado de uma forma

detalhada, porque isso dos biocombustíveis e aquilo da

contaminação, há que prestar maior atenção devido ao perigo

que enfrentamos para a vida do planeta. O espaço no qual está

localizada a escola é um espaço no qual há bastantes fábricas,

há muita poluição, e nossa população [de estudantes e famílias]

trabalha em um espaço contaminado, e então podemos

relacionar o trabalho com essa parte. [o professor Roberto volta

a pedir a palavra] Pois não!

15. Roberto: O tema no qual vai trabalhar o conceito

combustível [a professora Adriana fala biocombustíveis], não o

tema [do currículo] hidrocarbonetos. Ou seja, já passou isso [o

tema]?

 

16. Adriana: Podemos dizer que estamos trabalhando esse

tema [os hidrocarbonetos], mas ainda estamos com

possibilidades de desenvolver esta proposta [sobre os

biocombustíveis]. Esta proposta, eu a tenho pensada em seis

encontros. Esses seis encontros são de duas horas cada um, e

eu posso desenvolver o trabalho em três ou quatro semanas,

que é o tempo no qual eu posso desenvolver o tema dos

hidrocarbonetos.

 

17. Roberto: Certo! Você teve a necessidade de modificar o

planejamento curricular que estava estabelecido.

 

18. Adriana: Não, senhor! O tema de hidrocarbonetos é um dos

temas do currículo, e podemos articulá-lo com a proposta [dos

biocombustíveis]

 

O professor Roberto desenvolve a interação dialógica de autoridade

no turno 7 solicitando uma resposta positiva ou negativa por parte

da professora Adriana sobre o tipo de instrumento que ela aplicará

em seu trabalho. Ela responde positivamente (turno 8), explicando o

tipo de instrumento que aplicara em seu trabalho. Em decorrência

disso o professor Roberto substitui seu questionamento fechado por

um questionamento aberto (turno 9), que é atendido razoavelmente

pela professora Adriana no turno 10. Mas o professor Roberto mais

uma vez questiona a professora (turno 11) sobre uma questão

metodológica de seu trabalho, e ela aceita o questionamento,

porque parece ser interpretado como uma recomendação (turno 12).

 

Na sequência dialógica analisada no Episódio 35 observamos que o

professor Roberto assume uma posição de avaliador a respeito da

proposta apresentada pela professora Adriana e, dessa forma,

estabelece uma interação dialógica de autoridade, na qual foca em

tentar identificar possíveis inconsistências metodológicas do trabalho da professora Adriana. Observamos que o professor

Roberto termina seus primeiros questionamentos só quando a

professora, no turno 12, parece aceitar sua sugestão.

 

A posição de autoridade assumida pelo professor Roberto é

apreciada novamente no turno 14, quando é iniciada outra

sequência de questionamentos. Mas neste caso a professora

Adriana tenta sair do controle estabelecido pelo professor Roberto,

assumindo uma posição de discordância no turno 18 expressando

que não há necessidade de mudar o currículo, pois este poderia ser

relacionado com a QSC proposta por ela.

 

A interação dialógica de autoridade estabelecida pelo professor

Roberto tende a ser mais impositiva que persuasiva, na medida em

que ele parece não estar interessado em deixar sua própria posição

de avaliador para colocar-se na posição da professora Adriana, que

busca estruturar uma proposta de ensino fundamentada na

pesquisa.

 

A interação dialógica de autoridade também é desenvolvida

interdiscursivamente pela professora Fernanda nos turnos 19, 21 e

23 do Episódio 36, na medida em que ela igualmente assume o

papel de avaliadora, mas, nesse caso, não assume esse papel com

o mesmo grau de imposição evidenciado no caso do professor

Roberto, pois ela, no turno 21 desse episódio, relaciona o tema

central da proposta da professora Adriana. É importante valorizar o

tênue descentramento experimentado pela professora Fernanda em

sua posição de avaliadora, porque isso ajudaria a transformar o tipo

de interação dialógica estabelecida entre os professores.

 

Episódio 36 (GE ) 4

 

19. Fernanda: Eu gostaria de saber para que toda essa

proposta, o que você vai desenvolver além de algumas

habilidades?

 

20. Adriana: Exatamente! Primeiro é para levar em

consideração essas habilidades de pensamento, porque hoje,

pelo menos as crianças que eu trabalho de ensino básico têm

algumas dificuldades para interpretar e para escrever. Isto é

uma parte, e a outra parte, como falava para a colega [Mônica],

pelo contexto em que estamos há contaminação, então o tema

dos biocombustíveis me parece interessante, tendo em

consideração a problemática ambiental da escola.

 

21. Fernanda: Como vai contextualizar e desenvolver essas

habilidades?

 

22. Adriana: Primeiro as habilidades se devem contextualizar, e

para isso é preciso ter bem claro a parte dos bicombustíveis.

 

23. Fernanda: Outra pergunta sobre a metaleitura: você tem

algum referencial teórico?

 

24. Adriana: Certo! Já tenho um referencial teórico elaborado.

 

No Episódio 37 observamos que a professora Roberta também

estabelece uma interação dialógica de autoridade, uma vez que

assume a posição de avaliadora. Mas desta vez a interação de

autoridade tende a ser persuasiva. A professora Roberta

experimenta um descentramento em sua posição de avaliadora,

tentando assumir a posição de professora da escola preocupada em

desenvolver um trabalho em ensino de Ciências com enfoque

CTSA, uma vez que ela salienta e sugere especificar a QSC que

permitiria ao professor Paulo concretizar de melhor forma os

aspectos expostos por ele sobre a perspectiva CTSA. No entanto,

diante da resposta oferecida pelo professor Paulo, que não explicita

a QSC de seu interesse, a professora Roberta reafirma sua posição

de autoridade indicando a limitação que ela percebe no trabalho do

professor Paulo.

