Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
5 A perspectiva ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) e a formação de professores
5 – A perspectiva ciência, tecnologia,
sociedade e ambiente (CTSA) e a
formação de professores
Um considerável número de pesquisas sobre a perspectiva CTSA
no ensino de Ciências tem se focado na caracterização das visões
ou crenças dos professores de Ciências em serviço com respeito às
relações CTS(A) (Acevedo, 2000; Acevedo; Vázquez e Manassero,
2002; Acevedo et al., 2002a; Acevedo et al., 2005; Cachapuz et al.,
2005). Esses trabalhos têm diagnosticado nos professores em
exercício crenças descontextualizadas e aproblemáticas com
respeito à ciência e à tecnologia.
A crença descontextualizada considera o progresso científico e
tecnológico como um conjunto de conhecimentos elaborados
cumulativamente de forma desinteressada e neutra, desconhecendo
os valores e interesses adjacentes à atividade tecnocientífica, bem
como suas implicações no ambiente natural e sociocultural.
A falta de discussão sobre implicações sociais, culturais e
ambientais do empreendimento tecnocientífico pode fortalecer a
visão tradicional do ensino de Ciências, centrado na transmissão de
conhecimentos já elaborados, sem ao menos se referir aos
problemas e contextos sócio-históricos que marcaram sua origem,
perdendo, dessa forma, o sentido da ciência como uma atividade
humana que emergiu com o enfrentamento de determinados
problemas.
O desconhecimento da natureza social e histórica do trabalho
científico dificulta a compreensão da racionalidade adjacente à
construção do corpus teórico da ciência e da tecnologia, o que
favorece as crenças aproblemáticas que percebem a construção
dos conhecimentos de forma arbitrária e que desconhecem a história das ciências que mostra o caráter evolutivo e complexo da
construção de conhecimentos científicos.
A crença aproblemática e a crença a-histórica concebem o
progresso tecnocientífico como um determinado fim que deve ser
alcançado para melhorar as condições de vida das pessoas, sem
tomar em consideração as implicações socioambientais que
abrangem esse progresso.
Outra crença reportada pelas pesquisas consiste na apreciação do
progresso tecnocientífico como um esforço individual que é
construído por seres humanos especiais, dotados de determinadas
capacidades intelectuais e que desconhecem a natureza coletiva do
conhecimento científico, de forma a favorecer a elitização da
produção científica, pois essa atividade seria somente privilégio de
determinados indivíduos, excluindo as grandes camadas da
população.
A crença individualista da atividade tecnocientífica entrelaça-se à
visão algorítmica, que concebe a ciência como o resultado da
aplicação de um método científico que, segundo vários professores,
desempenha um papel destacado, pois contribui com a “exatidão e
objectividade” de resultados obtidos (Fernandéz et al., 2002).
Particularmente, as crenças dos professores sobre a tecnologia
também se articulam a uma visão algorítmica do progresso
científico, pois, em vários casos, concebe-se a tecnologia como
simples aplicação da ciência, bem como a construção de diferentes
instrumentos, máquinas e artefatos que fazem a vida mais fácil
(Acevedo et al., 2005).
A tecnologia tem sido um dos aspectos das interações CTS(A)
menos considerados pelos professores em seu ensino. Conforme
Maiztegui et al. (2002), a falta de atenção à tecnologia estaria
relacionada à clássica visão da tecnologia como ciência aplicada,
colocando-a em um lugar de inferioridade. Tal visão é questionada
com uma análise histórica da atividade técnica que tem precedido
em milênios a própria ciência e que, de forma alguma, pode ser considerada como simples aplicação de conhecimentos científicos.
Contudo, na contemporaneidade não é possível estabelecer uma
distinção clara entre ciência e tecnologia. Por essa razão, o mais
pertinente é investir esforços em analisar as interações ciência-
tecnologia.
Como salienta Bybee (1987), grande parte dos avanços da pesquisa
científica contemporânea está baseada na tecnologia. Assim, dar
importância à tecnologia na educação do professor é importante
para compreender o próprio progresso científico, devido ao fato de o
professor incorporar estratégias de desenho tecnológico para a
realização de atividades experimentais essenciais para a
corroboração ou refutação de hipóteses.
