Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
Parte IV – A pesquisa qualitativa crítica como abordagem metodológica
Parte IV – A pesquisa qualitativa
crítica como abordagem
metodológica
11 – A pesquisa qualitativa crítica
Com o objetivo de realizar uma análise de discurso crítica (ADC)
sobre a abordagem de questões sociocientíficas (QSC) por parte de
um grupo de professores de Ciências em serviço, caracterizando as
contribuições e dificuldades dessa abordagem para a formação
continuada de professores de Ciências, estruturamos uma
metodologia qualitativa.
Na pesquisa qualitativa, concebemos a realidade estudada como
uma construção social e subjetiva, reconhecendo que nossas ações
nesse processo estão carregadas de intenções e valores que
influenciam nosso trabalho de campo, a coleta dos dados e as
próprias análises, e isso constitui uma marca fundamental que
diferencia a abordagem qualitativa da abordagem quantitativa, que
enfatiza a mediação de fatos e o estabelecimento de relações
causais de variáveis, justificando uma “aparente imparcialidade” que
garante a obtenção de um resultado “verdadeiro”. Assim, as
pesquisas quantitativas correm o risco de não considerar interesses
e valores que influenciam seus trabalhos, prestando maior atenção
às condições iniciais e finais dos fenômenos estudados do que aos
próprios processos envolvidos na pesquisa.
Segundo Denzin e Lincoln (2006, p.17), “a pesquisa qualitativa é
uma atividade situada que localiza o observador no mundo” por
meio de um conjunto de práticas materiais interpretativas mediante
as quais buscamos a compreensão do mundo social. Assim, essas
práticas vão se materializando e representando a situação estudada
por meio de diversos registros qualitativos constituídos a partir de entrevistas, observações, notas de campo e gravações. A pesquisa
qualitativa envolve uma abordagem naturalística, interpretativa do
mundo, o que significa que os pesquisadores abordam os
problemas em termos dos significados que as pessoas a eles
conferem.
A adjetivação da pesquisa como qualitativa implica uma ênfase
sobre as qualidades das entidades estudadas e sobre os processos
e os significados que não podem ser examinados simplesmente em
termos de quantidade, volume ou frequência, pois esses processos
são construções sociais que abrangem necessariamente uma íntima
relação entre o pesquisador e as práticas sociais estudadas.
A principal razão para a escolha da perspectiva qualitativa
corresponde ao nosso compromisso epistemológico com uma
concepção crítica da pesquisa educacional, partindo do pressuposto
de que a realidade não pode ser entendida como uma construção
independente do sujeito cognoscitivo, pois essa realidade é uma
construção social subjetiva e intersubjetiva, marcada por um
contexto histórico e influenciada por valores políticos, culturais e
econômicos.
O objetivo central de uma pesquisa qualitativa de corte crítico
transcende a explicação, a predição, o controle ou a verificação de
hipóteses, aspectos característicos da pesquisa quantitativa.
Diferentemente, a perspectiva qualitativa busca a compreensão das
situações educacionais em determinados contextos sócio-históricos,
e visa favorecer mudanças orientadas à emancipação dos sujeitos
envolvidos.
De acordo com Lincoln e Guba (2006, p.178), “os teóricos críticos”
sempre têm defendido “os graus variados da ação social”,
desvelando a existência de práticas injustas e propondo a
transformação profunda de sociedades inteiras. Para aprofundar as
justificativas oferecidas com respeito à importância de uma
abordagem qualitativa de corte crítico, resgatamos os trabalhos de
Carr e Kemmis (1988) e de Carr (1996) relacionados à pesquisa
educacional crítica. Coerente com uma teoria social crítica, esses autores questionaram a instrumentalização do conhecimento
científico, propagada pelo positivismo, por meio da racionalidade
técnica, diante da qual a crítica reivindica a importância de pensar
os conhecimentos em relação a valores, interesses e ideologias.
Tratar de pesquisa educacional não se reduz a falar do objeto de
estudo nem aos métodos ou técnicas utilizadas, mas também das
ações e da compreensão das ações dos sujeitos envolvidos no
processo educacional.