 

Episódio 37 (GE ) 4

 

34. Paulo: Boa tarde para todos. Na verdade, eu não fiz a

apresentação [em slides], mas vou ler os pontos mais

importantes de minha proposta e depois vamos comentando.

Então, meu projeto se intitula “Educação para ação social

responsável do ensino de Química no ensino básico com

problemáticas socioambientais contextuais”. O título está muito

grande? [os professores dão risada]. Espero que os estudantes,

quando concluírem o ensino básico, possam fazer um uso

significativo dos conhecimentos conceituais, metodológicos e

atitudinais nos diversos âmbitos, nos quais se desenvolvem no

dia a dia ou participam na solução dos diferentes problemas

ambientais que afetam sua comunidade.

 

35. Roberta: Que tipo de QSC você vai trabalhar? Porque não

ficou claro para mim sobre qual QSC vai ser realizado o

trabalho. Ou seja, você falou da tomada de decisão, mas não

ficou claro para mim qual é a questão. Contextualizar os

estudantes diante do entorno natural é uma intenção, mas que

tipo de decisão devem tomar os estudantes sobre uma questão

determinada?

 

36. Paulo: Primeiro, para contextualizar temos o problema dos

curtumes. A partir daí, entender qual é o problema ambiental,

coletar os dados para avaliar essa informação [do problema

ambiental]. Como recuperar toda a informação para a tomada

de decisão diante dos plásticos, das sacolas, deixar de usá-las.

Poderiam dar uma sacola reciclável e poderiam dar um

desconto por essa sacola.

 

37. Roberta: Existe um enfoque CTSA [a professora se refere à

proposta apresentada pelo professor Paulo], mas não existe

uma QSC. A QSC não está bem definida.

 

No Episódio 38 o PU participa do diálogo entre a professora Roberta

e o professor Paulo, enquadrando-se também na interação dialógica

de autoridade, mas tentando persuadir o professor Paulo a avançar

em sua leitura sobre a perspectiva CTSA. A interação dialógica se

torna mais persuasiva com a intervenção do professor Ricardo no

turno 40 do mesmo episódio, no qual ele propõe uma QSC que

identificou a partir da proposta apresentada pelo professor Paulo, o

que nos indica que ele se posiciona no lugar do professor. Contudo, no turno 41 o professor Roberto volta a iniciar uma interação

dialógica de autoridade impositiva, diante da qual o PU busca

restabelecer o processo persuasivo dando a voz ao professor Paulo

e reconhecendo a importância dos diferentes pontos de vista que

contribuem com o melhoramento da proposta apresentada por este.

 

Episódio 38 (GE ) 4

 

38. PU: Aproveitando a fala da professora Roberta, vou

continuar com a reflexão. Trabalhei com Paulo a perspectiva

CTSA [no TCC] de forma geral, o que foi importante. Mas em

termos de desmarginalizar esta perspectiva de tua prática

docente, qual seria a QSC que desenvolveria em suas aulas e

como se articula esta questão com a tomada de decisão?

 

40. Ricardo: Uma das questões [que poderia trabalhar o

professor Paulo], por exemplo, seria os polímeros, a

manipulação de resíduos, não só reduzir, mas também

reutilizar. Assim, podem [o professor Paulo e seus alunos] fazer

várias coisas, começar com saídas da escola, e dessa forma

vai para o contexto [social]. Aí apareceria essa história que se

trabalha sobre educação ambiental. Resolver a problemática é

impossível [a problemática da poluição gerada pelos curtumes].

Persuadir os donos desses curtumes é complicado.

 

41. Roberto: Bom! Com respeito ao problema que coloca Paulo,

vejo muitas coisas, vejo a situação um pouquinho extensa.

Quando você estabeleceu o problema, você mencionou uma

coisa que é fundamental, mas que pode gerar muitas coisas:

“deveriam aprender”. Eu pergunto se isso é uma obrigação.

Quando você expôs o problema, falou a expressão “deveriam

aprender”, então fica como algo obrigatório. Se eles estão

estudando seu contexto, no qual há bastantes problemas

ambientais, não sei, deveria primeiro ajustar o conceito, porque

o vejo muito extenso. Essa é uma situação. Igualmente, não é

claro para mim a metodologia que você vai desenvolver. Você

falou muito rápido sobre isto e falou de discussão, debates e o

jogo de papéis. Você vai trabalhar com as três coisas?

 

42. PU: Uma coisa para Paulo e para todos: não se trata de

responder a tudo, mas se trata de enriquecer e pensar como

vamos melhorar o trabalho que estamos desenvolvendo. Paulo,

você tem a palavra para expressar suas considerações [sobre

os comentários realizados pelos colegas].

 

43. Paulo: Sim! É provável que quando fiz a apresentação não

estabeleci algo específico, mas a proposta está centrada nas

reações químicas. De fato, o problema para o segundo período

acadêmico do currículo abrange todas as reações químicas, e

essa parte se vai desenvolver. Em relação com o dito pelo

professor [Roberto] sobre o problema, a pergunta é: quais são

os problemas ambientais que afetam a comunidade da escola e

como a partir desses problemas se podem gerar espaços para

que os estudantes adquiram novas visões de ciência e

tecnologia e consigam desenvolver ações sociais em termos do

exercício de sua cidadania? Agradeço o que vocês têm dito. É

provável que ficassem coisas confusas, porque fui muito amplo,

mas o projeto tem claro o problema sobre os curtumes e os

cheiros desagradáveis que se percebem na escola, que são

muito fortes...

 

44. PU: Importante que pense [referindo-se ao professor Paulo]

sobre as colocações feitas pelos colegas. Pense sobre a QSC

conforme foi dito pelo Ricardo e pense o que é uma QSC.

 

45. Roberta: Seria interessante considerar o diagnóstico

ambiental de teu bairro. Seria interessante revisar quais as

instituições vinculadas [ao problema ambiental].