As crenças descritas pelas pesquisas sobre ciência e tecnologia
estariam relacionadas à compreensão linear das interações CTS(A),
na medida em que mais pesquisas científicas favoreceriam mais
tecnologias, que, por sua vez, gerariam mais crescimento
econômico e mais “bem-estar social”. A compreensão linear das
interações CTS(A), segundo López, González e Luján (2002),
impede um entendimento democrático do progresso tecnocientífico
e fortalece a racionalidade tecnocrática dos sistemas de gestão da
ciência na sociedade moderna.
Para Cachapuz et al. (2005), essas crenças sobre a ciência e a
tecnologia constituem grandes obstáculos para a abordagem de
uma perspectiva CTSA, que demanda uma maior atenção da
educação em ciências sobre os graves problemas de degradação
do entorno natural e da sociedade que colocam em perigo a vida do
planeta. A perspectiva CTSA implica uma indispensável
contextualização da atividade científica discutindo suas
repercussões socioambientais.
Precisamente, Solbes, Vilches e Gil (2001) consideram que
professores de Ciências, em sua prática, ignoram as propostas
curriculares que incorporam as relações CTSA por considerá-las um
desvio dos conteúdos científicos para atender aspectos políticos e
ideológicos não compreendidos no marco objetivo da “ciência”. Sob essa visão se tem fortalecido uma educação em ciências orientada
à preparação de futuros cientistas, desconhecendo-se seu papel na
educação de todos os cidadãos.
Concordamos com Acevedo (2000) que não podemos censurar os
professores por não entenderem o caráter provisório e evolutivo do
conhecimento científico, pois, de fato, não existe um consenso
sobre o significado da natureza da ciência. Nossas compreensões
são provisórias e suscetíveis de permanente mudança. Aliás, a
reticência apresentada pelos professores diante da proposta
curricular de CTSA não se deve exclusivamente às crenças desses
profissionais. Na realidade, existem outros fatores relacionados com
a profissão docente e com a construção das reformas que precisam
ser considerados.
Por exemplo, ainda não foi possível abandonar a racionalidade
tecnocrática que tem orientado a elaboração de currículos e
materiais educativos, que na maior parte dos casos são realizados
sem a participação efetiva dos professores, reduzindo-os a simples
aplicadores das propostas elaboradas pelos especialistas. Nesse
sentido, Carr e Kemmis (1988) alertam sobre o problema da falta de
autonomia da profissão docente, que esvazia no decorrer do tempo
o próprio sentido do ensino que caracteriza o trabalho docente.
A forma mais comum na educação continuada dos professores para
introduzir novas propostas curriculares tem sido a realização de
cursos de curta duração, orientados ao aperfeiçoamento docente, os
quais são pouco produtivos, dado que os professores, depois de
participar desses cursos, consideram estar mais bem preparados
para enfrentar os problemas de sua prática. No entanto, quando
retornam para suas escolas, rapidamente voltam a ensinar da
mesma forma como o faziam antes de iniciar o curso e
experimentam uma sensação de frustração, pois as novas ideias
aprendidas nos cursos parecem não servir para enfrentar os
problemas reais do ensino (Briscoe, 1991). Apesar dos esforços e
da boa intenção dos cursos de curta duração, estes resultam
insuficientes para favorecer novas abordagens de ensino na escola. Um grande desafio da perspectiva CTSA na formação dos
professores parece estar na análise da relação entre crenças e
práticas dos professores com respeito à natureza da ciência e da
tecnologia. Guess-Newsome e Lederman (1995) se interessaram
por essa questão e identificaram as intenções dos professores, o
conhecimento do conteúdo específico, as necessidades dos
estudantes, a autonomia dos professores e o tempo como aspectos
relevantes para o estudo de crenças e práticas dos professores. O
estudo desses aspectos é importante para uma perspectiva CTSA
preocupada em articular teoria e prática na educação do professor.
Para enfrentar o desafio de abordar a perspectiva CTSA nas
práticas dos professores de Ciências, propomos um quadro teórico
crítico para a formação de professores de Ciências em serviço
embasado nas contribuições de Adorno (1996), Giroux (1997;
2003a; 2003b), Apple (1999b), Contreras (2002) e King (2008).
Em primeiro lugar, ofereceremos uma discussão teórica sobre o
conceito de formação de professores de acordo com a teoria da
semicultura de Adorno (1996), e posteriormente discutiremos a ideia
de professor como um intelectual crítico e transformador, bem como
a questão da autonomia docente como um elemento relevante para
o fortalecimento pessoal e social dos professores de Ciências.