Falar de pesquisa educacional não é falar de nenhum tema
concreto, nem de procedimentos metodológicos, mas implica
explicitar a finalidade distintiva em virtude do que empreende
esse tipo de pesquisa e a quem explicitamente se propõe servir
[...]. Se bem que a pesquisa educacional compartilha com
outras formas de pesquisa um determinado interesse em
pesquisar e resolver problemas e que diverge delas no sentido
de que os problemas educacionais [...] sempre serão problemas
práticos, ou seja, que, em relação às pesquisas teóricas, os
problemas não ficam resolvidos com a produção de um novo
saber, mas sim com a adoção de uma determinada orientação
para a ação. (Carr; Kemmis, 1988, p.121, tradução nossa)
Tendo como base esses autores, reiteramos que a pesquisa
educacional foca a atenção na análise sobre os problemas atrelados
à práxis, o que constitui uma marca de sua identidade, pois outras
áreas de pesquisa, tais como a Psicologia, a Sociologia e a
Filosofia, podem estudar os fenômenos da educação sem
necessariamente constituir pesquisas educacionais. Podem até
construir teorias pedagógicas marginalizadas da ação-reflexão.
Dessa forma, conforme Carr e Kemmis (ibidem, p.122), a pesquisa
educacional não pode ser “exclusivamente teórica”. Assim, o que
oferece coerência e identidade a essa pesquisa é a capacidade de
resolver problemas de práticas pedagógicas, e não somente a
construção de sofisticadas teorias educacionais. A tentativa de
reduzir a pesquisa a um conjunto de problemas teóricos reduz a
própria natureza da educação.
Da mesma forma, consideramos que, para o caso da pesquisa em
ensino de Ciências, o caráter prático de sua natureza educacional
constitui um elemento fundamental, pois esta não pode ser reduzida
às disciplinas das Ciências Sociais (Filosofia da Ciência e Sociologia
da Ciência) ou às disciplinas das Ciências Naturais (Química,
Biologia e Física), dado que essas disciplinas não estão
necessariamente orientadas a questões práticas, pois estão
estritamente condicionadas a estruturas teóricas que orientam seu
desenvolvimento. Por exemplo, problemas da evolução e da
construção de conceitos científicos são abordados pela Filosofia das
Ciências sem necessariamente se importar com os aprendizes ou
professores de Ciências. De acordo com essa ideia, acreditamos
que os problemas do ensino de Ciências derivam de práticas de
ensino nas quais os diferentes atores sociais participantes já estão
comprometidos com determinados sistemas de crenças que, a
despeito de não estarem explícitos, constituem um marco de
referência importante para a compreensão e orientação de
determinadas práticas.
O pesquisador em ensino de Ciências encontra um microcosmo
social cheio de interpretações, intenções, crenças e discursos dos
participantes do processo educacional, de tal forma que sua
pesquisa não pode ignorar os valores e os significados dos sujeitos
participantes dos processos pedagógicos.
Embora tenhamos defendido o caráter prático da educação como
um elemento inerente à sua natureza, isso não significa que não
reconheçamos o papel da fundamentação teórica no que diz
respeito à pesquisa. De fato, a perspectiva crítica da educação
constitui um ponto de partida teórico. No entanto, defendemos que a
existência de problemas educativos deve abranger tensões entre
significados, sistemas de crenças e até teorias necessariamente
articuladas à práxis dos sujeitos ativos nos processos pedagógicos.
Assim, posicionamo-nos a favor do resgate da relação dialética
entre a teoria e a prática como um elemento fundamental da
pesquisa educacional crítica.
Os problemas educacionais surgem particularmente da discrepância
entre presunções teóricas e sua correspondência na prática. Os
trabalhos mais destacados de Carr e Kemmis (ibidem) e Carr (1996;
1997) abrangem uma nova visão do problema clássico da relação
teoria e prática, reconstruindo o significado da prática desde a
perspectiva aristotélica de raciocínio prático até a construção de um
conhecimento mais aprimorado de acordo com um raciocínio crítico.