 

46. PU: Interessante revisar de novo o artigo do Zeidler, que

discute a relação entre CTSA e QSC.

 

No Episódio 39 também identificamos no turno 63 que a professora

Mônica inicia uma interação dialógica de autoridade, avaliando a proposta da professora Cristina por meio de um questionamento no

qual pede explicações sobre a forma como seria valorizada a

mudança de atitude dos estudantes. Apesar de a professora Cristina

oferecer uma resposta razoável, a professora Mônica avalia essa

resposta repetindo novamente seu questionamento de forma

simplificada (turno 65). Diante de tal questionamento, a professora

Cristina responde de forma ampla, e não é registrada uma

interpelação da professora Mônica. No entanto, ela continua

mantendo sua autoridade indicando alguns pontos que deveriam ser

revisados pela professora Cristina (turno 67). A resposta oferecida

pela professora Cristina não recebe objeção alguma da professora

Mônica, mas implica outro questionamento, que ela faz para manter

sua posição de autoridade como avaliadora (turno 69).

 

Episódio 39 (GE ) 4

 

60. Cristina: Boa tarde. Parece-me uma coincidência que,

escutando a apresentação do professor Lucas, evidentemente

estamos apontando ao mesmo, logicamente com uma

população diferente. Então, a QSC que eu vou trabalhar está

relacionada com a água. Vou trabalhar com estudantes da 1a

série do ensino médio... [...] Por que propor uma QSC referente

ao tema da água? Primeiro, porque é um tema geral que não é

desconhecido para ninguém. Segundo, porque se pode

desenvolver a partir das diferentes disciplinas e a partir da

Educação Ambiental... [...] Se vemos a questão a partir do

ponto de vista social, podemos contextualizar com os

estudantes da escola diante das dificuldades que têm emergido

nos últimos dias sobre este recurso. Diante do ambiente, o

problema de contaminação da água da comunidade pelas

enchentes, que todos temos escutado nos últimos dias. Há

quinze ou vinte dias saiu uma notícia que nove cidades de

cundinamarca [o equivalente a um estado do Brasil] não

estavam com água potável. Entre essas cidades está a cidade

na qual está localizada a escola...

 

61. PU: Vai trabalhar tudo isso?

62. Cristina: Vou focar na tomada de decisão, analisar o

problema e buscar alternativas com os estudantes...

 

63. Mônica: Você falou que deseja realizar uma mudança

atitudinal. Que instrumentos você vai utilizar para avaliar essa

mudança atitudinal?

 

64. Cristina: As oficinas; as notícias. Insisto que o ganho tem

sido que trabalhar sobre essa problemática lhes [a seus alunos]

tem chamado a atenção. Diferente do que falaram para eles, a

cidade de Bogotá tem um problema [com a água], e muitos nem

sabem onde fica Bogotá. Então é diferente quando

conversamos sobre o problema do aqueduto da cidade deles.

Então me parece importante utilizar as notícias para propor uma

problemática adequada.

 

65. Mônica: Está bom. Mas minha pergunta é: como você vai

medir essa mudança de atitude?

 

66. Cristina: Eu sei que não é medível, isso o tenho claro. A

atitude não é medível, mas a tomada de decisão evidencia

[essa mudança]. Por exemplo, eu falava para eles quando

estávamos discutindo a notícia das duas cidades que tinham

água potável, nós tentávamos analisar se a água não é potável.

Então, nós, que faríamos? Ah, alguns falam que [###]. Outros

[falam] que fazer uma análise físico-química. E então, como

faríamos essa análise? Então se trata de começar a trabalhar

essas coisas que evidenciem mudanças. Assim os estudantes

começam a opinar. Então [eles] dizem: “Eu penso que

deveríamos trabalhar [as mudanças] com a CAR” [Coorporación

Autónoma Regional, uma instituição relacionada com o sistema

ambiental da Colômbia]. Então começamos a desenvolver esse

debate. Então eu penso que a partir dessas coisas é possível

desenvolver um bom trabalho.

 

67. Mônica: Bom! Desculpe. Duas contribuições. A primeira é

para que pesquise essa parte que a cidade que mencionou não

tem água potável, porque realmente são alguns bairros, porque

o que ocorre é que nessa cidade chega a água do aqueduto, e

em alguns bairros não chega a água do aqueduto. Então para

que olhe bem.

 

68. Cristina: Sim! Eu tenho claro isso. A água que chega do

cano principal para uns [bairros] tem [água potável], mas os

outros [bairros] não têm.

 

69. Mônica: E no slide estava escrito “as questões

sociocientíficas”, então penso que você vai definir só uma

questão.

 

70. Cristina: Ah, sim! Vou definir uma.

 

No Episódio 40 apreciamos que o PU, apesar de continuar

estabelecendo uma interação dialógica de autoridade, se mostra

persuasivo, uma vez que nos turnos 73 e 75 a fala é parcialmente

descentralizada, na medida em que estabelece razões que

questionam o uso de determinados instrumentos quantitativos de

pesquisa propostos pela professora Cristina, persuadindo-a para

que pense no tipo de instrumento utilizado em seu trabalho. Dessa

forma, o PU não se impõe, pois sua fala no turno 75 deixa em

aberto a possibilidade de desenvolver uma metodologia de pesquisa

mista, valorizando o interesse da professora Cristina e seu próprio

interesse, apreciando, assim, uma tentativa de negociação por parte

do PU.

 

Episódio 40 (GE ) 4

 

71. PU: Alguém quer participar? [silêncio na sala] Bom! Eu

gostaria de te perguntar uma coisa, Cristina. Penso que seria

importante especificar a QSC. Por que a QSC da água? Ou

seja, a água é algo geral, a QSC seria um problema, não sei,

estou aqui pensando em relação com o que você apresentou.

