Questões sociocientíficas na prática docente: ideologia, autonomia e formação de professores
3 Ensino de Ciências com enfoque ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) a partir de questões sociocientíficas (QSC)
3 – Ensino de Ciências com enfoque
ciência, tecnologia, sociedade e
ambiente (CTSA) a partir de questões
sociocientíficas (QSC)
A ideologia cientificista constitui um desafio para o ensino de
Ciências com enfoque CTSA, que tem por objetivo a emancipação
dos sujeitos ao fazer com que eles problematizem a ciência e
participem de seu questionamento público, engajando-se na
construção de novas formas de vida e de relacionamento coletivo.
No processo de cientificidade atribuído pelo positivismo à ciência,
ela se torna um instrumento de legitimação do capitalismo tardio e
fortalece os processos de despolitização da opinião pública e os
mecanismos de controle e dominação do sistema. A eficácia desse
processo é garantida pela racionalidade técnica, que aumenta os
alcances da ciência e da técnica enquanto ideologia e enquanto
uma poderosa força produtiva, de tal maneira que a percepção
pública sobre o progresso científico e tecnológico, em muitos casos,
é linear, considerando esse progresso diretamente relacionado com
maior progresso social.
Nesse contexto, é relevante o resgate da natureza crítica do
movimento CTS(A),1 considerando que, em muitos contextos, a
perspectiva CTS(A) tem-se reduzido somente a um slogan, o que
evidencia a falta de reflexão sobre seus próprios fundamentos.
Vários pesquisadores estão preocupados, de diferentes formas, em
resgatar o caráter crítico do movimento CTS(A) (Auler; Bazzo, 2001;
Auler; Delizoicov, 2001; Santos; Mortimer, 2002; Santos, 2008; Mion;
Alves; Carvalho, 2009).
Auler e Bazzo (2001) salientam a importância de realizar uma
contextualização do movimento CTS à realidade brasileira e à
realidade latino-americana, pois esse movimento, embora desde
sua origem tenha envolvido uma crítica profunda sobre o
desenvolvimento científico e tecnológico, resultava da necessidade
de realizar uma análise desse desenvolvimento no contexto
brasileiro para pensar sobre suas possibilidades diante do
predomínio de uma racionalidade tecnocrática e autoritária, a qual
tinha sido discutida no trabalho de Gonzáles, López e Luján (1996).
Auler e Delizoicov (2001) propõem uma percepção ampliada para a
perspectiva CTS associada a um processo problematizador e
dialógico diante da concepção reducionista do progresso científico e
tecnológico, relacionado com o determinismo tecnológico e com a
concepção tecnocrática e salvacionista da ciência.
Santos e Mortimer (2002) também consideram que a
supervalorização da ciência moderna reforçou o mito da
neutralidade do progresso tecnocientífico, além de fortalecer suas
concepções cientificistas e salvacionistas. Diante dessas
concepções, os autores salientam as contribuições críticas do
movimento CTS, mostrando, entre outras coisas, a importância de
se trabalhar envolvendo temas científicos ou tecnológicos
problemáticos, evidenciando as potencialidades desse trabalho na
educação cidadã dos estudantes de ensino médio.
Santos (2008) salientou que, embora o movimento CTS criticasse
fortemente o modelo desenvolvimentista, em muitos contextos, foi
reduzido a uma abordagem instrumental, sendo necessária uma
abordagem radical que reivindicasse a dimensão política do
movimento com o objetivo de transformar a concepção excludente
da ciência e da tecnologia, de modo que seu progresso se voltasse
à justiça e à igualdade social. Assim, o autor propõe uma
abordagem humanística para o ensino de Ciências, em
conformidade com a educação libertadora de Paulo Freire, pois o
caráter político da educação freiriana permite desvelar a ideologia
dominante imposta pelos sistemas tecnológicos.
Sob uma perspectiva educacional crítica, Mion, Alves e Carvalho
(2009, p.51) também consideram que o “futuro das condições
socioambientais está intrinsecamente relacionado à educação
científica e tecnológica da população”. No entanto, perguntam-se se
a natureza desse tipo de educação pode servir para a acomodação
do estabelecido ou, ao contrário, pode suscitar uma permanente
transformação. Nesse sentido, reivindicam o papel crítico da
educação apoiados na leitura freiriana das relações homem-mundo,
segundo a qual o diálogo é vital para a transformação permanente
da realidade.
Assim como os autores citados, concordamos com a necessidade
de aprofundar os pressupostos freirianos, dado que eles expõem
uma concepção educacional que contribui na fundamentação crítica
do ensino de Ciências com enfoque CTSA.