Carr (1996) considera que a questão sobre a educação e a prática
educacional tem sido trabalhada há algum tempo, encontrando uma
representativa quantidade de trabalhos, mas pouco se tem
avançado em resolver as dificuldades abrangidas na compreensão
das práticas dos professores. A questão poderia ser abordada
limitando-se a considerar que o problema é dos professores, que
não têm se esforçado na compreensão da teoria e na sua
articulação com a prática. No entanto, concordamos que a
dificuldade não está somente nos professores, mas na forma como
historicamente tem-se trabalhado a relação teoria-prática.
Na década de 1960, observamos uma tendência de acadêmicos
preocupados em construir a educação com determinado status de
disciplina, favorecendo a emergência da Filosofia, da Psicologia e
da Sociologia da Educação. No entanto, os questionamentos
surgiram rapidamente, pois as grandes análises feitas a partir
dessas disciplinas careciam de uma identidade com respeito à
questão propriamente educacional, além de permanecerem
afastadas das situações concretas e dos problemas enfrentados
pelos professores em suas aulas. As primeiras críticas realizadas a
essa tendência não foram elaboradas no interior das denominadas
Ciências da Educação, mas foram realizadas por visões analíticas
da educação embasadas em uma visão “científica”, que defendiam
a tese de que a teoria da educação tinha um fim prático e, portanto,
era importante orientar a teorização educacional de acordo com as
descobertas empíricas; visão que reduzia a relação teoria-prática à
predição e à explicação causal.
A crença de que a teoria da educação deve adaptar-se aos
critérios convencionais da academia, desconsiderando que a
tarefa teórica não se legitima pelo simples fato de adotar os
métodos, descobertas ou critérios do fazer teórico, mas sim
pela capacidade de explorar um conjunto concreto de
problemas de forma sistemática e rigorosa. (ibidem, p.54,
tradução nossa)
A relação entre teoria e prática, entendida como elemento estrutural
da pesquisa educacional crítica, abrange a dialética no
desenvolvimento de práticas conscientes que só podem ser
compreendidas no contexto dos pensamentos que outorgam sentido
aos fazeres dos professores ou praticantes. Nesse sentido, qualquer
sujeito dedicado às tarefas educacionais possui alguma perspectiva
“teórica” ou intencionalidade usada para avaliar, até certo ponto, os
objetivos alcançados.
As brechas existentes entre a teoria e a prática são a fonte dos
problemas educacionais, e a análise dessas lacunas implica
compreensão dos significados produzidos pelos professores ao
desenvolverem suas práticas. Assim, o papel da teoria da educação
consiste em reduzir a distância entre a teoria e a prática, e não em
elaborar teorias que depois serão aplicadas eficazmente.
A teoria da educação não é uma “teoria aplicada” embasada em
teorias da Filosofia, das Ciências Sociais ou de qualquer outra
forma de conhecimento, mas refere-se à tarefa de avaliar
criticamente a adequação dos conceitos, crenças, suposições
básicas e valores que fazem parte das teorias mais destacadas
da prática educacional [...] qualquer teoria da educação que
leve a sério o objetivo de sua atividade deve compartilhar com
os profissionais os elementos intelectuais que lhes permitam
enfrentar suas atividades com maior seriedade. Uma
característica básica da teoria da educação, entendida dessa
forma, consiste na emancipação dos profissionais para superar
a dependência de práticas e costumes tradicionais. (ibidem,
p.58-9, tradução nossa)
Paulo Freire (1921-1997), em sua pedagogia problematizadora,
proposta na década de 1960, apresenta a natureza dialógica da
educação articulada à práxis e à leitura do mundo por meio da
palavra construída dialeticamente na ação-reflexão.
Freire (2002) considera que pesquisar exige reflexão crítica sobre a
prática, na medida em que, ao aproximar nossas compreensões
teóricas à prática, podemos nos tornar melhores, passando de uma
condição ingênua do cotidiano a uma condição epistemológica da
ação. Pensando criticamente a prática de hoje, poderemos melhorar
a prática do futuro.