Então poderia ser o problema de água potável na cidade que

você indicou. Teria que especificar a questão, porque ainda está

muito amplo. Você tem a QSC, porque você descreveu

exatamente todas as implicações sociais e ambientais do tema

de água, mas na cidade que mencionou. E então, para que não

fique tão local, poderia pensar se é a questão de portabilidade

da água. Precisamente a partir da revisão que você está

fazendo das notícias dos meios de comunicação, a partir do

que você está consultando em termos de portabilidade da água,

ou a partir de que a água [potável] se está esgotando no

mundo, intenta delimitar a questão: o esgotamento da água

[potável], algo assim. Tenta delimitar a questão. A outra

inquietação é que você expõe uma metodologia com vários

elementos qualitativos: oficinas por meio das quais vai coletar a

informação, discussões em grupo. Inclusive você falou que vai

convidar os garotos [estudantes] para que realizem um trabalho

com os pais de família, o que é interessante, mas é necessário

considerar as possibilidades disso. Você termina referindo-se às

análises com a utilização de um pré-teste e um pós-teste. E

então, qual é o objetivo, o sentido desses pré e pós-testes no

trabalho?

 

72. Cristina: De certa forma, penso que se trata de chegar a

eles, e quando eu chego a eles sem esse referencial teórico

[###] há uma concepção de fazer as coisas. Então é também

tomar em consideração não apenas o desenvolvimento das

oficinas, mas também mirar a parte da avaliação com um

instrumento final para considerar a que se chegou depois de

realizar o trabalho.

 

73. PU: Está bom! Pronto. Você diz um pré e pós-teste, mas o

que é isso? É um estado inicial e um estado final? Para que é

considerado isso? Para ver se houve mudança de alguma

coisa? Isso é um procedimento [metodológico] que foi muito

usado, mas é um procedimento instrumental. Com todo o

respeito aos pesquisadores que trabalham como esse

procedimento, mas na literatura internacional [da área] o uso

desses instrumentos tem diminuído bastante. Vocês podem

consultar as revistas da área, Science Education, para ver isso.

Bom, nas revistas da área encontramos poucos trabalhos que

estejam utilizando instrumentos desse tipo. Eu acho que vocês

têm percebido minha insistência nesse tema. Por que essa

insistência? Por que se tem identificado as limitações que nos

oferecem esses instrumentos? Em primeiro lugar, esses

instrumentos fazem parte de um planejamento quantitativo [da

pesquisa]. Por quê? Porque você procura uma confiabilidade na

medida estatística. E então, se você vai trabalhar isso, tudo

bem! Mas precisa fazê-lo com todo o rigor. Então o instrumento

[o pré-teste] primeiro deve validar-se. Que implica a validação

desse instrumento? Depois disso, [deve pensar] qual é a

confiabilidade desse instrumento, se eu estou avaliando uma

eventual mudança em um estado inicial e um estado final.

Contudo, os procedimentos descritos que podem ser

pertinentes são um procedimento [quantitativo] de pesquisa

instrumental. Por quê? Porque está desconhecendo o processo.

E não tenho como medir por meio de um pré e um pós-teste o

que ocorreu durante o processo, por exemplo, se eu estou

avaliando, neste caso, atitudes. Existem pesquisadores que

continuam validando instrumentos quantitativos, mas como

você avalia o processo, além de apontar algumas mudanças

em determinadas variáveis? Então o convite é para repensar a

parte dos instrumentos. Eu tenho insistido nisso. Podemos

discutir, eu estou aberto a isso...

 

74. Cristina: Será que há incongruência em desenvolver um

trabalho misto? Poderia fazer um procedimento misto mantendo

a coerência.

 

75. PU: Exatamente! A coerência, se você vai desenvolver um

procedimento metodológico misto, tudo bem! Mas deve

especificar como seria esse procedimento metodológico misto.

Hoje é utilizado esse tipo de procedimento em algumas

pesquisas. Você utiliza determinados instrumentos, por

exemplo, quantitativos, que ainda são válidos para diagnósticos

e caracterizações de grupos. [...] Mas para dar conta de

intervenções [educativas], que é o trabalho que estamos

realizando, é necessário nos apoiarmos em outros tipos de

instrumentos qualitativos...

A partir das análises expostas sobre os episódios 35, 36, 37, 38, 39

e 40, apreciamos que o estabelecimento de uma interação dialógica

interativa entre os professores não implica o desenvolvimento do

diálogo de forma simétrica, ou seja, não implica que um sujeito se

coloque na posição de outro sujeito, pois o que evidenciamos foi

que um sujeito tenta manter sua autoridade de controle do diálogo

por meio de frequentes questionamentos ou intervenções. Nesse

sentido, a interação dialógica pode tender ao autoritarismo, quando

não existe nenhum tipo de preocupação de pensar conforme o

ponto de vista do interlocutor, ou, ao contrário, pode tender à

persuasão, quando o sujeito tenta assumir a posição do interlocutor

para entendê-lo da melhor forma a partir de seu próprio

posicionamento.

 

É interessante que a interação dialógica que tende à imposição é

promovida pela professora Mônica e pelo professor Roberto, que,

em termos de seus papéis sociais, compartilham com os outros

professores cenários comuns como a escola, o que poderia motivar

a construção de interações mais simétricas por sua própria condição

docente. Mas, ao contrário, observamos que o processo dialógico

envolve polêmica entre a voz de autoridade encerrada em suas

próprias convicções e a voz dos “outros” (professores Adriana,

Paulo e Cristina).

 

Contrária à interação dialógica impositiva, existe a possibilidade de

estabelecer interações dialógicas polifônicas, nas quais se

expressariam várias vozes em igualdade de condições, constituindo

um diálogo que não configura posições autoritárias, porque

permanentemente as vozes envolvidas propendem ao

reconhecimento mútuo.