Desde 1967, quando Paulo Freire escreveu a obra Educação como
prática da liberdade, encontramos uma preocupação permanente
com a construção de uma educação dialógica, em contraposição a
uma educação centrada na transmissão de conteúdos. Apesar de a
pedagogia freiriana ser criada, em um primeiro momento, para a
alfabetização de adultos, ela alcança e envolve uma riqueza
educacional para os diferentes níveis de ensino.
Freire (2003) propõe o diálogo como uma forma pela qual os
homens superem suas concepções ingênuas da realidade, bem
como há uma relação horizontal de pelo menos dois sujeitos que
buscam o estabelecimento de um processo comunicativo, no qual
os implicados “se fazem críticos na busca de algo” (ibidem, p.115),
concretizando uma relação de simpatia entre ambos.
O diálogo opõe-se ao antidiálogo. Este implica uma relação vertical
entre sujeitos que quebra a simpatia entre os interlocutores. Para
Freire (2007), o diálogo é entendido como um fenômeno humano
que implica a capacidade de pronunciar o mundo por meio da
palavra, a qual é muito mais que o simples meio para viabilizar o
diálogo, pois ela se realiza no processo de ação-reflexão, de tal forma que toda palavra autêntica envolve uma práxis e, portanto,
uma ação transformadora do mundo.
Quem entende a palavra na ação-reflexão se envolve na
transformação do mundo. Quem centra sua atenção unilateralmente
na ação cai em ativismo, e, da mesma forma, quem só reflete cai no
verbalismo ou palavrearia. Em qualquer um dos dois casos, a
existência humana se limita à promoção da alienação, em termos de
silenciar a palavra e o pensamento. Portanto, existir humanamente é
pronunciar o mundo e transformá-lo utilizando a palavra conforme a
ação-reflexão.
Nos postulados de Freire (ibidem), dizer a palavra não é privilégio
de alguns, mas sim direito de todos os homens. Desse modo,
ninguém pode dizer a palavra sozinho ou falar para outros que
digam sua palavra em um ato de prescrição. “O diálogo é este
encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo,
não se esgotando, portanto, na relação de eu-tu” (ibidem, p.91).
O diálogo não é a mera troca de ideias ou um ato de depositar
ideias de um sujeito a outro. Ele é condição indispensável na
existência humana na medida em que os homens pronunciam o
mundo e, ao transformá-lo, transformam-se entre si.
Assim como Santos e Mortimer (2009), enfatizamos a abordagem
de QSC em termos da ressignificação social do ensino de Ciências
de acordo com uma perspectiva crítica e dialógica, no intuito de
favorecer a construção de condições pedagógicas e didáticas para
que os cidadãos construam conhecimentos e capacidades que lhes
permitam participar responsavelmente nas controvérsias científicas
e tecnológicas do mundo contemporâneo.
Segundo Pedretti (2003), a abordagem de QSC abriu um caminho
concreto para alcançar os desafios do ensino de Ciências com
enfoque CTSA, pois a ciência e a tecnologia passaram a ser
compreendidas como atividades humanas inseridas em múltiplas
controvérsias e incertezas, exigindo dos cidadãos um
posicionamento crítico de seus impactos e alcances.
As QSC apresentam para o ensino de Ciências importantes
possibilidades para trabalhar aspectos políticos, ideológicos,
culturais e éticos da Ciência contemporânea. Assim, aspectos como
natureza da ciência e da tecnologia, tomada de decisão, raciocínio
ético-moral, reconstrução sociocrítica e ação adjacentes às
interações CTSA poderiam ser trabalhados pelos professores de
Ciências em suas aulas por meio da estruturação e do
desenvolvimento de questões controversas.
Um considerável número dos trabalhos que hoje são publicados
sobre QSC salienta a importância da formação para a cidadania
como o objetivo central do ensino de Ciências (Ratcliffe; Grace,
2003; Abd-El-Khalick, 2003; Simmons; Zeidler, 2003; Reis, 2004).
No entanto, tal objetivo já fazia parte da literatura da área de ensino
de Ciências a partir de 1971, quando Jim Gallagher, o editor da
revista Science Education, afirmou que para a formação de futuros
cidadãos, em uma sociedade democrática, era tão importante
compreender as relações entre CTS como entender os conceitos e
processos da ciência (Aikenhead, 2005a). De tal modo que as QSC
e a perspectiva CTSA têm em comum o objetivo de focar o ensino
de Ciências na formação para a cidadania dos estudantes no ensino
básico e superior, bem como nos processos de formação cidadã
mais amplos abrangidos na sociedade.