O próprio discurso teórico indispensável à prática deve ser
suficientemente concreto para que se “confunda” com a prática,
segundo Freire, é precisamente essa ação-reflexão crítica que
podemos denominar como práxis ou como o pensar “certo”.
O pensar certo sabe, por exemplo, que não é a partir dele como
um dado dado, que se conforma a prática docente crítica, mas
sabe também que sem ele não se funda aquela. A prática
docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o
movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o
fazer. O saber que a prática docente espontânea ou quase
espontânea, “desarmada”, indiscutivelmente produz é um saber
ingênuo, um saber de experiência feito, a que falta rigorosidade
metódica que caracteriza a curiosidade epistemológica do
sujeito. (ibidem, p.42-3)
A partir das considerações expostas até agora com respeito à
caracterização da pesquisa educacional crítica, podemos nos
perguntar: qual é a validade de nossa pesquisa se ela não se
legitima simplesmente com as teorias das disciplinas acadêmicas?
A validade da pesquisa qualitativa crítica é justificada de acordo com
critérios diferentes dos utilizados pela pesquisa de corte positivista.
Essa validade faz sentido a partir de uma leitura problematizadora
dos seguintes critérios, considerados tradicionalmente na validação da pesquisa: objetividade/subjetividade; explicação causal/
compreensão; e visão anacrônica/visão diacrônica.
Tendo como base o trabalho de Gamboa (1997), discutiremos
sucintamente cada um desses aspectos, no intuito de esclarecer os
critérios utilizados na validação da nossa pesquisa.
A questão de causalidade é explícita no experimento, na
sistematização, no controle de dados e nas análises estatísticas de
pesquisas de corte quantitativo ou de corte empírico-analítico, 1 de
tal forma que a validade está determinada pelos testes de
instrumentos e significância estatística. De forma diferente, a
pesquisa qualitativa crítica valida suas análises de acordo com a
lógica interna dos processos intersubjetivos, no intuito de explicitar a
dinâmica e as tensões internas dos fenômenos estudados valendo-
se de reflexões voltadas à ação dos sujeitos envolvidos na
pesquisa. Dito de outra maneira, a pesquisa qualitativa crítica
propõe a relação teoria-prática como elemento estrutural da razão
transformadora que movimenta seus resultados. Por outro lado, o
positivismo se nega a aceitar a existência de outra realidade fora
dos “dados empíricos” ou dos “elementos de rede causal”.
Fenômenos ou objetos de pesquisa educacional, tais como as
palavras, as ações, os símbolos, os sinais, os textos e os discursos,
precisam ser compreendidos, desvelando-se seus significados e
sentidos. Assim, a compreensão supõe indagação, esclarecimento
dos pressupostos, das modalidades e dos princípios da
interpretação.
O pressuposto gnosiológico da pesquisa qualitativa crítica se
fundamenta na síntese da relação sujeito-objeto no processo de
conhecer. O processo é dinâmico e passa pela compreensão das
características subjetivas, formando uma síntese validada na
mesma ação do conhecer, quando o conhecido é confrontado com
seu ponto de partida por meio da prática.
Abordagens quantitativas e positivistas da pesquisa prestam pouca
atenção à história e à historicidade da educação como processo criativo e sempre em permanente transformação. Nesse sentido,
apresentam um caráter anacrônico da pesquisa. Ao contrário, a
pesquisa crítica possui uma preocupação diacrônica, na qual a
história é um eixo de explicação e compreensão, concebendo os
fenômenos estudados em um contexto mais amplo. Assim, a
realidade é dinâmica, e o mundo está em construção e inserido em
seu movimento e em sua história.
A preocupação histórica também tem uma dimensão ontológica que
é fundamental para a pesquisa crítica, pois, como diria Freire (2007,
p.83), os homens são “seres inacabados, inconclusos, em e com
uma realidade que, sendo histórica, também é igualmente
inacabada”. Assim, as pessoas são fazedoras de seus próprios
projetos, nos quais elas se realizam e lutam por ser cada vez mais
humanas.