 

No Episódio 41, após a apresentação da proposta da professora

Isabel, apreciamos que a professora Roberta, no turno 55, favorece

o desenvolvimento de uma interação dialógica polifônica, na medida

em que suas falas valorizam reflexivamente a proposta da

professora Isabel, sem a intenção de assumir o papel de avaliadora. Episódio 41 (GE ) 5

 

52. Isabel: Bom dia para todos! Minha QSC, que vou trabalhar

em sala de aula, se chama “O aborto, ética e religião”. A

proposta é uma estratégia de aprendizagem que permita

discutir as questões éticas, morais e religiosas sobre o aborto

com o objetivo de fomentar nos estudantes a tomada de

decisão e o pensamento crítico. Bom! Vou desenvolver a

proposta no ensino médio. [...] Vou trabalhar essa QSC porque

é uma problemática mundial e envolve aspectos éticos e

científicos que não são claros para os adolescentes... [...] Na

fundamentação teórica do trabalho, conforme a parte curricular,

pois temos [os temas] da reprodução, divisão celular, toda a

parte da unidade dos padrões [curriculares] relacionada com

genética. A parte geral da genética já foi abordada em sala de

aula com uma metodologia quase tradicional [risada].

 

53. PU: Tradicional? Porque tradicional desconhece que os

professores têm saberes...

 

54: Isabel: Realmente, essa parte curricular ou essas aulas

foram desenvolvidas de forma convencional, e os resultados

foram, até certo ponto, bons. Mas com a questão

[sociocientífica], quero ver até que ponto o trabalho que

realizamos é significativo para os estudantes [...]. As discussões

em sala de aula serão gravadas, jamais tenho feito isso, mas

vamos ver como resulta, vamos tentar essa parte. Para quê?

Para buscar a lógica das ideias, porque os estudantes tentam

fazer as coisas conforme a sua conveniência, então vou mirar

quão coerente pode ser o que fazem e o que dizem, para isso

faço a gravação. E o professor [se refere a ela mesma]

orientará a comunicação e a tomada de decisão dos

estudantes. Eu não sei, eu me perguntava. Eu tenho tentado

realizar muitas vezes o debate, mas os estudantes se cansam,

e é muito difícil desenvolver essa parte. Então eu gostaria de

perguntar para a professora Roberta como orientar essa parte

do debate. Um debate não pode ser em menos de duas horas

Como orientar esse debate? Porque são 33 estudantes.

Parece-me muito complicado, porque eu tenho realizado o

debate, mas os estudantes se dispersam. Isso me preocupa.

 

55. Roberta: Pois essa é uma dificuldade própria de nosso

exercício [docente], e não podemos ter a atenção dos

estudantes durante as duas horas. Mas se fazemos perguntas

orientadoras, é... Eu acho que reconhecer os seus alunos por

seus nomes, perguntando: Você, o que pensa? Você estaria de

acordo com isso? Então uma pergunta orientadora ajuda.

Retomar o discurso dos estudantes para propor-lhes essa

pergunta para que a mesa acadêmica participe [refere-se a um

grupo de estudantes que dinamizava o debate no trabalho da

professora Roberta]. Por isso o elemento do debate faz parte da

dinâmica dos grupos e daquele que nós temos denominado

mesa acadêmica. Então eles sabem que são profissionais nas

mesmas condições que qualquer outro participante, então eles

são profissionais e sabem que podem opinar ou vão perguntar

sobre determinados conceitos. Então eu acho que nem todos

participam, mas se tentamos vincular o papel deles, sua

linguagem, bem como elementos da vida diária, eles vão

participando mais rapidamente e de forma contextualizada.

 

56. Isabel: Obrigada!

 

Da mesma forma, no turno 60 do Episódio 41 o professor Ernesto

narra uma experiência docente que vai ao encontro da proposta da

professora Isabel, a qual focava na discussão dos aspectos éticos e

morais envolvidos na QSC do aborto.

 

Episódio 41 (GE ) 4

 

59. PU: Pronto. Muito obrigado, professora Isabel, pela

apresentação. Perguntas? Comentários? Professor Ernesto,

pode falar.

 

60. Ernesto: Olha, Isabel. O vídeo que você vai apresentar é um

vídeo que atinge os aspectos éticos e morais [a professora

Isabel fala “sim”]. Mas que impacto podem significar essas

imagens sobre o tema do aborto? No entanto, uma pessoa

como eu, educador, adulto, já em processo de envelhecimento

[risadas dos professores]... [...] Faço esse apontamento

engraçado porque me marcou muito o professor da minha

escola. Agora não lembro bem dele, mas ele convocou

estudantes de 1a e 2a série do ensino médio a um anfiteatro de

minha escola pública e nos apresentou um vídeo sobre o tema

do aborto. O vídeo era impactante diante dos diferentes

procedimentos e técnicas constrangedoras, tristes, lamentáveis,

de impacto emocional para os jovens. Então jamais esqueci

isso, pois me marcou. Aí não se trabalharam muitos aspectos

éticos e morais, pois não se tinha muitos elementos para refletir

criticamente sobre o tema, mas as imagens me marcaram. E se

você me pergunta hoje, eu tenho uma postura clara sobre o

tema do aborto. Comento-lhes, não sei se vocês assistiram,

mas há três dias a televisão espanhola internacional passou um

vídeo, uma entrevista de dois jovens, de dois adolescentes que

tiveram que abortar e tiveram um impacto grande. Mostraram

as técnicas que utilizam, e isso sem dúvida gera um impacto

social grande, sobretudo nos jovens. Então essa é minha

inquietação.

 

61. Isabel: Certo! Igual, teria que olhar bem. Eu deixo em aberto

isso, porque teria que considerar bem a parte do vídeo,

dependendo dos resultados que tenha apreciado nos outros

dois momentos. Por exemplo, na minha escola são bastante

ortodoxos, são bastante católicos, então devo mirar bem, por

isso deixei em aberto essa parte do vídeo, para escolher o

vídeo que melhor se ajuste ao grupo [de estudantes].