As QSC incluem discussões, controvérsias ou temas diretamente
relacionados aos conhecimentos científicos e/ou tecnológicos que
possuem um grande impacto na sociedade. Segundo Abd-El-Khalick
(2003), essas questões são marcadamente diferentes dos
exercícios ou “problemas” que aparecem ao final dos capítulos de
livros didáticos usados em sala de aula. Tais exercícios, geralmente,
são focados em avaliar conhecimentos disciplinares e algorítmicos
que, na maioria dos casos, possuem respostas corretas ou
incorretas. Diferentemente desse tipo de exercícios, os problemas
sociocientíficos dificilmente são definidos e abrangem aspectos
multidisciplinares que, na maior parte das vezes, estão carregados
de valores (éticos, estéticos, ecológicos, morais, educacionais, culturais e religiosos) e são afetados pela insuficiência de
conhecimentos.
Segundo Ratcliffe e Grace (2003), as QSC abrangem a formação de
opiniões e a escolha de juízos pessoais e sociais, implicam valores
e aspectos éticos e relacionam-se com problemas sociais de ordem
local, nacional e global.
Dessa forma, encontram-se QSC na maior parte das discussões
que se desenvolvem na sociedade atual e que são divulgadas,
principalmente pela mídia, destacando as seguintes questões:
energias alternativas, aquecimento global, poluição, transgênicos,
armas nucleares e biológicas, produtos de beleza, clonagem,
experimentação em animais, desenvolvimento de vacinas e
medicamentos, uso de produtos químicos, efeitos adversos da
utilização da telecomunicação, manipulação do genoma de seres
vivos, manipulação de células-tronco, fertilização in vitro, entre
outras.
As controvérsias envolvidas nas discussões públicas sobre QSC
exigem a formação de cidadãos dotados de conhecimentos e
capacidades para avaliar responsavelmente problemas científicos e
tecnológicos na sociedade atual. Assim, o futuro do conhecimento
científico e tecnológico não pode ser responsabilidade apenas dos
cientistas, dos governos, de especialistas ou de qualquer outro ator
social, sendo necessária a constituição de uma cidadania ativa
(Reis, 2004). Cidadania que não se ensina, mas se conquista, em
um processo que o sujeito vai construindo na medida em que luta
por seus direitos e reivindica valores e princípios éticos (Santos;
Schnetzer, 2003).
O ensino de Ciências com enfoque CTSA voltado à abordagem de
QSC pode potencializar a participação dos estudantes nas aulas de
Ciências, favorecendo o ensino democrático em busca da
constituição da cidadania dos estudantes.
O exercício da cidadania somente se desenvolverá plenamente em
uma sociedade legitimamente democrática, que deve fornecer à maioria dos cidadãos sua participação efetiva no poder. Embora a
participação real ainda seja um ideal que não se tem conseguido
plenamente até agora, é necessária a continuação do
desenvolvimento de processos de formação que contribuam para o
enriquecimento dos sujeitos na constituição de sua cidadania.
Para a conquista da sociedade democrática é necessário que os
cidadãos possuam conhecimentos básicos sobre o funcionamento
da ciência (estruturas conceituais e metodológicas), além de
estruturar critérios de julgamento moral e ético para avaliação
pública das controvérsias científicas e tecnológicas que se
apresentam na sociedade atual. É a partir desse julgamento que os
estudantes poderão fazer escolhas de acordo com seus interesses,
direitos e deveres.
A perspectiva política do ensino salientada por Freire e a
abordagem de QSC exigem o comprometimento dos professores de
Ciências com a mudança de uma sociedade desigual, na qual a
ciência e a tecnologia também se entrelaçam às relações de
exclusão e dominação. Assim, o papel do professor é fundamental
para orientar discussões com seus alunos sobre questões
sociocientíficas para que eles se posicionem criticamente diante
dessas questões, agindo racionalmente.
A sociedade atual exige que os professores sejam formadores, e
não meros transmissores de informações. Isso envolve
responsabilidade no ensino, dado que este deve favorecer a
transformação dos alunos em homens e mulheres mais críticos,
que, ao se tornarem agentes de mudanças, podem possibilitar a
construção de um mundo melhor (Chassot, 2006).
1 Escrevemos entre parênteses a dimensão ambiental (A) para
deixar claro que não são todos os trabalhos citados que utilizam a
denominação ambiental, dado que somente usam a expressão CTS,
embora incorporem entre suas discussões aspectos ambientais.