Ao sermos, homens e mulheres, sujeitos inacabados,
reconhecemos uma preocupação existencial que nos faz refletir
sobre nós e sobre o mundo em que vivemos. Essa preocupação é o
que nos leva a pensar no processo de humanização, e ao pensar
nele inserido na história evidenciamos a desumanização como uma
realidade, mas não como um destino, pois é possível conquistar
nossa liberdade como condição de nossa natureza inconclusa que
nos leva a ser mais.
A pesquisa educacional crítica tem o compromisso ético de que os
sujeitos envolvidos sejam cada vez mais, na medida em que
interagem em um processo dialógico, criativo e transformador por
meio do qual validam seus resultados.
Segundo a pesquisa qualitativa crítica, em seguida é apresentado
um percurso metodológico de nossa pesquisa, que foi desenvolvida
com professores de Ciências em exercício, isto é feito para facilitar a
compreensão dos aspectos tratados na quinta parte deste livro.
Nossa pesquisa foi realizada com um grupo de 31 professores
colombianos que realizavam uma disciplina que propusemos em um
curso de Mestrado em Docência da Química, para estudar os pressupostos teóricos e metodológicos do ensino de Ciências com
enfoque CTSA e suas possibilidades para melhorar as práticas de
ensino.
No total, a disciplina teve três encontros presenciais de quatro horas
e quatro encontros presenciais de oito horas, somando 44 horas de
trabalho presencial gravado na íntegra, em áudio, para efeito das
análises. Além desses encontros, foi organizado um grupo virtual 2
no qual os professores tinham a possibilidade de interagir
permanentemente. Esse espaço permaneceu aberto após o término
do último encontro, servindo para postar os trabalhos finais dos
professores e para eventuais discussões. No Quadro 4
apresentamos os encontros realizados no desenvolvimento da
disciplina, especificando as atividades realizadas.
Quadro 4 – Atividades realizadas durante os sete encontros da
disciplina Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC
Encontros Atividades realizadas Duração
1. - Apresentação dos participantes Oito
(14/2/09) e diálogo sobre suas horas
experiências docentes.
- Trabalho em grupo sobre
questões do próprio ensino dos
professores e reflexão a respeito
de relações CTSA.
2. (6/3/09) - Discussão sobre a natureza do Quatro
ensino de Ciências com enfoque horas
CTSA.
3. (7/3/09) - Discussão sobre a perspectiva Oito
CTSA e as QSC. horas
- O desafio de abordar uma QSC
em sala de aula.
4. - Apresentação de propostas Quatro
(27/3/09) (projetos de ensino) dos horas
professores para a abordagem
de uma QSC em sala de aula.
5. - Continuação das Oito
(28/3/09) apresentações das propostas horas
(projetos de ensino) dos
professores para a abordagem
de uma QSC em sala de aula.
- Discussão sobre uma QSC e
sua abordagem no ensino de
Ciências (o caso dos
biocombustíveis).
6. Quatro- Trabalho em grupo a respeito
(24/4/09) horas do andamento dos projetos de
ensino dos professores de
acordo com a QSC escolhida.
7. - Socialização e discussão do Oito
(25/4/09) trabalho em grupo realizado e horas
fechamento do trabalho Total: 44
presencial. horas
Fonte: Martínez (2010).
Com as orientações oferecidas aos professores, realizamos uma
reflexão sobre a importância da pesquisa educacional no processo
de formação continuada vivenciado no Curso de Mestrado em
Docência da Química, de tal forma que a pesquisa tivesse um lugar
especial nos planos de ensino. A todo momento a pretensão foi
defender a ideia de que a formação continuada de professores
abrange indispensavelmente a constituição do professor como um
pesquisador de sua prática, o que contribui para seu
desenvolvimento pessoal e profissional. Segundo Freire (2002,
p.32), "não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino". A
pesquisa é uma atividade inerente à profissão docente e que
abrange a curiosidade epistemológica do professor no processo
permanente de indagação e busca de novos conhecimentos.
Pesquisar também exige reflexão crítica sobre a prática, e, na
medida em que aproximamos nossas compreensões teóricas à
prática, tornamo-nos melhores, passando de uma condição ingênua
do cotidiano escolar a uma condição ativa da ação epistemológica.