 

64. Cristina: Bom! Me parece interessante a questão proposta

por você, e particularmente quando é orientada a estudantes de

1a série do ensino médio, quando eles estão desenvolvendo

sua adolescência e as atividades que fazem parecem que são

anacrônicas à nossa vivência, porque eles mesmos comentam

situações de sexualidade totalmente diferentes. Me parece

interessante que o tema do aborto é algo que eles devem

conhecer como reflexão em termos éticos e morais, como você

o colocou. Mas também, como professores, oferecer-lhes

subsídios em relação a sua sexualidade, para que eles tenham

conhecimento, porque muitas vezes o problema é falta de

informação. Além de trabalhar o global, seria bom trabalhar o

mais local, para que no momento que eles devam tomar uma

decisão possam fazê-lo com argumentos.

 

65: Isabel: Exatamente! A ideia é chegar à tomada de decisão,

por exemplo, com o uso de sua [do estudante] sexualidade.

Embora não seja a QSC [o aborto], o tema da sexualidade está

totalmente ligado com o aborto e se deve retomar na discussão,

pois nele também há implicações éticas e morais, dependendo

de seus comportamentos, então vou considerar isso.

 

A interação dialógica de tipo polifônico se desenvolve

interdiscursivamente no turno 64 do mesmo episódio, no qual a

professora Cristina realiza um questionamento sem assumir a

posição de avaliadora, pois o questionamento abrange uma situação

de sua própria experiência, que se entrelaça com as preocupações

expostas pela professora Isabel, a qual valoriza a fala da professora

Cristina no turno 65 e explicita sua concordância sobre trabalhar

aspectos da sexualidade em seu trabalho, mesmo que esse tema

não tenha sido considerado por ela.

 

Nos turnos 68 e 69 do Episódio 42, identificamos na fala da

professora Isabel e na fala do PU a voz da ciência e da religião,

produto do questionamento realizado no turno 67 pelo professor

Vinícius. O interessante é a forma como essas vozes são

representadas no diálogo, pois, apesar de serem divergentes, são

valorizadas de forma semelhante, apontando suas contribuições em

determinadas situações. Dessa forma, não é considerada uma voz

em termos de superioridade em relação a outra voz, tal como

frequentemente ocorre na sociedade. Observamos que no turno 67

do Episódio 42 o professor Vinícius privilegia a voz da ciência para se valorar de melhor forma as implicações religiosas na questão do

aborto.

 

Episódio 42 (GE4)

 

66: PU: Está bom! Estamos com pouco tempo, então passo a

palavra ao professor Vinícius, que não tem participado

[escutam-se comentários na sala]. Depois se pode continuar

conversando pessoalmente, porque essa é a ideia: se

aproximar dos colegas e também desenvolver discussões.

Bom! Então o professor Vinícius, e continuamos com a

[proposta] de professora Angélica.

 

67. Vinícius: A temática como tal é muito interessante no

sentido em que nós já temos regulamentações na Colômbia,

mas dentro dessas mesmas concepções éticas dos

profissionais da saúde, alguns se recusam a fazer esse tipo de

prática [aborto]. Mas, também, não sei, eu faria uma pergunta

tendo em consideração que a escola é de tipo religioso. Não sei

se é possível afastar essa parte religiosa da parte científica.

Porque nós, como docentes de Ciências, devemos trabalhar um

pouco mais a parte científica, para que se possam esquecer

todos os mitos religiosos que às vezes estão prejudicando a

mesma comunidade.

 

68. Isabel: Eu tenho clara essa perspectiva. Vou trabalhar a

parte científica, mas considero que os estudantes têm sido

formados de acordo com sua religião, então não quero chegar a

chocar contra isso. Então vou respeitar bastante a concepção

que eles tenham sobre moral e ética. Isso está claro para mim.

 

69. PU: Bom! Muito obrigado. Somente um comentário em

relação a isso. Como a professora Isabel já comentou, não se

trata de pensar que o científico é o verdadeiro e que tem a

razão. Em uma QSC o científico tem um papel, o conhecimento

científico tem o papel de ajudar a compreender a situação que

se está estudando. Mas nesse raciocínio ético e moral o

conhecimento científico pode contribuir para estruturar um juízo

de valor. Agora o religioso, que tem sido um tema frequente em

nossos encontros. O religioso é algo importante na dimensão

humana. Ou seja, não estamos falando em termos de católicos

etc., mas do que significa a religião em termos dos valores que

o ser humano outorga a um conjunto de crenças que o ser

humano constrói, o propósito de sua existência, seja católico ou

evangélico, pois o tema das doutrinas é outra coisa. Então a

questão da religião deve considerar-se com cuidado.

 

Da mesma forma como analisamos os episódios 35, 36, 37, 38, 39,

40, 41 e 42, analisamos a totalidade dos registros de áudio

constituídos nos dois encontros estudados. A partir dessa análise

elaboramos a Tabela 5, na qual apresentamos as interações

dialógicas predominantes nos dois encontros conforme o número de

intervalos registrados nas gravações.

Tabela 5 – Interações dialógicas estabelecidas entre os PP e o PU

 

Tipo de Intervalos Intervalos de Total de

interação de turnos turnos GE intervalos 5

dialógica GE4

Interação 2-18; 19-26 – 2

dialógica de

autoridade

com tendência

à imposição.

 

Interação 27-33; 61- 80-94; 109- 9

dialógica de 70 119; 120-128;

autoridade. 144-154; 155-

163; 164-176;

177-187

 

Interação 1*; 121-144; 1-15; 16-26; 8

dialógica de 152-170 27-37; 95-108

autoridade 129-143

com tendência

à persuasão.