Em termos de Freire (ibidem, p.43), podemos dizer que o momento
fundamental da formação permanente dos professores está
constituído pela "reflexão crítica sobre a prática".
A reflexão crítica sobre o ensino também pressupõe a disposição
para aprender junto ao colega. O professor, como pesquisador, não
se constrói sozinho, mas em interação com os outros. Portanto, os
professores foram convidados a enriquecer seus trabalhos com as
contribuições dos colegas que haviam compartilhado o trabalho em
grupo realizado durante os encontros.
Para fortalecer a interação entre os professores, contava-se com o
grupo virtual, no qual foram postadas as propostas dos professores
e todos os materiais usados e produzidos durante a disciplina.
Ao final da disciplina, foi realizada uma entrevista focal
semiestruturada (Apêndice 2) orientada aos mesmos grupos de
professores organizados no primeiro encontro. A entrevista teve o
objetivo de caracterizar as contribuições e dificuldades enfrentadas
na abordagem de QSC por parte dos professores de Ciências em
serviço de acordo com os seguintes aspectos: a) reflexão e
transformação da prática docente; e b) compreensões sobre a
autonomia docente e a perspectiva CTSA.
A entrevista, como um instrumento usado com frequência na
pesquisa qualitativa, possibilita a constituição de dados para a
compreensão de perspectivas ou pontos de vista de sujeitos sobre
determinadas situações. O primeiro pressuposto da entrevista é que
o “mundo social não é um dado natural, sem problemas, ele é
ativamente construído por pessoas sob condições que elas não
necessariamente construíram” (Bauer; Gaskell, 2002, p.65).
Preferimos a realização de uma entrevista focal visando explorar o
espectro de opiniões e percepções do grupo de professores depois
de terem participado dos encontros da disciplina.
A entrevista em grupo ou focal apresenta algumas vantagens em
relação à entrevista individual, por exemplo, no sentido de que cria
um espaço de interação entre indivíduos que pode gerar
espontaneidade e criatividade. Quando as pessoas estão em grupo,
podem ser mais propensas a explorar novas ideias e suas
correspondentes implicações, além de ser pertinente quando se tem
um significativo número de pessoas que dificilmente serão
entrevistadas de forma individual.
A conveniência em se realizar uma entrevista em grupo ou focal é
justificada de acordo com três características essenciais apontadas
por Bauer e Gaskell (ibidem, p.76): i) “sinergia emergida da
interação social que faz do grupo mais que a mera soma de suas partes”; ii) “possibilidade de observar o processo do grupo, em
termos de sua dinâmica de mudança de opiniões e liderança de
opinião”; e iii) “maior envolvimento emocional que raramente é
observado em entrevistas individuais”.
Para oferecer uma visualização mais clara da forma como foram
registradas as informações durante a realização da disciplina,
apresentamos no Quadro 5 os instrumentos usados, expondo seus
objetivos específicos e o momento no qual foram aplicados. Dessa
forma, constituímos vários instrumentos para a coleta dos dados,
como é recomendado na realização de uma pesquisa qualitativa
educacional (Cardona, 2002).
Quadro 5 – Instrumentos aplicados durante o desenvolvimento da
disciplina Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC
Instrumento Objetivos Momento de
específicos da aplicação
aplicação do
instrumento
Questionário Realizar uma Grupo virtual
inicial caracterização inicial depois do
dos professores primeiro
participantes da encontro.
disciplina a partir de
informações obtidas
deles sobre os
seguintes aspectos:
a) dados gerais dos
professores;
b) percurso
profissional dos
professores;
c) percurso no
mestrado em
Docência da
Química;
d) experiências ou
contato com a
perspectiva CTSA.
Gravações em Caracterização das Durante o
áudio dos sete contribuições e desenvolvimento
encontros (44 dificuldades dos sete
horas) apresentadas nos encontros da
discursos dos disciplina.
professores com
respeito à
abordagem de QSC
no ensino.
Entrevista Caracterização das Último encontro.
focal (gravada contribuições e
em áudio) dificuldades
Trabalho final apresentadas nos Grupo virtual (1o
sobre o discursos dos - 12/6/09).
projeto de professores com
ensino respeito à
desenvolvido abordagem de QSC
com respeito à no ensino.
abordagem
das QSC
Fonte: Martínez (2010).
* Cabe esclarecer que no total foram registrados cinco professores
com cursos de especialização, dado que uma professora tinha
realizado duas especializações: uma em Educação a Distância e
outra em Educação Ambiental.
Para a caracterização dos participantes da pesquisa foi aplicado um
questionário (Apêndice 3) a 31 professores inscritos na disciplina
Ensino de Ciências com Enfoque CTSA a Partir de QSC com o
objetivo de obter algumas informações sobre sua formação inicial,
sua atuação profissional e seu contato com a perspectiva CTSA.
Esse questionário considerou os seguintes aspectos: i) dados gerais
dos professores: idade, gênero, título de graduação, estudos de
pós-graduação e outros cursos relevantes no desenvolvimento
profissional; ii) percurso profissional: anos de experiência
profissional e cargos exercidos durante a vida profissional; iii) cargo
atual: instituição onde trabalha, nível educativo, modalidade,
disciplina, tempo de serviço nessa instituição e número de alunos;
iv) informações sobre o processo vivenciado no mestrado em
Docência da Química: disciplinas cursadas, estudo de aspectos da
perspectiva CTSA durante o mestrado e relação do projeto de
pesquisa com algum aspecto dessa perspectiva; e v) experiências
ou contato com a perspectiva CTSA: aproximações com a educação CTSA na formação inicial, na formação continuada e no exercício
profissional.
Quando foi perguntado aos professores sobre o cargo
desempenhado em seus anos de serviço, eles escolheram várias
opções. Como podemos observar na Tabela 2, a maior parte reporta
ter desempenhado a função de professor de Biologia ou Química no
ensino fundamental, e outra parte significativa tem desempenhado o
cargo de professor de Química no ensino médio ou na educação de
jovens e adultos (EJA). A minoria tem atuado como professor de
Química ou Biologia em ensino superior ou como professor de
Ciências Naturais no ensino fundamental.
Tabela 2 – Cargos desempenhados pelos professores participantes
da disciplina
Cargos desempenhados pelos Número de
professores professores*
Professor de Ciências Naturais, ensino 7
fundamental, da 3a à 5a série
Professor de Biologia, ensino 25
fundamental, da 6a à 8a série
Professor de Química, ensino 22
fundamental, da 2a à 3a série
Professor de Física, ensino 2
fundamental, da 6a à 8a série
Professor de Química, ensino médio, 18
da 2a à 3a série
Professor de Física, ensino médio, da 1
2a à 3a série
Professor de Ciências Naturais, EJA 9
Professor de Química, EJA 10
Professor de Biologia, EJA 5
Professor de Química, ensino superior 8
Professor de Biologia, ensino superior 3
* Cabe esclarecer que em vários casos os professores escolheram
mais de uma opção.
Podemos evidenciar que o grupo de participantes da disciplina
apresenta características interessantes com respeito tanto aos
cargos desempenhados nos diferentes níveis de ensino quanto à
variada experiência docente, oferecendo-nos importantes
possibilidades para o estudo da abordagem de QSC na formação
continuada de professores de Ciências.
1 Referimo-nos às ciências empírico-analíticas adotando essa
expressão de Habermas (2006, p.131) para caracterizar a concepção positivista presente nas ciências que mantém uma
conexão com o pensamento filosófico antigo “de descrever
teoricamente o universo na sua ordem conforme as leis, tal como é”.
Nessas ciências, o sistema de referência que avalia com
antecipação as possíveis proposições científico-experimentais
estabelece regras para a construção de teorias e para sua
correspondente comprovação. Assim, segundo a lógica hipotético-
dedutiva, sob determinadas condições é possível prognosticar fatos
que logicamente não fujam do sistema de regras estabelecido
inicialmente, evidenciando dessa forma que as ciências
experimentais desvelam a realidade segundo o interesse técnico
dos processos objetivados.
2 http://espanol.groups.yahoo.com/group/ensinoquimicaCTSA/