Interação 34-46; 47- 70-79; 188- 9

dialógica de 60; 71-77; 193; 194-210

persuasão. 78- 108;

109-120;

145-151

Interação – 38-51; 52-69 2

dialógica

polifônica.

 

Total 13 17 30

 

Fonte: Martínez (2010).

 

* Esse turno correspondeu à fala do PU, que foi analisada

independentemente das falas dos professores porque correspondia

à abertura da apresentação das propostas dos PP e ainda não se

referia direitamente às falas desenvolvidas pelos professores

durante os encontros estudados.

 

Dos trinta intervalos relacionados na Tabela 5, a maioria

corresponde a interações dialógicas de autoridade ou de persuasão.

Um número menor de intervalos corresponde a interações

dialógicas de autoridade com tendência à persuasão, e poucos

intervalos (dois) correspondem a interações dialógicas de

autoridade com tendência à imposição ou ao estabelecimento de

uma interação dialógica polifônica.

 

Os dados constituídos nos oferecem indícios de que as interações

dialógicas estabelecidas entre os PP e o PU tendem a processos de

persuasão ou de autoridade, o que é importante para compreender

as relações de poder desenvolvidas entre os professores de

Ciências em serviço, bem como as relações de poder estabelecidas

entre esses professores e o PU.

 

Apreciamos que os PP vão assumindo uma posição social de

avaliadores que lhes dá autoridade para questionar aspectos

teóricos e metodológicos de aspectos expostos por seus colegas.

No entanto, esse exercício de poder é com frequência descentrado

por outras posições assumidas pelos professores, na medida em

que eles vão assumindo o papel de professores pesquisadores em

formação. Isso pode explicar o lugar importante que ocupam as

interações dialógicas de persuasão durante as discussões

desenvolvidas entre os professores.

 

O fato de as interações dialógicas de imposição não terem

predominado nos encontros representa uma evidência importante

para caracterizar o contexto de produção discursiva, constituído

entre os PP e o PU, como um espaço favorável para a expressão e

discussão de diferentes pontos de vistas com respeito à abordagem

de QSC em sala de aula embasadas na pesquisa do professor. Um

espaço formativo com essas características contribui na construção

de processos democráticos na formação continuada de professores

de Ciências.

A constituição de espaços de formação continuada de professores

de Ciências focados no reconhecimento intersubjetivo dos

professores é mais favorável para o estabelecimento de interações

dialógicas persuasivas ou polifônicas que para o favorecimento de

interações dialógicas autoritárias. Por essa razão, o posicionamento

de um sujeito no lugar de outro (intersubjetividade) representa uma

das possibilidades mais interessantes para democratizar a formação

de professores diante da possibilidade do estabelecimento de um

poder impositivo.

 

Contudo, não podemos pensar que a construção de espaços

formativos voltados à participação ativa dos professores, bem como

ao seu reconhecimento intersubjetivo, representem em si a

conquista da democratização da formação continuada de

professores de Ciências, pois o estabelecimento de interações

dialógicas persuasivas e polifônicas envolve conflitos entre

diferentes interesses e posições sociais que podem desencadear

relações de poder assimétricas.

 

Os dados constituídos também apoiam a tese de que as relações de

poder em espaços educativos e sociais podem ser mais bem

compreendidas sob a perspectiva gramsciana adotada na ADC, na

medida em que a existência das várias interações dialógicas pode

ser explicada conforme os processos instáveis de dominação ou de

controle suscitados pelas interações dialógicas de autoridade.

 

As alterações identificadas nas interações dialógicas em termos de

imposição, persuasão ou polifonia representam evidências de que o

poder não é exercido de forma hegemônica ou absoluta, porque ele

está em permanente disputa, de acordo com o tipo de interações

dialógicas que sejam estabelecidas. Nesse sentido, o poder é

interpretado como um processo de luta hegemônica, porque sempre

é atingido parcialmente ou temporalmente, dado que são

configurados espaços permanentes de instabilidade que configuram

disputas e conflitos entre diferentes sujeitos.

 

Embora as interações dialógicas de persuasão possam representar

mecanismos mais sofisticados do exercício do poder por parte de um determinado sujeito ou grupo, também representam um

descentramento da autoridade desse sujeito ou grupo. Por isso, é

pertinente valorizar o papel desse tipo de interações dialógicas,

porque podem constituir um caminho interessante para o

desenvolvimento de processos de negociação na formação

continuada de professores de Ciências, sempre e quando sejam

apoiadas em uma reflexividade crítica, que abrange a análise

permanente das maneiras como os sujeitos vão se posicionando no

diálogo.

 

Investir maiores esforços na formação continuada de professores de

Ciências, que levem a construir interações dialógicas de persuasão,

é relevante para construir interações dialógicas polifônicas, mesmo

que estas sejam dificilmente alcançáveis, pois a sociedade em que

vivemos é dividida em grupos sociais, e, portanto, os contratos

sociais são feitos com diferentes vozes, que envolvem posições

diferentes, polêmicas e contraditórias (Oliveira, 2006).

 

A perspectiva bakhtiniana adotada na ADC abrange uma

compreensão do diálogo não apenas como promoção de consenso

ou busca de acordo, mas como um processo inerente à natureza

humana que envolve divergências e convergências, acordos e

desacordos, conciliações e lutas. Assim, vemos nas interações

dialógicas de persuasão uma grande potencialidade para a busca

do entendimento nos processos formativos dos professores que os

levem a refletir de melhor forma sobre suas práticas docentes.

 

O próprio Bakhtin (2000) reconheceu que a concordância entre

diferentes vozes representa um alto nível de compreensão, que

poderíamos caracterizar como um alto nível de compreensão

intersubjetiva. Assim, a ADC pressupõe que as pessoas sejam

socialmente constrangidas por relações assimétricas ou desiguais

de poder. Suas ações não estão totalmente determinadas, e elas

também têm suas próprias capacidades e posicionamentos, que não

podem ser reduzidos a relações de controle ou dominação. Dessa

forma, os professores podem exercer sua liberdade de dizer sua

própria palavra, bem como de ouvir e interagir com as palavras dos outros e, nesse processo intersubjetivo, construir práticas

inovadoras na ação.

 

A ação representa um elemento potencial para problematizar e até

superar relações assimétricas de poder, desde que seja apoiada em

uma reflexividade crítica que sugere que toda prática possui um

elemento discursivo, não apenas porque envolve o uso da

linguagem, mas também porque as construções discursivas são

parte dessas práticas (Resende e Ramalho, 2006).

 

A construção de um espaço formativo de produção discursiva, no

qual as interações dialógicas persuasivas ocuparam um lugar

importante nas discussões realizadas, teve relação com o foco das

discussões desenvolvidas com os PP, o qual correspondeu à

abordagem de QSC no ensino dos professores em serviço. Nesse

sentido, encerraremos as análises neste capítulo discutindo alguns

dados constituídos ao final dos encontros da disciplina Ensino de

Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC que evidenciam que

esse espaço formativo possibilitou construir novas compreensões

sobre a prática docente dos professores e a perspectiva CTSA. As

novas compreensões dos professores são construções dialógicas

que podem ser interpretadas a partir de outros elementos analíticos

propostos pela ADC. Nesse sentido, segundo Fairclough (2001a),

orientaremos nossas análises sobre os aspectos citados

anteriormente segundo dois elementos analíticos: modalidade e

polidez.

 

Modalidade e ethos

 

A modalidade representa o grau de afinidade ou de aceitação de

uma determinada proposição proposta por um interlocutor. A

modalidade, gramaticalmente, está associada com o uso de verbos

auxiliares modais (dever, poder etc.) e advérbios modais

(provavelmente, possivelmente, obviamente etc.). Esses elementos

de análise também estão relacionados com manifestações

linguísticas de afinidade, tais como “uma espécie de”, “um pouco”,

“uma coisa assim”.

A modalidade pode ser subjetiva ou objetiva. No primeiro caso, uma

determinada proposição pode ser explicitada por meio das

expressões “penso”, “suspeito”, “acho”, “duvido”, de tal forma que

fica claro o grau de afinidade do falante. No caso da modalidade

objetiva, pode não estar claro o ponto de vista que é representado,

de modo que o falante pode projetar sua fala como algo universal ou

agindo como um veículo para o ponto de vista de outro sujeito ou

grupo. Essa modalidade geralmente abrange o exercício de algum

tipo de poder.

 

A modalidade, além de representar um comprometimento de um

falante com suas proposições, pode também evidenciar

comprometimento desse falante com as proposições de outros

sujeitos concorrentes em um diálogo, o que está relacionado com

seu grau de afinidade com esses sujeitos.

 

Fairclough (ibidem) sugere que a modalidade objetiva pode estar

relacionada com processos de luta hegemônica, pois possibilita que

discursos particulares sejam universalizados na medida em que o

locutor se posiciona de determinadas formas.

 

A modalidade também pode ser relacionada com o ethos do sujeito,

o que, para a ADC, implica estudar os tipos de discursos

empregados para constituir a subjetividade dos participantes de uma

interação dialógica. Segundo Maingueneau (1997), o ethos tem sua

origem na época antiga com a palavra ethé, referida à forma como

os oradores se expressavam de tal maneira que a eficiência dessas

expressões dependia de seus enunciados, sem explicitar suas

funções.

 

Conforme Fairclough (2001a), o ethos é constituído

intertextualmente e, portanto, é construído socialmente nos

processos discursivos, de maneira que contribui à constituição da

subjetividade dos participantes de uma interação dialógica. Dessa

forma, o ethos tem a ver com a construção da autonomia dos

sujeitos.

Polidez

 

A polidez é um elemento de análise interessante para entender as

estratégias utilizadas pelos participantes de diálogos para mitigar

atos de fala que sejam potencialmente ameaçadores. Assim, as

concessões de polidez possuem um caráter político relevante que

abrange intenções individuais, bem como o sentido de sua

variabilidade em diferentes tipos de discurso contextualizados

culturalmente.

 

Brown e Levinson (apud Fairclough, 2001a) representam as

estratégias para a realização de atos ameaçadores da face que

caracterizam a polidez. Na Figura 2 apresentamos o esquema

ilustrado por eles. Fairclough utiliza o exemplo de um pneu furado

para explicar as estratégias gerais para realizar atos ameaçadores

da face, nos quais o pedido realizado por um sujeito pode ou não

representar uma ameaça, dependendo da estratégia utilizada.

 

Figura 2 – Atos ameaçadores da face realize o ato ameaçador da

face

 

Fonte: Fairclough (2001a, p.204).

 

Na estratégia 1, o pedido é realizado abertamente, sem a tentativa

de mitigá-lo e sem a ação reparadora “Ajude-me a trocar esse

pneu”, ou pode ser feito com polidez positiva valendo-se da

estratégia 2, que implica a ação reparadora “Dê uma ajuda para trocar esse pneu, amigo”. O pedido também pode ser realizado com

polidez negativa utilizando a estratégia 3, cujo caso é mitigado ou

reparado mostrando respeito ou afeto: “Desculpe incomodar, mas

poderia ajudar com o pneu?”. Por último, o pedido pode ser feito

implicitamente (estratégia 4), de modo que fique aberto para

interpretações alternativas: “Agora, como diabos vou trocar isso?”.

 

1 Correspondentes ao quarto e quinto encontro dos sete realizados

na disciplina Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de

QSC.

 

2 Para facilitar a identificação de algumas expressões que serão

salientadas nas análises, numeraremos de cinco em cinco as linhas

que conformam o conteúdo de alguns episódios.